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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Preciso de mudanças!

Springs, de Henri Houben
A mudança está no ar,  Maria não sabe o que a espera pela frente. Mais crescida e madura, reluta em abrir seu universo pessoal. Não há nada de novo sobre a Terra e o que Maria pode esperar é por experiências que lhe mostrem outros aspectos da vida que está aí, desde que o mundo é mundo. Está tudo aí. Ela só precisa ver, mas não sabe o quê. Há um certo cansaço em suas palavras, uma certa impaciência pela falta de surpresas. Seu coração está endurecido como uma pedra. Questiona tudo, Deus, trabalho, sentimentos, valores.

Bem, não sei qual é o rumo que Maria vai tomar, mas eu vou continuar contando histórias. Minhas Marias, personagens reais ou fictícias, sempre passam mesmo pela minha observação e compreensão. Neste sentido, o horizonte é de esperança.  Assim como Jeconias, rei de Judá, quando foi anistiado pelo rei da Babilônia, espero que Maria tire parte das suas roupas de prisioneira para tentar alçar novos voos.  Ela envelhece antes de mim. Vai sempre na frente em suas experiências e agora que é legalmente idosa mistura mais uma vez suas gavetinhas cartesianas em busca de novas combinações para uma velhice honrada. Todas as portas fechadas hão de se abrir. Caminha ainda ruborizada, mas com rosto alegre, enquanto eu, a seu lado, observo cada detalhe de sua transformação para traduzir em palavras. Nada fácil observar o essencial e traduzir a essência, mesmo com o olhar treinado para perscrutar almas humanas.  

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Apenas moinhos de vento

Maria se emociona ao ver aquela paisagem pela primeira vez. Tudo lhe parece familiar, afinal passara parte de sua vida tendo a fantasia como ferramenta de trabalho e, naquele instante, o que lhe vem à mente é o mito quixotesco que permeou sua literatura. Lutou sim com enormes e cruéis gigantes que, ao final, se transformaram em moinhos de vento, só mesmo para lhe roubar a glória da vitória. E como Quixote, sua luta sempre foi solitária. Arremessou-se sozinha contra todos. Ganhou batalhas em números idênticos às que foi derrotada. Tornou-se mestra em oximoros, em aproximar sentimentos antagônicos, em rir da dor e chorar de alegria. Apostou suas fichas na vizinhança do impossível. Mas viu moinhos se transformarem em gigantes e era isso o que importava. 
Se a luta contra moinhos de ventos é o paradigma da luta inútil, Maria, finalmente, encontrava seu caminho e assumia sua fantasia. Qual era sua alucinação naquele momento? O medo de viver ou de morrer? Entendia profundamente a ficção e a realidade, mas a ela não importava a inutilidade, desde que a entendesse como necessária para seu desejo e, portanto, necessária para o mundo. De suas fantasias alicerçou a ponte para a realidade e pavimentou a realidade com fantasia. A vida lhe pareceu mais suportável. Naquele momento Maria não apenas realizava uma de suas inúmeras viagens imaginárias e fantásticas,  também pincelava de realidade o que um dia não passou de alucinação. 



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Assim mesmo eu costuro

La jeune ouvriere, de Willian Bouguereau
Enquanto remenda as roupas Maria se entrega a seus pensamentos. Seria tão bom se pudesse remendar também sua vida. Algumas costuras ficaram frouxas precisando de um nó mais apertado para que não se desfizessem com o passar do tempo. Velhas e rotas, seus andrajos colam em seu corpo,  seguem-na, perseguem-na, roubam-lhe a liberdade. No silêncio de seus pensamentos busca respostas, caminhos, soluções e a certeza de felicidade possível. Para reaprender a viver terá que romper velhos hábitos, renovar ideias, buscar esse fenômeno catalisador já que o corpo não se renova.
Mergulhada em seus pensamentos enquanto costura, cada nó antecede uma sequência de pontos, assim como as indagações que faz. As vivências, as observações, o estudo, forma seu pensamento, mas naquele momento, a vida real passa pela linha e pela agulha.  Costurar é isso.  Decifrar pensamentos e observações, expressar-se na delicadeza ou firmeza dos pontos, vivenciar o silêncio da atividade e também ouvir e identificar as milhares de vozes e a calar outras. Isso dá conteúdo ao seu trabalho. Nem carne quebrada, nem nervo rendido, apenas o ato de coser para estimular o pensamento.
Trilhar o mundo interior é uma experiência que exige equilíbrio, compreensão. Nem tudo é brilhante e muitas vezes Maria se vê obrigada a lidar com as sombras, com suas sombras. Busca a luz para passar a linha na agulha, busca a luz para encontrar a direção na vida, porque há caminhos que brilham mais, exercem maior fascínio e a tendência natural é que a de se deixar levar pelo que dá mais prazer, como na hora de escolher uma agulha grossa que não dará a perfeição no remendo, mas facilitará o processo. Maria é humana, simplesmente humana e é na convivência consigo mesmo que ela provoca perguntas que não encontram respostas, a menos que haja um firme propósito de disciplinar-se, de aprender com a própria imperfeição. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Paris no túnel do tempo



Evening Beauty, de Mark Spain


Olhando aquele cenário diferente, cheio de histórias e rico em detalhes arquitetônicos, Maria se vê, de repente, lembrando conteúdos que preencheram suas primeiras incursões na alma humana. Não vai se encontrar com Ernest Hemingway, Proust,  Cole Porter, Luis Bruñuel, ou Picasso, ou mesmo Sartre, mas espera por aquela sensação nostálgica que a inspire e a encoraje a escrever, mesmo em relação àquilo que não viveu.

Toda cidade tem suas peculiaridades humanas, aquelas que podem até ser integradas às paisagens, mas estão intrinsecamente ligadas ao comportamento humano. Algumas são típicas de determinadas personagens. Lembro-me, da minha infância, de Judith, que inaugurou o bundaço como protesto e rebeldia aos padrões da época. Mal imaginava ela que um dia isso seria moda. Mas em minha cidade de origem havia outras figuras diferentes, como as minhas xarás “Maria Taquara” e Maria Bobó. A primeira se vestia de homem, desafiava os padrões sociais.  A segunda, mais ingênua e mais coquete,  se enfeitava com laços coloridos de papel crepom para acompanhar as procissões. Aqui em Goiás uma dessas excêntricas personalidades virou boneca: Maria Grampinho, que assim como Mari Bobó gostava de se apresentar bonita e prendia seus cabelos rebeldes com inúmeros grampinhos.

Mas não são só as Marias, as cidades também têm Joãos e Pedros que se destacam por sua singularidade. Em meu setor, João não escapava da observação de minha avó e chegava a lhe arrancar sorrisos. João conta os passos, mas sempre se esquece no meio da contagem, então ele volta atrás – certamente de onde imagina que perdeu os números – e começa tudo de novo. Então, observar a caminhada de João é como assistir a uma dança diferente, não apenas pelo gingado que impõe ao seu corpo, mas pelos volteios, giros e “promenades”.


É. Maria foi buscar a Paris que inspira e encanta e isso é meio surreal, não se mede por números de passos dados, mas por uma contagem interna que certamente terá, muitas vezes, que ser retomada. Não há possibilidade real de se viver outra época, sem que esta se torne também uma prisão. E nas prisões, a criatividade se esgota. Talvez por isso Maria tenha buscado suas primeiras referências, para conhecer a Paris, que como ela, vive de suas histórias. Ao mesmo tempo, usa seu olhar e abertura de alma para deixar o novo entrar. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Coração em festa

James Shannon
Ainda é primavera no coração de Maria. As manhãs são sempre barulhentas. Gorgeios de pássaros e cigarras começam muito cedo. No ar o cheiro de flores toma conta do ambiente. A cidade se veste inteira de flamboyants e bougainvilles de coloridos vivos. Os canteiros das avenidas readquirem seu verde intenso e se enfeitam de sempre-vivas, margaridas, azaléias, campânulas, petúnias e flores típicas do cerrado. Um brinde aos olhos do caminhante desatento. Não é possível ignorar tanta beleza.

Naquela praça,  naquele ponto perdido em algum lugar do espaço, as diferenças não mais existem. Não existe velho, nem novo. Não existe feio ou bonito, não existe perto nem longe. Apenas o mar de sentimentos tão intensos e imenso quanto o tempo que os separou. Nesse instante mágico são apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito e celebrando a vida, o renascimento, o reencontro.

terça-feira, 15 de março de 2011

Que venha o outono

Imagem: The Leaf, Elizabeth Forbes (1897-1898).


Foram dias sofridos, marcados pela dúvida. Maria não consegue sequer escrever, perdida no emaranhado dos seus pensamentos. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que ela só consegue fechar os olhos e pedir a Deus que lhe dê discernimento. Está visivelmente em seu limite e, por mais que procure, não consegue encontrar uma área da sua vida que esteja realmente serena. Trabalho, família, amor, tudo tem uma marca de angústia, tudo está em compasso de espera. Não consegue ler também. Uma rápida passada em frente à TV arranca-lhe lágrimas doloridas: chora por ela, chora pelas notícias, chora pelo Japão, chora pela humanidade. Acostumada a percorrer os labirintos da alma humana, Maria se vê, mais uma vez, diante de si mesma, precisando lidar com conceitos de moral, de lealdade, e, infalivelmente, com a verdade. Pensa em conversar com João, quem sabe aqueles detalhes reveladores, escondidos nas justificativas, venham à tona. É complicado falar das fraquezas do ser humano sem resvalar-se nos próprios reflexos e Maria parte do princípio que só identifica nos outros aquilo que tem nela mesma.
– Posso sair na frente, admitindo os meus erros, pensa ela.
Ledo engano. Maria não consegue conversar com João. Ele desvia o assunto para amenidades e a faz parecer uma pessoa complicada, daquelas que criam chifres em cabeça de cavalo. Pela primeira vez Maria o acha vaidoso. Ela também seria vaidosa? Onde e o quê é que estava “pegando”? Porquê não conseguiam se entender? Era evidente que o bloqueio não era apenas dele. Maria estava em um turbilhão de pensamentos e João deu a pista com um simples comentário.
– Para mim está tudo bem, mas você está recebendo pouco de mim e isso não a está deixando satisfeita. Por isso está angustiada.
– Não é apenas isso, responde ela, a verdade bate na minha cara. Fico procurando defeitos em você para justificar minha desistência, mas acabo os encontrando em mim mesma. Há pouco, achei-o vaidoso, mas mesmo a vaidade tem dois lados. Vista de forma positiva é autoestima, de forma negativa é orgulho. E neste momento, nós dois, vaidosos, nos colocamos em lados opostos.
– Minha Vida, não complique as coisas. Vamos levar as coisas com serenidade, vivendo o que nos é permitido viver e com a alegria que marcou nossos primeiros encontros. Aos poucos, vou me acostumando às suas alfinetadas. Tento entender que a sua crítica afiada não tem o sentido de denegrir a mim, mas é uma máscara que você usa para compensar a carência, a sensação de desamparo. Eu também me sinto carente, talvez não da mesma forma que você. Minha solidão é outra. Meu silêncio grita e delata outras situações.
Fragilidade e impotência estão presentes em todos nós. O outono está próximo, o sol radiante depois das pancadas de chuva será mais raro e, aos poucos, o que hoje é verde dará lugar ao alaranjado, com matizes em musgo e marrom. Maria se sente contagiada, desde já, pelo ciclo da natureza. Está no outono da sua vida. Na natureza isto significa o tempo de preparo para enfrentar dias frios e sombrios. Na vida também. Humana que é, sabe que terá que se equilibrar nas estações da existência e ser capaz de enxergar o belo no escuro e decodificar, pela linguagem da arte, a cultura da sombra.
– Tenho pressa de viver.
O tempo que tenho pela frente é precursor de horrores e não posso deixar que mágoas e raivas sejam interiorizadas e expressas em detrimento da harmonia do cotidiano, conclui Maria. Em sua maneira de simplificar as coisas, em amenizar – melhor dizendo –, João lhe mostrou ser capaz de abrir caminhos alternativos que lhe permitem trafegar em todos os reinos físicos e psicológicos, com maturidade interna. Maria entende que o ser humano não pode ser aprisionado por estereótipos porque é livre para agir e reagir. Não há regras fixas de comportamento, mas Maria pauta sua vida no bem coletivo. Quando o assunto é a emoção, o comportamento humano não se enquadra em nenhuma expressão matemática de resultado exato. Na nossa cultura, em que o novo e o descartável são supervalorizados, a serenidade madura ocupa outro espaço. De novo, Maria tem a oportunidade de exercitar sua habilidade em trafegar entre o novo e o antigo, entre o moderno e o tradicional, entre o maleável e o estratificado. Se por um lado, inventamos mecanismos para facilitar nossa sobrevivência, inventamos também a arte, um instrumento para alimentar o espírito, para nos distrair de um mundo duro e chato. Pela sua escrita, Maria se propõe a ir além do humano e criar o encontro entre o sutil e o belo. É verdade que o momento tende ao cinza, mas o importante é entender que o sentimento do outono não está, necessariamente, ligado ao declínio, mas ao sentido e ao significado que se percebe com o olhar experiente. Parabéns João! A sabedoria pode ser bem mais simples que imaginamos.

domingo, 13 de março de 2011

A guerra de Maria

Imagem: autor desconhecido

-Repete se for macho.
-Bêbado!! E ainda grita o nome bem alto para todo mundo ouvir!
-Seu burro, covarde, cretino, imbecil!, grita João jogando a mochila em Carlinhos. Poderia ser uma briga comum entre crianças, mas as ofensas eram típicas de gente grande. De longe, Maria observa as crianças em silêncio. Pensa em intervir. Aliás, no seu íntimo, pensa que só vai interferir na briga se João estiver apanhando. Enquanto ele estiver batendo, Maria se sente, de alguma forma, vingada. Nada a ver com aquela história, mas a cena a remete à única vez em que rolara na rua batendo (e apanhando) em uma colega de escola. A cena, hoje, permite análise diferente da que fez quando menina. A bebida fez parte de sua infância, de sua adolescência, de sua vida madura, de sua primeira gravidez, de seu primeiro divórcio. Era um fardo pesado demais para ser carregado, até entender que o problema estava única e exclusivamente nela. Ninguém precisava sofrer tanto por tão pouco. Ela sofria. Sua autoestima ia ao chão, como se fosse ela a se arrastar com a bebida. Desvencilhar-se desse sentimento de menos-valia não foi fácil. Entender-se como pessoa independente dessas circunstâncias foi verdadeira guerra interior. Mas conseguiu.
A liberdade significava para ela, nesse instante, o resgate de pessoas muito queridas, muito amadas, que acima de tudo precisavam ser compreendidas e respeitadas. Foi preciso sofrer para conseguir sair de seu mundinho e perceber que existiam outras pessoas no universo, com sentimentos tão contraditórios como os dela. Que travavam lutas diárias, assim como ela, para conseguir percorrer seus próprios labirintos. Umas precisavam de muletas como a bebida, outras usavam drogas, outras usavam desculpas socialmente mais aceitas. No fundo era tudo a mesma coisa.
O ser humano cria mecanismos de defesa, procura justificativas para suas atitudes e, na maioria das vezes, é complacente consigo mesmo. O autoenfrentamento é sinal de coragem, mas os mais conflituados são aqueles que mais se buscam. Maria havia aprendido a lidar com gente assim em grupos de apoio a pessoas com depressão. Aprendeu a amar o ser humano, embora reconhecesse em muitos a maldade programada e consciente. Tinha pena desses.
Maria não sabe exatamente quanto tempo durou suas reflexões. Os gritos das crianças a tiram do alheamento e a colocam de volta à realidade. Os dois meninos estão rolando no chão. Não dá para saber quem está ganhando a briga. Naquele momento, Maria entende que são apenas duas crianças aprendendo a viver como os adultos. O que ela está fazendo ali que nada faz para mostrar que o mundo não é apenas essa m... que aparenta ser? Percebe que de novo andou dando voltas em torno de seu próprio umbigo. Sente as lágrimas correr em seu rosto e vai ao encontro dos garotos. Separa os dois, espanta a platéia, leva-os para lavar as mãos, secar as lágrimas, fazer as pazes e os convida para, juntos, tomar sorvete.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Tudo em mim dói

Imagens: Goodward

Como previsto, Maria se encontra com a dor, mas o amor não se altera com o passar das horas ou das semanas, nem se deixa estremecer diante das tempestades, ou se curva diante das forças contrárias. A impressão que Maria tem é que tanto faz se começou ontem ou há mil anos. Nem ela, nem João, são servos do tempo, embora vítimas. Hoje eles sabem muito mais um do outro, estão juntos, por isso é difícil dizer adeus e perder tudo que viveram. Maria e eu marcamos então um encontro para, mais uma vez, buscar explicações, porque é cansativo viver sem vírgulas. Maria respira a existência de João 24 horas por dia e só coloca mesmo pausas teatrais para que ele não enjoe dela. O desejo era bem outro. Queria esquecer o relógio.
Encontro-a com desarranjo intestinal, olheiras bem marcadas, inapetente e com fortes dores no peito. A tristeza é visível em seu olhar e, justamente nesse dia, ela terá que gravar um programa para a televisão. Não quer ser delatada. Chora escondida, e para não ceder ao desejo, desliga até o celular. Voltará a ligá-lo no final da tarde. Ainda não está pronta para a separação. Seria tão mais fácil se estivesse desiludida, decepcionada com João, mas não é nada disso. Mais do que nunca ela admira João, e amor para Maria começa com a admiração, que desperta o respeito e desencadeia uma série de sentimentos bons e verdadeiros. João é paradoxo. É, ao mesmo tempo, simples e sofisticado, velho e menino, rei e escravo, alegre e triste (aqueles olhos não a enganavam). João é como um pássaro cativo, seu gorjeio preenche o coração de Maria. João também é de barro, está sem tempo reformando a casa da esperança. João é como o santo, acende a fogueira do seu coração. Maria ama João. Sempre o amou. Mesmo sem toques, sem proximidade física, sem poder, sequer, validar se a sua imaginação é semelhante à realidade. Maria perde o brilho do ouro. Sente a dor íntima e inconfessável de ter sido enganada pelos próprios critérios. Está revoltada com a mediocridade da sua vida e se promete mudanças.
 - É verdade, Maria, mas antes é necessário conter seu espírito impulsivo, manter a calma, cultivar a paciência. Não se esqueça que está no sétimo período! Destruir para construir depois. Caos total! Procure manter a serenidade, sem querer precipitar o que pensa que será o fim.
 - Eu não imaginava que resgatar João, na memória e na vida, significaria um exercício de transcendência do amor. Foram novas emoções. Agora preciso esquecer. Foi um sopro de vida. Eu queria me sentir bonita de novo. Iniciei uma dieta, até batom tenho usado, reclama, sentindo pena de si mesma.
 - Querida, você despertou a mulher que insistiu em enterrar, na esperança de não sofrer mais. Viver é isso mesmo: expor-se às emoções, aos sentimentos, aos desejos. A Maria que conheço encontrou um porto seguro para desembarcar com sua bagagem poética. Isso é muito bom, não deixe acabar. Faça de João apenas o estopim para sua explosão criativa.
 - Ah se fosse assim tão fácil... Enquanto só amei João, ele era realmente minha fonte de inspiração. Fui longe, eu o toquei, fui tocada. O cheiro de sua pele ainda está entranhado em mim. Eu o desejo. Estou viva, apaixonada, com sede de afagos e beijos. Contida, é verdade, mas dentro sou barril de pólvora.
 Maria percebe que, desde que optou por colocar João como homem em sua vida, seus hormônios parecem descontrolados. Ela é mais olhada. Às vezes ouve algum comentário sobre o brilho dos seus olhos, ou sobre a sensualidade da sua cruzada de pernas. Observações sempre muito discretas, ainda que galanteadoras, porque há muito Maria criou muralhas que a separavam dos desejos comuns. Tudo isso coloca em erupção o vulcão que tem dentro.
A noite foi longa e fria. Maria não conseguiu dormir. Rolava na cama à procura de João. As imagens do sonho se misturavam aos ecos da realidade. Maria acorda cansada. Olha com desânimo o chuveiro, ainda sente frio. Com a alma em frangalhos espera notícias de João. Ele resolveu quebrar o silêncio. Maria bebe palavra por palavra, enquanto grossas lágrimas lhe escorrem pelo rosto sem maquiagem alguma. A cada frase, mais dor! Uma dor que se mistura à ira, ao amor irrealizado, à vergonha de ainda continuar querendo, ao desejo de se entregar a um amor proibido. Terá que conviver com suas sombras. Nem Deus poderá livrá-la de seus pecados, mas como confessá-los? Há um vazio enorme em tudo que Maria olha. Ela fecha os olhos num gesto de fuga de tudo que a cerca. Sozinha, na escuridão que sua alma se encontra, ela se deixa levar pelos caminhos do inconsciente. São vários os porões da sua alma.
 - Ah! João, quanta falta você me faz!, suspira conformada.
João deve estar agora buscando sua paz em meio ao verde, aos sons da água viva dos rios e cachoeiras. Maria experimenta, conscientemente, sentimentos pouco nobres. Sabe agora o que é a inveja. Sente profunda inveja da mulher que tem a propriedade de João. Da inveja ao ciúme, o movimento é menor que o de um peão no jogo de xadrez. Pássaros, anjos, músicas das esferas, nada disso tem importância. Maria vive um inferno. Não tem a alma de João e nem seu corpo. Terá que se contentar com migalhas de um amor que nunca será seu. Maria está mais só do que nunca.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Maria e eu

Imagem de Tolouse Lautrec


Nem todos os dias amanhecem com sol radiante, com algazarras de pássaros, música no ar. A Natureza também obedece a seus ciclos e faz chover, escurecer, calar os bons sons. Troveja lá fora e em mim. As janelas estão fechadas para a tempestade e dentro de mim também. Não vejo o relâmpago lá fora e, em mim faltam lampejos de luz. O dia amanheceu triste. Para mim e para Maria.
Encontro Maria no saguão da Igreja, após a missa. Acontece ali uma apresentação da orquestra de câmara. Sentamo-nos a um canto, embaladas ao som dos grandes clássicos, para conversar sobre nossas últimas experiências. Maria representa a esperança, o sonho, a vontade de realização, e eu, a mente pesquisadora querendo lhe invadir a alma. Somos, ao mesmo tempo, o complemento e a diferença. Invejo a capacidade de Maria de começar, começar sempre. Comento com ela sobre o constante recomeço e ela explica que nunca recomeçou.

- Recomeçar significa zerar tudo e voltar atrás fazendo um novo início, mas o que já vivemos não é possível apagar. Então, estou sempre começando, com uma nova compreensão, outro olhar, outro ambiente.

Maria diz invejar em mim a capacidade de aceitar a vida sem que a luta signifique guerra, pela habilidade da eterna transformação do cotidiano em palavras. Conversamos sobre ética, sobre valores que, hoje, parecem não pautar mais o comportamento das pessoas.

- Em todas as camadas hierárquicas, a necessidade de sobrevivência tomou o lugar da ética e o ser humano não tem mais tempo de apreciar o outro lado da vida, comenta ela.

Já encontramos o cenário pronto quando chegamos para a vida, mas esse cenário não existe apenas para o passado e o presente. Ele está pronto, inclusive, para muitas das etapas futuras. Não é tão fácil como parece desvencilhar-se das tendências da massa e ter pensamento e luz próprios. Algumas situações são ainda mais constrangedoras, pois não adianta fazer a coisa certa, porque está estabelecida outra forma para a sobrevivência e convivência, que nos deixa com a sensação de sermos inadequados para o mundo. Comento então com Maria que a humanidade parece ter um ritmo, que não é necessariamente o nosso.

- Gente é gente, no oriente e no ocidente, e sempre terá que lidar com a dualidade de tudo que existe, procurando o equilíbrio e a sensatez. Mesmo aquele que tem a percepção mais limitada é chamado, em algum momento, a participar da vida, sem representar papel algum.
- É chamado, mas pode recusar o convite e continuar a sua vida dentro dos limites que se impôs, completa Maria.
- Não seja tão dura.

Assim, reconhecemos que passamos por períodos de transição, ela e eu. Percebemos o quanto somos resistentes às mudanças. No entanto, há um momento em que colocamos o passado e o futuro em um mesmo ponto: no presente.

- O tempo inibe a nossa arrogância, enquanto senhores do mundo, quando não permite ser palpável.
- Somos corajosas. (Risos). Olhamos em nossos espelhos sem tentar esconder nossos lados sombrios e arrancamos, sem titubear, as nossas máscaras.
- O mundo está aí, cheio de contrastes, mas podemos escolher de que lado viver, que papel representar e, nós escolhemos construir nosso ser e prepará-lo para buscar a serenidade.
- Humanas e falíveis. Erraremos ainda muitas vezes, mas sempre tentando acertar.

O tempo passou sem que percebêssemos. Emocionadas com o reencontro, com o elegante espaço que nos cercava, com a música envolvente, com a conversa intimista, fizemos um acordo: não nos abandonaremos outra vez.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Intimamente intenso

Imagens de John William Godward


Mal os primeiros raios da manhã despontam no horizonte e Maria acorda. Bem antes do horário habitual. Está especialmente triste. Especial usado aqui, como João sempre frisa, no sentido de ter alguma significação, de levar coisas boas. Ainda que seja muito especial, é uma tristeza. Profunda. Maria tenta passear por seus labirintos mentais à procura dos reais motivos. Seu corpo chora com saudade. Sua alma pede alimento. Pensa que precisa comprar dois livros para presentear João: O Amor nos Tempos do Cólera, de García Marquez, e Auto de Fé, de Elias Canetti. Levanta-se com a firme idéia de pedir pela internet e mandar entregar no endereço dele. Já ao computador lembra-se que não tem o endereço. Precisa esperar. O tempo de espera começa então a produzir seus questionamentos. O tempo chega para todo mundo e quando amadurecemos adquirimos a sabedoria de nos recolhermos. A cada recolhimento, a quietude interior nos proporciona reflexões, acolhimento e a sensação de uma solidão amiga. Aprendemos a chorar as dores das perdas, a mágoa, o desengano e infalivelmente aprendemos a contar os nossos dias com o coração mais sábio.
Maria não sabe se vai comprar os livros. Talvez o momento seja adequado para uma releitura, e isto também será um desafio para ela. Sempre ávida por leitura, indisciplinada – não gosta de parar quando começa – nunca achou sentido no retorno a um mesmo livro, a não ser que fosse para pesquisa. Certamente este era momento de pesquisa de si mesma, seus valores, suas dúvidas e suas certezas.
A improdutividade do dia anterior a deixava com sentimento de culpa, principalmente em relação a João. Ela o atrapalhava. Do mesmo modo, a presença distante dele também a perturbava. Precisava colocar as emoções no lugar, reequilibrar-se, mas não sabia como fazer isso sem quebrar a aura de sonho. Não apenas ouvir as palavras, as entonações, mas ouvir as pausas, os intervalos silenciosos, como lê as entrelinhas. A intenção era apenas superar a distância, dar a impressão de que estavam próximos, mas a estratégia estava dando errado. João e Maria precisam encontrar outra forma para alimentar o amor que sentem, ou deixar que ele morra de inanição. Para João esta é uma possibilidade mais palpável que para Maria. O amor dele por ela é novo, ainda que ele se sinta constrangido em admitir. Para Maria, entretanto, sempre foi uma sombra – ou seria uma luz? –que a acompanhou durante toda a sua vida. Ela terá que buscar nos detalhes. Encontrar elementos que a façam ver João de forma mais real, não é o que ela quer. Não pode e não quer trazer João para o nível da realidade. Ela o quer para sonho, para amar, para dar colorido à sua vida cinzenta, plena de responsabilidades.
Como o homem primitivo, ela aprendeu a fazer operações mentais complexas, com rapidez fulminante. Pelo rastro deixado, ela podia ler as pistas mudas. A situação fugia ao seu controle e mais do que ninguém ela sabia farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais. Muitas vezes, os indícios imperceptíveis para a maioria, forneciam-lhe a chave para o que o outro pretendia ocultar. Situações incontroláveis são especiais em fornecer estes elementos, pois desencadeiam atividades inconscientes. É bem verdade que a interpretação correta é diretamente proporcional à distância emocional do observador e Maria está emocionalmente envolvida, o que compromete a sua avaliação.
Desistir, no entanto, não é a solução. Lutar sim, sem perder de vista que há uma interdependência entre o individual e o coletivo. Esta dualidade que coloca Maria no centro do conflito milenar entre o bem e o mal, entre o bom e o mau. Nem sempre os anseios de ordem material coincidem com os de ordem espiritual.
João disse que Maria o estava viciando com suas mensagens de bom dia. Criar necessidades é como amarrar nós para o futuro. Sem clareza interna quanto à sua intenção, Maria decide recolher-se e buscar no escudo da consciência a certeza de que suas escolhas foram guiadas pelo desejo de harmonia. O processo deverá ser lento, assim como é a aprendizagem, mas não quer passar o tempo que lhe resta de vida, sem entender o que acontece em suas entranhas. Ser guerreira faz parte do seu temperamento, mas importante é ser leal aos princípios e não abandonar a luta. Olhando para dentro Maria pode ter a segurança de que não há vitória se não há crescimento interno. Conhecer-se significa não ter medo das próprias sombras. Maria sabe mergulhar em águas profundas e encontrar-se no silêncio.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Noite de inverno


Sonho que estás à porta...
Estás - abro-te os braços! - quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade.
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?


Maria está, há horas, a observar João. Sentado despojadamente em sua poltrona, ar distraído a folhear um livro. Confirma seu porte de aristocrata inglês, mesmo em momentos de total descontração. Ele lê Bilac.

Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte...


Ela fixa seus olhos na sua pele alva de João, nas mãos delicadas, nos cabelos que lhe lembram a neve, naquela noite fria. Ele está ali, bem pertinho de dela, absorto em seu mundo, alheio ao seu pedido silencioso de amor. Não sabe o que fazer para chamar a sua atenção. João continua a sua leitura.

Mas... talvez te ofendesse o meu desejo.
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado.
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.


Maria resolve então preparar um chá de maçã com biscoitos de canela, que ele tanto gosta. Antes coloca uma música suave, apenas orquestrada e acende um incenso. João levanta os olhos e sorri.

Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do dano ardente
Que os passos te acompanha


Com o olhar João aprova a iniciativa de Maria e isso a deixa feliz. É escrava do seu amor, do seu silêncio, da sua solidão compartilhada.

Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
- Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora...


Ela chega com o chá e seus olhares se encontram. Ele lhe acaricia os cabelos e entende seu apelo. Agora é Maria quem vê o desejo em seu olhar, no seu gesto solene de fechar o livro.
Maria sorri sem nada lhe dizer.
O aroma do chá de maça mistura-se ao incenso e ao seu perfume. Inebriada de amor, encosta seus lábios aos dele. Um beijo quente e suave, com gosto de maçã.

Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço...


A noite está apenas começando!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma premonição em sonho

Imagem: Tentation, de W. Strang

Acordo sentindo a sua mão despudorada investigando cada milímetro do meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas dos meus sonhos, da minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com a minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Nada do que observo em você, nos meus delírios, é físico.Hoje é diferente. Estou no limite do prazer e da posse, olho para você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que estas imagens me inspiram. No meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Sinto a sua língua rastejante, lambendo, sugando, explorando. Uma oferenda divina de uma imaginação amorosa. Sem penetração real, essa falta é o eterno desejo de que o tempo se transforme em autoridade fálica e me satisfaça a sonolência sensual. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que pára o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim. Que seja a minha umidade, o afrodisíaco da sua inspiração emocional, até que nossos corpos, um dia, possam estremecer sobre o linho branco da nossa cama.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Por causa de um brinco

Imagens : Yes or No, de Godward e The Painter Honeymoon, de Frederich Leighton


João está confuso. Por mais que não queira admitir, vive uma situação que lhe é estranha. Maria o desorganiza, atrapalha o correr simples da vida, não deixa passar detalhes, portanto, ocupa boa parte do seu pensamento. Ele ainda não sabe se isso é bom ou ruim. Sabe apenas que voltar para casa não significou o reencontro com a serenidade. A cabeça está recheada de questionamentos e dúvidas. Custa-lhe acreditar que Maria seja uma mulher madura, sensata, de sentimentos nobres, apesar das circunstâncias. O brinco pode ser uma evidência. Aborrece Maria, mas depois se culpa pelo equívoco. Justo com Maria que nada quer dele. Ela, por sua vez, compreende que tudo é novo, diferente, que João não tem outras informações para conhecê-la. Também ele está empenhado em buscá-la. Se para Maria, João é o presente maior, não tem certeza da sua significância para ele. Por isso, inicialmente, se aborrece. Precisam se conhecer melhor, dar espaço para a confiança.
No trato com seu anfitrião, Maria pôde perceber que João tem facilidade em fazer amigos, mostrando-se original, encantador e espontâneo, com boa dose de refinamento na arte de conviver. Diria mesmo que ele é pouco ortodoxo, com abertura para abraçar idéias progressistas. Diz-se simples, mas seus gostos são sofisticados. Humanista por natureza, João mostra-se dotado de lucidez e espírito positivo, daquele tipo que assume o comando com total naturalidade em qualquer situação.
Maria está encantada. Acostumada a homens frágeis, entrega-se ao seu poder de sedução. João é imbatível neste aspecto. Coloca nas coisas a pitada certa de humor. Algo, no entanto, intriga Maria. João lhe parece livre, aberto à mudanças, mas ela tem a certeza íntima que a vida dele se orienta por princípios bem definidos e fixos, ainda que a demanda pela liberdade seja constante. Ele fala, com verdade e despojamento, dos seus relacionamentos e nada passa despercebido para Maria que, mesmo envolvida, observa os mínimos detalhes. Pode, sem medo de errar, afirmar, que em questões de amor, ele é bem peculiar. Mesmo emocionalmente atraído por alguém, ele consegue romper um relacionamento, de repente. Sem grandes explicações. Os passatempos de João, os prazeres, os casos amorosos são marcados pela imprevisibilidade e excentricidade, haja vista que sua visão de sexo também não é nada convencional. Muito carinhoso, ele age com liberalidade, ignorando convenções religiosas e sociais.
Do ponto de vista social, pela frequência com que dá valor financeiro às coisas, Maria entendeu que, mentalmente, João aspira a glória, o prestígio social, as honrarias, o poder e a ascensão por meio da compreensão intelectual. Ele soube escolher o caminho certo. É um estudioso e sua visão da vida é otimista, segura e generosa.
Maria é dura. Conhece a si mesma como ninguém. Costuma entender as coisas pelo avesso. Percebe, lá no fundinho, traços semelhantes aos seus e uma agressividade bem disciplinada, submissa a um rígido autocontrole. Ela aprendeu, a duras penas, que fazer concessões demonstra força de caráter, e não fraqueza. Quer ser respeitada por sua maturidade e não se esconde. Age com espontaneidade e deixa vir à tona sua personalidade dinâmica, obstinada e batalhadora, que aborda as questões práticas com cautela. Ironicamente, Maria talvez seja, em relação a João, um pouco mais conservadora. Sua perspicácia lhe permite ver o essencial - o que sempre foi um trunfo em sua profissão - mas suas emoções estão divididas. Anseia pela aventura e pelo desconhecido. A chave está na habilidade de conciliação das duas tendências opostas: a busca do novo e o apego ao velho. Não julgaria João por causa de um brinco. O Ser habita águas mais profundas.

Com o coração apertado Maria se vê diante do homem que povoou seus sonhos e descobre que juntos, eles poderiam ter sido mais do que são separados. São pessoas fortes individualmente e a energia conjunta é brilhante. Maria está cheia de idéias e poderia se recolher por semanas, que a riqueza daquele encontro lhe inspiraria muitas páginas. Encontra uma afinidade de propósitos, que nunca encontrou em outra pessoa. Não é um relacionamento sexual apenas. Está diante de significativo amor, puro e verdadeiro, tão forte que foi capaz de promover aquele encontro insólito. A felicidade, na maioria das vezes, é equivocada. Está relacionada à aquisição de bens materiais, sucesso pessoal e profissional. Por isso, cada vez mais o ser humano clama por uma mudança interior, o vazio interno pede mais que palavras para ser preenchido. É no silêncio, quando as palavras se aquietam em nós, que conseguimos ouvir as vozes que vêm de dentro. No silêncio aprendemos como dissecar as nuances da nossa percepção, mesmo que elas nos pareçam vagas ou enigmáticas. O maior entrave é o medo que nos ronda, quando percebemos que este processo pode ser doloroso. Quando olhamos para nosso espelho, e vemos apenas reflexos. Quando nos deparamos com o vazio, trazemos ao campo da consciência essas forças contraditórias que nos desconsertam e nos fazem sofrer. Se por um lado nos causa sofrimento reconhecer que não somos absolutamente bons - nem maus -, a compreensão deste processo areja as nossas mentes e pode nos tornar agentes ativos na tarefa de descobrir a nós mesmos.
João! Prazer em (re)conhecê-lo!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Mistério do Amor

Imagem: Anunciação, de Caravaggio


Maria entra no banheiro e chora escondida. É um sofrimento atroz e, mesmo sem culpas, ela não consegue se desvencilhar da sensação de impotência.
A história parecia ser a mesma, embora os tempos e os limites fossem outros. Os pesos da balança estavam em perfeito equilíbrio, mas existia o tempo, existia o espaço. Sempre esses dois fatores de limitação tentando impedir que sua alma alçasse voo.
Foram dias de alegria, de partilha, de intensa caminhada, de grandes descobertas, de entrega total. A harmonia entre ela e João não poderia encontrar nas palavras dos mortais uma simples definição. Seria preciso sentir, viver cada momento, ser cada movimento, para ter a compreensão do céu que ela havia experimentado. O paraíso só pode ser conquistado pelos puros de coração, pensa ela. Desde a juventude Maria buscou a sabedoria. Pediu a Deus por ela e decidiu procurá-la até o fim, seguindo as pegadas do amor com passos retos. Inclinou seus ouvidos para ouvir, e um Anjo apareceu para lhe sussurrar ensinamento abundante.
O domingo amanhece lindo. Conhece aquela missa, sabe que mexerá com suas emoções e com lembranças muito bem guardadas. Não sabe o que fazer para evitar que o passado lhe bata a porta e interrompa a magia e o encantamento com João. Está perdida em seus pensamentos. O tempo passa e com ele o horário da missa. Chegam ainda a tempo de ver a saída das irmandades, dos anjinhos, do cortejo de seminaristas. Maria engole a seco. Sofre. Deplora o que seus ouvidos também ouviram, seus olhos viram, sua percepção mostrou. Lamenta o desencontro. Prefere ouvir o Anjo - seu guardião interno - e se ajoelha em busca de conexão com Deus. Suas entranhas tremem ao dirigir-se a Ele.
- Desejei a sabedoria e a encontro na pureza. Afasto de mim a tristeza, não me deixo afligir com preocupações, quero apenas agradecer a Quem me concedeu sabedoria – reza Maria em estado de contrição. Não quero mais me privar de sentimentos que a minha alma tem sede. Também não posso confiar em caminhos que não têm obstáculos. Ah! Pai Poderoso aqueça meu coração, não quero causar dor, mas também não quero sentir. Eu amo João. Preciso de Luz, de discernimento.
E o Anjo, no seu pedestal de luz, inclina-se para mais uma vez sussurrar-lhe ao ouvido.
- Grave-o como um selo em seu coração, pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão.

Com o coração aquietado Maria deixa o banheiro. O nariz está vermelho, único vestígio das lágrimas que caíram um pouco antes. Lágrimas de amor, de compreensão, de saudade. Tem trabalho pela frente. Precisa se inspirar para o artigo da semana. Busca a Bíblia. Abre no Cântico dos Cânticos. O amor humano é espelho, sacramento e manifestação do próprio Deus, que se torna presente nos seres humanos que se amam.

Beijos

Beije-me com os beijos de sua boca!
Seus amores são melhores que o vinho,
O odor de seus perfumes é suave,
Seu nome é como óleo escorrendo,
E as donzelas se enamoram de você...
Arraste-me com você, corramos!
Leve-me, ó rei, aos seus aposentos,
E exultemos! Alegremo-nos em você!
Mais que ao vinho, celebremos seus amores!
Com razão se enamoram de você...
(Cântico dos Cânticos)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entre o silêncio e o sentimento

Imagem: Promenade, de Marc Chagall


O avião levanta vôo e Maria seca as tímidas lágrimas que lhe escorrem pelo rosto. Ela não quer chorar. Aquele fim de semana já estava arquivado junto com os momentos mais felizes de sua vida e não justificava nenhum traço de tristeza. Começava ali outra história, sem data para terminar. O contato com a natureza, o local cuidadosamente escolhido, a recepção afetuosa regada a champagne oferecido pela administração da pousada, o reencontro após 40 anos, conseguiam a façanha de interromper o repetitivo filme de preocupações de Maria. Ela percebia a necessidade interior de ampliar o contato com a vida universal e começar a ver o mundo externo de forma diferente, bebendo em fonte de águas puras.

Antes das reflexões que inevitavelmente aconteceriam, Maria revisita, no tempo e no espaço, o sonho vivido nos últimos dias. Sonho é encantamento, e entender a inserção dessa magia na realidade exigiria dela mergulhos mais profundos no rio das almas, para além da consciência comum, com sensações que não podem ser comparadas aos nossos sentidos. Uma experiência individual que derruba todo e qualquer limite e a coloca em harmonia com outra lógica, outra dimensão do amor. Enfim, sentia-se privilegiada sem precisar se esconder do silêncio – seu espião interior. Podia se entregar ao sentimento, certa de não estar infringindo o direito e a dignidade de João, de não estar atendendo primeiro aos seus instintos.

Hoje, em tempos que o tempo se acelera diante das nossas consciências, Maria não precisa se angustiar com o futuro, nem camuflar seus medos, nem nadar contra a correnteza. Pode manter seu coração sereno, sabendo que a natureza seguirá seu curso normal, obedecendo aos ritmos e à harmonia. A vida é um exercício de humildade, de disciplina, de constância naquilo que se faz, assim, ela circula com coragem no seu interior e vive o exterior nos momentos em que é solicitada pela realidade.

Lembra-se de quando criança amanhecer o domingo recitando a quadrinha “hoje é domingo, pede cachimbo"; não se conformava com o trecho que dizia “a gente é fraco, cai no buraco”. O tempo e a vida aos poucos lhe ensinaram que o fraco realmente cai no buraco e esse buraco pode ser bem fundo. No entanto, o “a gente é fraco” é questionável e não necessariamente uma verdade. O ser humano é capaz de realizar a si mesmo, pensar, escolher, arrepender, voltar atrás, fazer de novo. A cada recomeço, a consciência e o aprendizado são frutos individuais, de tal forma que a vida pode ser realmente um buraco fundo ou uma grande ciranda em que se mesclam as vicissitudes da nossa existência com a alegria de viver.

Falar sobre a felicidade é complicado demais, mas sem dúvida Maria pode abordar a alegria de viver como um antídoto do “a gente é fraco; cai no buraco; o buraco é fundo; acabou-se o mundo”. A alegria lhe é próxima; está tão perto dela, que gargalhar não é dificuldade alguma. Ela pode até escolher se quer olhar um quadro de Goya ou de Matisse; mesmo diferentes, os dois artistas conheciam muito bem a existência da luz e da sombra. Opta por Chagall, que pinta o sonho e a fantasia. Pode escolher a fotografia ou o negativo no mundo analógico, mas vive um mundo digital. E sorrir faz bem não apenas na hora da fotografia. Sorrir torna a vida mais fácil. Então, para quê chorar? João não foi embora, ele voltará. Maria deixa o aeroporto confiante, sem receio de ser punida, porque tem a ousadia de sorrir quando o mundo parece desabar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Padre, eu pequei!

Imagem: Madalena (autor desconhecido)


- Alô. Você sabe quem está falando?
- A voz não me parece conhecida, mas o sotaque é bem familiar. Lembra o da minha terra natal.
- Seria de estranhar se você se lembrasse da minha voz. Há mais de 20 anos que nós não nos falamos.

A essa altura o coração de Maria já batia disparado. Estava casada, com um neném pequeno, e aquela voz, tinha o poder de desequilibrá-la internamente.
- João? É você?

Depois da procissão, Maria se desfaz da fantasia de anjo para assumir sua verdadeira identidade. Uma menina magrinha, bonita, irrequieta, inteligente e muito esperta. Muito católica, ela goza da confiança e admiração do pároco da Igreja que, a despeito de sua pouca idade, confia a ela tarefas de adulto. Feliz, ela coordena toda a movimentação da quermesse. Há mais de uma semana ela trabalhava cada detalhe, fazia escalas, definia atividades e brincadeiras, sempre com o intuito de angariar fundos para a paróquia.
Toda essa atividade e desempenho não passaram despercebidas a seu professor,  um clérigo de apenas 22 anos de idade e muito bonito. Beleza sempre conta entre adolescentes.
Desde que se transferira do colégio das freiras para o colégio dos padres, Maria provocara um verdadeiro rebu na escola, que antes só recebia alunos do sexo masculino. Na pequena cidade, as opções eram poucas, as meninas que estudavam no colégio das freiras, ao terminarem o ginásio, só tinham como alternativa ir para a Escola Normal, ou para a Escola Técnica de Comércio. Se pretendessem uma faculdade, teriam que partir para o curso científico no único colégio estadual da cidade. Já para os meninos era diferente. Eles tinham a opção de continuar com os padres, ir para o colégio estadual, e ainda poderiam estudar na Escola Técnica Federal, considerada a melhor da região, que naquele tempo também só aceitava homens.
Maria não pensou duas vezes, organizou uma comissão e foi para o colégio dos padres pleitear a abertura de matrículas para as meninas. Até então, o único contato entre as duas escolas era no dia 7 de setembro, quando a fanfarra masculina tocava no desfile (e nos ensaios) das meninas. Sempre motivo de muita dor de cabeça para as freiras. A comissão foi tão convincente que o padre diretor abriu uma turma noturna para receber as alunas. Acabou tendo muito mais sucesso que o esperado. Já no primeiro ano, eram três classes mistas. No entanto, não foi tudo simples. Às meninas só faltava enlouquecerem com os aprendizes de padre. Começou então  divertido jogo de cartas na tentativa de tentarem os santos rapazes. Três deles faziam muito sucesso,  e a diferença de idade deles para as alunas não era superior a 5 anos. Maria era "quente" na escrita e escrevia cartinhas para as colegas.

Naquela noite, João, um dos clérigos, estava na quermesse. Não falou com Maria, mas não desgrudou os olhos dela ,  que fazia a farra com o correio elegante. Ela ficou preocupada. Sentia o olhar que a acompanhava, que a desnudava em sua ingênua esperteza. Ela era normal como suas colegas, no auge de seus 15 anos, exuberante em sua beleza, era  natural que também se sentisse atraída por aquele rapaz lindo, bem falante, inteligente, bem educado e de bons princípios. Escrever para ele era fácil. Deixava fluir o que tinha na alma, escudada pelo nome das amigas. Mal conseguiu dormir naquela noite. Sentia que seu coração lhe preparava uma peça.

Domingo. Maria chega à missa no último toque do sino. A igreja estava lotada, mas ela tinha lugar reservado na frente, porque era responsável pela primeira leitura. Ao atravessar a igreja, sente um gelo na barriga. João estava lá, sentado discretamente entre as pessoas e, na simples travessia, ela conseguiu identificar de onde vinha o olhar que a queimava como um raio.
A missa foi uma sequência de pecados, por pensamentos. O pecado por palavras e obras só aconteceria depois da missa, quando João se ofereceu para acompanhá-la até em casa e no meio do caminho disse a ela que se apaixonou pela autora das cartas assinadas com os nomes de suas colegas, mas como professor , ele conhecia o estilo e potencial de cada uma delas.
Antes de chegarem á casa de Maria os dois se sentaram no banco de uma praça e o beijo que trocaram selaria um pacto de silêncio de 22 anos.

- Meu Deus, como você está? Já é bispo? Sempre tive vontade de receber notícias suas.
- Eu não sou sacerdote. Sou professor da Universidade.

A conversa segue o ritmo das lembranças até que foi interrompida bruscamente.

- Preciso desligar, minha esposa está entrando.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Benedicite

A dúvida tomava conta do coração de Maria. Pensou muito se iria àquele encontro, já havia decidido, no entanto, sentia medo, suas mãos tremiam, seu coração estava apertado e ela perdia o ar. Tenta lembrar dos exercícios respiratórios, das técnicas de relaxamento, das cores tranquilizantes, mas ainda assim seu ritmo continua descompassado. Era agora ou nunca mais.
Ela chega ao aeroporto atrasada e o vê de costas no mirante, observando as luzes da cidade. Está em forma, discretamente vestido, e assim de costas, a única coisa que ela pode observar é que os cabelos se tornaram brancos. Sente ímpetos de ir ao seu encontro e abraçá-lo, falar da sua saudade, mas sente-se grudada ao chão, com os pés de chumbo. De repente, o rosto de Maria se ilumina. Aquele encontro, adiado tantas vezes, finalmente acontecia. Ele se volta e seus olhos se cruzam. Vencido o impacto inicial, ele lhe estende a mão e sorri com leve discrição ao perceber que a dela está gelada. João sempre foi um cavalheiro. A emoção do encontro lembra ainda aquela corrida desvairada de sua casa até a casa da amiga, quando ainda era uma adolescente despertando para vida.
Naquele tempo, Maria teve que amargar a escolha de João com uma carta, a despedida com um único abraço. Agora ela não quer ser surpreendida pelo acaso, preparou-se durante semanas para entender que viveria com ele também a sua primeira aventura, e depois a vida deveria seguir seu curso normal. Não era um início, não era um recomeço, mas o fechamento de uma vida que não chegou a ser vivida. Em sua existência abriu e fechou parênteses, enfrentou duras rupturas, viveu experiências que voluntariamente não escolheria viver e que muitas vezes a sufocaram e oprimiram. Pensa então de que adiantaria ter vivido tudo isso se não pudesse compreender que lição deveria extrair. Maria e João queriam aquele momento como se fosse o primeiro em suas vidas, mesmo sabendo que o final seria inevitável.
João também evidenciava emoção e sabia que aquele era um momento definitivo para os dois. Não podia mais adiar decisões porque estava ciente da impossibilidade de mudanças. Era aquele momento quando tudo já foi pensado e repensado em detalhes; quando já se dialogou, ponderou, alertou, mas tudo encaminha para o fim. Não é fácil deixar para trás situações, trabalhos e pessoas amadas, não obstante se sentir angustiado, preso, impedido de dar um próximo passo. A palavra certa a ser adotada é decisão e na bagagem estão ainda as decepções, as dores, as incompreensões, as promessas não cumpridas, o medo do futuro, do desconhecido, de ter que enfrentar o mundo, tendo como ferramenta apenas a si próprio.
Mais para João que para Maria esse era um momento difícil. O que fazer quando esta avaliação já foi feita, o medo identificado, a direção a ser tomada já foi escolhida, mas ainda assim falta coragem para a decisão final? Talvez aqui a luta interna - fora do campo da razão - seja a mesma para os dois. Maria também precisa proteger a própria luz para não ser sugada pelas trevas. É o momento de dissociar-se, sair do filme, reprogramar o cérebro para o novo, para as possibilidades que só ela mesma tem como avaliar. João e Maria conversam sobre suas vidas, fazem verdadeiros relatórios, manifestam a saudade que sentiram, mas também falam do fim. Compreendem, finalmente, que tudo passa, não só a vida, mas os problemas, as dificuldades, os momentos felizes, a novidade.
Alguns dias depois, no hotel fazenda que haviam escolhido para o balanço de vida João e Maria se olham com ternura. Foi um jantar simples, romântico, nostálgico, cheio de lembranças. Tudo que era ruim e feio foi esquecido em alguma curva do tempo. Viveram vidas separadas, sofreram os reveses do dia a dia, mas conseguiram se manter com o coração puro, sem mágoas, prontos para vibrar diante da simplicidade daqueles dias. O vento frio ajudou a aproximar os corpos sedentos de afeto.
Maria aconchegou-se àquele peito forte, o perfume gostoso e másculo a deixava inebriada, as mãos seguras lhe davam a certeza que não estaria mais só. Não envelheceriam juntos, mas eram poupados da parte dolorida de todos os relacionamentos. João não seria distribuído na igualdade dos seus dias. Continuaria ali, onde sempre esteve, no cantinho sagrado do seu coração, como um segredo. Finais são quase sempre doloridos, são momentos de análise e avaliação, são momentos de colheita. Final não é briga, é conclusão. Maria e João estavam felizes!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um segredo íntimo

Imagem de Godward


Num mundo perfeito eu estaria dormindo assim, em paz, e nenhum pensamento ruim contaminaria o mundo que encontrarei ao acordar e abrir os olhos.


De repente, instalou-se em mim um cenário de caos emocional. Princípios, ética, consciência, tudo parecia ter trocado de lugar na escala de valores. Passado e futuro marcaram encontro em algum ponto da imensidão cósmica e eu aqui, mísera mortal, procuro explicações para o inexplicável. É nesse espaço imaginário que os olhares perdidos se encontram, que as almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. Não existem diferenças, não existe certo ou errado, não prevalece a lei dos homens. Pouco importa o que o mundo pensa. Não existe velho, nem novo. Não existe feio, nem bonito. Não existe perto, nem longe. Apenas sentimentos tão intensos e imensos quanto o espaço que nos separa. Neste instante mágico somos apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito. Fundimo-nos construindo o amor, além das muralhas das convenções, além dos limites humanos. Como um artista que, embalado pela música, voa para encontrar a sua musa, como a adolescente que esquece o olhar em um ícone qualquer, deixando seu pensamento expandir-se em espirais de luz. Um encontro sem toques. Como em um templo. O amor existe além de nós.
Acordo assustada. Não terei mais o sono restaurador, mas é uma vigília gostosa que traz à memória cenas passadas, lampejos do futuro e alguma clareza em situações presentes. Hoje bailou na minha lembrança imagens da mais linda história de amor que já vivi. Sonhos que revigoram. Desilusões que se transformam em compreensão. Diferenças que se igualam e se desfazem diante do sentimento verdadeiro da união de almas. Entendo que preciso do sonho, da compreensão, da esperança para continuar acreditando no ser humano. De novo as reflexões sobre o tempo. O tempo que gastamos para entender o próprio tempo.
Seis horas. Preciso levantar. Levantar significa exatamente abrir os olhos para a realidade, para a necessidade de sobrevivência, para o eterno aprendizado da tolerância, da superação, da busca da serenidade diante de tantas adversidades.
O tempo será curto para cumprir as atividades do dia. Pulo da cama num salto. Chuveiro, lanche rápido, escolher uma roupa larga, briga eterna com o espelho. Saio de cabelo molhado. Assim começa a rotina do primeiro dia de uma semana que deveria seguir sem alterações. A chuva fina que caiu durante a noite inteira começa a ceder, deve fazer sol durante o dia. Do carro vejo que a lua ainda está firme no céu. Nem percebi que estávamos em época de lua cheia. Adoro a lua cheia. Posso vê-la da janela do meu quarto e muitas vezes ela me acompanha até o início da madrugada. Fico plena. Mas esses dias chuvosos parecem encher de nuvens negras o céu e o meu coração. Ando sedenta de luz!
Dentro de mim, sei que preparo um encontro como o do sonho. Sinto-me novamente adolescente, com a cabeça cheia de fantasias, vivendo em um mundo arquitetado pela imaginação e impenetrável por estranhos. O coração bate desritmado. Sem pestanejar pego o telefone. Aquele encontro, adiado tantas vezes, finalmente acontecia. Estou aqui, ouvindo a voz do homem que povoou minha mente e protagonizou meus sonhos. Não sei como reagir, não sei se expresso minha felicidade ou se me deixo tragar pela timidez. O encantamento que nos envolve parece tão denso quanto o tempo de espera.Uma história que começou a ser escrita em outro tempo e que nos fez vítimas do nosso medo, prisioneiros de um mesmo destino. Talvez o mesmo destino que se encarregava agora de promover um novo encontro. Trago-o escondido, como um segredo íntimo e só meu. Não quero análises, nem perguntas de mais ninguém. Quero-o só para mim. Durante uma hora, um dia, um mês. Quero-o dentro de mim. Na memória.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minha vida sem Deus

"Clarie" - Frederic Leighton

Passou-se mais de um mês desde que Maria recebeu o telefonema de João. Nos primeiros dias ela se sentiu extremamente incomodada, as lembranças daquele amor ingênuo e puro povoavam sua mente e inundavam seu coração de ternura. Só recebeu dele uma única carta. Não a guardou, mas ainda sabia de cor todas as palavras: "Você é uma menina de ouro! Posso antever o lar maravilhoso que você vai formar, dá até água na boca, mas escolhi um caminho diferente do seu. É a Deus que quero dedicar cada momento de minha vida. Sei quanto é dura a caminhada, mas sei também quanto vale a pena".
Maria pensava no tempo, que transformou aquelas palavras em ironia. Nem ele se tornou padre, nem ela tinha um lar maravilhoso. Teve uma vida sofrida, estava no segundo casamento que também já capengava. Não era infeliz, tinha conquistado o lugar que buscou no mundo, e o preço a ser pago não era negociável. Uma vida quadradinha certamente não a deixaria satisfeita. Não lhe proporcionaria as experiências e a profundidade com que lidava com as situações adversas. Nada do que se arrepender, nada por que procurar reviver o passado. Sua vida estava ali, na frente dela, limpa, transparente, vigorosa.
Do outro lado, João certamente se culpava por sentir tanta saudade, por não ter tido a oportunidade de estar perto dela no momento que sua vida tomou um novo rumo. Nunca soube explicar a si mesmo se foi a vontade de viver sua sexualidade que o tirou do seminário, ou se sua vocação não era assim tão forte. Não teve muitas experiências amorosas, casou-se logo depois de abandonar a batina, mas os anos reprimidos pareciam explodir com o vigor da adolescência agora na vida madura. Depois de muito debater consigo mesmo decide ligar para Maria outra vez. Tomaria cuidado de deixar o escritório fechado, não queria passar pelo fiasco de ter que desligar o telefone abruptamente. Maria o atende com a mesma espontaneidade, e eles conversam animadamente, quando o marido dela chega. Sem colocar a mão no fone ela retribui o beijo e pede que ele a espere no quarto com as crianças.

- Com quem você está falando?
- João, um amigo meu de adolescência. Há mais de 20 anos que havíamos perdido o contato.
- Dê meu abraço a ele.

O diálogo deixa João sem jeito.

- É o seu marido? Como você consegue?
- Viver, sem necessariamente ter dedicado minha vida a Deus, proporcionou-me um valor muito maior. Sou livre e essa liberdade eu conquistei com a minha consciência. Não estou pecando por conversar com pessoas queridas.

Desligar o telefone era como fechar a porta de um consultório médico, sentindo dor, com o coração sangrando. A impotência esbofeteava sua arrogância. Não tinha como controlar o tempo. A vida, enquanto se é jovem, parece eterna. Somente o tempo e a compreensão dos valores reais podem dar a dimensão exata do prazer que as pequenas coisas proporcionam. Somente o tempo é capaz de mostrar que sua solidão é sempre uma grande solidão, porque é dela. Estas constatações evidenciam a pequenez de Maria diante da grandeza do Ser, coberto ainda por camadas de ignorância, vaidade, egoísmo. Intuitivamente sabe que suas experiências internas a despertam para a compreensão de uma realidade maior, que transcende a consciência comum e as atribulações na lufa-lufa dos dias.

A vida acontece no intervalo entre o nascer e o morrer. O modelo tradicional - crescer, comer, beber, dormir, estudar, trabalhar, casar, ter filhos, criar filhos, aposentar - não promete nenhuma felicidade e embaça a visão do fim. Há uma aura de mistério envolvendo Maria. Sentimentos, sensações, percepções se instalam em sua profundeza, sem que ela saiba como lidar com eles. Busca no recolhimento intuir sobre o significado dessas experiências em sua vida. Isto sim é ser mestre de si mesmo - pensa ela -, é aprender a percorrer a solidão e o silêncio sem medo das próprias sombras; só simplicidade e liberdade de espírito. Não teve coragem de enfrentar Deus, mas tem coragem de enfrentar os homens. Revive momentos marcados no tempo, e cada lembrança é como se abrisse uma gavetinha em seu coração. Seus olhos se enchem de lágrimas de saudades.

Saudades de você, João!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Um vôo de liberdade


A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura a si próprio (Sartre)

Um Triste Resgate

O verão tinha levado João para perto de seus filhos, enquanto o inferno se instalava definitivamente no coração de Maria. João andava monótono, sem vida, sem inspiração. A estratégia de Maria para ressuscitar João estava dando errado e ele, decidido a mostrar que estava realmente interessado na alma de Maria, continuava a agir como se o mundo fosse apenas pensamento. O que se sucedeu foi uma verdadeira serenata e a cada dia ela se surpreendia com a forma sutil como João se revelava por meio das músicas que tocava. Se ele tentou falar, Maria estava surda. Ouvia apenas os gorjeios tristes do seu pássaro cativo.

O poema de Menotti Del Picchia entrou em seu âmago e alterou o rígido esquema de proteção que Maria havia adotado para não sofrer mais. Se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta . Ela (ou ele?) estava se esgotando na tentativa de se fazer compreender antes de calar? Um misto de saudade e compreensão passava a tomar conta de Maria a partir daquele instante. Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro, continuava Del Picchia, enquanto Maria se enternecia com as suas lembranças.

Respirou fundo, olhou-se no espelho da existência. Seria João seu eco e reflexo? Ele ainda tinha caminhos desconhecidos para ela e, além de tudo, seria uma oportunidade para compreender o significado da renúncia e experimentar apenas o sentimento do amor. Amor não precisa dar certo, basta que abra o caminho para entrar no mundo dos sentimentos. O amor irrealizado ainda tem outra característica: pode ser sublimado, universalizado. Transforma-se em mais amor. Amor que acaba é paixão, tesão, que não resiste à mesmice dos dias. Outro suspiro e a conclusão de que se permitiu viver até o final aquela experiência inédita. Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. Que sabes tu do fim?

Aquele será um final de semana diferente. Acordou na sexta-feira disposta a revolver mágoas, mas principalmente, a resolvê-las. Acabou se colocando dentro de um turbilhão de sentimentos difíceis de serem identificados: a mágoa se confundia com dor-de-cotovelo, a raiva parecia amor reprimido, o amor maltratava como se fosse doença, a insegurança se vestia de indiferença. A luta pela verdade parecia uma briga com moinhos de vento. De tudo, ela tinha uma única certeza: poderia não haver resgate, mas a definição acabaria acontecendo.

Agora só consegue sentir de novo aquele vazio enorme. Vai precisar buscar forças extras para conseguir superar tudo. Em compensação, deve dar a aposentadoria merecida ao seu coração. Naquela idade não se pode esperar que a vida seja um conto de fadas, mas a experiência adquirida teria que ser capaz de transformar a relação a dois em um lago azul e sereno. Já que teria que amargar mais um fracasso, seria bom começar a aprender que essa serenidade pode ser conquistada na solidão. Maria merece envelhecer em paz profunda.