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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Pintando o cenário

Painting Studio, de Daniel Bilmes
Acredito que ao nascermos encontramos uma parte da vida já desenhada, o cenário, cujo traçado não dependeu de nós. A outra parte está em branco para que a gente possa preencher de acordo com o que somos. Nem sempre precisamos de grandes acontecimentos para sentirmos motivados para a vida, precisamos apenas compreender os pequenos acontecimentos. Em tempo de tirar máscaras, fico impaciente se me pedem para colocar uma. Nortear-me por princípios universais, valores próprios e códigos de ética individuais pode parecer extravagância, excentricidade ou que sou temperamental demais. Nada disso. Vivo mesmo é em um mundo mágico, reservado àqueles que se detém a olhar além do que está visível, um mundo impenetrável por mascarados. Será que pedir uma vida transparente, honesta, verdadeira é pedir muito?


Cada manhã um novo dia se perfila à nossa frente. Algumas coisas seguem o planejamento, outras nos fogem ao controle. Não se controla a vida, não temos poder de garantir o futuro. Podemos ser senhores de nosso destino, apenas no campo mental, que é onde acontecem as coisas do espírito. Parece que preciso de uma caixa de lápis de cor de pelo menos 48 matizes, para pintar as penas do anjo que mora dentro de mim. Não consigo ainda ter o cenário completo de minha vida, mas cada palavra que consigo extrair de mim é uma peça que entra em cena.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Grande Caudal

Nayade, de Fantin-Latour
O corpo desidratado pedia água e Maria, mesmo sem consciência, sentia que mergulhava fundo. Os sons iam ficando para trás, apenas a sensação de liberdade que substituía o mal -estar anterior. A água lhe abraçava. As vezes sentia frio, outras ela lhe era morna, lhe acolhia. Era como se lhe pedisse para ficar. E Maria queria ficar. É como se mundos se mesclassem em unidade e as coisas do corpo e da alma ficassem mais claras, sem mistérios. É engraçado que naquelas águas acolhedoras, calmas, também se podia perceber a existência de correntezas. Não são correntezas fortes, mas são atraentes, têm luminosidades diferentes, como se a gente pudesse escolher ou simplesmente se deixar levar. Maria se entrega por alguns instantes e é como se abrissem portas internas e ela fosse envolvida por massagens e bálsamos que curavam suas feridas. Imagens e sons que prefere guardar em sua memória para não entregar às contradições humanas. É um estado de alma tão simples, que custa a acreditar que sempre esteve à sua disposição. Emergir é encontrar novos olhares.



quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pago o preço

Maria Madalena, Georges de La Tour

Roteiro

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha, "Poemas" Editorial Inova, Porto, p.196


Pago o Preço

Na constante batalha da vida, nem sempre sou capaz de identificar quem é meu real adversário. As dificuldades que enfrento dependem da forma como as recebo e compreendo. Se partir de mim para compreender o mundo, posso entender que sou minha maior inimiga. Sou meu defeito, minha limitação, meus medos. No entanto, observo que nem todas as pessoas estão voltadas para seus sentimentos internos ou preocupadas em lidar com eles em busca de melhor convivência. Sexo, dinheiro e poder são metas que determinam comportamentos e códigos pessoais de ética. No fundo, percebo que a luta interna se resume aos instintos de sobrevivência e destruição: vida e morte, luz e sombra.
Poucos conseguem uniformidade de comportamento, sem prejuízo – em algum momento – de seus princípios ou objetivos. Realizar o prodígio do equilíbrio em um mundo tormentoso, com certeza torna os homens raros, verdadeiras obras-primas. Nem uma palavra, nem uma linha, nem um passo em falso. Nada que possa ser explorado contra os interesses da humanidade. Esta seria uma possibilidade para aqueles que tem cabedal de virtudes interiores. Na vida, estou sempre representando papéis – impostos ou escolhidos por mim –, constantemente remando contra a correnteza. Momento em que a pedra arremessada tem a força da realidade e o peso da minha incoerência. Ir contra meus próprios valores causa-me sofrimento interno.
Preparo-me para envelhecer com dignidade. Os princípios éticos, que nortearam minha vida, não deixam brechas para arrependimento ou recomeço. Fiz minhas escolhas, criei mecanismos de defesa para me adequar à realidade. Muitas as preocupações que começam a assombrar, principalmente, a econômica, com inevitável redução da renda a que se expõe o aposentado. O mundo parece girar mais rapidamente. Os avanços da medicina acenam a um tempo de vida mais longo. Tempo que, para muitos, simboliza o prolongamento da batalha quando o viver já não registra a esperança de dias melhores. O mercado de trabalho não consegue absorver a população jovem. Os mais idosos significam excedentes na mão de obra, embora a idade seja, em si mesma, um trunfo, prerrogativa de experiência, conhecimento e percepção.
Tudo que escrevo, desvio para a vida interior, mas o mundo não está preocupado em conhecer o luminoso e terrível significado da guerra interna. A realidade dual me incita a lutar, dentro de mim mesma, contra minhas imperfeições. Difícil é identificar as situações, porque elas se camuflam. Nem sempre são o que parecem. Quando brigo desesperadamente pela vida é quando mais me aproximo da morte. A energia sexual – que acreditava extinta em mim –, a energia criativa e, consequentemente, de vida, corre o risco de ser desviada para degradações ou formas mais sutis. Eu escrevo. Apesar de parecer que isso é bom, por produzir a sensação de prazer, não estou convicta de não violar leis.
Todos sentem, todos veem, todos sabem admirar minha coragem, a fidelidade aos princípios, mas poucos compreendem a complexidade do conflito para me fixar uma linha de conduta. Não posso desistir da luta, entregar-me à morte e ao desânimo. Quero viver. Por você. Por nós.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ninguém sabe a dor que sinto

Imagem de Munch



Os últimos dias não foram risonhos para Maria. O clima chuvoso, cheio de nuvens e escuro a atingem como um petardo de guerra e tudo que ela deveria ter pensado antes, vem à consciência agora. Está irremediavel- mente apaixonada. Não é o amor que a faz sofrer, mas a paixão. Sofre duplamente, por que a paixão, “posto que é chama”, está fadada ao fim e, ainda, por que a distância a impede de alimentar o fogo. Que sei eu do fim para fazer previsões? Uma visão otimista diria que a paixão vai passar e o amor vai se fortalecer, alicerçado pelo genuíno desejo de ver João feliz. É verdade. Palavras que consolam.
João já é feliz sem Maria. Sabe lidar com suas influências aquarianas como ninguém, sem perder o foco da objetividade, do utilitarismo. Pela primeira vez, desde que se encontraram Maria tem medo de sofrer. O medo, por si só, já é sofrimento. Natural, portanto, essa angústia generalizada e sem motivo aparente, mas que assusta. A angústia desequilibra a nossa dinâmica psicológica, provoca transtornos mentais, dá a sensação de aperto no coração e o medo que não sabemos de quê. Certa está que estas sensações fundamentam a condição humana diante da liberdade absoluta, da morte ou da distância.
Ronda-me a morte e é difícil seguir em frente quando nos sentimos em estado de desamparo, quando nos falta convicção de que podemos sobreviver por conta própria, nutrindo-nos dos conteúdos internos, sentimentos e pensamentos que nos identificam. Afirmei que João é feliz, mas coloquei-o numa condição objetiva. Fui rasa. Todos nós, em maior ou menor intensidade, somos constantemente desafiados a nos olhar no espelho, a ficar diante de nós mesmos e responder as perguntas que mais evitamos. Podemos até tentar empurrar com a barriga, mas só conseguimos adiar a crise. Passear na alma de João é um risco, uma incógnita. Ele sabe guardar bem seus sentimentos e dúvidas. Vive. Se isso lhe basta, basta a mim também. Sorte a nossa que o inconsciente não se deixa corromper pelas facilidades.
Maria sempre olha João com amor. Não o rotula pela educação, cultura ou conhecimento, mas pela sua capacidade de administrar conflitos – se é que os têm –, de forma que sua vida não se sustenta no que o outro pensa. Na realidade, a vida de Maria também não, mas ela tem o hábito de mergulhar em águas profundas para se encontrar com sua vacuidade, sua inexistência, sua angústia da ausência. Reconhecer as diferenças entre João e Maria, no entanto, não me dão autoridade para qualquer julgamento, uma vez que nem todo o conhecimento do mundo seria capaz ou suficiente para me representar diante do abismo da identificação. Também eu procuro pela harmonia interna, pelo resgate da minha identidade.
Desde que eu, João ou Maria, aceitemos o desafio de derrubarmos o mundo que construímos baseado nas pessoas que amamos, colocamos em xeque os nossos alicerces. Sinto que é possível, sem alterar o visível, desnudar-nos do aparato lógico, encontrar novas possibilidades e experimentar a sensação de liberdade. Uma liberdade que, segundo Sartre, “não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo, mas o radical da mais íntima estrutura da existência, separado de todos os outros”. Não sei como se faz isso na prática.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Maria e eu

Imagem de Tolouse Lautrec


Nem todos os dias amanhecem com sol radiante, com algazarras de pássaros, música no ar. A Natureza também obedece a seus ciclos e faz chover, escurecer, calar os bons sons. Troveja lá fora e em mim. As janelas estão fechadas para a tempestade e dentro de mim também. Não vejo o relâmpago lá fora e, em mim faltam lampejos de luz. O dia amanheceu triste. Para mim e para Maria.
Encontro Maria no saguão da Igreja, após a missa. Acontece ali uma apresentação da orquestra de câmara. Sentamo-nos a um canto, embaladas ao som dos grandes clássicos, para conversar sobre nossas últimas experiências. Maria representa a esperança, o sonho, a vontade de realização, e eu, a mente pesquisadora querendo lhe invadir a alma. Somos, ao mesmo tempo, o complemento e a diferença. Invejo a capacidade de Maria de começar, começar sempre. Comento com ela sobre o constante recomeço e ela explica que nunca recomeçou.

- Recomeçar significa zerar tudo e voltar atrás fazendo um novo início, mas o que já vivemos não é possível apagar. Então, estou sempre começando, com uma nova compreensão, outro olhar, outro ambiente.

Maria diz invejar em mim a capacidade de aceitar a vida sem que a luta signifique guerra, pela habilidade da eterna transformação do cotidiano em palavras. Conversamos sobre ética, sobre valores que, hoje, parecem não pautar mais o comportamento das pessoas.

- Em todas as camadas hierárquicas, a necessidade de sobrevivência tomou o lugar da ética e o ser humano não tem mais tempo de apreciar o outro lado da vida, comenta ela.

Já encontramos o cenário pronto quando chegamos para a vida, mas esse cenário não existe apenas para o passado e o presente. Ele está pronto, inclusive, para muitas das etapas futuras. Não é tão fácil como parece desvencilhar-se das tendências da massa e ter pensamento e luz próprios. Algumas situações são ainda mais constrangedoras, pois não adianta fazer a coisa certa, porque está estabelecida outra forma para a sobrevivência e convivência, que nos deixa com a sensação de sermos inadequados para o mundo. Comento então com Maria que a humanidade parece ter um ritmo, que não é necessariamente o nosso.

- Gente é gente, no oriente e no ocidente, e sempre terá que lidar com a dualidade de tudo que existe, procurando o equilíbrio e a sensatez. Mesmo aquele que tem a percepção mais limitada é chamado, em algum momento, a participar da vida, sem representar papel algum.
- É chamado, mas pode recusar o convite e continuar a sua vida dentro dos limites que se impôs, completa Maria.
- Não seja tão dura.

Assim, reconhecemos que passamos por períodos de transição, ela e eu. Percebemos o quanto somos resistentes às mudanças. No entanto, há um momento em que colocamos o passado e o futuro em um mesmo ponto: no presente.

- O tempo inibe a nossa arrogância, enquanto senhores do mundo, quando não permite ser palpável.
- Somos corajosas. (Risos). Olhamos em nossos espelhos sem tentar esconder nossos lados sombrios e arrancamos, sem titubear, as nossas máscaras.
- O mundo está aí, cheio de contrastes, mas podemos escolher de que lado viver, que papel representar e, nós escolhemos construir nosso ser e prepará-lo para buscar a serenidade.
- Humanas e falíveis. Erraremos ainda muitas vezes, mas sempre tentando acertar.

O tempo passou sem que percebêssemos. Emocionadas com o reencontro, com o elegante espaço que nos cercava, com a música envolvente, com a conversa intimista, fizemos um acordo: não nos abandonaremos outra vez.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Por causa de um brinco

Imagens : Yes or No, de Godward e The Painter Honeymoon, de Frederich Leighton


João está confuso. Por mais que não queira admitir, vive uma situação que lhe é estranha. Maria o desorganiza, atrapalha o correr simples da vida, não deixa passar detalhes, portanto, ocupa boa parte do seu pensamento. Ele ainda não sabe se isso é bom ou ruim. Sabe apenas que voltar para casa não significou o reencontro com a serenidade. A cabeça está recheada de questionamentos e dúvidas. Custa-lhe acreditar que Maria seja uma mulher madura, sensata, de sentimentos nobres, apesar das circunstâncias. O brinco pode ser uma evidência. Aborrece Maria, mas depois se culpa pelo equívoco. Justo com Maria que nada quer dele. Ela, por sua vez, compreende que tudo é novo, diferente, que João não tem outras informações para conhecê-la. Também ele está empenhado em buscá-la. Se para Maria, João é o presente maior, não tem certeza da sua significância para ele. Por isso, inicialmente, se aborrece. Precisam se conhecer melhor, dar espaço para a confiança.
No trato com seu anfitrião, Maria pôde perceber que João tem facilidade em fazer amigos, mostrando-se original, encantador e espontâneo, com boa dose de refinamento na arte de conviver. Diria mesmo que ele é pouco ortodoxo, com abertura para abraçar idéias progressistas. Diz-se simples, mas seus gostos são sofisticados. Humanista por natureza, João mostra-se dotado de lucidez e espírito positivo, daquele tipo que assume o comando com total naturalidade em qualquer situação.
Maria está encantada. Acostumada a homens frágeis, entrega-se ao seu poder de sedução. João é imbatível neste aspecto. Coloca nas coisas a pitada certa de humor. Algo, no entanto, intriga Maria. João lhe parece livre, aberto à mudanças, mas ela tem a certeza íntima que a vida dele se orienta por princípios bem definidos e fixos, ainda que a demanda pela liberdade seja constante. Ele fala, com verdade e despojamento, dos seus relacionamentos e nada passa despercebido para Maria que, mesmo envolvida, observa os mínimos detalhes. Pode, sem medo de errar, afirmar, que em questões de amor, ele é bem peculiar. Mesmo emocionalmente atraído por alguém, ele consegue romper um relacionamento, de repente. Sem grandes explicações. Os passatempos de João, os prazeres, os casos amorosos são marcados pela imprevisibilidade e excentricidade, haja vista que sua visão de sexo também não é nada convencional. Muito carinhoso, ele age com liberalidade, ignorando convenções religiosas e sociais.
Do ponto de vista social, pela frequência com que dá valor financeiro às coisas, Maria entendeu que, mentalmente, João aspira a glória, o prestígio social, as honrarias, o poder e a ascensão por meio da compreensão intelectual. Ele soube escolher o caminho certo. É um estudioso e sua visão da vida é otimista, segura e generosa.
Maria é dura. Conhece a si mesma como ninguém. Costuma entender as coisas pelo avesso. Percebe, lá no fundinho, traços semelhantes aos seus e uma agressividade bem disciplinada, submissa a um rígido autocontrole. Ela aprendeu, a duras penas, que fazer concessões demonstra força de caráter, e não fraqueza. Quer ser respeitada por sua maturidade e não se esconde. Age com espontaneidade e deixa vir à tona sua personalidade dinâmica, obstinada e batalhadora, que aborda as questões práticas com cautela. Ironicamente, Maria talvez seja, em relação a João, um pouco mais conservadora. Sua perspicácia lhe permite ver o essencial - o que sempre foi um trunfo em sua profissão - mas suas emoções estão divididas. Anseia pela aventura e pelo desconhecido. A chave está na habilidade de conciliação das duas tendências opostas: a busca do novo e o apego ao velho. Não julgaria João por causa de um brinco. O Ser habita águas mais profundas.

Com o coração apertado Maria se vê diante do homem que povoou seus sonhos e descobre que juntos, eles poderiam ter sido mais do que são separados. São pessoas fortes individualmente e a energia conjunta é brilhante. Maria está cheia de idéias e poderia se recolher por semanas, que a riqueza daquele encontro lhe inspiraria muitas páginas. Encontra uma afinidade de propósitos, que nunca encontrou em outra pessoa. Não é um relacionamento sexual apenas. Está diante de significativo amor, puro e verdadeiro, tão forte que foi capaz de promover aquele encontro insólito. A felicidade, na maioria das vezes, é equivocada. Está relacionada à aquisição de bens materiais, sucesso pessoal e profissional. Por isso, cada vez mais o ser humano clama por uma mudança interior, o vazio interno pede mais que palavras para ser preenchido. É no silêncio, quando as palavras se aquietam em nós, que conseguimos ouvir as vozes que vêm de dentro. No silêncio aprendemos como dissecar as nuances da nossa percepção, mesmo que elas nos pareçam vagas ou enigmáticas. O maior entrave é o medo que nos ronda, quando percebemos que este processo pode ser doloroso. Quando olhamos para nosso espelho, e vemos apenas reflexos. Quando nos deparamos com o vazio, trazemos ao campo da consciência essas forças contraditórias que nos desconsertam e nos fazem sofrer. Se por um lado nos causa sofrimento reconhecer que não somos absolutamente bons - nem maus -, a compreensão deste processo areja as nossas mentes e pode nos tornar agentes ativos na tarefa de descobrir a nós mesmos.
João! Prazer em (re)conhecê-lo!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tecendo os sonhos

Imagem de Goya


Há algum tempo Maria se dedicava a buscar nas coisas que escrevia o que sentia de verdade. Precisava mergulhar em si própria para distinguir o que era real e o que era ficção. Não podia se enganar, pois se sentia como uma juíza pronta para julgar, absolver ou condenar. Na busca de si mesma compreendeu que era fácil lhe dar absolvição, que era possível ser generosa consigo mesma e encontrar explicações para tudo que fosse insensato, impensado, incoerente e todos os outros ins possíveis.
Foi assim, como uma fetichista de si mesma, que ela passou a espreitar a vida e as inúmeras personagens que representava. Interessava-se pelo seu mundo, seus sentimentos, suas analogias, as histórias que contava. Maria não queria perder de vista a generosidade com que aceitava a si mesma e nem os motivos que a levaram àquela investigação projetiva. A aventura em sua alma, especialmente naquele instante, era como uma volta na montanha-russa, nunca viu tanto altos e baixos. Lembrou-se da primeira - e única - vez que havia subido em uma montanha-russa. Maria sentiu como se lhe faltasse o chão. Aliás, o chão já lhe faltava, mas sentiu sumir toda a segurança que a havia encorajado a uma experiência que não lhe era essencial. As intermináveis voltas, as subidas e descidas, os solavancos não a divertiam. Estava emocionalmente arrasada e fisicamente enjoada. Quando, finalmente, terminou o passeio macabro, Maria pôde colocar para fora tudo aquilo que sentiu e, sem se importar se seria papelão ou não, vomitou ali mesmo, no meio do parque e na frente de todo mundo.
Conhecer-se, no entanto, não é uma escolha, como é uma aventura na montanha-russa. É uma experiência essencial e de leitura difícil, que se faz acompanhar pelas próprias angústias, pela sua humanidade e sua crueldade. Quanto mais hermética tentava ser, mais transparente se tornava. Estava nauseada. Poderia até fazer um comparativo com a obra de Sartre, mas não era literatura ou filosofia que ela procurava entender. Queria a sua intimidade, mais próxima do conceito de amor-próprio defendido por Kant. Maria quer justificar o que lhe parece ser fora dos padrões, julgar a si mesma sem nenhuma generosidade, como seria julgada se ela estivesse no lugar da outra. A doutrina moral de Kant toma o amor-próprio como único princípio material da razão prática.O ideal de felicidade, como satisfação completa de todas as inclinações, deve reivindicar que é possível ser feliz sob condições empíricas. A situação imaginada é, porém, inconcebível, sem a suposição das circunstâncias externas. Por enquanto, nenhuma conclusão. O estado de ser feliz permanece indefinido na sua definição de felicidade. O tempo vivido a deixa à mercê dos sentimentos.
Maria está feliz. João também!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Mistério do Amor

Imagem: Anunciação, de Caravaggio


Maria entra no banheiro e chora escondida. É um sofrimento atroz e, mesmo sem culpas, ela não consegue se desvencilhar da sensação de impotência.
A história parecia ser a mesma, embora os tempos e os limites fossem outros. Os pesos da balança estavam em perfeito equilíbrio, mas existia o tempo, existia o espaço. Sempre esses dois fatores de limitação tentando impedir que sua alma alçasse voo.
Foram dias de alegria, de partilha, de intensa caminhada, de grandes descobertas, de entrega total. A harmonia entre ela e João não poderia encontrar nas palavras dos mortais uma simples definição. Seria preciso sentir, viver cada momento, ser cada movimento, para ter a compreensão do céu que ela havia experimentado. O paraíso só pode ser conquistado pelos puros de coração, pensa ela. Desde a juventude Maria buscou a sabedoria. Pediu a Deus por ela e decidiu procurá-la até o fim, seguindo as pegadas do amor com passos retos. Inclinou seus ouvidos para ouvir, e um Anjo apareceu para lhe sussurrar ensinamento abundante.
O domingo amanhece lindo. Conhece aquela missa, sabe que mexerá com suas emoções e com lembranças muito bem guardadas. Não sabe o que fazer para evitar que o passado lhe bata a porta e interrompa a magia e o encantamento com João. Está perdida em seus pensamentos. O tempo passa e com ele o horário da missa. Chegam ainda a tempo de ver a saída das irmandades, dos anjinhos, do cortejo de seminaristas. Maria engole a seco. Sofre. Deplora o que seus ouvidos também ouviram, seus olhos viram, sua percepção mostrou. Lamenta o desencontro. Prefere ouvir o Anjo - seu guardião interno - e se ajoelha em busca de conexão com Deus. Suas entranhas tremem ao dirigir-se a Ele.
- Desejei a sabedoria e a encontro na pureza. Afasto de mim a tristeza, não me deixo afligir com preocupações, quero apenas agradecer a Quem me concedeu sabedoria – reza Maria em estado de contrição. Não quero mais me privar de sentimentos que a minha alma tem sede. Também não posso confiar em caminhos que não têm obstáculos. Ah! Pai Poderoso aqueça meu coração, não quero causar dor, mas também não quero sentir. Eu amo João. Preciso de Luz, de discernimento.
E o Anjo, no seu pedestal de luz, inclina-se para mais uma vez sussurrar-lhe ao ouvido.
- Grave-o como um selo em seu coração, pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão.

Com o coração aquietado Maria deixa o banheiro. O nariz está vermelho, único vestígio das lágrimas que caíram um pouco antes. Lágrimas de amor, de compreensão, de saudade. Tem trabalho pela frente. Precisa se inspirar para o artigo da semana. Busca a Bíblia. Abre no Cântico dos Cânticos. O amor humano é espelho, sacramento e manifestação do próprio Deus, que se torna presente nos seres humanos que se amam.

Beijos

Beije-me com os beijos de sua boca!
Seus amores são melhores que o vinho,
O odor de seus perfumes é suave,
Seu nome é como óleo escorrendo,
E as donzelas se enamoram de você...
Arraste-me com você, corramos!
Leve-me, ó rei, aos seus aposentos,
E exultemos! Alegremo-nos em você!
Mais que ao vinho, celebremos seus amores!
Com razão se enamoram de você...
(Cântico dos Cânticos)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carta a João

Imagem: Madalena, de Caravaggio


Hoje acordei com vontade de continuar na cama, de deixar a imaginação passear livre e, quem sabe, entender tudo que me acontece por dentro. Preciso daquele cantinho só meu – o meu sanctum sanctorum – para conversar com Deus, pedir-lhe luz e clareza em meus pensamentos. Para subir aos céus é necessário um mínimo de silêncio e, ao que tudo indica, a programação cósmica para meu dia é outra. O trabalho – estou de férias – vem onde estou e me pede, além do tradicional das terças-feiras, mais três textos: duas apresentações de livros e uma apresentação de CD. Não é o que quero fazer. Não é o que gostaria de escrever. Estou em momento de interiorização, de questionamentos profundos, de acerto de contas comigo e com o tempo. Ainda não desisti de ser feliz, mesmo que essa felicidade chegue por caminhos tortuosos, por uma marginalidade branca. Não quero destruir nada, mas acredito que posso construir uma ponte paralela e ter uma vida alternativa, longe das preocupações diárias.
Mal começo a pesquisar para escrever sobre um importante escritor goiano o telefone toca. Havia esquecido que hoje é dia 15 e tenho que acompanhar uma prima que veio de longe em busca de tratamento espiritual para mieloma múltiplo. Sofro! Por vários motivos eu sofro, mas já há algum tempo entendi que não posso ser Deus na vida dos outros e cada um terá que ter sua própria experiência. Não há atalhos.
Os textos continuam por escrever, tenho pouco mais de duas horas para entregá-los (duas laudas e meia – não é muito), mas antes preciso me esvaziar. Sentei aqui para escrever o quê não sei. Escrevendo posso me ler e aumento a possibilidade de encontrar uma luz para minha angústia. Estou feliz, isto é certo e verdadeiro. O bloqueio é porque nos acostumamos a pensar que a felicidade tem que seguir um rito próprio, padronizado, criado por um monte de gente – alguns até bem intencionados – que nem sempre vivenciou esta intimidade consigo. No meu coração tudo está certo, porque se eu não sou nem o meu pensamento, sou menos ainda o pensamento social. Sou mais que meu pensamento, sou mais que minha percepção, sou mais que meu querer. Pronto. Estou em paz com a minha felicidade, posso senti-la sem culpa. Mas o que faço desta saudade que toma todo meu ser, meu sentir, meu pensar, meu querer? Nossa! Quanto meu, meu, meu. Acho que estou com medo de me perder de mim e estou buscando garantias. Sou humana, portanto, por mais que me esforce no desenvolvimento das virtudes, o egoísmo está presente. Que bela mentirosa eu seria se não admitisse para mim mesma que os possessivos não apareceram por acaso, mas que evidenciam meu estado de alma atual. Entendo que preciso agora me fixar em sentimentos nobres. Talvez, renúncia. Não a renúncia de ser, mas a renúncia dos moldes tradicionais. Descobrir, a cada momento, que o amor consegue romper os limites do tempo e do espaço. Posso fechar os olhos e encontrar você em algum lugar do imaginário. Volto então a ser Maria. Nossos olhares perdidos se encontram, nossas almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. A fascinação deste encontro é como um poema, sedução e paixão. Apenas sentimento e o som universal do piano que agora escuto, introduzindo a música Todo Sentimento.
Posso então voltar ao trabalho!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O horizonte é de esperança!

(Maria Madalena, Georges de La Tour)

Estou sempre tentando explicar, mas parece que as palavras são impotentes, porque nunca queremos pensar de forma contrária aos nossos desejos e a seleção natural dos nossos pensamentos é guiada apenas pelo princípio do prazer. Não sou dona da verdade, mas posso garantir que busco por ela em todas as minhas ações e pensamentos. Não tenho comigo a mesma generosidade que tenho com os outros. Tenho um código rígido de ética e nem posso ter a certeza que isso é um impulso natural e espontâneo, porque estou em constante vigilância. Não nego as minhas sombras, não me escondo do espelho e fico realmente preocupada quando, no relacionamento com as pessoas, começo a identificar apenas o lado negativo. Penso que por não fazer de mim uma estranha, há uma energia à minha volta que atua como ímã, atraindo pessoas de polaridades opostas, mas de mesma natureza que eu.
Ninguém pode avaliar o meu contentamento ao me saber amada e com toda a sensibilidade que tenho, tenho especial cuidado com aqueles que me amam. Sei diferenciar o falso do verdadeiro, sei diferenciar o amor gratuito do interesseiro, porque vejo tudo por reflexos. Todo mundo que me conhece bem, sabe que Maria é uma personagem, ainda que tenha semelhanças comigo. Claro, a não ser que seja um texto acadêmico - retifico: mesmo nos textos acadêmicos - as nossas expressões, começam pela percepção que temos das coisas e situações. Primeiro percebemos, depois essas impressões são impregnadas pela nossa compreensão e pelas nossas experiências. Saem como novas, ou saem como se fossem nossas. Por isso aqui não escrevo verdades absolutas. Até para rezar eu uso a expressão: “Deus do meu coração, Deus da minha compreensão”...
Apesar de todo cuidado, infalivelmente, as pessoas confundem Maria comigo. Ficção e realidade se misturam com o único desejo de proporcionar aos que me lêem um encontro consigo mesmo, momentos que facilitam a reflexão. Cada um que se encontra comigo de forma profunda, dá a sua contribuição para Maria. Cada um que me contesta com argumentos verdadeiros contribui para a construção de Maria. E isso sou eu também, mas é você, é ela, a outra, nós e eles. Como todo mundo, ela e eu queremos ser amadas. Agradecemos o amor. Diferente em tudo do sexo. Aceito os amores, mas sexo, ainda está em departamento reservado. Entretanto, Maria pode falar de sexo, fazer sexo, experimentar novidades no sexo, Maria não tem limites, não precisa ser coerente, pode ser uma personagem diferente em cada conto. Observem em “Maria e o tempo” e “Um encontro com o tempo”. As posturas são bem diferentes. O conteúdo é bem diferente.
Blog novo, um desejo interno de mudança, mas lá no fundo, a vontade de escrever sufocada pela atividade do dia a dia, que embora seja uma escrita constante, não abre espaço para a ficção. Com a mudança no ar, mas ainda ligada à Maria - a primeira nascida nos Segredos de Deméter -, embora mais crescida e madura, penso em abrir um pouco mais esse universo pessoal. Uma Maria mais atrevida, que deixa sua sensualidade vir à tona, supera a natural impaciência pela falta de surpresas. O olhar treinado para perscrutar almas mostram, a nós duas, que só podemos esperar por novas experiências se estivermos abertas a elas. Não sou mais anônima como no Segredos de Deméter. Tenho um rosto, um nome, um endereço conhecido. Aposto naquilo que conheço e a primeira atitude concreta é assumir cada palavra, cada pensamento, cada ato aqui registrado. Deixo para trás a timidez, mas vou continuar contando histórias.
Maria, definitivamente, não é uma pessoa, é o sentimento de todas as mulheres que pode ser encontrado nas mães, nas amantes, nas esposas, nas namoradas, nas trabalhadoras, nas prostitutas, nas homossexuais, nas executivas. O conflito interior, aos poucos, encontra o seu caminho. Nesta nova fase, é bem possível que o universo masculino também seja explorado pelo olhar de Maria. Essa lógica fria, calculista, que se contrapõe ao mundo moderno, no qual o homem está sendo chamado a mostrar um outro lado, mais sensível, mais intuitivo, mais emocional.
As gavetinhas cartesianas serão misturadas e as palavras certas hão de brotar. Todas as portas fechadas hão de se abrir. Caminho, ainda ruborizada, mas com rosto alegre, ardendo de amor. Sou envelhescente e esta é uma fase nova para mim. Velhice honrada não se mede pelo número de anos, nem pela quantidade de cabelos brancos, mas pela sabedoria que se acumula das lições que se aprende.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Impotência


O Julgamento de Eros e Psiquê - desconheço o autor

Impotência

Muitas vezes entrei em atrito com pessoas que amava por não conseguir explicar de maneira satisfatória o que penso a respeito do amor. E tive sim, muitas vezes, que arcar com o ônus de carregar a pesada cruz do amor, do idealismo, do sonho, da esperança. Reconheço-me humana e esta é a minha maior luta. É contra mim mesmo que se desencadeia a cada nascer do sol uma verdadeira batalha e tenho a consciência de que não sou diferente de ninguém por isso. Mais dia, menos dia, teremos todos que nos olhar no espelho e nos ver sem máscaras, sem dissimulações e, principalmente sem medo.

Quisera eu ser a dona da verdade. Quisera eu ter a certeza de que o caminho que trilho um dia vai me levar ao centro, à verdade absoluta do Ser. Reconheço-me caminhante, corajosa, guerreira, mas, tão longe da Verdade, embora a busque com toda a garra.
Salvar-me de mim mesma é uma guerra diária. Como poderia ter a prepotência de acreditar que poderia ajudar outra pessoa a se salvar de si mesma? Porque esta arrogância de pensar que porque vivi mais, necessariamente tenho que saber mais? Não conheço sequer a estrada onde tenho que andar. A minha própria história de vida é uma história de batalhas perdidas e ganhas.

Às vezes, ao observar os que estão chegando agora para a vida, sinto que poderia indicar alguns atalhos, mas logo percebo meu terrível engano. Dizem que os animais nunca caem duas vezes em um mesmo buraco, mas o ser humano, este sim, vai cair quantas vezes forem necessárias até que a lição seja apreendida. E cada um terá que ter a sua própria experiência. Há alguns que são mais sábios, apoderam-se da experiência alheia como se fosse uma lanterna para os guiar na escuridão. O conhecimento intelectual não nos livra de viver aquilo que temos que viver, mas só terá sentido se servir para clarear e ser um suporte nas vicissitudes da vida.

O que me dá a tranqüilidade de enfrentar dias difíceis é saber que esta não é a primeira vez, que a vida, assim como a natureza, obedece ciclos. Assim,o que hoje parece um infindável inverno, amanhã renasce com todo o esplendor da primavera. Gostaria de poder passar esse meu sentir a todos os que amo, mas sei que é impossível e daí, reconheço, no mais profundo sentido o que significa a impotência. É um querer fazer e não poder, é um querer mostrar e não conseguir, é um querer mover e, no entanto, permanecer estático. E nem mil livros podem mudar essa realidade.

Tudo isto faz parte do processo de envelhecimento. Na nossa cultura onde ter 50 anos já é ser velho, percebo que não me sinto assim. Tenho energia para tudo que ainda sonho em ser/fazer, o que realmente muda é a minha compreensão do que sou. Não sou onipotente! Não posso me sentir Deus na minha vida, nem dos meus filhos, nem na vida de ninguém. Não vou abandonar a luta, mas sei que é uma luta minha, contra mim mesma. Por ora, recolho-me à minha antiga e amiga solidão.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Envelhecer com dignidade


Envelhecer com dignidade

Agrada-me envelhecer... É como se cada ano
que passasse retirasse um véu dos meus olhos.
Reconhecer a dor, vibrar com a alegria,
sonhar com cada possibilidade,
VIVER a realidade.
Mas, o que mais me encanta é a serenidade.
É ter aprendido a perder ou a ganhar, sem
que isso tenha realmente valor em minha vida,
porque finalmente posso entender
que sempre se ganha.
Perco uma queda
de braço com a existência, mas nunca
perco a lição.
Encanta-me ser chamada de tia pelos amigos
dos meus filhos. Para ser honesta,
há um misto de prazer e
de divertimento quando alguém
desconhecido também me chama de tia,
ainda que a intenção dele
seja a de me xingar...
Só cheguei até aqui porque vivi.
Divirto-me com os donos do mundo, com
a lógica, com a competição dos jogos.
Ao envelhecer sinto que é mais fácil
compreender
os vencedores e os derrotados.
Cada ruga, ou cada fio de cabelo branco
conta uma história.
Todas válidas, reais, verdadeiras.
Gosto das marcas do meu corpo,
São provas de que realmente
EU EXISTO.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Reflexões sobre mim


Maria Madalena, desconheço o autor.


Hoje, lendo sobre o Ser Cósmico, vieram-me reflexões, não exatamente sobre o Ser, mas sobre o EU. Quem sou Eu, ou o que sou Eu. Tenho perguntas, mas não respostas. Há muito sei que não sou meu corpo. Seria Eu um Ser Humano? Isso me define? Coloca-me talvez em um grupo definido, vez que essa pode ser uma resposta para qualquer ser humano. O que me torna única? Que me faz Eu?
Penso... isso! Eu sou meu pensamento. Mas se respondo que sou meu pensamento, concluo que o pensamento ainda não sou Eu, tanto que digo meu pensamento, o pensamento exige um Eu para poder existir. É algo que se produz em mim.
Sinto! Eu digo, eu sinto! Serei então o meu sentimento? Também o sentimento precisa do Eu. A emoção é algo que acontece comigo ou em mim. Mas não sou Eu. Então sei que não sou meu pensamento e nem meu sentimento.
Percebo então que enveredo por questões profundas demais que não tenho bagagem suficiente para entender. Percebo. Serei Eu a minha percepção? Ainda não é uma resposta convincente. A percepção é algo que resulta da interação com aquilo que percebo.
Se não sou nem corpo, nem pensamento, nem sentimento, nem percepção, quem sou Eu afinal? Se não posso saber o que sou, não posso conhecer o que sou, só posso ser o que sou e concluir que essa é uma natureza que me transcende. Que faço hoje com meu existencialismo ateu?
Enquanto adepta de um existencialismo Sartreano, durante muitos anos, fiz questão de me sentir responsável por minhas escolhas. Nunca tive a quem culpar por nada do que me acontecia, fosse uma vitória ou um fracasso. Sempre me percebi na origem de tudo. Mas quem é o Eu que me percebia? Ou, o que é o Eu que me percebia? Existir é sentir, necessariamente, a angústia e o desespero. Existir não é ser, mas que sinto, neste momento angústia e desespero por não encontrar respostas, ah! isto eu sinto. E o que existe é finito, concreto, é algo... como o sentimento, como o pensamento, como o corpo, como a percepção. Se transcende eu fico travada. Parada no meio do caminho. Tenho medo do que há de vir, há de ser.
Parece que o ser humano vive melhor sem Deus. O Deus antropomórfico não me satisfaz, as religiões se apoderam de partes dele para manipular, aprisionar. Presa a uma essência volto a questionamentos que povoaram minha cabeça há mais de 20 anos. Em algum lugar deve estar o ponto. No centro do ponto.

domingo, 7 de novembro de 2010

Somente Hoje




Somente hoje

Hoje
Que os risos das crianças cessaram
Que o festivo badalar dos sinos foram esquecidos
Que mãos ansiosas buscaram o nada

Hoje
Que ando sem caminhar
Que turbilhão de ontens se misturam
Com indecisos amanhãs
Que vozes soam sem nada dizer

O hoje sem expressão
Bocas caladas e medrosas
Heróis sem medalhas
Olhares ardentes mortos no silêncio

Hoje
Retiro meus olhos
Dos sinaleiros da vida
Dos famintos deitados na avenida
E penso na flores...
Vejo então uma pétala caída
O sonho, a pétala
Eu, a Vida

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Entre o vazio e o nada



O Pensador, de Rodin

Não é exatamente um paraíso niilista, mas em minha alma hoje o vazio e o nada se encontram. Foi assim, sentindo-me despida de tudo que resolvi sair para encontrar alguns amigos. Há muito tempo estou reclusa, com relacionamentos apenas virtuais e, bem entendido, relacionamentos que não permitem nada que não seja público. É isso mesmo, não sou adepta dos masturbadores virtuais. Aliás, coloquei essa observação em um perfil e ganhei um amigo que já há sete anos bate longos e profundos papos comigo. Conversamos há sete anos e ele nunca mostrou a cara. Isso também cansa!
Voltando então ao meu vazio, enquanto me divertia deixei meu olhar se perder. Um rosto na multidão chama a minha atenção. O olhar insistente me dá abertura para um sorriso e não sei como começamos a conversar. Primeira conversa é um porre! Trocas de biografias. Para quem estava vazia, o saldo da noite foi bastante positivo. Temos um encontro marcado no mesmo horário e local na semana seguinte.
Essa reviravolta me traz as reflexões sobre o meu vazio. Parece-me ser esta uma condição que todos nós, mais dia, menos dia, acabamos enfrentando. Algo que emerge diante de situações peculiares e às vezes estressantes, como aqueles momentos que, imagino, antecede a morte. Diante de tantas perdas, começava a vivenciar algo novo. Voltava a ter curiosidade e simplesmente o nada preenchia meu vazio. Sentia-me novamente acolhida, abraçada, com vontade de percorrer o caminho que sempre me levou à transcendência do cotidiano.
O vazio e o nada se encontram em mim. Não existe relevância na situação, mas as perspectivas são como o beijo na bela adormecida. O cansaço se estampa em meu rosto, em minhas atitudes, na impaciência de acompanhar a rotina dos dias, dos trabalhos, das pessoas. Há que se perguntar a que tipo de sinal o vazio pode nos expor. Cabe unicamente a mim questionar se o despertar pode evoluir para sofrimentos psíquicos e alertar para uma compreensão , sem distorção, da realidade. Neste momento é importante, quem sabe esse encontro do vazio com o nada possa explicar meus transtornos alimentares, a ansiedade e a angústia.
A arte e a cultura sempre foram, para mim, campos para explorar e expor o vazio de forma simbólica. A dança, a pintura, o cinema, a literatura, o teatro me conduzem do vazio ao nada. O conflito só existe porque nesse caminho eu me perdi de mim. Vivi outras vidas, dei vida ao que morria, emprestei minha alma, afaguei o ego de príncipes que viraram sapos, impotentes, dissimulados, oportunistas. O casulo foi meu abrigo. Agora preciso voltar a pensar em novos vôos.