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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Um dia mergulhada em déjà-vu

Le Quai du Louvre, Luigi Loir  (Séc.XVII)



Da Catedral de Notre Dame saímos margeando o Rio Sena, sentindo um pouco os ares parisienses com turistas e franceses, o perfume das flores nas pequenas floriculturas, o ritmo dos moradores em seu dia de lazer. Não dá para expressar tudo que se sente, se observa, mas escrever traz de volta à memória as sensações, as reflexões. O déjà-vu não para no tempo presente. Sensações do passado se tornam presentes.  Eu estava feliz, não apenas por realizar o sonho, mas pela oportunidade de mergulhar em registros inconscientes e em muitos momentos tive que segurar as lágrimas. Não me perguntem porquê. Não saberia explicar. Não era apenas o que li e ouvi, mas uma vibração que cada um sente de um jeito.


Paris em minha cabeça está muito ligada a uma outra época, a belle époque, quando as artes, a literatura, a moda, pautavam as tendências em outros países. Era chic, mas era mais que isso. Sim, eu conseguia ter aquele encontro com sensações nostálgicas, inspiradoras, mesmo sabendo que não me encontraria com Hemingway, Proust, Picasso ou Sartre. Mas eu estava dentro do tempo, como no filme Meia-noite em Paris (que eu gostaria de ter sido a roteirista). O cenário antigo, cheio de história e rico em detalhes arquitetônicos facilitava as incursões na imaginação. Maria (sempre juntinho de mim) procurava personagens nos olhares, nos anônimos que passavam. Paris se identifica comigo porque, como eu, vive de suas histórias. Por isso inspira e encanta. E fomos passando Conciergerie, Pont des Arts (onde tem os cadeados), floriculturas, Pont Neuf. 


Sentamo-nos para descansar e eu me sentia em casa vivendo dentro do cenário dos artistas plásticos de séculos passados. Tudo era muito familiar. Entramos no Louvre pelos fundos, observamos a enorme e cansativa fila de entrada. Impossível num domingo, mas essa visita ao Louvre já bastava, porque há outro museu por fora que não dá para ver em um dia. 



No Jardim de Tuillerie eu estava em total ebulição por dentro.  O Jardim conserva sua tradição e as cenas de hoje são semelhantes às das telas. Tinha as referências das telas e de como era o jardim em outros tempos, quando ainda existia um palácio lá (mais tarde fiquei sabendo que Marie Antoinette ficou nesse palácio que foi demolido, antes de ir para a Conciergerie). Umas fotinhas no  Arc du Carrousel (monumento em homenagens às vitorias de Napoleão que lembra um pouco o Arco do Triunfo e o  Portão de Brandemburgo), passamos batido pelo Jardin du Carrousel  (conhecemos em outro dia, quando fomos ao Museu D’Orsay), paramos para um café e curtir o jardim, depois nos encaminhamos para a Place Concorde para pegar o Metrô. Nesse dia foram muitos quilômetros a pé, mas nem percebi. Nenhuma dor e muito encantamento. Será que um anestesia o outro? Pode ser.





Cabe aqui um registro de hoje. Nós, e em especial minha cunhada, nos encantávamos com as flores, as árvores floridas e elas realmente faziam a diferença no cenário: as flores dos jardins por não serem as nossas tradicionais, normalmente grande variedade de tulipas que não se adaptam ao nosso clima tropical, e árvores carregadas de flores brancas ou rosas. Lindas mesmo.  Mas agora, passo a observar como esta cidade e este país são encantadores. Percorremos avenidas inteiras com árvores floridas, flamboyants em matizes que vão do amarelo ao vermelho, bougainvilles do branco ao carmim, acácias que lembram as cores de nossa bandeira, barrigudas (não sei o nome, então vai o apelido), quaresmeiras, ipês... e nem prestamos atenção nelas. É preciso ver flores em uma paisagem cinzenta para aprender a valorizar a beleza que temos aqui. Brasil, meu Brasil brasileiro, mulato, colorido, alegre!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Reencontro com Maria


Imagem da internet

Retiro Espiritual em Lourdes e Nevers


Maria já está há dois dias na França, conhecendo as entranhas parisienses, e com a estranha sensação de que não deveria estar ali. Sua cabeça está fervilhando. Os sonhos que povoaram sua adolescência se realizavam, mas em contexto que ela jamais poderia imaginar. A vida de criança é lago azul e sereno, mas a de adulto é de fortes correntezas.  Não lhe é fácil ajustar o sonho à realidade, cujas essências são antagônicas. Havia muita expectativa para Paris e viajar a Lourdes e, em seguida, para Nevers foi sua salvação. Por ser um tipo de turismo religioso Maria pode ficar em silêncio, buscando em suas profundezas o equilíbrio que tanto precisava. Lourdes foi o encontro com suas dores, sufocadas nos últimos tempos, e rezar lhe fez muito bem. Maria reza muito, é rezadeira mesmo. Não toma um copo com água sem se lembrar da Poderosa Força do Universo e lhe pedir que purifique seu Ser.  Mas em Lourdes precisou se agarrar às repetições da Ave Maria e Pai Nosso para não se deixar arrastar pela dor.  Lembrei-me dos retiros espirituais que fazíamos no Ginásio Coração de Jesus. Eu não imaginava que ela tinha tanta dor guardada até que comecei a escrever este post, adiado por semanas. 

Em Nevers já havia apaziguado e ajustado seus sentimentos. Não sei se ver o corpo incorrupto fazia alguma diferença naquele momento, pois o que Maria buscava era mesmo se encontrar com outro tipo de fé, a mesma que havia deixado no tempo, junto com os sonhos de viver a França. Nos dois dias as lágrimas foram fartas. A missa em francês, completamente compreendida e sentida. Aproveitou para rezar e pedir por seus amigos e familiares enfermos, pela união da família, pela proteção divina de cada um que lhe pulava à memória. Em verdade, a religião também ajuda o homem a despertar para virtudes latentes. Lapidar-se e buscar a conduta adequada e intensamente prática. Foi mais fácil refazer os passos de Santa Bernadete dentro do convento. Acho que esse foi o caminho dos santos. Superar os obstáculos da caminhada. Encontrar portas fechadas faz parte de nosso cotidiano, abri-las, no entanto, é nosso dever. E se, tendo a chave, não a conseguimos abrir sozinhos, significa que precisamos de ajuda. Ajudar uns aos outros, não no sentido da caridade, é um dos pilares da fraternidade. Maria e eu estávamos novamente juntas e ficaríamos assim até o final da viagem. Eu precisava dela, meu alter ego, e ela de mim (seu contato com a realidade).


Freedom, de Jennie Smallenbroek
Para uma viagem animada, saudável, rica, também é necessário ter boa dose de humor, principalmente no que diz respeito a nós mesmos. Encarar as dificuldades com a certeza de que tudo passa, não apenas é a força que está por trás de toda atitude, mas é também a preparação para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que se compreende que o que traz felicidade é a caminhada, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escrevemos. A vida é um mistério e ganhamos mais tempo vivendo-a, que tentando entendê-la.  Esta é talvez a primeira lição que devemos aprender: o paradoxo com que teremos que lidar durante a caminhada. O intervalo foi inspirador para a viagem, como um oásis no deserto. O principal é manter o foco e não perder de vista nossa contribuição neste universo. Olhar para os lados só acrescenta alguma coisa quando focamos nos talentos das pessoas que nos cercam. Quando se aprende a olhar por ângulos virtuosos tem-se a humildade necessária para aprender com os outros.  Maria e eu tentávamos aprender com a história dos santos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Luxemburgo com gosto de despedida!

Luxemburg night, bu Leonid Afremov 
De Munique a Luxemburgo a viagem começa a ter gosto de despedida. Chegamos então ao paraíso fiscal, um minúsculo país incrustado no meio da Europa. Acho que foi uma das gares mais bonitas por onde passamos e a noite ficava toda dourada com a iluminação. Em compensação o hotel deixou a desejar. Durante a nossa viagem ficamos, na maioria, em hotéis Mercure e Ibis (verde e azul), mas em Luxemburgo ficamos em um Ibis vermelho. Localizado próximo à gare, embora as acomodações fossem boas e dentro do hotel o ambiente bem familiar, o lado de fora nos pareceu estranho, mas nada que pudesse representar problema. Deu para encarar.


Em Luxemburgo comecei a me sentir mais em casa, depois de bom tempo ouvindo línguas estranhíssimas como o tcheco, o húngaro e o alemão, na cidade se falava o francês, ouvia-se muito português (cerca de 16% da população é portuguesa) e eu podia ler as placas de informação e cardápios. A passagem por Luxemburgo seria rápida e não perdemos tempo. Deixamos as malas no hotel e saímos para passear. O tempo era pouco então tivemos que selecionar o que queríamos ver. Passeamos pela cidade, fomos ao parque, ao Palácio Grão Ducal, Catedral, e paramos para almoçar na Place D’Armes. A praça é cercada de cafés e restaurantes, todos com os chamados terraços (mesinhas nas calçadas e opções de serviço dentro e fora do estabelecimento já em pleno funcionamento nesse terço inicial da primavera). E como em toda cidade europeia, muitas floreiras, muita variedade de tulipa. Um lugar muito agradável. No coreto central acontecem as atividades culturais, com concertos durante todas as noites de verão.   Não era bem horário de almoço, estava mais pra happy hour, ainda assim comemos muito bem e fizemos o retorno para o hotel sob as luzes noturnas da cidade, mas pudemos apreciar ainda alguns monumentos e a ponte sentindo o friozinho gostoso. Luxemburgo é bonita e tem algumas características que a tornam diferente. Em meio às construções centenárias é sempre possível encontrar uma com arquitetura moderna, abusando de vidros, formas arredondadas e muita iluminação. Luxemburgo é muito muito. 

Era nosso último dia do grupo dos cinco. E eu fui invadida por grande tristeza. Durante esses primeiros quinze dias aprendi a conhecer melhor meus companheiros de viagem, não meu irmão e cunhada, esses já convivo com eles há muito tempo, mas, em especial, Adélia e Marcelo. Durante esses dias ganhei mais dois irmãos no sentido exato da palavra, que também me chamavam de Maninha, se preocupavam comigo em detalhes que só mesmo eu percebia a importância. É claro, são amigos do Dedé, o carinho a mim dispensado de certa forma era reflexo daquela amizade, mas nem por isso menos importante. O carinho não está incluído no quesito educação, certo? Isso é um extra a que dou grande valor.  Não saí para essa viagem em meus melhores dias. Meu coração ainda chorava a dor da perda do papai. Ficava ansiosa para ter notícias de minha mãe que, sem dúvida, enfrentava no momento, além da perda, a minha ausência.

Minha tristeza se dissipava perto da Adélia.  À exceção do domingo em Dachau, ela estava sempre alegre, cheia de entusiasmo, com olhar vivo e curioso sobre tudo. Não foi à toa que a elegi “miss simpatia” da viagem. Foi também minha modelo preferida. Bastava chamar e ela já virava sorridente, pronta para a foto. Marcelo com sua aparência de monge indiano transmite sempre serenidade e junto com seu estilo está um olhar observador. Sempre ponderado com as palavras. Muitas são as “acontecências” durante as viagens, mas destaco uma aqui, para ilustrar essa imagem que descrevi do Marcelo: no metrô em Viena entrou um menino de mais ou menos 6/7 anos com o pai e ao ver o Marcelo juntou as mãozinhas e lhe fez reverência. Brincadeira ou não é essa imagem que ele passa. Aproveito este post para agradecer aos meus novos irmãos Marcelo e Adélia pela companhia extraordinária.

Contei no post de Berlim como fiquei constrangida com a abordagem do segurança do supermercado, mas como venho dizendo ao longo desses posts-relatórios de viagem, há sempre tanta informação para ser processada que muita coisa não dá para ser escrita. Mas volto ao episódio de Berlim para agradecer também à minha cunhada Cleuza. Depois que o segurança olhou o que eu tinha nas sacolas – ela que tirou uma a uma as peças – com muita educação ele nos pediu desculpas, tentou explicar que poderia ser alguma etiqueta das novas roupas que não tinha sido desmagnetizada. Aí, com ligeiro tremor nos lábios e com a dureza que lhe é peculiar, ela disse em quatro idiomas – cada palavra em um – “tudo bem, nós é que perdoamos você”. Dá para imaginar essas palavras ditas em inglês, francês, português e espanhol? Então vejamos: Ok, nous perdoamos usted.  Agora a gente ri e nem sei como pude prestar atenção nisso. Obrigada Cleuza, é nessa hora que a gente tem a certeza de que somos família e que esses 40 anos de convivência serviram para estreitar esses laços.

Em relação ao meu irmão não sei por onde começar. Sempre foi meu ídolo, aquela coisa de irmã mais nova mesmo. A vida coloca cada um em seu caminho, mas no caso, ele foi dotado de um espelho retrovisor e assim, nunca me perdeu de vista. Sua companhia é sempre muito agradável. Extremamente sensato, observador, estudioso, atento e cuidadoso, representou para o grupo todo o ponto de apoio, a segurança que a gente busca quando está em um país estranho.  Um guia turístico perfeito. Pesquisou antes, visitou pelo google heart todos os lugares que fomos e parecia conhecer tudo como a palma de sua mão. Às vezes que não acertava é porque perdia o norte, então ganhou uma bússola do Marcelo. Essa viagem para mim foi presente dele. Não gastei um tostão com passagem, hotel, alimentação, transporte.  O dinheiro que gastei foi para comprar bugigangas – que ele ajudou a carregar – com a mesma complacência que se tem com crianças. Obrigada Dedé! Nossa viagem não termina aqui. Agora vamos para Paris realizar meu sonho adolescente.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Munique: no clima da Baviera



The Marienplatz in Munich, 1853, oil on canvas by Anton Doll, 1826-1887, German landscape artist and representative of the Munich School.


A viagem de Graz para Munique foi linda e cheia de imprevistos. Seguíamos de trem pelos Alpes e em determinado momento, um impedimento que não ficamos sabendo exatamente o que era, mas que impossibilitava a passagem do trem, nos fez voltar para pegar um ônibus e terminar a viagem, até à estação onde trocaríamos de trem. Isso fez com que passássemos ainda mais perto das montanhas e pudéssemos encher os olhos com a paisagem de neve
. É um espetáculo lindo! Chego em Munique sem qualquer expectativa a não ser a ida para Dachau. Com o bombardeio de informações que nos chegam, precisamos cada vez mais, apurar o nosso discernimento e o holocausto estava em meus projetos de conhecimento da verdade. Havia informações duais na internet. Mas Dachau é rapidamente esquecida para curtir e saborear a primavera alemã, naquela parte que um dia foi da Bavária. A cidade repetia o que tinha visto em Graz. Parecia que todo mundo estava na rua. Antes de chegar à Marienplatz, uma pracinha de pedras reunia jovens tomando sol e ouvindo música. Aliás, música ali também estava em toda parte. A alegria estava estampada nos rostos de cada transeunte e de forma contagiante. A primeira coisa que observei é que tinha gente do mundo inteiro. Um laboratório de raças. Foi o lugar que mais vi mulheres de burca e homens com aquele paninho na cabeça.  Loiros, brancos, morenos, negros, altos, baixos, negros altos e loiros baixos, e muita gente com o uniforme do Bayern. Era sábado... o time devia estar jogando.  Enfim, gente de todo tipo. E à primeira vista, gente feliz!

Fomos almoçar em um horário estranho, mas a comida era farta e gostosa. Acabamos adotando esse restaurante para as refeições dos dias seguintes. Só não deu para engolir mesmo o que eles chamavam de “bolette de pomme de terre” no cardápio em francês e “gnhoc di patata” no cardápio em italiano. Parecia uma bola de grude e nem passava perto daquilo que conhecemos como nhoc. Mas a carne e a salada estavam excelentes e o repolho roxo tinha um tempero especial, muito gostoso mesmo. Nesse primeiro dia apenas passeamos pela Marienplatz e fomos até à Prefeitura.  Tivemos que dar uma corridinha no hotel para agasalharmos melhor, pois à medida que escurecia, também esfriava. Com isso, ficamos até à noite andando por ali. 
Munique, Karl Walther  (1905)


Eu estava muito encantada com o impacto que a primavera tem nessa parte do mundo. As vitrines eram espetaculares, decoradas como fazemos no natal, sempre com o tema primaveril, com flores, borboletas e muitas luzes. Munique foi a cidade do consumo!  Com tanta informação chegando por todo lado, com tanta coisa diferente para ver, para pensar, a gente fica meio entorpecida. Imaginava que em viagem eu ficaria mais detalhista, mais atenta, mais esclarecida. Ledo engano. Era muita informação para processar imediatamente. Com certeza, este texto está saindo bem diferente do que teria escrito no mesmo dia. O mundo não é igual para todo mundo, mesmo que todos tivessem as mesmas oportunidades, simplesmente porque o nosso crivo pessoal passa pelas nossas experiências e não pela nossa educação formal. Infelizmente não existe uma técnica com garantia científica, mas certamente podemos contar com nosso olhar sem preconceito e as nossas experiências individuais para nos orientar em relação à mensagem que recebemos.

O domingo passamos em Dachau -  conto a experiência em outro post –  e à noite jantamos em um restaurante diferente e comemos o que seria nossa “jantinha de rua”: arroz, salada, batata frita e espetinho. Demorou para ser servido, mas valeu a pena. O arroz fica bem diferente do nosso, rs! E na segunda-feira fomos desbravar Munique, estava chegando o final de nosso estirão. De Munique iríamos para Luxemburgo e separaríamos o grupo. Marcelo e Adélia iriam para Holanda e nós para a França.  Caminhamos bastante nesse dia, fomos a lugares belíssimos e vimos muita coisa bonita. Paramos um tempo em um parque para ficar apenas olhando a movimentação das pessoas.  Bem pertinho um casal de brasileiros com duas crianças, visivelmente moradores da cidade. Esses eu não perturbei. Toda vez que me encontrava com brasileiros fazendo turismo eu perguntava se no Estado deles não tinha crise. Eu me divertia com isso, principalmente com as respostas e justificativas.

Em Munique eu aprendi uma outra linguagem: a da mímica, além de que foi lá que consegui a façanha de me tornar consumista. Ali sim, vi coisas baratas e me deu vontade de comprar, acabei me esbaldando em uma perfumaria, sem falar uma só palavra em alemão e as vendedoras sem falar nenhuma palavra em português, francês, italiano ou inglês. Estávamos a Adélia, Cleuza e eu, os meninos tinham ficado o hotel, e cada uma de nós se virava em uma língua, mas não em alemão. Ainda assim compramos, fizemos o tax free, saímos com todos os documentos em ordem e ainda ganhamos brindes. Bendita compra! Em Paris os preços estavam bem mais altos. Antes de viajar a Elisa havia feito uma tomada de preço em real dos perfumes que queria e no aeroporto em São Paulo, no Dutty Free, eu peguei os preços em dólar, então ficou fácil fazer uma comparação com o euro e ver que ali o preço era vantajoso. E muito vantajoso.


Enfim Munique quebrava de forma definitiva tudo o que eu pensava a respeito dos alemães.  Nada em Munique lembrava as fotos que tinha visto da segunda guerra e que transformara a cidade em escritório político de Hittler. A cidade reconstruída esbanjava beleza e alegria.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cor, música e alegria na primavera em Graz


Desconheço a autoria, certamente, pelos detalhes  que se vê em volta da tela, algum artista de rua em Graz



A viagem para Graz foi marcada de novidades. Já não era o campo apenas que me embevecia de beleza, mas a mudança da paisagem ainda com neve, mas mostrando um pouco do brilho da primavera. Nesse dia, em especial, não amanheci me sentindo bem. Nada que não tivesse sentido antes, mas era a primeira vez desde que começamos a viagem. É sempre aquela sensação que a gente não sabe explicar: não sei se é o pulmão que pressiona o peito, ou se os ossos que se retraem e apertam o coração. A dor na cabeça chamou o silêncio para me fazer companhia, e acabamos nos separando na parada em Hegyeshalom.  A dor na cabeça passou, mas o coração estava ainda muito descompassado e quando chegamos a Meidling para fazer a troca de trem em apenas quatro minutos eu destampei a chorar. Não sabia explicar se era por causa do mal-estar ou se pela vitória de ter conseguido sem atrapalhar meus companheiros de viagem. Chegamos a Graz. Achei que nesse dia eu ficaria no hotel, mas a cidade transpirava alegria. O frio cedia espaço para a primavera entrar e, sentindo-me melhor, aprontei e fomos conhecer a cidade.

A arquitetura em Graz segue o mesmo estilo de tudo que vimos na Europa, mas menos cinzenta. Os prédios vão do branco, passando pelo bege, amarelo e até o alaranjado, azul, verde, tons avermelhados e ocres,  o que dá à cidade um tom mais quente, colorido.  Não tem tantas coisas para ver, não é uma cidade turística, e nós fomos parar lá por outros motivos. A colina com o relógio, a ilha artificial, o museu, a universidade, o castelo, algumas igrejas, tudo muito bonito, mas algumas coisas nem nos mobilizou à caminhada. Passeamos na Hauptplatz e nas imediações dela. E não nos arrependemos. Acredito que por causa da primavera, o povo estava muito alegre. Havia música em cada esquina, até um piano fora transportado para a praça. Idosos, adultos, jovens, crianças e cachorros, todos estavam na rua. Muita bicicleta. Bonde elétrico. Cafés, choperias, tudo muito acolhedor. 

Em Graz passa um rio sobre leito de pedras e faz  barulho de cachoeira,  que evocou lembranças de minha infância e adolescência. A não ser que eu vá em Pirenópolis, esse  som raramente ouço. E lá também tem ponte dos cadeados. Aliás, essa tradição de cadeados também vimos em Budapeste. A árvore do amor está cercada por uma grade e é nessa grade que os apaixonados prendem seus cadeados. Não sei onde jogam as chaves, mas em Graz e Paris, as chaves são jogadas no rio.  Eu moraria tranquilamente em Graz. Um lugar tranquilo, assim como foi tranquilo nosso passeio. Sentamo-nos em alguns lugares e apreciamos a dinâmica da cidade. Parávamos para ouvir os artistas de rua. Acho que todo mundo que tocava um instrumento estava na rua aquele dia, se não tocando, carregando seu instrumento. Talvez até procurando uma esquina que não estivesse ocupada. No final da tarde, à medida que escurecia, o vento e o frio se intensificavam e a cidade começava a se esvaziar. Tomamos um chocolate quente antes de voltar para o hotel. Nesse dia jantei uma salada com camarão e pene deliciosa, cujo sabor ainda está guardado na memória – que pretendo fazer em casa qualquer hora -  e no dia seguinte seguiríamos para Munique. Eu teria perdido um passeio adorável se tivesse cedido à pressão de me sentir doente. 

Bem, eu disse que Graz não é cidade turística. Como saber disso sem ter uma informação confiável? Cheguei à essa conclusão pelo número de câmeras fotográficas e celulares fotografando. Não eram tantos como nos outros lugares que já havíamos visitado, mas ainda assim eram muitos. Quem disse que por ali não teria brasileiros? De cara me chamou a atenção o cartaz de show do brasileiro Luiz Antônio, desconhecido por aqui, mas, certamente, um artista se virando em terras estrangeiras. E logo nos encontramos com uma amazonense que nos informou que em Graz tem considerável comunidade brasileira, com muitos artistas e que era possível, inclusive, dançar forró por lá nos fins de semana.

Gosto de ilustrar meus posts com  obra de arte e só opto por fotos quando realmente não encontro  tela que represente, de alguma forma, o conteúdo do que escrevo. Meu irmão diz que leva mais tempo para escolher a música que para editar o filme. Assim sou eu: levo mais tempo para escolher a imagem, que para escrever o texto. Selecionei alguns pintores austríacos para ver se encontrava alguma coisa de Graz e que fosse lá do passado, do século XVII, mas não encontrei. Passando por muitas coisas encontrei no blog http://michelleswafflings.blogspot.com.br/2012/04/april-2012-photo-day-challenge.html  a imagem que ilustra este texto. Infelizmente não tem o nome do autor, mas é a cara do post!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Nem só de valsas viveu o Danúbio

Rudolf von Alt - View of Budapest from Castle Hill at Museum of Fine Arts Budapest Hungary



Amanhece frio em Budapeste. Venta muito e uma chuva fina insistente ameaça cair a todo instante. Nem assim ficamos em casa, havia muito o que explorar e nosso roteirista havia reservado um dia para Buda e outro para Peste. Ainda não completamente invadida por turistas, a cidade é fascinante e repleta de monumentos grandiosos. É bom conhecer um pouco de sua história e, para não escrever o que alguém já fez com mais propriedade que eu faria, vai aqui um site:  http://www.aproximaviagem.pt/n5/05_budapeste.html


Conhecendo, então a história de Budapeste e sabendo do sofrimento de seu povo com o nazismo e o comunismo a cidade tem o que mostrar. Começamos com nossa tradicional caminhada até a Ponte das Correntes para ir a Buda. Antes passaríamos pela praia onde foi construído o memorial em homenagem aos judeus assassinados pela milícia fascista Arrow Cross (Cruz de Flechas) durante a Segunda Guerra Mundial, quando Budapeste se aliou ao nazismo. Eles eram obrigados a retirarem os seus sapatos antes de serem executados com um tiro na nuca ou metralhados. Os corpos caiam sobre o Danúbio e eram levados pela correnteza. Mais conhecido como Monumento do Sapatos, o monumento “Os Sapatos às Margens do Danúbio” foi idealizado pelo diretor de cinema Can Togay e criado por ele e o escultor Gyula Pauer, que criou sessenta pares de sapatos em ferro, no estilo dos anos quarenta. Os sapatos foram fixados na pedra por cerca de 40 metros e numa base de 70 centímetros. Em três pontos existem placas com o seguinte texto: "Em memória as vítimas assassinadas no Danúbio pelos militantes da Cruz de Flecha no período de 1944 e 1945. Produzido em 16 de abril de 2005." Este memorial foi erigido num sábado e instituído como o dia de lembrança às vítimas do Holocausto na Hungria.

O frio intenso e o vento dolorido no rosto parecem ter ajudado a aflorar minha sensibilidade. Chorei muito nesse dia e ainda mais porque estava lá um grupo de turistas judeus prestando homenagem. Carregavam flores que depois foram jogadas no Danúbio. Este é um Danúbio cinzento, que em nada lembra a magnitude exaltada na valsa vienense. Ele também conta histórias tristes.

A travessia pela Ponte das Correntes foi embaixo de chuva. Mal pudemos vê-la nesse dia, mas no dia seguinte a vimos sobre vários ângulos no tour de barco e de ônibus. Inclusive à noite. A Ponte é simplesmente magnífica.  Enfim, chegamos do outro lado e pegamos o funicular para subir a colina. Um carro ameaça os pedestres e quase pega minha cunhada. Aparece aí uma personagem que não anotei o nome, confiando em minha memória, e chegando ao hotel já havia esquecido. Ela deu a maior bronca no motorista e depois nos pediu desculpas dizendo que ele era um louco. Eu o fotografei um pouco depois usando um capacete vermelho e conversando com outro homem. Certamente alguém que não gosta de turistas. Lá em cima muitas lojas de souvenirs e eu só pensando na feirinha que tínhamos visto antes de chegarmos ao Danúbio. Não comprei nada, embora me sentisse tentada também a comprar um guarda-chuva.  Pensei melhor, na quantidade de coisa que eu esqueço, já havia perdido as luvas e tive que comprar novas em Praga que manchava toda minha mão (consequentemente o rosto também, e infalivelmente, o nariz, já que ficava gelado e toda hora eu passava a mão nele para aquecer um pouco) e um pouco porque o casaco que tinha elegido como curinga era impermeável. Havia me protegido muito bem. Acabei não comprando umas colheres de pau que tinha a matrioska esculpida no cabo. E não as encontrei mais.

O palácio/castelo é mais bonito visto de Peste ou do Danúbio,  mas a visão da cidade é belíssima. O Parlamento e a Basílica se sobressaem por sua imponência. A Cidadela conta histórias de medo e de bruxas que ali habitaram. O Bastião dos Pescadores guarda belas esculturas e os museus guardam as histórias da cidade, dos reis, das invasões, das revoluções. Hoje o castelo abriga o Museu da História de Budapeste e a Galeria Nacional Húngara. Tivemos sorte em presenciar uma troca de guardas e eu, particularmente, brinquei muito com um pitbull que insistia em buscar um pedaço de pau e me trazer para jogar de novo. Dócil como um poodle, atendia pelo nome de Bull.  Voltamos para Peste e pudemos comer o típico goulash servido dentro de um pão redondo. Antes passamos pela Basílica de Santo Estevão.


À noite, no hotel, recebo a notícia da morte de uma amiga de infância muito querida e isso me deixou extremamente abalada. Ainda teria o dia seguinte e eu estava especialmente triste.  A sorte é que o dia amanheceu de céu azul, sem chuva. Caminhávamos nas proximidades da Basílica à procura da  Av. Andrássy -  que faríamos à pé até a Praça dos Heróis -  quando  demos de frente outra vez com a mocinha do funicular vendendo o tour de ônibus e barco. Explicou-nos onde era a rua, mas acabou nos convencendo a comprar o tour. Foi ótimo. Poderíamos parar nos pontos turísticos, descer, fotografar, ficar o tempo que quiséssemos, e depois pegar outro ônibus. A cada meia hora parava um novo ônibus, além da vantagem de ter um áudio-guia em 23 idiomas, inclusive em português, que era o oitavo da lista. Nem preciso dizer que encontramos vários brasileiros fazendo o mesmo. Com isso o Café New York  e o Mercado Central ficou para a próxima vez, se houver.  O ticket incluía o tour noturno e o barco. Depois de completar a visita no lado Peste, fizemos o tour de barco. Almoçamos ali mesmo e fomos atendidos por um garçom húngaro que falava português. Voltamos e fizemos o tour noturno, revisitando todos os lugares e confirmando: Budapeste reluz como o ouro.