quarta-feira, 13 de maio de 2015

Praga: fui, não vi e gostei

Vitrais na Catedral de San Vito, de Alphonse Marie Mucha

Sexta-feira Santa. Chego cansada em Praga, com o pé esfolado de calo, mas cheia de expectativa. Todos com quem conversei antes da viagem elegiam Praga como a número 1. Cidade lotada de turistas que mal se podia andar. Até para tirar fotografia a gente não conseguia espaço. Para variar a campeã de turistas continuava sendo o Japão (ou Coréia, vai saber...) seguida pelo Brasil. Encontrar gente do país da gente já é uma farra, do mesmo Estado já é coincidência, mas o que dizer quando se encontra turista da mesma cidade e ainda amigo? Pois bem, em Praga, isso aconteceu.
Sou apaixonada em cristais e nesse aspecto Praga superou minhas expectativas. Um espetáculo inesquecível para os olhos. Desde as peças em miniaturas, extremamente mimosas e delicadas, às peças imensas e requintadas que exigiriam, no mínimo, um palácio para colocá-las. Os preços, se comparados ao Brasil, muito baratos, mas ainda assim caros. Afinal, são cristais da Bohemia. Há de se convir que transportar essas peças para quem não vai comercializá-las é comprar dor de cabeça e preocupação. Então é melhor esquecer a posse e se fixar na admiração. Impregnar os olhos com a beleza, o brilho e o tilintar dos cristais.
Rudolf von Alt "Brückenturm auf der Kleinseite in Prag-1843
Achei que só eu estava cansada, mas a turma chegou ao hotel e apagou. Durante o dia tínhamos visto na feirinha uma barraca (lotada por sinal) assando um pernil e o cheiro ficou guardado, aguçando o apetite. Saímos meu irmão e eu para comer e ao chegarmos à pracinha – já perfeitamente limpa – a barraca ainda estava lá. E caímos com vontade nesse presunto suculento. Para nossa decepção, só suculento e gostoso na primeira mordida. Num instante está gelado e a porção é tão grande que comê-la toda é uma batalha entre a gula e a sensatez. Não pude deixar de lembrar de minha avó, que quando se via diante de um prato grande, ao terminá-lo, suspirava e dizia: “Venci!”. Foi assim conosco!  Aprendemos a lição de que em terra fria não se come ao ar livre. Enquanto comíamos, fiquei vigiando as horas. De onde estávamos dava para ver um relógio lateral. Detalhe: o relógio estava cinco minutos atrasado em relação ao Relógio Astronômico. Não deu para ver. Bom, ainda teríamos dois dias em Praga e de hora em hora o relógio dava seu show. Veria outra hora, outro dia. Nem preciso voltar ao assunto porque não vi o relógio funcionando dia nenhum.
A visita ao Castelo de Praga me fez vivenciar alguma coisa que já escrevi por aqui, algo como o importante é a jornada e não o destino. A travessia na Ponte foi tumultuada, as ondas de gente lhe carregavam e o que era esperado aconteceu: o grupo acabou se perdendo, ou melhor, se dividindo em dois. Eu era a “ímpar” e desta vez fiquei com a Adélia e o Marcelo. Essa nossa ‘miguinha’, por sinal, recebeu o título de Miss Simpatia. Alegre, espontânea e disposta coloria nossos passeios com seu entusiasmo.  Emocionei-me em uma capela que entramos. Não sei como o Marcelo a descobriu. Do lado de fora era apenas uma portinha. Sentei, rezei, chorei, agradeci. Uma subida longa até o Castelo nos esperava. Além dos calos (agora incomodando pouco por causa do band aid), a questão do joelho e do tornozelo, cujas dores me acompanham desde o tratamento do câncer, era preocupante. Subimos rindo, conversando, fotografando, parando, perguntando preços, que nem percebemos quando chegamos lá em cima.
Bom, estava combinado que se perdêssemos no mar de gente nos encontraríamos todos lá. É, mas isso parece que não ficou bem explicado. Marcelo saiu para procurar os outros dois e desapareceu. Quando os outros dois apareceram, já tinham entrado no castelo e na Catedral de San Vito. Pelo celular ficamos sabendo que o Marcelo estava em uma torre de metal filmando e que se encontraria conosco no hotel. Só então Adélia e eu entramos no castelo e já nos sentindo desanimadas. Desânimo maior ainda quando vimos a fila para entrar na Catedral. E eu queria muito entrar e ver os vitrais de Alphonse Marie Mucha. Esse artista tcheco tem ilustrado muitas das minhas histórias, em especial, com suas Quatro Estações. Adélia compartilha comigo o desânimo. Fazemos algumas fotos ali fora mesmo. Apreciamos a arquitetura externa e demos a Catedral como vista. Estamos pensando mesmo é no chocolate quente no pé do morro.
Mais tarde resolvo sair sozinha e comprar petiscos para a viagem de trem no dia seguinte. Entro no supermercado pego umas barras de chocolate e umas caixas de batata frita, pago, e quando estou saindo, a coisa apita de novo. O rapaz do caixa me olha e faz sinal para eu andar, sair. Ufa! Nem de bolsa eu estava. Dessa vez não me senti nem um pouco constrangida, apesar de que na hora achei estranho o raio ter caído duas vezes no mesmo lugar. Volto para o hotel ouvindo uma moça americana (a julgar pelo sotaque) que canta na rua Wave.
A cidade das cem cúpulas estava vista.


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