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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Na pele do outro

Le Gouter, de Willian Bouguereau
Quem pode me garantir o que é certo ou errado? Ou me dar um caderninho com as receitinhas de vida anotadas? Porque é tão fácil julgar os outros? A superficialidade e rapidez com que julgamos e condenamos o outro, não tem o mesmo critério de generosidade que temos conosco.  Julgamos a aparência, o fato isolado. Muito fácil criticar quem recebe cesta básica, quando se tem a barriga cheia. É fácil para o vencedor apontar os erros de quem fracassou. É fácil julgar sem conhecer a força das coisas que conduziram a ação, o sofrimento ou o desejo daquele que,  do nosso ponto de vista, errou. Cruéis ou indulgentes os julgamentos passam sempre pela subjetividade e nos impede de sermos imparciais.  Mas o mais interessante é que quando julgamos refletimos o que temos dentro e só ver defeitos é extremamente sintomático.
Lembro-me de um amigo juiz que analisava atentamente seus processos, escrevia suas decisões e guardava, para só voltar nela uns dias depois. Quase sempre ele alterava sua sentença.  Um julgamento emocionado carece de equilíbrio e interfere de tal forma em nossas ações,  que elas deixam de nos pertencer. Juízes entendem bem o peso de um julgamento. Sabem que ninguém hesitaria em condená-los à morte, se por acaso, movidos pela emoção, condenassem um criminoso.
Sou contra a redução da maioridade penal. Sou a favor da retirada de privilégios para quem tem curso superior. Educação, educação, educação. Escolas de tempo integral, Cefets, Universidades Federais, Brasil Sem Fronteiras.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Educar para a Liberdade

Moravian Teachers Choir, de Alphonse Maria Mucha
Comecei minha vida “profissional” como educadora. Aos 12 anos já era alfabetizadora particular e ensinei muitas crianças de meu bairro a ler e escrever. Ganhava meu dinheirinho para ir ao cinema e tomar sorvete aos domingos. Pré-adolescência da qual me orgulho e cujos princípios ainda são vivos em mim. Já naquela época entendia que ensinar não podia ser do mesmo jeito para todos. Tive um aluno que eu o acompanhava em muro e árvores com o livro para dar minha aula. Outra, fazia tudo sentadinha em meu colo. E alguns nem precisavam de professora particular, como as indiazinhas queridas, lindas e inteligentes. Uma hoje é pedagoga, outra é professora do curso de História na UFMT e ativista indígena. Foi um prazer ensinar as primeiras palavras. 

Hoje sei – com convicção de quem não sabe de tudo – que a concepção de liberdade passa pelo processo de educação e educar significa formar homens conscientes de sua realidade, autônomos, atuantes e não apenas cheios de ciência. A compreensão profunda da arte de educar não desconhece que o homem é um ser em crescimento. Quando pensamos, investigamos, farejamos e concluímos, ficamos mais seguros de nossas convicções, e aí o único risco é nos tornarmos radicais, inflexíveis, daquele tipo de gente que quando é tolerante não consegue esconder o ar de satisfação pela sua superioridade.

Estou atenta e minha mente está aberta para avaliar outros pensamentos. E não há vergonha alguma se por acaso eu voltar atrás, reconhecer que fui parcial, desde que esteja ampliando meu raio de visão. O ser humano é complexo e não cabe a mim, nem a outro, qualquer julgamento. Menosprezo e desrespeito à opinião que é diferente da minha é um dos ingredientes que fazem a guerra. Eu sou de paz... só não estou morta!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

As duas faces do amor

Venus and Adonis, de Jacopo Amigoni
Vênus e Adônis é um poema de Shakespeare e insinua uma alegoria moral, na maneira da mitologia. Vênus representa a si mesma como deusa, não somente da paixão erótica, mas também do amor eterno conquistando o tempo e a morte. Porque Adônis perversamente recusa esse ideal, Vênus conclui que a beleza humana deve perecer e que a felicidade humana deve ser sujeita ao infortúnio. Vênus e Adônis são porta-vozes de atitudes contrastantes diante do amor. 

Vênus, por exemplo, alerta Adônis da necessidade de precaução ao perseguir o javali, opina que “O perigo planeja mudança; a argúcia espera com medo”. Adônis suplicando o seu despreparo para o amor, cita analogias de triviais: “Nenhum pescador exceto o girino imaturo reprime / A suave ameixa cai; o verde crava rápido”. No âmago, seus argumentos são usualmente convencionais. Vênus encoraja se apegar ao momento do prazer. “Faça uso do tempo, não deixe a vantagem escorregar; / A beleza dentro de si não deve ser desperdiçada”. Adônis pleiteia tempo para amadurecer.
Assim, nenhum competidor ganha o argumento.