sexta-feira, 15 de maio de 2015

Concedam-me uma valsa vienense

 
View of Vienna from the Belvedere, de Bernardo Bellotto (1721-1780)
 
Acordo com a sensação de que ouço “parabéns prá você”, mas é só uma sensação e então eu canto baixinho. Claro que há um motivo. Sempre há um motivo. Maria conseguiu me alcançar na viagem de Praga a Viena. Eu precisava compartilhar com ela a paisagem coberta de neve, mas cumpriríamos o nosso pacto de curtir o passeio e deixar as questões profundas para outras ocasiões. Ela estaria ali, tão alegre e satisfeita como eu, colhendo materiais que compartilharíamos depois em outras ocasiões ou quando fossem necessários evocá-los à consciência.

Do metrô ao hotel dava para perceber que em Viena a primavera ainda não se instalara. A paisagem cinzenta, árvores sem folhas, contrastavam com a exuberância e luxo de suas construções. Viena é uma cidade linda! Facilmente se percebe que é rica também culturalmente, a ponto de ouvir meninos/adolescentes sentados em banco de praça e assobiando um clássico nada popular.

Chego ao hotel louca para tomar banho e trocar de roupa. Tinha derramado leite na roupa, durante o café da manhã em Praga e estava com cheiro azedo. Um banho rápido e revigorante. Estava pronta para sair. Tento contato em casa, mas não consigo conexão com o Wi-Fi do hotel, só mesmo na rua. Vários locais oferecem a conexão free. Neva um pouco e logo para. Então seguimos para conhecer Viena. Passamos por praças, pela Universidade, Igreja de São Pedro e encerramos esse dia no Palácio de Belvedere.

Uma escultura muito estranha, moderna. Fotografei-a por todos os ângulos , honestamente, não consegui entender o que ela pretendia dizer, o que fazia ali,  que justificativa poderia ter em colocar uma coisa tão feia na frente do palácio barroco mais bonito do mundo. Enfim, procuraria saber alguma coisa a respeito na internet. Não achei!! No Palácio de Belvedere está o maior acervo de obras de Klimt.  Podia estar lá também a escultura de Canova – Eros e Psiquê – que também ilustra histórias de Maria, ainda quando ela se sentia fortemente ligada aos deuses do Olimpo e se misturava ao arquétipo de Deméter. Essa obra está no Louvre.

À noite assisto, ao vivo, pela tevê, um concerto em homenagem a Vivaldi na Catedral de Santo Estevão. Na segunda feira, se não se incomodar de ficar em pé, o concerto é gratuito. Para assistir sentado é pago. Um lugar mediano custa 30 euros. E pela manhã, ao descer do metrô os músicos da orquestra fazem outro tipo de espetáculo. Estão todos vestidos como cavalheiros medievais e vendendo ingressos. São simpáticos e insistentes. Tentam comunicação de todas as formas, em inglês, francês e espanhol. Fui abordada em francês... e meu irmão em espanhol. Porque será? Acho que ele já estava usando um gorro peruano.  Mas não posso deixar de constatar que a vida de músico é difícil em todo o mundo. Reservei um post só para falar como a música me atingiu nesses dias europeus.
Rudolf Von alt

A Catedral de Santo Estevão é belíssima, em estilo gótico, mas tem um telhado colorido, geométrico, diferente. Eleito por mim como o mais bonito que vi. Viena me encantou em vários sentidos, mas o povo me pareceu carrancudo e apressado.  Era domingo em Viena,  e no dia seguinte, não sei dizer se era feriado ou se não trabalham na segunda-feira, mas o comércio estava todo fechado. Difícil entender a pressa, o estresse. Como disse anteriormente, para vivermos um pouco o dia a dia da cidade, andávamos de metrô, e ali não estávamos entre turistas, mas com os moradores da cidade. Difícil voltar lá, mas registro que gostaria muito de passar uns dias como fizemos em Paris. Acho que o fato de ter conhecido Viena antes de Paris tirou boa parte do impacto e da expectativa parisiense. Tem seus encantos, seu charme, mas Viena é forte concorrente. Falarei sobre isto no post de Paris.

Uma visita rápida na casinha de Sissi, como diz a Adélia, completa o encantamento.
O Palácio de Schönbrunn, da dinastia dos Habsburg, cujos ramos chegaram até o Brasil com a família imperial. Essa dinastia imperou por mais de 600 anos em grande parte dos países Europeus. Para saber a história vai aqui: http://www.viagensimagens.com/cast_schonbrunn.htm . 
         
Sissi, de Franz Xaver Winterhalter 
Em Bratislava, principalmente, pude ver que Sissi, a Princesa de Wittelsbach, depois coroada Rainha da Hungria, ocupa um lugar carinhoso e de admiração até hoje. O tempo era curto e antecipadamente foi combinado que entraríamos apenas no Palácio de Versailles. Passamos a manhã toda, com neve caindo de vez em quando, só na parte externa do Palácio e assim mesmo não vimos tudo. As esculturas no jardim eram vistas, não podiam nem ser admiradas em seus detalhes. Meus olhos estavam cheios da beleza, da leveza das esculturas em mármores. Sabe o que é dar forma e leveza a um material tão duro? Esse espetáculo visual era bem semelhante ao que encontraríamos em Versailles. O Dedé tinha razão: teríamos que escolher, porque viu um, viu todos, já que detalhes e diferenças dificilmente seriam percebidos em pouco tempo.  Só o valente Marcelo subiu  a colina para filmar o Monumento Gloriette, local que parecia o pavilhão de caça. Optamos em ver o filme. Atravessar os jardins (ainda não floridos, mas já desenhados e plantados) já seria um exercício bem grande e ainda teríamos que fazer o Ringstrasse. Uma visita ao centro histórico, teatro nacional, Museums Quartier (complexo de museus, cafés, lojas e restaurantes, espalhados por uma praça onde acontecem shows e outros eventos, é um dos grandes representantes da Viena moderna).

Viena também estava vista, com uma ressalva: seria uma cidade para ser revisitada. Vou rever todos os filmes da história da Áustria. Fomos em Graz e eu adorei a cidade também. Viena em estilo cidade de interior. Mas essa é outra história.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Praga: fui, não vi e gostei

Vitrais na Catedral de San Vito, de Alphonse Marie Mucha

Sexta-feira Santa. Chego cansada em Praga, com o pé esfolado de calo, mas cheia de expectativa. Todos com quem conversei antes da viagem elegiam Praga como a número 1. Cidade lotada de turistas que mal se podia andar. Até para tirar fotografia a gente não conseguia espaço. Para variar a campeã de turistas continuava sendo o Japão (ou Coréia, vai saber...) seguida pelo Brasil. Encontrar gente do país da gente já é uma farra, do mesmo Estado já é coincidência, mas o que dizer quando se encontra turista da mesma cidade e ainda amigo? Pois bem, em Praga, isso aconteceu.
Sou apaixonada em cristais e nesse aspecto Praga superou minhas expectativas. Um espetáculo inesquecível para os olhos. Desde as peças em miniaturas, extremamente mimosas e delicadas, às peças imensas e requintadas que exigiriam, no mínimo, um palácio para colocá-las. Os preços, se comparados ao Brasil, muito baratos, mas ainda assim caros. Afinal, são cristais da Bohemia. Há de se convir que transportar essas peças para quem não vai comercializá-las é comprar dor de cabeça e preocupação. Então é melhor esquecer a posse e se fixar na admiração. Impregnar os olhos com a beleza, o brilho e o tilintar dos cristais.
Rudolf von Alt "Brückenturm auf der Kleinseite in Prag-1843
Achei que só eu estava cansada, mas a turma chegou ao hotel e apagou. Durante o dia tínhamos visto na feirinha uma barraca (lotada por sinal) assando um pernil e o cheiro ficou guardado, aguçando o apetite. Saímos meu irmão e eu para comer e ao chegarmos à pracinha – já perfeitamente limpa – a barraca ainda estava lá. E caímos com vontade nesse presunto suculento. Para nossa decepção, só suculento e gostoso na primeira mordida. Num instante está gelado e a porção é tão grande que comê-la toda é uma batalha entre a gula e a sensatez. Não pude deixar de lembrar de minha avó, que quando se via diante de um prato grande, ao terminá-lo, suspirava e dizia: “Venci!”. Foi assim conosco!  Aprendemos a lição de que em terra fria não se come ao ar livre. Enquanto comíamos, fiquei vigiando as horas. De onde estávamos dava para ver um relógio lateral. Detalhe: o relógio estava cinco minutos atrasado em relação ao Relógio Astronômico. Não deu para ver. Bom, ainda teríamos dois dias em Praga e de hora em hora o relógio dava seu show. Veria outra hora, outro dia. Nem preciso voltar ao assunto porque não vi o relógio funcionando dia nenhum.
A visita ao Castelo de Praga me fez vivenciar alguma coisa que já escrevi por aqui, algo como o importante é a jornada e não o destino. A travessia na Ponte foi tumultuada, as ondas de gente lhe carregavam e o que era esperado aconteceu: o grupo acabou se perdendo, ou melhor, se dividindo em dois. Eu era a “ímpar” e desta vez fiquei com a Adélia e o Marcelo. Essa nossa ‘miguinha’, por sinal, recebeu o título de Miss Simpatia. Alegre, espontânea e disposta coloria nossos passeios com seu entusiasmo.  Emocionei-me em uma capela que entramos. Não sei como o Marcelo a descobriu. Do lado de fora era apenas uma portinha. Sentei, rezei, chorei, agradeci. Uma subida longa até o Castelo nos esperava. Além dos calos (agora incomodando pouco por causa do band aid), a questão do joelho e do tornozelo, cujas dores me acompanham desde o tratamento do câncer, era preocupante. Subimos rindo, conversando, fotografando, parando, perguntando preços, que nem percebemos quando chegamos lá em cima.
Bom, estava combinado que se perdêssemos no mar de gente nos encontraríamos todos lá. É, mas isso parece que não ficou bem explicado. Marcelo saiu para procurar os outros dois e desapareceu. Quando os outros dois apareceram, já tinham entrado no castelo e na Catedral de San Vito. Pelo celular ficamos sabendo que o Marcelo estava em uma torre de metal filmando e que se encontraria conosco no hotel. Só então Adélia e eu entramos no castelo e já nos sentindo desanimadas. Desânimo maior ainda quando vimos a fila para entrar na Catedral. E eu queria muito entrar e ver os vitrais de Alphonse Marie Mucha. Esse artista tcheco tem ilustrado muitas das minhas histórias, em especial, com suas Quatro Estações. Adélia compartilha comigo o desânimo. Fazemos algumas fotos ali fora mesmo. Apreciamos a arquitetura externa e demos a Catedral como vista. Estamos pensando mesmo é no chocolate quente no pé do morro.
Mais tarde resolvo sair sozinha e comprar petiscos para a viagem de trem no dia seguinte. Entro no supermercado pego umas barras de chocolate e umas caixas de batata frita, pago, e quando estou saindo, a coisa apita de novo. O rapaz do caixa me olha e faz sinal para eu andar, sair. Ufa! Nem de bolsa eu estava. Dessa vez não me senti nem um pouco constrangida, apesar de que na hora achei estranho o raio ter caído duas vezes no mesmo lugar. Volto para o hotel ouvindo uma moça americana (a julgar pelo sotaque) que canta na rua Wave.
A cidade das cem cúpulas estava vista.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Berlim: Esqueci Maria em Amsterdam...

Unter den Linden in Berlin, Anna Bilinska-Bohdanowicz (1857-1893)


A viagem de Amsterdam para Berlim não teve grandes surpresas. O cenário bucólico dos pequenos lugarejos enchiam os olhos, mas já não chamava tanta atenção,  e eu me sentia mais entrosada com o grupo. Já estava desmatutizada. A Alemanha foi a minha maior surpresa em toda viagem. Primeiro, por ter sido palco e protagonista de duas grandes guerras e pelas impressões que o nazismo deixou marcado na história, acho que esperava encontrar um povo hostil, mal-humorado, truculento. Enganei-me redondamente. Um povo alegre, gentil, atencioso. Uma cidade moderna. Segundo, estava frio em Berlim, embora já fosse primavera, e nevou. Pouca neve, mas suficiente para matar minha curiosidade de como é a neve. Um floquinho de gelo, ou melhor, uma espuminha congelada. Não precisaria mais ir a lugar nenhum para conhecer a neve. Na minha idade -  aliás, nem quando era nova -  esquiar ou praticar qualquer esporte de inverno não está incluído em minha caixa de desejos. A neve, portanto, estava vista.
Os passeios em Berlim foram históricos. Hospedamos bem pertinho da Alexander Platz e fomos recepcionados na gare por dois artistas que tocavam e dançavam. Não sei dizer de onde eram. Eu até diria que eram meio ciganos, meio hyppies, mas que transmitiam alegria. Começava a mudar minha impressão dos alemães. Não é só porque tinha dois artistas na praça, mas porque tinha gente da cidade apreciando os dois, dando moedinhas. Acho que os que filmavam e fotografavam eram turistas. E embora em todo lugar a gente ouvisse alguém falando em português, ali, a maioria falava alemão mesmo.
De todo jeito procuramos viver um pouco da cidade.  O Café da Manhã no
 Hotel era 18 euros. Então saímos e nos fartamos no Back Factory.  Minha boca ainda enche de água quando me lembro do sabor dos pães, croissants, donnuts, pretzels.   Aliás, amei os pães da Europa. Tomei chocolate quente.  Andamos a pé e também pegamos metrô. Comprávamos o ticket, validávamos, e ninguém nas roletas para conferir. É, mas se um fiscal pedir para ver o ticket e você não tiver, a multa, dizem, é bem cara. Então, no metrô, a preocupação era não perder o ticket até que chegássemos ao destino.  Fizemos compras e tivemos que andar todo o passeio carregando as sacolas, mas valeu a pena. Impossível passar diante das lojas e ver coisas incrivelmente baratas, mesmo em euro, e não se sentir atraída. Pelo menos em alguns aspectos não posso esquecer que sou mulher e no mundo feminino, vitrine está incluída.
Não vou descrever os lugares todos em que passamos. Foram os tradicionais: Reichstag, Potsdamersplatz, Brandenburg Tor, Unter den Linden, Gendarmenmarket, Memorial do Holocausto, Topography of terror, Berliner Mauer, Zeughaus, Berliner Dom, Checkpoint Charlie. Vou destacar dois: O Memorial do Holocausto e o Museu Topografia do Terror. Experiência pesada, dolorida que me fez chorar várias vezes. Sou sensível à história judaica, mas ali, vendo os alemães enfrentando suas feridas, eu não tinha preferência. Via os dois lados, o sofrimento e a falta de opção dos alemães e minha conclusão foi só uma. Alemães não são nazistas, assim como o muro de Berlim nada teve a ver com a guerra. Eles  se redimiram diante dos meus olhos. Por outro lado, convenhamos, a geração que aí está, não tem nada a ver e nem culpa do aconteceu. É história e ponto final.
Ainda nevou duas vezes nesse dia. Numa corrida para nos esconder da neve, em uma galeria, encontramos umas jovens fazendo o mesmo e falando em português.  Como sempre, sou conversadeira, logo perguntei às meninas de onde eram. Era o Brasil representado ali: do Sul (Curitiba e uma cidade de Santa Catarina que me esqueci o nome agora) , de Mato Grosso do Sul (Dourados), do Rio e de Fortaleza. Participavam do programa Ciência Sem Fronteiras na Espanha, estavam em férias e aproveitavam para conhecer outros países da Europa. Esse é o Brasil que eu vivo. Um país que abre portas e dá oportunidades. Não tinha isso quando eu era jovem e queria estudar na Sorbonne e tem gente que diz que o Brasil vai de mal a pior. Mas esse é outro papo.
Também foi em Berlim que passei por enorme constrangimento. Aguardávamos Adélia e Marcelo que compravam alguma coisa em um supermercado e entramos. Estava frio lá fora. Ao sair o alarme tocou. Eu estava com a sacola das compras que havíamos feito mais cedo e imaginei que alguma coisa dentro dela ainda estava com etiqueta. Quando o segurança pediu para ver, eu me senti muito mal, era algo que nunca tinha acontecido comigo e eu não sabia que essas máquinas apitavam errado. Sem falar alemão e inglês só pedi socorro com o olhar para minha cunhada que tirou pacientemente as coisas da sacola e mostrou para ele. Só depois de chorar muito no hotel tive condições de processar o ocorrido. O pobre do segurança tinha sido extremamente gentil, muito cauteloso em explicar que precisava ver, que não podia colocar a mão dentro de minha sacola. Enfim, doeu, mas passou. O mais incrível é que não tinha etiqueta nenhuma nas compras.  Era eu que apitava. Chegando no Hotel a Cleuza cortou todas as etiquetas de minhas roupas novas. Mas na volta, no aeroporto Charlles De Gaulle eu apitei de novo, só então descobrimos que o meu cartão de crédito, guardado na pochete dentro da calça é que disparava o alarme. Mas meu irmão e minha cunhada passavam com o deles sem apitar. Vai entender. Quando tirei a pochete, parei de apitar. E aí a pochete apitou na mão da fiscal.
E onde esteve Maria esse tempo todo que não veio me socorrer? Não veio me ajudar a processar o que estava acontecendo comigo? Meu Deus! Só então é que me dou conta que deixei Maria em Amsterdam...



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um olhar diferente sobre a Holanda

View of Arles with irises in the Foreground, de Vincent Van Gogh
A viagem de trem, as belas paisagens, o período de silêncio, serviram para me preparar para a chegada em Amsterdam, mas não para o vento gelado. No mesmo dia saímos para Keukenhof, fomos ver as plantações de tulipas. Um verdadeiro espetáculo para olhos que me fez esquecer as primeiras impressões. Vermelhas, amarelas, azuis, roxas, grandes, enormes, pequenas, miúdas. Fotografei até ficar sem bateria e perdi de registrar um dos salões mais interessantes em homenagem a Van Gogh. A sorte que meu irmão registrou tudo. Entramos no pavilhão sem perceber, vi as cópias gigantescas de obras do artista até que me deparei com a reprodução do quarto de Van Gogh. Sabe a tela do quarto dele? Pois bem eu estava ali, diante do próprio quarto. Fiquei quase eufórica e voltei para ver tudo de novo, agora com o olhar direcionado, mas já com o celular descarregado. Sunflowers, Irises, Irises in vase, View of Arles with irises, e tantas outras. Sensível e singular homenagem com criatividade de apresentação. Keukenhof me presenteava com o seu melhor espetáculo de cores e beleza. E mais, lá tinha o moinho que eu tanto queria ver. Claro, montado para prazer dos turistas, mas me satisfazia, e tinha também enormes tamancos. A loja de souvenirs oferecia uma quantidade enorme de miniaturas e tamancos para uso pela bagatela de 40 euros. Não comprei nenhum, lógico! Mas a Holanda se completava para mim com os moinhos, os tamancos, as tulipas e Van Gogh.
The New Town Hall in Amsterdam, de Jan van der Heyden
Ao voltarmos para Amsterdam fizemos um passeio a pé pela cidade. Tinha expectativas a respeito da cidade, achei-a acolhedora e de uma população diversificada. Não estava mais esperando ver moinhos ou pessoas de tamanco, talvez no interior do País, e, mesmo sabendo que ali, em frente ao hotel onde nos hospedamos, estava o maior bicicletário do mundo, me surpreendi com a quantidade de idosos usando a bicicleta como meio de transporte. Saí do Brasil com a cabeça de legalmente idosa e na Europa eu percebi que ainda era jovem. Não sei se são velhos pela idade ou se aparentam ser mais velhos, talvez pelo clima, mas de qualquer forma em toda a viagem esses idosos que vi me ajudaram. Senti uma força descomunal para superar a mim mesma fisicamente. Não era possível que eu, jovem ainda em relação aos idosos europeus, entregasse os pontos. Em todos os lugares também vi cadeirantes. A começar pelas calçadas, é possível trafegar nas cidades por onde passei (mesmo as menores como Lourdes, Graz, e Never) em uma cadeira de rodas. A sensação que tive é que na Europa tem muito cadeirante. Sensação certamente equivocada, acho que lá o deficiente físico sai de casa. Enfim, alguma coisa que é deles lá - e que a simples observação não consegue ir além da superfície – tira de dentro de casa o idoso e deficiente físico. Algumas vezes senti pena de ver velhinhos alquebrados pelo tempo, com a cabeça caída, carregando suas compras de supermercado. Não sei se isso é bom e/ou ruim.
Capricio sunlit towh view in amsterdam, de Joahannes Franciscus Spohler
Não é preciso conhecer bem a história da cidade para perceber que o rio e os canais desempenharam papel importante no desenvolvimento da cidade. Sentia-me desafiada a encontrar essas imagens, mostradas pelo olhar diferenciado dos artistas. As construções muito lindas e, se olhadas no geral, muito parecidas. Era preciso descer aos detalhes. Nenhuma janela igual a outra. Como as pessoas que também caminhavam. Passamos na rua da Luz Vermelha e os companheiros masculinos se sentiram constrangidos e fisgados pelos olhares tristes das prostitutas nas vitrines. Engraçado que nenhum fez comentário algum, somente depois, no hotel trocando as impressões, os dois constataram ter percebido a mesma coisa. As meninas se silenciaram a respeito do assunto. Particularmente prestei atenção em outras coisas e não cheguei a cruzar o olhar com nenhuma delas. Talvez porque elas também não me olharam nos olhos. Em nossas andanças fomos ao local na Universidade onde meu sobrinho lecionou por seis meses, passamos pelo Museu do Nemo e voltamos para o Hotel. Amsterdam não me convidou a grandes reflexões. Acho que começava a me entregar mais a viagem e a sair um pouco dos meus sentimentos. Parodiando Marcelo: Amsterdam estava vista

terça-feira, 5 de maio de 2015

Um brinde aos olhos do viajante

Jacob van Ruisdael (1628-1692) Paisagem com Moinhos de Vento Perto de Haarlem 

A manhã foi tomada na viagem de trem de Bruxelas a Amsterdã. Viajo calada (isso não é normal, rsrsrs), olhos inquietos e filmo tudo que vejo. A paisagem rural é, em tudo, diferente da nossa. Boa parte da vegetação ainda exibe a aridez provocada pelo inverno. Caules que se levantam formando imagens que se alteram segundo o estado de espírito. Ora belas, ora tristes, ora medonhas. Enquanto isso a imaginação cria histórias sobre elas que serão esquecidas na próxima curva do trem. Muito vai se perder e, de fato, se perdeu ainda nos trilhos. Mas também não dava para ficar anotando tudo que passava pela cabeça, então a decisão foi deixar a alma filmar, sentir, fotografar, viver. Apenas o que ficasse retido na memória faria parte do arquivo.
Os lugarejos por onde passávamos evocavam outras histórias, lembranças, cenas de filmes, telas, romances. Tudo parecia, paradoxalmente, familiar e diferente, afinal passáramos parte de nossas vidas tendo a fantasia como ferramenta de trabalho e, naquele instante, o que me vem à mente é o mito quixotesco que permeou minha literatura. Lutei sim com enormes e cruéis gigantes que, ao final, se transformaram em moinhos de vento. Claro! Ao entrar em terras holandesas não esperava encontrar mulheres de roupas típicas usando tamancos – isso seria muito complicado enxergar da janela do trem – mas, os moinhos de vento, ah! Isso sim, sem dúvida veria muitos naquele cenário rural.  Apostei minhas fichas no impossível. Vi sim moinhos se transformarem em gigantes. Imensos moinhos modernos produtores de energia eólica. Mais uma vez a luta contra moinhos de vento se transformou no paradigma da inutilidade e é Maria que vem – de novo – a meu socorro. Ela entendia o significado profundo da literatura. Ficção e realidade se entrelaçavam e uma alicerçava a outra, pavimentavam as pontes, de forma que a inutilidade da imaginação não importava. Naquele momento Maria não apenas realizava, por meu intermédio, uma de suas inúmeras viagens imaginárias e fantásticas, também pincelava de realidade o que um dia não passou de alucinação. O tempo não pára (já disse que não consigo escrever sem assento?) e tem um momento que somos obrigados a assumir nossa fantasia.

Então volto a pensar no tempo, enquanto passo o tempo observando novas paisagens. Maria muda comigo, se transforma a cada experiência e ainda não se pode saber que rumo tomaremos. Estamos envelhecendo, o que vivenciamos tem agora outro sentido e não sei se conseguirei traduzir tudo em palavras. A mesma inutilidade da luta contra moinhos de vento alimenta as palavras. Nunca é fácil sentar e escrever sem qualquer objetivo. Trazer os pensamentos do nada para o vazio da palavra e sentir a pressão do tempo. Entre o ideal e a realidade fica o sentimento de vazio. O que queremos, Maria e eu, é saber se você nos acompanha nesta viagem. Se aceita a vir conosco e a não falar, a não escrever, a não sentir, a não ter o que trocar a não ser o silêncio e a beleza dessa paisagem fria e bucólica.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Début em Bruxelas

Jacques Carabain (1834) Many Figures at an Auction on the Grande Place in Brussels - Oil On Canvas
Maria me observa atentamente enquanto me visto para o primeiro passeio oficial. Estou confusa ainda: fuso horário, a dor pela perda recente de meu pai, a alegria da concretização de sonho acalentado e abandonado nas curvas da vida... e o medo.
- Medo? Como assim? Porquê? De quê?,  indaga Maria.
- Simples. Medo do desconhecido. Medo de que as informações armazenadas ao longo de nossas experiências não sejam suficientes para fundamentar as surpresas que certamente virão.
Ainda assim me preparo com esmero para sair. Quero estar bonita. Os últimos meses me mostraram um reflexo no espelho de constante sofrimento, cabelos com raízes brancas, olhos inchados e sempre vermelhos.  Tudo bem. Eu sei que não é questão de geografia. Não basta sair para achar que nossos sentimentos mudarão como passe de mágica. Munida de mapa interior de acertos e erros, desejos e realizações enfrento as sonhadas férias. Fica visível para mim a dualidade que permeia as ações humanas. Há um lado subjetivo e abstrato que também escolhe e organiza as atividades, e outro, racional e concreto, que possibilita perceber a realidade. Não é preciso ser mágico ou ter poderes especiais, basta apenas manter a disciplina e ter a certeza de suas reais motivações, ganhos, perdas e riscos para formular bons objetivos, que valham a pena correr para alcançá-los.
- Escolha sem medo.  É assim que agem os vencedores, diz Maria.
Bruxelas é a primeira viagem no tempo. Na Grand Place, o clima medieval se torna áspero e hostil, presente com mais intensidade com o vento frio e a chuva fina. Há sensação de pertencimento, de ter conhecido aquilo e também certo desconforto. A sensação de desconforto se instala em meus olhos. O vento entra por trás das lentes e os fazem arder e lacrimejar. Aproveito então para deixar minhas lágrimas caírem enquanto olho e fotografo apenas com o olhar. Não consigo tirar a mão do bolso, mesmo com luvas, por causa do frio.  São muitos detalhes arquitetônicos. Uma parede vista de longe esconde mil detalhes quando vista de perto. É. Os medievais não conheciam a fotografia. Os artistas se encarregavam do olhar diferenciado.  E são tantas janelas. Tantas janelinhas nos tetos. Não pesquisei, mas deu para perceber que as edificações teriam datas diferentes e pelo menos três estilos ficaram claros: gótico, barroco e clássico. Pesquisa posterior mostrou mais um: o neogótico.
A caminhada pelas ruas e vielas próximas mostrou outro lado: bares e restaurantes frequentados, em sua maioria, por jovens.  Nítida demonstração de que a noite fria não era nenhum problema. Muitos turistas.  Esperava ouvir francês, mas ouvi muito o japonês, ou seria o coreano? E pasmem: português também, e do Brasil. Aliás, brasileiros foram companhia em quase todos os lugares que visitamos.
Passando por uma galeria tenho sessão solitária e nostálgica observando a vitrine de chapéus "retrô" e boinas como as que meu pai usava. Sinto saudades. Mas naquele cantinho eu volto a me encontrar. Pé na realidade para não deixar que o sonho e a fantasia me arrebatem. O frio convida a um chocolate quente, mas já está tudo fechado. Vamos tomar café no hotel mesmo. O chocolate belga só será degustado em Berlim, alguns dias depois.
Maria é mesmo companheirona. Não me abandonou um minuto sequer. Trocamos informações, impressões, mas, principalmente, ela esteve presente para me dar confiança. Sempre poderemos contar com as surpresas, com o imponderável, com situações completamente novas. Isso é fato. No entanto, o que nos segura nas situações imprevistas são princípios e valores que escolhemos para nossas vidas. São colunas de sustentação diante do desconhecido.  Bruxelas deixou sua marca como tempo passado dando suporte ao presente. Estava vista e registrada, possivelmente, como o début. Encantada, mas não deslumbrada! Sim, eu seria capaz de empreender os 30 dias sem me perder de mim e de minhas origens.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Das lições que aprendi

The Passage, de Maureen Hyde


Há momentos na vida que sentimos angústia por não compreendermos nossa condição humana e, ainda assim, ao mesmo tempo, atingimos estados de consciência em que tudo e nada se confundem e se completam. A angústia dá uma sensação de aperto no coração, desperta medos, sem que saibamos exatamente de quê. Momentos que o estudo disciplinado de si mesmo fornece ferramentas necessárias para enfrentarmos o sentimento de desamparo. Somos desafiados a ficar diante de nós mesmos e responder perguntas que sempre evitamos. É neste momento que o conteúdo interno faz a diferença e separa o mundo interior do exterior. Ficamos firmes como a rocha diante das tempestades e vicissitudes da vida. Não é uma questão de educação, cultura ou conhecimento científico, mas de nossa capacidade de interiorização, de administrar os conflitos, de mergulhar na dor e se entregar à vacuidade, ao sentido de inexistência.
Angustiar-se é existir. Quando percebemos que momentos de dor não nos representam, encontramos força suficiente para buscar os fundamentos de Ser. Falar de morte é falar de vida, de renovação, de transformação. No confronto com a morte, o tempo adquire novos significados e assume maior importância na orientação das atividades diárias. A compreensão de que esta vida é passageira, que nosso tempo para ser feliz é aqui e agora, deveria funcionar como um estado de alerta para todos nós. Quem vive sabendo que vai morrer, certamente aproveita melhor seu tempo e privilégio de partilhar sua existência


Deus, o Inefável

Lee Teter
Papai costumava se referir a Deus sempre como O Inefável, como beleza e perfeição tão grandes que se torna impossível descrever em palavras. As palavras sempre falham quando mais precisamos delas, por isso, ouso, dar mais um significado para a palavra inefável: é como me sinto agora. Não existem palavras para definir meu sentimento. Estou há horas dando voltas em torno de um único pensamento, sem conseguir mudar seu curso. São momentos de extrema solidão, sem ter a quem recorrer, a não ser aos próprios conteúdos internos. Tentar falar/escrever causa estranhamento: não falo uma língua comum. Não compreendo o que me dizem e nem me sinto compreendida. Silêncio.

A Travessia

Old man and the sea, de Vic Gomery


Gostaria de agradecer a cada um em particular, mas não tenho condições físicas nem emocionais para fazer isso. Tantos amigos, tantas palavras de conforto, de carinho, de amizade, de gente que há tempos não vemos, de gente que está sempre por perto, de gente que sempre nos surpreende. A atenção dos médicos que o atenderam , em especial Dr. Aloísio Ferreira e sua equipe do Hospital Jardim América, o corpo de enfermagem, duas das quais choraram junto comigo quando meu pai partiu. E foram tantas orações... todas acolhidas pelo nosso pai com o mesmo amor.

Eu nunca vi alguém partir com tanta coragem, consciência, lucidez e serenidade. Eu diria que o papai estava até um pouco eufórico, tão grande era sua fé. A todos que diziam que estariam em oração, ele frisava: "orem para que eu siga o caminho da Luz. A vida não é aqui... está do outro lado". E se foi na Luz... tornou-se estrela. Esbanjou, até o último minuto, sua inteligência singular e sabedoria. Riu, brincou, fez piada... e choramos juntos quando me fez prometer que não deixaria que ele fosse levado para a UTI, que queria ter uma morte natural, sem máquinas a lhe prolongar a morte. Foi tudo do jeito que ele quis, com a família e amigos mais próximos compartilhando seu final. 

A saudade já começa a apertar, antes mesmo que a ficha tenha caído por completo. A casa está vazia, silenciosa. Mamãe muito calada. Mas há paz nos envolvendo. A mesma serenidade que nosso pai demonstrou ao partir. Pequenas mostras que se nosso corpo está aqui e agora, nossa mente pode estar pesquisando outros labirintos, outros sentimentos, outras formas de existência, e a cada descoberta, por menor que seja, percebemos que a vida é um grande presente. O silêncio pode clarear lições. Em silêncio a vida pode encontrar seu sentido, a serenidade pode conhecer seu caminho, e o ser humano pode se render à sua imperfeição sem ser vítima de julgamento.

Poucas vezes paramos para pensar no privilégio que temos em compartilhar um mesmo período de nossa existência com familiares, amigos, autoridades, ou quem quer que seja. Vivemos uma fatia do tempo apenas e muitas vezes perdemos a melhor parte, gastando nosso tempo em satisfazer nosso ego. A preciosidade que é a vida passa despercebida nesse emaranhado que o mundo tece. É a morte que nos nivela, nos torna iguais em todos os sentidos: não há fortuna, cor de pele ou poderio capaz de evitar a morte. Vida e morte fazem parte de um processo único, tudo que nasce morre. Estrelas nascem e morrem. O homem não seria a exceção,

Imagino que todos nós convivemos bem com a morte. O que temos de maneira inexplicável é o medo de morrer. Há uma diferença sutil. A morte é inevitável e acabamos por aceita-la de forma tão legítima, que nem gostamos de pensar nela. Fica o medo de morrer, as dores que poderemos sentir, as humilhações a que poderemos ser submetidos quando não conseguimos mais cuidar do próprio corpo, o sofrimento que poderemos causar nas pessoas que deixamos aqui, a insegurança de habitar um espaço chamado saudade.

Estamos na vida para viver e a morte nos remete de forma direta e inquestionável ao fenômeno da vida. Papai entendeu bem isso, sem medo, foi nosso exemplo de vida e de morte.

Obrigada a todos!

A Árvore da Vida

Arbor Vitae, de Jen Toplak

Foi assim.
A menina saliente,
alegre, feliz,
irmanou-se ao tempo
e abraçou a realidade.
E o tempo transformou
Seus coloridos matizes.
Não mais sorridente,
Não mais menina,
Não corre ao vento.
Fincada ao chão,
Cria raízes.



Vida e consciência

Woman with a Burden, de Ron Cheek

Albert Camus usa o mito de Sísifo para explicar a condição humana e promover o que ficou conhecido como “A revolta metafísica”. Explicava Camus que a vida dos homens era tal como o mito de Sísifo: seguir uma rotina diária, sem sentido próprio, determinada por instâncias como a religião e o sistema capitalista de produção. No mundo administrado, levantamos de manhã, trabalhamos, comemos, reproduzimos etc., e tudo isso não faz o menor sentido, já que se refere a modos de pensar que se impõem ao indivíduo sem que ele participe da estruturação desse modo de vida, como se não tivéssemos escolhas.
Entretanto, a culpa de Sísifo foi pensar por conta própria. E sua condenação foi aquela que mais sofrimento pode trazer a um homem que pensa: a realização de um trabalho sem sentido. Por toda a eternidade deveria Sísifo empurrar uma grande pedra redonda até o cume de uma montanha. Ao completar seu trabalho, ele veria a pedra simplesmente rolar ladeira abaixo por força da gravidade. E então ele deveria trazê-la de volta…
O belo, na história de Sísifo, é que ele continua fazendo seu trabalho, e este é o seu objetivo. Ao subir a ladeira, ele se confunde com a própria pedra, comunga com ela o destino de ascender, de não estancar em lugar algum. Ao rolar a pedra, o herói executa sua arte. A descida não lhe interessa, não depende dele, é natural e inexorável.
Sísifo poderia livrar-se do castigo, mas para isso teria que tornar-se inconsciente, ou talvez morrer. Mas ele ama esses dois companheiros: a vida e a consciência. Então continua, mesmo sem considerar a possibilidade de deixar lá em cima a pedra.

A maldição de Sísifo é o que o transformou no verdadeiro herói, como todos somos.

Música: Jota Quest:
 " E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou
E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor... "

Bem-vindo!

Neste Natal festejamos a anunciação de nova criança na família. Precisava mesmo. Há muitos anos não ouvimos o barulho de crianças, que alegra, que entusiasma, que contagia. Seja bem-vindo Bebê. (Pai: Pedro Henrique Porto Capel; Mãe: Marcelli Pagliuco; Avô: Francisco Fernandes Capel Paco) e em sua homenagem o texto da bisa Alice Capel.

Imagem: Vittore Carpaccio (1450-1525)
Holy Family with Two Donors

                                                                     NATAL




Disse um filósofo – NATAL é um mistério...um evento para o coração!

Pensando bem, realmente, diferentes pessoas em diferentes regiões vivem o advento do NATAL , as mais variadas emoções - alegrias, amor, solidão, ternura, perdão, arrependimento, esperanças, recordações, promessas, e demais sentimentos.

Neste misto de emoções percebemos que há uma inevitável reflexão em cada um de nós. Afloram recordações de um edito romano em que José e Maria, numa árdua caminhada em busca da LUZ, procuram um lugar, apenas um lugar, onde pudessem repousar e relaxar até aguardar o sublime momento. O estábulo, somente um estábulo era o único abrigo disponível.

Foi aí que Maria deu a LUZ ao seu Filho primogênito, envolvendo-o em panos, relaxando o seu corpo cansado.
Imaginar esse cenário e seus personagens simbólicos, leva-nos a refletir sobre a nossa caminhada na vida em direção a uma nova aurora, uma nova LUZ.

Aos poucos vamos compreendendo que a nossa jornada, em busca de nós mesmos, é mais longa que a própria vida. É nesse mistério do NATAL que, a cada ano, nos envolvemos espiritualmente, reforçando nossos princípios, fortalecendo nossas convicções.


Esteja o Cristo presente em nossos corações em cada símbolo, em cada manifestação, dessa jornada natalina, para o advento nos traga a certeza de um ANO NOVO pleno em amor, saúde, prosperidade, harmonia interior, serenidade e muita paz.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Preciso de mudanças!

Springs, de Henri Houben
A mudança está no ar,  Maria não sabe o que a espera pela frente. Mais crescida e madura, reluta em abrir seu universo pessoal. Não há nada de novo sobre a Terra e o que Maria pode esperar é por experiências que lhe mostrem outros aspectos da vida que está aí, desde que o mundo é mundo. Está tudo aí. Ela só precisa ver, mas não sabe o quê. Há um certo cansaço em suas palavras, uma certa impaciência pela falta de surpresas. Seu coração está endurecido como uma pedra. Questiona tudo, Deus, trabalho, sentimentos, valores.

Bem, não sei qual é o rumo que Maria vai tomar, mas eu vou continuar contando histórias. Minhas Marias, personagens reais ou fictícias, sempre passam mesmo pela minha observação e compreensão. Neste sentido, o horizonte é de esperança.  Assim como Jeconias, rei de Judá, quando foi anistiado pelo rei da Babilônia, espero que Maria tire parte das suas roupas de prisioneira para tentar alçar novos voos.  Ela envelhece antes de mim. Vai sempre na frente em suas experiências e agora que é legalmente idosa mistura mais uma vez suas gavetinhas cartesianas em busca de novas combinações para uma velhice honrada. Todas as portas fechadas hão de se abrir. Caminha ainda ruborizada, mas com rosto alegre, enquanto eu, a seu lado, observo cada detalhe de sua transformação para traduzir em palavras. Nada fácil observar o essencial e traduzir a essência, mesmo com o olhar treinado para perscrutar almas humanas.  

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Vozes do silêncio

Leonid Afremov


Ah! Esse clima gostoso - de chuva fina, de periquitos alvoroçados, de ruídos distantes, de silêncio de palavra - transporta Maria para seu mundo secreto, penetrável e habitado unicamente por ela. A eterna contradição de quanto mais dentro de si fica, mais se integra ao Universo e aprofunda sua sensação de pertencimento. Ali os habitantes são outros, as vozes lhe chegam sem som. Gilberto Gil já cantou: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que subir aos céus, tenho que calar a voz”. Em dias de sensibilidade aguçada, amplia-se a possibilidade de ser intensa, generosa, e a sensação de liberdade abre os horizontes. É permitido se sentir plena, feliz, em paz profunda!
Manhãs de chuva e vento frio, aumentam essa sensibilidade em Maria. Gosta da luz, da claridade que ilumina a caminhada interna. Nem sempre é na penumbra ou no isolamento que as reflexões ocorrem. Hoje, em especial, é na convivência íntima com a natureza que a cerca. Há apenas o ser vivente, enamorado das belezas proporcionadas por uma energia cósmica, inimaginável quando se segura o foco no mundo concreto. Tudo e nada se confundem. Impelida pela angústia Maria busca a solidão que lhe permita encontrar argumentos para sua existência.

Não foi fácil sentar para escrever. Trazer os pensamentos do nada para o vazio das letras. Sentir a pressão do tempo fatiado nos ponteiros do relógio. Olha-se no espelho. Quando amanhece num dia chuvoso, de estonteante claridade, está, de certa forma refletindo o que tem na alma. O dia favorece os voos platônicos, mas o espelho permite retê-los. Entre o ideal e a realidade fica o sentimento de que a solidão não é só dela, é humana. Harmonizada com a consciência universal, não está sozinha. Sem delírio ou fanatismo, Maria quer saber se você a acompanha, a não andar, a não falar, a não ter o que trocar a não ser o silêncio.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Apenas moinhos de vento

Maria se emociona ao ver aquela paisagem pela primeira vez. Tudo lhe parece familiar, afinal passara parte de sua vida tendo a fantasia como ferramenta de trabalho e, naquele instante, o que lhe vem à mente é o mito quixotesco que permeou sua literatura. Lutou sim com enormes e cruéis gigantes que, ao final, se transformaram em moinhos de vento, só mesmo para lhe roubar a glória da vitória. E como Quixote, sua luta sempre foi solitária. Arremessou-se sozinha contra todos. Ganhou batalhas em números idênticos às que foi derrotada. Tornou-se mestra em oximoros, em aproximar sentimentos antagônicos, em rir da dor e chorar de alegria. Apostou suas fichas na vizinhança do impossível. Mas viu moinhos se transformarem em gigantes e era isso o que importava. 
Se a luta contra moinhos de ventos é o paradigma da luta inútil, Maria, finalmente, encontrava seu caminho e assumia sua fantasia. Qual era sua alucinação naquele momento? O medo de viver ou de morrer? Entendia profundamente a ficção e a realidade, mas a ela não importava a inutilidade, desde que a entendesse como necessária para seu desejo e, portanto, necessária para o mundo. De suas fantasias alicerçou a ponte para a realidade e pavimentou a realidade com fantasia. A vida lhe pareceu mais suportável. Naquele momento Maria não apenas realizava uma de suas inúmeras viagens imaginárias e fantásticas,  também pincelava de realidade o que um dia não passou de alucinação. 



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Assim mesmo eu costuro

La jeune ouvriere, de Willian Bouguereau
Enquanto remenda as roupas Maria se entrega a seus pensamentos. Seria tão bom se pudesse remendar também sua vida. Algumas costuras ficaram frouxas precisando de um nó mais apertado para que não se desfizessem com o passar do tempo. Velhas e rotas, seus andrajos colam em seu corpo,  seguem-na, perseguem-na, roubam-lhe a liberdade. No silêncio de seus pensamentos busca respostas, caminhos, soluções e a certeza de felicidade possível. Para reaprender a viver terá que romper velhos hábitos, renovar ideias, buscar esse fenômeno catalisador já que o corpo não se renova.
Mergulhada em seus pensamentos enquanto costura, cada nó antecede uma sequência de pontos, assim como as indagações que faz. As vivências, as observações, o estudo, forma seu pensamento, mas naquele momento, a vida real passa pela linha e pela agulha.  Costurar é isso.  Decifrar pensamentos e observações, expressar-se na delicadeza ou firmeza dos pontos, vivenciar o silêncio da atividade e também ouvir e identificar as milhares de vozes e a calar outras. Isso dá conteúdo ao seu trabalho. Nem carne quebrada, nem nervo rendido, apenas o ato de coser para estimular o pensamento.
Trilhar o mundo interior é uma experiência que exige equilíbrio, compreensão. Nem tudo é brilhante e muitas vezes Maria se vê obrigada a lidar com as sombras, com suas sombras. Busca a luz para passar a linha na agulha, busca a luz para encontrar a direção na vida, porque há caminhos que brilham mais, exercem maior fascínio e a tendência natural é que a de se deixar levar pelo que dá mais prazer, como na hora de escolher uma agulha grossa que não dará a perfeição no remendo, mas facilitará o processo. Maria é humana, simplesmente humana e é na convivência consigo mesmo que ela provoca perguntas que não encontram respostas, a menos que haja um firme propósito de disciplinar-se, de aprender com a própria imperfeição. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Paris no túnel do tempo



Evening Beauty, de Mark Spain


Olhando aquele cenário diferente, cheio de histórias e rico em detalhes arquitetônicos, Maria se vê, de repente, lembrando conteúdos que preencheram suas primeiras incursões na alma humana. Não vai se encontrar com Ernest Hemingway, Proust,  Cole Porter, Luis Bruñuel, ou Picasso, ou mesmo Sartre, mas espera por aquela sensação nostálgica que a inspire e a encoraje a escrever, mesmo em relação àquilo que não viveu.

Toda cidade tem suas peculiaridades humanas, aquelas que podem até ser integradas às paisagens, mas estão intrinsecamente ligadas ao comportamento humano. Algumas são típicas de determinadas personagens. Lembro-me, da minha infância, de Judith, que inaugurou o bundaço como protesto e rebeldia aos padrões da época. Mal imaginava ela que um dia isso seria moda. Mas em minha cidade de origem havia outras figuras diferentes, como as minhas xarás “Maria Taquara” e Maria Bobó. A primeira se vestia de homem, desafiava os padrões sociais.  A segunda, mais ingênua e mais coquete,  se enfeitava com laços coloridos de papel crepom para acompanhar as procissões. Aqui em Goiás uma dessas excêntricas personalidades virou boneca: Maria Grampinho, que assim como Mari Bobó gostava de se apresentar bonita e prendia seus cabelos rebeldes com inúmeros grampinhos.

Mas não são só as Marias, as cidades também têm Joãos e Pedros que se destacam por sua singularidade. Em meu setor, João não escapava da observação de minha avó e chegava a lhe arrancar sorrisos. João conta os passos, mas sempre se esquece no meio da contagem, então ele volta atrás – certamente de onde imagina que perdeu os números – e começa tudo de novo. Então, observar a caminhada de João é como assistir a uma dança diferente, não apenas pelo gingado que impõe ao seu corpo, mas pelos volteios, giros e “promenades”.


É. Maria foi buscar a Paris que inspira e encanta e isso é meio surreal, não se mede por números de passos dados, mas por uma contagem interna que certamente terá, muitas vezes, que ser retomada. Não há possibilidade real de se viver outra época, sem que esta se torne também uma prisão. E nas prisões, a criatividade se esgota. Talvez por isso Maria tenha buscado suas primeiras referências, para conhecer a Paris, que como ela, vive de suas histórias. Ao mesmo tempo, usa seu olhar e abertura de alma para deixar o novo entrar. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Coração em festa

James Shannon
Ainda é primavera no coração de Maria. As manhãs são sempre barulhentas. Gorgeios de pássaros e cigarras começam muito cedo. No ar o cheiro de flores toma conta do ambiente. A cidade se veste inteira de flamboyants e bougainvilles de coloridos vivos. Os canteiros das avenidas readquirem seu verde intenso e se enfeitam de sempre-vivas, margaridas, azaléias, campânulas, petúnias e flores típicas do cerrado. Um brinde aos olhos do caminhante desatento. Não é possível ignorar tanta beleza.

Naquela praça,  naquele ponto perdido em algum lugar do espaço, as diferenças não mais existem. Não existe velho, nem novo. Não existe feio ou bonito, não existe perto nem longe. Apenas o mar de sentimentos tão intensos e imenso quanto o tempo que os separou. Nesse instante mágico são apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito e celebrando a vida, o renascimento, o reencontro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Justiça e Generosidade

Allegory Of Wisdom And Justice, de Hermann Kaulbach
Justiça e generosidade são dois conceitos que se confundem e se completam, mas só são compreendidos à luz da virtude. Justiça pressupõe um estado de equilíbrio, de imparcialidade, de neutralidade, de igualdade, enquanto a generosidade denuncia o desequilíbrio e pressupõe uma condição de partilha. Para Aristóteles, a justiça denota ao mesmo tempo legalidade e igualdade, e traz embutida o objetivo de manter a ordem social, preservando o direito de todos em sua forma legal. Assim, é justo quem cumpre a lei e também é justo aquele que dá ao outro aquilo que lhe é devido. É nesta última forma que a justiça se confunde com a generosidade e que se faz necessário entender o que é virtude. Para ser justo é necessário ser generoso, e para ser generoso é preciso ser justo.
Virtude não é uma característica da pessoa, mas uma inclinação que ela tem e que a orienta para a prática do bem. Muitos foram os filósofos a tratar de seu conceito, mas citei Aristóteles e fico com ele - embora pudesse me apoiar em qualquer outro que veio depois e ampliou esse conceito - que divide a virtude em intelectual e moral: intelectual é o resultado gerado da aprendizagem, da educação, da inteligência; virtude moral é o resultado do hábito, que nos torna capazes de praticar atos justos. Intelectual ou moral, ninguém nasce virtuoso. As virtudes são adquiridas pela repetição dos atos, que geram o costume e que, por sua vez, geram os atos. Estes não podem se desviar, nem por defeito, nem por excesso, pois a virtude está no equilíbrio, na justa medida.
A justiça também lida com conteúdos internos e quando se busca a igualdade está também lidando com a generosidade, mas tem a seu favor um conjunto de leis para aplicar, o que faz parecer mais fácil de ser praticada. A generosidade é mais fluida, passa pela moral (que sofre influência do tempo e do espaço) e também precisa ser equilibrada. Generosidade de menos é avareza, em excesso é extravagância. Generosidade tem que ser como remédio, aplicada na medida certa, porque a falta causa a morte e o excesso se transforma em veneno.
A vida nos proporciona vários enganos e ninguém está livre de embarcar em uma canoa furada ou errada, mas nem tudo é equivocado. A prática da virtude, da justiça, da generosidade, acaba atuando como escudo e nos protegendo de enganos. Todos somos afetados pelo que está à nossa volta e afetamos o outro com aquilo que somos. São essas certezas interiores que me guiaram a vida toda. Bato as portas da velhice sem os valores imprimidos pelo mundo, mas amparada pela dignidade e orgulho de ter vivido uma vida reta. O que não consegui, pelo menos tentei. Então, grosseiramente, posso concluir que a virtude completa, de modo excelente, a natureza de um ser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Vida e Morte: irmãs siamesas

The Return, de René Magritte
As irmãs Vida e Morte são como irmãs siamesas, falar de uma é chamar a presença da outra.Aqui e agora é intervalo de tempo que existe entre o nascer e o morrer. É o que chamamos de vida. Ao nascer, o ser vivo traz em si a presença interior da morte. A natureza existe a partir de um processo cíclico, do nascimento e da morte, ou da morte para que haja renascimento. O fruto morre para dar lugar à semente, a semente morre para dar lugar a uma nova planta. Este processo também é nosso, da humanidade, somos parte da natureza, nos diferenciando apenas por nossa capacidade de raciocinar e questionar a nós mesmos. Valores, crenças, saberes, em tudo há um ciclo natural na evolução, nascer, progredir, existir, decair, renovar.
Nesse processo, a morte e os mistérios que envolvem seu significado ainda incomodam o homem. Sabemos que é uma experiência única, última, pessoal, intransferível e inevitável. .Ninguém escapa deste momento: ricos, pobres, bonitos, feios, desconhecidos, famosos, homossexuais, heterossexuais, brancos, negros, comunistas, capitalistas, jovens, idosos. Meditar/filosofar sobre a morte é, segundo Michel de Montaigne, aprender a morrer. Ele nos apresenta a morte como finalidade da vida, e a filosofia como o remédio que nos permite enfrentá-la com serenidade. Não sabemos onde a morte nos aguarda, portanto, podemos esperá-la em toda parte e a qualquer momento. E aprender a morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento, já que a vida nos parece rápida – como um relâmpago – e a morte, ao contrário, nos parece uma condição natural e perpétua. Assim, se algo ou alguém pode nos tirar a vida, nada pode nos tirar a morte.

Hoje, especialmente triste com a partida de um amigo, cavei na alma, e nas raízes de nossa infância, plantei saudade.