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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Encontro Secreto

Welcome footsteps, de Sir Lawrence Alma Tadema
Maria acorda muito cedo. Gestos lentos traduzem sua imensa falta de vontade para levantar. Encaminha-se para o banheiro. Antes coloca um CD com a 5ª Sinfonia de Beethoven. Espera que aquelas notas barulhentas e vibrantes consigam produzir-lhe uma reação interna, ainda que seja de irritação. O que ela não quer mais é continuar naquela apatia. A água fria do chuveiro faz com que a sua pele se retraia e Maria aproveita a sensação para se tocar inteira, despertar cada célula adormecida, reavivar cada sentido. Ela não quer esquecer que tem corpo, que tem sexo, que ainda é capaz de vibrar. Maria toma seu banho sem reprimir sentimentos ou pensamentos, mas sente-se confusa. Só então percebe que é sexta-feira e tem um encontro marcado.
Apronta-se com leveza, cabelos molhados, roupa indiana, larga, dessas que não marcam as formas, sem maquiagem, sandalinha rasteira de couro cru, relembrando o visual hippie que durante anos fez parte de sua vida. João é como ela gosta. Másculo, mas com suavidade no olhar, nas palavras, no jeito de tratá-la, nos sentimentos. É firme e terno.  Sem olhar para trás, Maria se lança ao novo dia, a se preparar internamente para esse encontro.
“E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis”.

(Drummond)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Intimamente intenso

Francesco Hayez
Acordo sentindo ainda sua mão despudorada investigando cada milímetro de meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas de meus sonhos, de minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Estou no limite do prazer e da posse, o penso em você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que essas imagens me inspiram. Em meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que para o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Idílio

Idylle, de Willian Bouguereau
Não era um bom dia para fazer a faxina, o calor estava insuportável, a vontade de voltar para a roça, e descansar em uma sombra para sentir o vento no rosto, ficava cada vez mais forte. Ainda assim Maria se levanta, respira fundo, e parte para mais um dia de trabalho. Enquanto jogava água na janela ela aproveitava para se refrescar nos respingos e organizar seus pensamentos. Bailam na lembrança cenas do campo, dos encontros furtivos com João, da alegria da juventude, da irresponsabilidade do amanhã. Tinha os olhos fechados e os movimentos da faxina acompanhavam o ritmo preguiçoso das lembrança. Era como se ele a olhasse. No limite do prazer e da posse, um homem olha para uma mulher como se meditasse sobre o princípio da vida. Queria tê-la em sua consciência sem importuná-la em seu sonho. Ela dormitava, passando lentamente a flanela sobre a mesa de vidro. Também ela, em toda sua simplicidade, precisava se acertar com o tempo. A interioridade sexual era tão intensa, os corpos tão ausentes, que a sensação de serem tocados parecia uma oferta divina duma imaginação profundamente amorosa. Havia muito mais vida no passado, ela sabia, mas precisava viver o presente. De repente, o celular toca e tira Maria de suas reflexões. João é apenas uma lembrança que se desvanece.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma premonição em sonho

Imagem: Tentation, de W. Strang

Acordo sentindo a sua mão despudorada investigando cada milímetro do meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas dos meus sonhos, da minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com a minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Nada do que observo em você, nos meus delírios, é físico.Hoje é diferente. Estou no limite do prazer e da posse, olho para você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que estas imagens me inspiram. No meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Sinto a sua língua rastejante, lambendo, sugando, explorando. Uma oferenda divina de uma imaginação amorosa. Sem penetração real, essa falta é o eterno desejo de que o tempo se transforme em autoridade fálica e me satisfaça a sonolência sensual. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que pára o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim. Que seja a minha umidade, o afrodisíaco da sua inspiração emocional, até que nossos corpos, um dia, possam estremecer sobre o linho branco da nossa cama.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Maria e o Tempo

Imagem de Mihaly Von Zichy, artista russo do século XIX.



Aqui está Maria, de novo, tentando se acertar com o tempo. Ao penetrar em si, esse malvado lhe foge e tanto faz se tem 10 mil anos ou se acaba de nascer. É sempre um recomeço. Tenta prosseguir sua viagem de vida, mas um guardião lhe diz que não pode pular etapas, tem que viver cada uma delas. O vazio no qual mergulha, não é tão solitário assim. Personagens escondidas aparecem para dar as suas instruções e depois se desfazem como éter no ar.
Os pés sentem um formigamento que vai aos poucos sendo substituído por um enorme calor. Chove lá fora, a temperatura é amena, mas Maria está em chamas! Um calor que percorre cada célula do seu corpo e a faz gotejar de suor. Sente seu coração bater em um ritmo diferente, mas não o sente descompassado do universo, desta força perfeita e invisível.
É nesta atmosfera fluídica, fantasiosa e cheia de delírios que conversa com João, mas não o vê, não o ouve. Do outro lado, em algum espaço virtual seus pensamentos se encontram.

- Quem é essa mulher de múltiplas faces? Mãe, mulher, profissional?
- Sou um ser em constante evolução, aberta para a vida, sujeita a chuvas e trovoadas.
- Gosto da forma como você se expressa. Sempre foi intensa assim? Você transmite muita vontade de viver.
- Sim sempre fui intensa, dramática, apaixonada. Sofria por amor, desesperava, curtia fossa ! A dor era sempre intensa, mas só até virar a esquina e encontrar um novo amor.
- E o que busca hoje?
- Não sei. Vivo uma constante fase de mutação. Tento voltar a escrever pra mim, sobre mim, restabelecer esse diálogo que perdi ao me fixar em fantasmas.
- Não entendi.
- Nem precisa.
- Não tem namorado?
- Não. Sucessivas desilusões me desanimam de procurar.
- Foram tantas?
Risos.
- A culpa sempre foi minha.
- Porquê?
- Porque esperei, arquitetei planos; as pessoas não são obrigadas a preencher o desenho da minha fantasia.
- Vou lhe falar uma coisa, mas não sei explicar o motivo: eu hoje fiquei curioso em saber um pouco sobre você.
- Eu queria mesmo lhe perguntar sobre isso. O que uma mulher na minha idade teria para chamar a atenção de um jovem, bonito, inteligente, interessante?
- Sua forma de se expressar. Em segundos, parecia que lhe conhecia há anos. Percebi que você não é hipócrita, tem uma sensualidade aflorada. Já parou para pensar nisso?
- Olha, nesse aspecto eu posso ser uma fraude.
- É uma personagem?
- Bom, eu não sou só Maria... e sou todas as Marias. Na realidade o ato de escrever tem muito do autor, são reflexos. E essa sensualidade talvez se expresse agora que não tenho mais barreiras mentais.
- Isso quer dizer que você vem rompendo seus tabus?
- Vamos dizer que sou uma eterna buscadora de mim mesma. Meu forte nunca foi ser uma mulher bonita. Meu trunfo sempre esteve ligado às questões mentais, talvez por isso ao fato de estar envelhecendo não me incomoda.
- Seu nome é Intensidade.


Maria está confusa, não sabe o que pensar sobre a motivação daquela conversa. Pensa em parar, mas João a submete a um verdadeiro interrogatório. Quer saber mais e tudo. E ela trata logo de buscar argumentos que possam cortar aquele diálogo sem sentido.

- Tenho mais de 50 anos, passei recentemente pela menopausa, engordei 16 quilos, não tenho mais nenhuma beleza para mostrar.
-Todo mundo vai passar por isso, Maria. Você ainda se sente mulher?
Risos.
- Eu bem que poderia ter nascido uns anos depois. Agora estaria investindo em você!
- Isso não me assusta! Já se relacionou com alguém mais novo?
- Você poderia ser meu filho. Meu marido era mais novo, mas não tanto.
- E ele foi o mais novo?
- Eu não tenho preconceito João, mas as experiências de vida são muito pesadas em relacionamentos com diferenças acentuadas de idade. Principalmente se a mulher é a mais velha.


A partir desse momento Maria sente que deu mesmo sinal verde. Ele vai continuar a questioná-la e ela não sabe onde ele quer chegar.

- Acho que a mulher madura se entrega mais, ela se permite sentir prazer e isso é gostoso. Falta dialogo hoje em dia, abertura para falar o que gosta. Já ousou na sua intimidade alguma vez?
- Depende, o que seria "ousar"?
- Se você já se permitiu viver suas fantasias?
- Minhas fantasias são normais. Não sou adepta de Sade. Gosto de sexo, de sentir e dar prazer, mas não preciso ser jogada na parede, plantar bananeiras, fazer piruetas e coisas do gênero . Gosto de ternura. Gosto de sexo sem pressa, de me permitir cada detalhe


A conversa continua e passeia sem barreiras por todas as atividades possíveis na sexualidade de uma pessoa. Não há desrespeito e a curiosidade é mútua. Em meio a risos, brincadeiras, as verdades vão sendo ditas. João está à vontade, sente-se escudado pela idade, curiosamente o mesmo escudo que deixa Maria também à vontade. O encontro entre os dois é tão insólito que qualquer barreira que seja erguida , seria sem sentido algum. Maria relembra outro encontro, há sete anos, que nunca passou dos olhares, do platonismo, da edificação do amor como se fosse um templo. Passou. Como tudo. A saudade, sem nada de concreto para se alicerçar desapareceu como fumaça. Os encantamentos não são revivíveis. Absorta em seus pensamentos paralelos, Maria se surpreende com a pergunta de João.

- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Sim.
- Você se masturba?
- Agora?
Risos.
- Pense em mim, quando o fizer.


A música dissolveu-se pelo quarto como um perfume. Maria estava deitada na cama a se tocar levemente. Mantinha os olhos fechados e o movimento dos dedos acompanhava o ritmo preguiçoso da música. Queria mantê-lo em sua consciência, sem importunar o sonho dele. No sonho de Maria ele pode entrar e chega de mansinho, despe-se e deita-se ao seu lado numa posição de modo a poder lhe acariciar os pés. Seus corpos ocupam na cama o sentido oposto ao ato da penetração sexual. Ele substitui a mão dela pela dele à procura do clitóris e esta troca de desejo é tão suave como se a melodia tivesse encontrado no ventre de Maria o seu espaço eterno. Quase por instinto ou sobreposição de prazeres ela o masturba com aquela inocência de quem se sente estranhamente perdida num labirinto erótico. Prisioneira de um tempo luxurioso. Sente então a língua de João a rastejar pela perna dela numa lentidão chocante, nesse momento, o desejo de um é o desejo do outro. A intimidade sexual era tão intensa, os corpos tão ausentes, que a sensação de serem tocados, lambidos e explorados sexualmente parecia uma oferta divina de uma imaginação profundamente amorosa. Sim. O amor que sentiam um pelo outro era mesmo uma fantasia. Eles não se amavam. Favoreciam as necessidades sexuais numa troca imaginária de corpos para que cada um pudesse sonhar à sua maneira. Seus sonhos são como uma galeria de imagens provocantes que os faz sentir a presença um do outro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Como água para chocolate

(Whaterhouse)


A vontade de Maria era amar menos João. Angustiava-se por vê-lo reprimir seus impulsos, racionalizar tudo e transformar em teorias matemáticas situações do dia a dia. A hipersensibilidade atuava em sua vida como um calcanhar de Aquiles. O ponto onde as pessoas o atingiam e o faziam sofrer. Ela não queria que sofresse, queria que ele sentisse, mas não conseguia descobrir o mecanismo para o sacudir, provocar nele uma reação. Não seria necessariamente mudar a sua própria natureza, mas faze-lo entender que é humano, que tem direito a gritar, a sentir raiva, explodir. Como seria bom vê-lo se descontrolar ainda que fosse uma única vez. Mas não poderia ser Maria a provocar essas atitudes nele, sob pena de perder para sempre seu amor. A relação entre eles já era complicada. Eram opostos em tudo e a aproximação entre eles já era por demais insólita.
João foi um menino calado, introspectivo, tinha dificuldades de relacionamento com garotos da sua idade. Franzino, não se adaptava aos modos grosseiros dos meninos. Afastou-se dos esportes, das competições de xixi, de espreitar as meninas, das brincadeiras de rua. Não aprendeu a jogar bola, a empinar pipa, nem andar de skate, de patins e nem mesmo de bicicleta. Inteligente, jogou nesta característica a sua tábua de salvação. Embrenhou-se muito cedo no caminho da leitura e aos poucos arquitetou seu próprio mundo, rico em personagens imaginários; impenetrável por estranhos. A infância passou dentro da normalidade de uma criança retraída que conseguia se superar angariando elogios e a aprovação dos pais. Acho que nunca quebrou uma vidraça do vizinho, ou teve consciência de que estava preparando uma cilada para o galã da escola. Não teve contato com sua própria maldade.
A adolescência transformou-o em um rapaz tímido, atraente por seus dotes intelectuais, seu olhar tristonho e gestos suaves. Percorria com desembaraço os labirintos do seu cérebro, a ciência era uma ferramenta poderosa para os seus conceitos e para a compreensão do mundo. Mas não conseguia entender suas entranhas. Não percebeu que ao se isolar em si mesmo, tornou-se idealista, o que em termos práticos, escondia seu egoísmo. Sem ter com quem validar seus próprios conceitos Fabrício tornou-se um fenômeno no campo do conhecimento. Suas teorias eram perfeitas e, quando testadas, ainda poderiam ser direcionadas para o resultado que ele queria. Sua crueldade estava restrita ao pensamento, às conclusões que chegava, que mesmo expressas (às vezes em verdadeiras pérolas literárias) não revelavam a repressão acumulada ao longo dos anos.

Maria, por sua vez, desde que nasceu já dava demonstrações de que não aceitaria nada calada e que não se curvaria diante da possibilidade de uma batalha. No berçário ainda, ganhou o título de mais chorona. Sabia subir em árvores, aprendeu a nadar, sem técnica, mas aprendeu sozinha, o suficiente para não morrer afogada em rio. Trocou a reposição de sua boneca quebrada por uma bicicleta. Jogava finca, betsy, queimada. Não era boa em nada, mas não aceitava a derrota sem tentar. Sofria quando era marginalizada na aula de educação física. Preferia estar com os meninos, entre os quais sua fragilidade era justificada por ser mulher, e vivia em constante briga por causa dos ciúmes do seu irmão, que cuidava dela como um galo de rinha. Sempre achou a vida dos meninos mais privilegiada que das meninas. Eles tinham o que ela mais desejava: liberdade. Ainda assim, Maria era uma menina meiga, de gestual delicado, de muita sensibilidade. Gostava de música, dança, e desde bem pequena já fazia teatro. Gostava de declamar, mas só fazia se a platéia fosse respeitável.
- Deixa juntar gente, reclamava.
Nunca soube se era tímida porque a vida sempre lhe colocou em situações que tinha que se mover com desenvoltura, escondendo de si mesma seus medos. E assim ela formou sua personalidade, como uma moça valente, guerreira, brava. Também tinha suas máscaras e em nada poderia ser diferente de Fabrício. Aprendeu a ser dissimulada, como todas as mulheres, e a usar disso para se defender do mundo que sempre lhe pareceu hostil. Sua oralidade desde o berçário se manifestava na sua facilidade de expressão. Maria sempre procurou se equilibrar entre os extremos. Despertava nas pessoas amor e ódio. Nunca lhes era indiferente. Os que conseguiam quebrar a resistência inicial, não raro, encontravam uma moça insegura, cheia de medos, de sentimentos de menos valia que se confundiam com sua enorme capacidade de doação.

É sempre difícil e arriscado relacionar a generosidade, o idealismo, a timidez, ao egoísmo, à própria vaidade, à arrogância intelectual. Assim como é complicado entender que atrás de cada exibido, existe um tímido. Todo ser humano é um pouco assim, tenta se esconder, procura sublimar seus defeitos para que a vida em grupo lhe seja possível. Para Maria era mais fácil fazer, para João o fácil era saber. Nenhum dos dois possuía o saber-fazer.

Agora Maria e João estavam ali, frente a frente, um verdadeiro confronto entre a teoria e a prática, o empírico e o científico, o passado e o futuro. João quer eternizar o sentimento que os une. Maria conhece seus limites, não pode tocá-lo, mas é o que ela gostaria, beijar cada centímetro do seu corpo, sentir seu gosto, ver sua pele se retrair e arrepiar ao toque da sua língua. Sentir seu cheiro. Acariciar seus cabelos. Massagear-lhe os pés. Misturar seus corpos. Fazer com que a ardência do seu aqueça a frieza do dele. Não importa se ele se afastar depois, ela o quer vivo, vibrante. Maria pensa na eternidade, nada é eterno, nem mesmo aquele amor ideal. Não existe verdade, ninguém sabe o que é certo ou errado, a vida vale pelas lições que aprenderam, pela troca e equilíbrio entre as suas diferenças. Felicidade é lucro.

sábado, 13 de novembro de 2010

Para renovar o pecado


Há algum tempo venho juntando imagens de Psiquê e do Amor, são telas e esculturas famosas. Em nenhuma vi Psiquê tão entregue ao Amor como nesta Imagem de Bouguereau. É terna, suave, mas traz embutida um erotismo elegante. Adolescentes descobrindo o amor. Brindo o final de semana com Bilac, meu poeta da adolescência. Amem muito! Renovem o pecado... homem maior que Deus!!!

A Alvorada do Amor

Olavo Bilac

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:
Chega-te a mim! entra no meu amor,
E e à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, uma em uma, as lágrimas do rosto!
Vê tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...
Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...

Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na terra, e à luz dos olhos teus,
Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus!