sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Estou com câncer


Chronos, de Goya
Meus amigos e amigas, pensei um pouco antes de começar a escrever esta nota. Seria uma superexposição, ou um ato de coragem, ou ainda a necessidade de partilhar um problema que pode atingir a qualquer um de nós? Nestes últimos dias parece que estou em uma gangorra. Meu humor sobe e desce, minha coragem idem, minha disposição pela vida adquire contornos nunca imaginados. Recebo mensagens belíssimas, e, mesmo no mundo virtual, os verdadeiros amigos se revelam. Deixo de lado, então, a preocupação com a superexposição. No Facebook mesmo a seleção começou a ser feita. Aqueles que encheram minha caixa de mensagens diretas, que ligaram, que choraram juntos, que fizeram orações, novenas, que se preocuparam com o lado financeiro e se ofereceram para ajudar. Meu coração é realmente muito forte, mas emocionei-me várias vezes. Por estas pessoas, familiares ou não, já teria valido a pena as dores que estou passando. Os que não gostam de mim simplesmente se silenciaram. Não tiveram coragem de expressar “tomara que morra”. Outros sumiram:  deixei de ter o apelo da “poderosa” da Cultura. Quer maior benção que poder conhecer as pessoas por uma situação que se instala em sua vida , e que independente do mundo, vai mudá-la profunda e radicalmente? Esse é um privilégio dos que tem uma doença que causa impacto, como o câncer.
Fiz a minha primeira cirurgia. Retirei um quadrante da mama esquerda e fiquei satisfeita com a reconstrução dela. Ficou bonita, apesar de sentir dores no braço e no ombro. Aguardei com impaciência o resultado da biópsia, com a segurança de que o médico – Dr. Júlio Roberto Bernardes Júnior – tinha optado pelo procedimento correto, sem me apavorar e me transmitindo sempre grande serenidade. Entendi nas poucas palavras, que teria que enfrentar um tratamento por radioterapia, por causa da opção conservacionista. Enfim, nada que me apavorasse, embora ele – o médico – tenha deixado claro que só poderia falar em tratamento depois do resultado da biópsia. Cinco horas em ponto entrei no site do Laboratório para pegar o resultado, e não precisava ser nenhuma especialista para entender a palavra carcinoma. Eu estava com câncer, mas sentia certo alívio em tê-lo extirpado. Minha família – próxima e/ou distante – não me deixou sucumbir. Meus amigos fizeram coro. Tinha ainda que enfrentar o médico para que ele avaliasse de forma segura e definisse o tratamento. Foi um choque!
Cuidadoso, relembrando meu histórico familiar, o médico foi decodificando o resultado: tratava-se de um câncer agressivo, de reprodução rápida e as margens de segurança, que ele havia tirado, apresentava infiltrações. Tratamento: uma nova cirurgia. Só que desta vez para retirar as duas mamas. Meus sentimentos estavam confusos. Nada  explica melhor a vida, que a caminhada que se faz entre o princípio e o fim. A vida está no intervalo e a aventura de viver se consolida nas vivências e experiências. Quando experimentamos determinadas situações, sabemos que elas são íntimas, nossas, particulares. Se por um lado podemos notar as ações concretas, por outro, existe um campo mental que apenas nós temos acesso e que, muitas vezes, sepultam propósitos, dores, incompreensões. Lidamos com um aspecto obscuro da vida que não nos permite um exercício de imaginação futurística, em que dê sempre a lógica. Assim, fiquei ilhada no campo mental, vivendo meu mundinho com pena de mim.
Todos nós, em rápida revisão da própria existência, podemos observar que mesmo mantendo o mesmo cenário, nossa compreensão da vida se altera à medida que amadurecemos ou aprendemos a nos pesquisar interiormente com a consciência desperta. Ter câncer nos obriga a essa caminhada interior. É neste momento que o amadurecimento nos dita regras mais seguras e consistentes, mostrando-nos a circularidade dos comportamentos humanos. O tempo vivido nos mostra que a vida continua, mesmo com pontos nebulosos, indagações que não encontram respostas e pensamentos que surgem do nada. Mas a percepção continua sendo pessoal, mesmo que os fatos e acontecimentos sejam os mesmos para diferentes pessoas.
Não é regra geral e válida para todas pessoas, mas quero aproveitar este período para chegar ao ponto mais profundo de mim - chame esse ponto do nome que quiser -, espero desenvolver cada vez mais uma íntima convivência com o Deus de meu coração, de minha compreensão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pago o preço

Maria Madalena, Georges de La Tour

Roteiro

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha, "Poemas" Editorial Inova, Porto, p.196


Pago o Preço

Na constante batalha da vida, nem sempre sou capaz de identificar quem é meu real adversário. As dificuldades que enfrento dependem da forma como as recebo e compreendo. Se partir de mim para compreender o mundo, posso entender que sou minha maior inimiga. Sou meu defeito, minha limitação, meus medos. No entanto, observo que nem todas as pessoas estão voltadas para seus sentimentos internos ou preocupadas em lidar com eles em busca de melhor convivência. Sexo, dinheiro e poder são metas que determinam comportamentos e códigos pessoais de ética. No fundo, percebo que a luta interna se resume aos instintos de sobrevivência e destruição: vida e morte, luz e sombra.
Poucos conseguem uniformidade de comportamento, sem prejuízo – em algum momento – de seus princípios ou objetivos. Realizar o prodígio do equilíbrio em um mundo tormentoso, com certeza torna os homens raros, verdadeiras obras-primas. Nem uma palavra, nem uma linha, nem um passo em falso. Nada que possa ser explorado contra os interesses da humanidade. Esta seria uma possibilidade para aqueles que tem cabedal de virtudes interiores. Na vida, estou sempre representando papéis – impostos ou escolhidos por mim –, constantemente remando contra a correnteza. Momento em que a pedra arremessada tem a força da realidade e o peso da minha incoerência. Ir contra meus próprios valores causa-me sofrimento interno.
Preparo-me para envelhecer com dignidade. Os princípios éticos, que nortearam minha vida, não deixam brechas para arrependimento ou recomeço. Fiz minhas escolhas, criei mecanismos de defesa para me adequar à realidade. Muitas as preocupações que começam a assombrar, principalmente, a econômica, com inevitável redução da renda a que se expõe o aposentado. O mundo parece girar mais rapidamente. Os avanços da medicina acenam a um tempo de vida mais longo. Tempo que, para muitos, simboliza o prolongamento da batalha quando o viver já não registra a esperança de dias melhores. O mercado de trabalho não consegue absorver a população jovem. Os mais idosos significam excedentes na mão de obra, embora a idade seja, em si mesma, um trunfo, prerrogativa de experiência, conhecimento e percepção.
Tudo que escrevo, desvio para a vida interior, mas o mundo não está preocupado em conhecer o luminoso e terrível significado da guerra interna. A realidade dual me incita a lutar, dentro de mim mesma, contra minhas imperfeições. Difícil é identificar as situações, porque elas se camuflam. Nem sempre são o que parecem. Quando brigo desesperadamente pela vida é quando mais me aproximo da morte. A energia sexual – que acreditava extinta em mim –, a energia criativa e, consequentemente, de vida, corre o risco de ser desviada para degradações ou formas mais sutis. Eu escrevo. Apesar de parecer que isso é bom, por produzir a sensação de prazer, não estou convicta de não violar leis.
Todos sentem, todos veem, todos sabem admirar minha coragem, a fidelidade aos princípios, mas poucos compreendem a complexidade do conflito para me fixar uma linha de conduta. Não posso desistir da luta, entregar-me à morte e ao desânimo. Quero viver. Por você. Por nós.

terça-feira, 15 de março de 2011

Que venha o outono

Imagem: The Leaf, Elizabeth Forbes (1897-1898).


Foram dias sofridos, marcados pela dúvida. Maria não consegue sequer escrever, perdida no emaranhado dos seus pensamentos. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que ela só consegue fechar os olhos e pedir a Deus que lhe dê discernimento. Está visivelmente em seu limite e, por mais que procure, não consegue encontrar uma área da sua vida que esteja realmente serena. Trabalho, família, amor, tudo tem uma marca de angústia, tudo está em compasso de espera. Não consegue ler também. Uma rápida passada em frente à TV arranca-lhe lágrimas doloridas: chora por ela, chora pelas notícias, chora pelo Japão, chora pela humanidade. Acostumada a percorrer os labirintos da alma humana, Maria se vê, mais uma vez, diante de si mesma, precisando lidar com conceitos de moral, de lealdade, e, infalivelmente, com a verdade. Pensa em conversar com João, quem sabe aqueles detalhes reveladores, escondidos nas justificativas, venham à tona. É complicado falar das fraquezas do ser humano sem resvalar-se nos próprios reflexos e Maria parte do princípio que só identifica nos outros aquilo que tem nela mesma.
– Posso sair na frente, admitindo os meus erros, pensa ela.
Ledo engano. Maria não consegue conversar com João. Ele desvia o assunto para amenidades e a faz parecer uma pessoa complicada, daquelas que criam chifres em cabeça de cavalo. Pela primeira vez Maria o acha vaidoso. Ela também seria vaidosa? Onde e o quê é que estava “pegando”? Porquê não conseguiam se entender? Era evidente que o bloqueio não era apenas dele. Maria estava em um turbilhão de pensamentos e João deu a pista com um simples comentário.
– Para mim está tudo bem, mas você está recebendo pouco de mim e isso não a está deixando satisfeita. Por isso está angustiada.
– Não é apenas isso, responde ela, a verdade bate na minha cara. Fico procurando defeitos em você para justificar minha desistência, mas acabo os encontrando em mim mesma. Há pouco, achei-o vaidoso, mas mesmo a vaidade tem dois lados. Vista de forma positiva é autoestima, de forma negativa é orgulho. E neste momento, nós dois, vaidosos, nos colocamos em lados opostos.
– Minha Vida, não complique as coisas. Vamos levar as coisas com serenidade, vivendo o que nos é permitido viver e com a alegria que marcou nossos primeiros encontros. Aos poucos, vou me acostumando às suas alfinetadas. Tento entender que a sua crítica afiada não tem o sentido de denegrir a mim, mas é uma máscara que você usa para compensar a carência, a sensação de desamparo. Eu também me sinto carente, talvez não da mesma forma que você. Minha solidão é outra. Meu silêncio grita e delata outras situações.
Fragilidade e impotência estão presentes em todos nós. O outono está próximo, o sol radiante depois das pancadas de chuva será mais raro e, aos poucos, o que hoje é verde dará lugar ao alaranjado, com matizes em musgo e marrom. Maria se sente contagiada, desde já, pelo ciclo da natureza. Está no outono da sua vida. Na natureza isto significa o tempo de preparo para enfrentar dias frios e sombrios. Na vida também. Humana que é, sabe que terá que se equilibrar nas estações da existência e ser capaz de enxergar o belo no escuro e decodificar, pela linguagem da arte, a cultura da sombra.
– Tenho pressa de viver.
O tempo que tenho pela frente é precursor de horrores e não posso deixar que mágoas e raivas sejam interiorizadas e expressas em detrimento da harmonia do cotidiano, conclui Maria. Em sua maneira de simplificar as coisas, em amenizar – melhor dizendo –, João lhe mostrou ser capaz de abrir caminhos alternativos que lhe permitem trafegar em todos os reinos físicos e psicológicos, com maturidade interna. Maria entende que o ser humano não pode ser aprisionado por estereótipos porque é livre para agir e reagir. Não há regras fixas de comportamento, mas Maria pauta sua vida no bem coletivo. Quando o assunto é a emoção, o comportamento humano não se enquadra em nenhuma expressão matemática de resultado exato. Na nossa cultura, em que o novo e o descartável são supervalorizados, a serenidade madura ocupa outro espaço. De novo, Maria tem a oportunidade de exercitar sua habilidade em trafegar entre o novo e o antigo, entre o moderno e o tradicional, entre o maleável e o estratificado. Se por um lado, inventamos mecanismos para facilitar nossa sobrevivência, inventamos também a arte, um instrumento para alimentar o espírito, para nos distrair de um mundo duro e chato. Pela sua escrita, Maria se propõe a ir além do humano e criar o encontro entre o sutil e o belo. É verdade que o momento tende ao cinza, mas o importante é entender que o sentimento do outono não está, necessariamente, ligado ao declínio, mas ao sentido e ao significado que se percebe com o olhar experiente. Parabéns João! A sabedoria pode ser bem mais simples que imaginamos.

domingo, 13 de março de 2011

A guerra de Maria

Imagem: autor desconhecido

-Repete se for macho.
-Bêbado!! E ainda grita o nome bem alto para todo mundo ouvir!
-Seu burro, covarde, cretino, imbecil!, grita João jogando a mochila em Carlinhos. Poderia ser uma briga comum entre crianças, mas as ofensas eram típicas de gente grande. De longe, Maria observa as crianças em silêncio. Pensa em intervir. Aliás, no seu íntimo, pensa que só vai interferir na briga se João estiver apanhando. Enquanto ele estiver batendo, Maria se sente, de alguma forma, vingada. Nada a ver com aquela história, mas a cena a remete à única vez em que rolara na rua batendo (e apanhando) em uma colega de escola. A cena, hoje, permite análise diferente da que fez quando menina. A bebida fez parte de sua infância, de sua adolescência, de sua vida madura, de sua primeira gravidez, de seu primeiro divórcio. Era um fardo pesado demais para ser carregado, até entender que o problema estava única e exclusivamente nela. Ninguém precisava sofrer tanto por tão pouco. Ela sofria. Sua autoestima ia ao chão, como se fosse ela a se arrastar com a bebida. Desvencilhar-se desse sentimento de menos-valia não foi fácil. Entender-se como pessoa independente dessas circunstâncias foi verdadeira guerra interior. Mas conseguiu.
A liberdade significava para ela, nesse instante, o resgate de pessoas muito queridas, muito amadas, que acima de tudo precisavam ser compreendidas e respeitadas. Foi preciso sofrer para conseguir sair de seu mundinho e perceber que existiam outras pessoas no universo, com sentimentos tão contraditórios como os dela. Que travavam lutas diárias, assim como ela, para conseguir percorrer seus próprios labirintos. Umas precisavam de muletas como a bebida, outras usavam drogas, outras usavam desculpas socialmente mais aceitas. No fundo era tudo a mesma coisa.
O ser humano cria mecanismos de defesa, procura justificativas para suas atitudes e, na maioria das vezes, é complacente consigo mesmo. O autoenfrentamento é sinal de coragem, mas os mais conflituados são aqueles que mais se buscam. Maria havia aprendido a lidar com gente assim em grupos de apoio a pessoas com depressão. Aprendeu a amar o ser humano, embora reconhecesse em muitos a maldade programada e consciente. Tinha pena desses.
Maria não sabe exatamente quanto tempo durou suas reflexões. Os gritos das crianças a tiram do alheamento e a colocam de volta à realidade. Os dois meninos estão rolando no chão. Não dá para saber quem está ganhando a briga. Naquele momento, Maria entende que são apenas duas crianças aprendendo a viver como os adultos. O que ela está fazendo ali que nada faz para mostrar que o mundo não é apenas essa m... que aparenta ser? Percebe que de novo andou dando voltas em torno de seu próprio umbigo. Sente as lágrimas correr em seu rosto e vai ao encontro dos garotos. Separa os dois, espanta a platéia, leva-os para lavar as mãos, secar as lágrimas, fazer as pazes e os convida para, juntos, tomar sorvete.

domingo, 6 de março de 2011

Nós


Imagem: Apollo e Daphne, de Waterhouse
Poema de J.G. de Araújo Jorge


Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...

Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?!

Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!

E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Tudo em mim dói

Imagens: Goodward

Como previsto, Maria se encontra com a dor, mas o amor não se altera com o passar das horas ou das semanas, nem se deixa estremecer diante das tempestades, ou se curva diante das forças contrárias. A impressão que Maria tem é que tanto faz se começou ontem ou há mil anos. Nem ela, nem João, são servos do tempo, embora vítimas. Hoje eles sabem muito mais um do outro, estão juntos, por isso é difícil dizer adeus e perder tudo que viveram. Maria e eu marcamos então um encontro para, mais uma vez, buscar explicações, porque é cansativo viver sem vírgulas. Maria respira a existência de João 24 horas por dia e só coloca mesmo pausas teatrais para que ele não enjoe dela. O desejo era bem outro. Queria esquecer o relógio.
Encontro-a com desarranjo intestinal, olheiras bem marcadas, inapetente e com fortes dores no peito. A tristeza é visível em seu olhar e, justamente nesse dia, ela terá que gravar um programa para a televisão. Não quer ser delatada. Chora escondida, e para não ceder ao desejo, desliga até o celular. Voltará a ligá-lo no final da tarde. Ainda não está pronta para a separação. Seria tão mais fácil se estivesse desiludida, decepcionada com João, mas não é nada disso. Mais do que nunca ela admira João, e amor para Maria começa com a admiração, que desperta o respeito e desencadeia uma série de sentimentos bons e verdadeiros. João é paradoxo. É, ao mesmo tempo, simples e sofisticado, velho e menino, rei e escravo, alegre e triste (aqueles olhos não a enganavam). João é como um pássaro cativo, seu gorjeio preenche o coração de Maria. João também é de barro, está sem tempo reformando a casa da esperança. João é como o santo, acende a fogueira do seu coração. Maria ama João. Sempre o amou. Mesmo sem toques, sem proximidade física, sem poder, sequer, validar se a sua imaginação é semelhante à realidade. Maria perde o brilho do ouro. Sente a dor íntima e inconfessável de ter sido enganada pelos próprios critérios. Está revoltada com a mediocridade da sua vida e se promete mudanças.
 - É verdade, Maria, mas antes é necessário conter seu espírito impulsivo, manter a calma, cultivar a paciência. Não se esqueça que está no sétimo período! Destruir para construir depois. Caos total! Procure manter a serenidade, sem querer precipitar o que pensa que será o fim.
 - Eu não imaginava que resgatar João, na memória e na vida, significaria um exercício de transcendência do amor. Foram novas emoções. Agora preciso esquecer. Foi um sopro de vida. Eu queria me sentir bonita de novo. Iniciei uma dieta, até batom tenho usado, reclama, sentindo pena de si mesma.
 - Querida, você despertou a mulher que insistiu em enterrar, na esperança de não sofrer mais. Viver é isso mesmo: expor-se às emoções, aos sentimentos, aos desejos. A Maria que conheço encontrou um porto seguro para desembarcar com sua bagagem poética. Isso é muito bom, não deixe acabar. Faça de João apenas o estopim para sua explosão criativa.
 - Ah se fosse assim tão fácil... Enquanto só amei João, ele era realmente minha fonte de inspiração. Fui longe, eu o toquei, fui tocada. O cheiro de sua pele ainda está entranhado em mim. Eu o desejo. Estou viva, apaixonada, com sede de afagos e beijos. Contida, é verdade, mas dentro sou barril de pólvora.
 Maria percebe que, desde que optou por colocar João como homem em sua vida, seus hormônios parecem descontrolados. Ela é mais olhada. Às vezes ouve algum comentário sobre o brilho dos seus olhos, ou sobre a sensualidade da sua cruzada de pernas. Observações sempre muito discretas, ainda que galanteadoras, porque há muito Maria criou muralhas que a separavam dos desejos comuns. Tudo isso coloca em erupção o vulcão que tem dentro.
A noite foi longa e fria. Maria não conseguiu dormir. Rolava na cama à procura de João. As imagens do sonho se misturavam aos ecos da realidade. Maria acorda cansada. Olha com desânimo o chuveiro, ainda sente frio. Com a alma em frangalhos espera notícias de João. Ele resolveu quebrar o silêncio. Maria bebe palavra por palavra, enquanto grossas lágrimas lhe escorrem pelo rosto sem maquiagem alguma. A cada frase, mais dor! Uma dor que se mistura à ira, ao amor irrealizado, à vergonha de ainda continuar querendo, ao desejo de se entregar a um amor proibido. Terá que conviver com suas sombras. Nem Deus poderá livrá-la de seus pecados, mas como confessá-los? Há um vazio enorme em tudo que Maria olha. Ela fecha os olhos num gesto de fuga de tudo que a cerca. Sozinha, na escuridão que sua alma se encontra, ela se deixa levar pelos caminhos do inconsciente. São vários os porões da sua alma.
 - Ah! João, quanta falta você me faz!, suspira conformada.
João deve estar agora buscando sua paz em meio ao verde, aos sons da água viva dos rios e cachoeiras. Maria experimenta, conscientemente, sentimentos pouco nobres. Sabe agora o que é a inveja. Sente profunda inveja da mulher que tem a propriedade de João. Da inveja ao ciúme, o movimento é menor que o de um peão no jogo de xadrez. Pássaros, anjos, músicas das esferas, nada disso tem importância. Maria vive um inferno. Não tem a alma de João e nem seu corpo. Terá que se contentar com migalhas de um amor que nunca será seu. Maria está mais só do que nunca.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A prece por Maria

Poema e pintura: Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

http://anegraamajesus.blogspot.com/



Súbita rainha.
Maria de Deus,
Maria das dores,
Maria das honras,
Maria das mães.
Maria das graças,
Maria das pretas,
Maria dos famintos.
Marias somos.
De todos os filhos e filhas,
De todos os calvários,
De todos os ventres.
Livrai-nos, senhor,
De todos os maus agouros.
De toda sorte de padecimento junto ao pé do Criador.
Acaricia meu pequenino rosto de menina,
Veja onde a sua graça me tocou.

Mariazinhas...
Enfeitadas de graças,
Enfeitadas de carne,
Enfeitadas de flor.
Enfeitadas de espinhos,
Enfeitadas de cruz,
Enfeitadas de dor.
A hora do amor,
A hora profunda da dor...
Filhos pari,
Amores perdi.
Meu corpo secou.
Maria, levanta,
A cruzada apenas começou.
Maria da força,
Maria da caça.
Maria, acorda.
Tua força,
Teu pulso leviano,
Tua âncora sem cor.
O teu nome, Maria,
Foi teu deus que ordenou.
Não fuja, Maria, da trincheira.
Reserva, Maria, a tua glória final.
Em nome do pai,
Teu parceiro encantado.
Em nome do filho,
Teu rebento encarnado.
Em nome das rosas
Em teu útero geradas.

Amém.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ninguém sabe a dor que sinto

Imagem de Munch



Os últimos dias não foram risonhos para Maria. O clima chuvoso, cheio de nuvens e escuro a atingem como um petardo de guerra e tudo que ela deveria ter pensado antes, vem à consciência agora. Está irremediavel- mente apaixonada. Não é o amor que a faz sofrer, mas a paixão. Sofre duplamente, por que a paixão, “posto que é chama”, está fadada ao fim e, ainda, por que a distância a impede de alimentar o fogo. Que sei eu do fim para fazer previsões? Uma visão otimista diria que a paixão vai passar e o amor vai se fortalecer, alicerçado pelo genuíno desejo de ver João feliz. É verdade. Palavras que consolam.
João já é feliz sem Maria. Sabe lidar com suas influências aquarianas como ninguém, sem perder o foco da objetividade, do utilitarismo. Pela primeira vez, desde que se encontraram Maria tem medo de sofrer. O medo, por si só, já é sofrimento. Natural, portanto, essa angústia generalizada e sem motivo aparente, mas que assusta. A angústia desequilibra a nossa dinâmica psicológica, provoca transtornos mentais, dá a sensação de aperto no coração e o medo que não sabemos de quê. Certa está que estas sensações fundamentam a condição humana diante da liberdade absoluta, da morte ou da distância.
Ronda-me a morte e é difícil seguir em frente quando nos sentimos em estado de desamparo, quando nos falta convicção de que podemos sobreviver por conta própria, nutrindo-nos dos conteúdos internos, sentimentos e pensamentos que nos identificam. Afirmei que João é feliz, mas coloquei-o numa condição objetiva. Fui rasa. Todos nós, em maior ou menor intensidade, somos constantemente desafiados a nos olhar no espelho, a ficar diante de nós mesmos e responder as perguntas que mais evitamos. Podemos até tentar empurrar com a barriga, mas só conseguimos adiar a crise. Passear na alma de João é um risco, uma incógnita. Ele sabe guardar bem seus sentimentos e dúvidas. Vive. Se isso lhe basta, basta a mim também. Sorte a nossa que o inconsciente não se deixa corromper pelas facilidades.
Maria sempre olha João com amor. Não o rotula pela educação, cultura ou conhecimento, mas pela sua capacidade de administrar conflitos – se é que os têm –, de forma que sua vida não se sustenta no que o outro pensa. Na realidade, a vida de Maria também não, mas ela tem o hábito de mergulhar em águas profundas para se encontrar com sua vacuidade, sua inexistência, sua angústia da ausência. Reconhecer as diferenças entre João e Maria, no entanto, não me dão autoridade para qualquer julgamento, uma vez que nem todo o conhecimento do mundo seria capaz ou suficiente para me representar diante do abismo da identificação. Também eu procuro pela harmonia interna, pelo resgate da minha identidade.
Desde que eu, João ou Maria, aceitemos o desafio de derrubarmos o mundo que construímos baseado nas pessoas que amamos, colocamos em xeque os nossos alicerces. Sinto que é possível, sem alterar o visível, desnudar-nos do aparato lógico, encontrar novas possibilidades e experimentar a sensação de liberdade. Uma liberdade que, segundo Sartre, “não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo, mas o radical da mais íntima estrutura da existência, separado de todos os outros”. Não sei como se faz isso na prática.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O pecado e doce prazer da gula


Imagem de Botero

15 dias sem colocar doce na boca... Uma vitória para esta formiguinha. A história é antiga, já foi publicada aqui, mas a função é me lembrar que a dieta continua.


Santo Deus! Não me deixe cair em tentação. Dietas são sempre complicadas. Traz à tona a Síndrome da Mulher Mal-Amada. E a saudade de um tempo não vivido, que só se conhece por meio das obras de arte, quando as belezas retratadas eram mulheres cheinhas, de formas arredondadas e de carinhas satisfeitas. Comer, nos dias de hoje, realmente é um ato de coragem. Regra geral, depois dos 50, o maior pecado que assombra a mulher é o da gula. Um absurdo! Gula? Porque será que deram ao ato sexual a característica de "comida"? Que estranha relação é essa que afasta mulheres e homens dos saudáveis prazeres da mesa e da cama? Se quando um falta, o outro supre?
Ah! A mulher mal-amada não consegue mesmo se esconder sem sofrimento.
A Primavera se aproxima e logo depois o Verão. Não terei como me esconder em roupas largas. Certamente não pretendo ser uma modelo esquálida, mas quero usar e abusar da elegância. Em casa, o filho mais velho olha de forma repreensiva quando lanço lânguidos olhares para a sobremesa. A filha caçula, complacente, até tenta agradar.
- Mamãe godinha... mas é tão monita!
Fico olhando para o pé de jabuticaba. Alguns frutos estão maduros, não engordam, mas sonho mesmo é com deliciosas truffas, sorvete com muito chantilly, ou mesmo os deliciosos doces caseiros da minha mãe: banana, goiaba, abóbora com côco. Ambrosia. Porque não? Hum! Que tentação!
Na sala ao lado ouve sua amiga rosnar.
-Eu quero chocolate! Não aguento esta Síndrome de Abstinência!.
Gargalhada geral.
-Abstinência de quê?
-De marido, de comida, de doce. Sou chocólatra assumida! Desse jeito acabo virando um coró.
Nessa luta contra o vício não se pode deixar de lado a análise que mais uma vez as mulheres são mais generosas. Seus homens podem engordar, criar barriguinhas e barrigões, perder todos os cabelos e nem por isso são chamados de feios. A mulher certamente sabe amar melhor e mais intensamente que os homens. Bela herança deixamos para os nossos filhos. Definitivamente, essa escravidão à estética tem que acabar. Por isso mesmo, resisto a todas as tentações, tomo um café com adoçante. A dieta vai continuar. Afinal, tenho pés pequenos, se liberar a boca eles não conseguirão me suportar.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Maria e eu

Imagem de Tolouse Lautrec


Nem todos os dias amanhecem com sol radiante, com algazarras de pássaros, música no ar. A Natureza também obedece a seus ciclos e faz chover, escurecer, calar os bons sons. Troveja lá fora e em mim. As janelas estão fechadas para a tempestade e dentro de mim também. Não vejo o relâmpago lá fora e, em mim faltam lampejos de luz. O dia amanheceu triste. Para mim e para Maria.
Encontro Maria no saguão da Igreja, após a missa. Acontece ali uma apresentação da orquestra de câmara. Sentamo-nos a um canto, embaladas ao som dos grandes clássicos, para conversar sobre nossas últimas experiências. Maria representa a esperança, o sonho, a vontade de realização, e eu, a mente pesquisadora querendo lhe invadir a alma. Somos, ao mesmo tempo, o complemento e a diferença. Invejo a capacidade de Maria de começar, começar sempre. Comento com ela sobre o constante recomeço e ela explica que nunca recomeçou.

- Recomeçar significa zerar tudo e voltar atrás fazendo um novo início, mas o que já vivemos não é possível apagar. Então, estou sempre começando, com uma nova compreensão, outro olhar, outro ambiente.

Maria diz invejar em mim a capacidade de aceitar a vida sem que a luta signifique guerra, pela habilidade da eterna transformação do cotidiano em palavras. Conversamos sobre ética, sobre valores que, hoje, parecem não pautar mais o comportamento das pessoas.

- Em todas as camadas hierárquicas, a necessidade de sobrevivência tomou o lugar da ética e o ser humano não tem mais tempo de apreciar o outro lado da vida, comenta ela.

Já encontramos o cenário pronto quando chegamos para a vida, mas esse cenário não existe apenas para o passado e o presente. Ele está pronto, inclusive, para muitas das etapas futuras. Não é tão fácil como parece desvencilhar-se das tendências da massa e ter pensamento e luz próprios. Algumas situações são ainda mais constrangedoras, pois não adianta fazer a coisa certa, porque está estabelecida outra forma para a sobrevivência e convivência, que nos deixa com a sensação de sermos inadequados para o mundo. Comento então com Maria que a humanidade parece ter um ritmo, que não é necessariamente o nosso.

- Gente é gente, no oriente e no ocidente, e sempre terá que lidar com a dualidade de tudo que existe, procurando o equilíbrio e a sensatez. Mesmo aquele que tem a percepção mais limitada é chamado, em algum momento, a participar da vida, sem representar papel algum.
- É chamado, mas pode recusar o convite e continuar a sua vida dentro dos limites que se impôs, completa Maria.
- Não seja tão dura.

Assim, reconhecemos que passamos por períodos de transição, ela e eu. Percebemos o quanto somos resistentes às mudanças. No entanto, há um momento em que colocamos o passado e o futuro em um mesmo ponto: no presente.

- O tempo inibe a nossa arrogância, enquanto senhores do mundo, quando não permite ser palpável.
- Somos corajosas. (Risos). Olhamos em nossos espelhos sem tentar esconder nossos lados sombrios e arrancamos, sem titubear, as nossas máscaras.
- O mundo está aí, cheio de contrastes, mas podemos escolher de que lado viver, que papel representar e, nós escolhemos construir nosso ser e prepará-lo para buscar a serenidade.
- Humanas e falíveis. Erraremos ainda muitas vezes, mas sempre tentando acertar.

O tempo passou sem que percebêssemos. Emocionadas com o reencontro, com o elegante espaço que nos cercava, com a música envolvente, com a conversa intimista, fizemos um acordo: não nos abandonaremos outra vez.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Homem e o Tempo

Imagem: Melancolia, de Munch


Na porta do mundo
Há um homem sentado.
Está ali há tanto tempo
Que criou raízes.

Diante do tempo,
O medo da morte.
Indefinível
Ser e estar
Tempo e espaço
Vida e morte.
Limites do homem.

Atrás do tempo
O mundo não pára.
Dia e noite
Noite e dia
Em tudo há ritmo.
A vida passa rápida

Passa a criança
passa o sonho
Passa o jovem
passa a coragem
Passa o Ser
passa a hora.
Passa o tempo
Passa o tempo?

Passatempo
O tempo que traz
O tempo que leva
Então passa a vida.
Fica só saudade!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Intimamente intenso

Imagens de John William Godward


Mal os primeiros raios da manhã despontam no horizonte e Maria acorda. Bem antes do horário habitual. Está especialmente triste. Especial usado aqui, como João sempre frisa, no sentido de ter alguma significação, de levar coisas boas. Ainda que seja muito especial, é uma tristeza. Profunda. Maria tenta passear por seus labirintos mentais à procura dos reais motivos. Seu corpo chora com saudade. Sua alma pede alimento. Pensa que precisa comprar dois livros para presentear João: O Amor nos Tempos do Cólera, de García Marquez, e Auto de Fé, de Elias Canetti. Levanta-se com a firme idéia de pedir pela internet e mandar entregar no endereço dele. Já ao computador lembra-se que não tem o endereço. Precisa esperar. O tempo de espera começa então a produzir seus questionamentos. O tempo chega para todo mundo e quando amadurecemos adquirimos a sabedoria de nos recolhermos. A cada recolhimento, a quietude interior nos proporciona reflexões, acolhimento e a sensação de uma solidão amiga. Aprendemos a chorar as dores das perdas, a mágoa, o desengano e infalivelmente aprendemos a contar os nossos dias com o coração mais sábio.
Maria não sabe se vai comprar os livros. Talvez o momento seja adequado para uma releitura, e isto também será um desafio para ela. Sempre ávida por leitura, indisciplinada – não gosta de parar quando começa – nunca achou sentido no retorno a um mesmo livro, a não ser que fosse para pesquisa. Certamente este era momento de pesquisa de si mesma, seus valores, suas dúvidas e suas certezas.
A improdutividade do dia anterior a deixava com sentimento de culpa, principalmente em relação a João. Ela o atrapalhava. Do mesmo modo, a presença distante dele também a perturbava. Precisava colocar as emoções no lugar, reequilibrar-se, mas não sabia como fazer isso sem quebrar a aura de sonho. Não apenas ouvir as palavras, as entonações, mas ouvir as pausas, os intervalos silenciosos, como lê as entrelinhas. A intenção era apenas superar a distância, dar a impressão de que estavam próximos, mas a estratégia estava dando errado. João e Maria precisam encontrar outra forma para alimentar o amor que sentem, ou deixar que ele morra de inanição. Para João esta é uma possibilidade mais palpável que para Maria. O amor dele por ela é novo, ainda que ele se sinta constrangido em admitir. Para Maria, entretanto, sempre foi uma sombra – ou seria uma luz? –que a acompanhou durante toda a sua vida. Ela terá que buscar nos detalhes. Encontrar elementos que a façam ver João de forma mais real, não é o que ela quer. Não pode e não quer trazer João para o nível da realidade. Ela o quer para sonho, para amar, para dar colorido à sua vida cinzenta, plena de responsabilidades.
Como o homem primitivo, ela aprendeu a fazer operações mentais complexas, com rapidez fulminante. Pelo rastro deixado, ela podia ler as pistas mudas. A situação fugia ao seu controle e mais do que ninguém ela sabia farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais. Muitas vezes, os indícios imperceptíveis para a maioria, forneciam-lhe a chave para o que o outro pretendia ocultar. Situações incontroláveis são especiais em fornecer estes elementos, pois desencadeiam atividades inconscientes. É bem verdade que a interpretação correta é diretamente proporcional à distância emocional do observador e Maria está emocionalmente envolvida, o que compromete a sua avaliação.
Desistir, no entanto, não é a solução. Lutar sim, sem perder de vista que há uma interdependência entre o individual e o coletivo. Esta dualidade que coloca Maria no centro do conflito milenar entre o bem e o mal, entre o bom e o mau. Nem sempre os anseios de ordem material coincidem com os de ordem espiritual.
João disse que Maria o estava viciando com suas mensagens de bom dia. Criar necessidades é como amarrar nós para o futuro. Sem clareza interna quanto à sua intenção, Maria decide recolher-se e buscar no escudo da consciência a certeza de que suas escolhas foram guiadas pelo desejo de harmonia. O processo deverá ser lento, assim como é a aprendizagem, mas não quer passar o tempo que lhe resta de vida, sem entender o que acontece em suas entranhas. Ser guerreira faz parte do seu temperamento, mas importante é ser leal aos princípios e não abandonar a luta. Olhando para dentro Maria pode ter a segurança de que não há vitória se não há crescimento interno. Conhecer-se significa não ter medo das próprias sombras. Maria sabe mergulhar em águas profundas e encontrar-se no silêncio.

O Amor Acaba

Imagens: Julien, de Hiroshi Furuyoshi
Le Défi, de Marina Dieul




Texto de Paulo Mendes Campos


Uma vez eu estava em Londres numa sala comum da classe média inglesa: a lareira acesa, todo mundo com sua taça de chá, a família imersa naquela naturalidade (chega a parecer representação) com que os ingleses aceitam a vida. Os ingleses, diz o poeta Pessoa, nasceram para existir!
A certa altura, um garoto de uns dez anos começou a contar uma história de rua, animou-se e começou a gesticular. Só comecei a perceber o que se passava quando notei que aquele doce sorriso mecânico, estampado em cada rosto de todas as pessoas da família, sumiu de repente, como se uma queda de voltagem interior houvesse afetado o sorriso coletivo. Olhos de avó, mãe, tias e tios concentraram-se em silêncio sobre o menino que continuava a narrativa com uma inocência maravilhosa. Diante disso, uma das senhoras falou para ele com uma voz sem inflexão: “Desde quando a gente precisa usar as mãos para conversar?”
Vi deliciado o garoto recolher as mãos e se esforçar para transmitir o seu conto com o auxílio exclusivo das palavras. O sorriso doce de todos iluminou de novo a sala: a educação britânica estava salva.
Mas minha atitude diante do “problema da educação” continuava se afogando. Realmente, pensei, não precisamos das mãos para conversar; ora, se a gente obriga uma criança a abrir mão da mímica, a exprimir-se exclusivamente por palavras, essa criança aperfeiçoará sua capacidade verbal. Perfeito. Uma meta educacional foi atingida. Os ingleses sabem.
Mas mudemos o ambiente geográfico do problema. Imaginemos um garoto italiano de dez anos que fosse coartado pela família em seus gestos meridionais. Seria uma crueldade, uma afetação pedagógica, uma amputação social.
Daí, cheguei pela milésima vez à mesma conclusão que me espera no fim das reflexões desse gênero: os ingleses educam seus filhos para que eles venham a ser ingleses, os italianos, para que sejam italianos.
Em outras palavras: não existe Educação, mas uma atmosfera educacional. Melhor seguir instintivamente as sugestões desse ambiente, certas ou erradas, do que procurar estabelecer normas de educação intocáveis, universais. O erro grosseiro é deixar menino inglês comportar-se como italiano ou forçar o italianinho a comportar-se como inglês.
A reflexão pode parecer (e deve ser) irrelevante, mas é base de todas as idéias que me faltam sobre educação. Nunca cheguei a pensar nada sobre a educação. Nunca concordei extensivamente com nenhum autor ou nenhum amigo a respeito de educação. Nunca tive opiniões sobre educação, principalmente de filhos meus.
Minha perplexidade começa exatamente no que deve ser o ponto de partida da certeza dos outros: só podemos educar para alguma coisa; dado um objetivo, procuramos fornecer à criança os meios de atingir esse objetivo.
Por exemplo: decido que meu filho deve estudar piano; contrato-lhe um certo número de aulas por semana, obrigo-lhe a um certo tempo de exercícios diários, mas o caso é que eu não posso decidir que meu filho deve estudar piano. Por que estudar piano? De duas, uma: se sou eu que gostaria que ele estudasse piano, o problema é meu e não dele, nada tenho a ver com educação; mas se eu acho que seria bom que ele estudasse piano, tenho de responder honestamente às seguintes questões: Por quê? Para quê? Para ser um concertista? Um concertista mais ou menos ou o melhor do mundo? Para facilitar sua vida social?
Caso eu não responda a essas perguntas com convicção, estou blefando; e mesmo que as responda, não poderei nunca ter a certeza de que meu filho gostará de ser o melhor concertista do mundo ou de tocar um pianinho para divertir os presentes. Volto assim à minha patetice inicial: quando decido que meu filho deve estudar piano (ou inglês, sociologia, matemática) não tenho a menor certeza de que estou a educá-lo; apenas transfiro para ele ansiedades minhas ou idéias convencionais de minha classe.
Ora, dirão que educar não é impor obrigações mas captar as aspirações da criança. Se isso fosse uma verdade absoluta, os colégios andariam vazios e as praias cheias de crianças da manhã à noite. Admito, no entanto, que uma criança chegue para os pais e peça para estudar piano com a maior seriedade; neste caso, é ela mesma que se educa, que escolhe, certa ou errada, um caminho.
Minha perplexidade portanto é a seguinte: que só podemos educar uma criança para que ela atinja um objetivo é fora de dúvida; a dúvida é esta: desconheço os objetivos que devam ser atingidos. Sei que se vive e morre, mas desconheço os objetivos da vida; desconhecendo os objetivos da vida, desconheço os objetivos da educação. Para se viver e morrer, a educação é desnecessária.
Para quem acredita em Deus, não há problema; para quem acredita em dinheiro, não há problema. Mas eu não acredito nem em Deus nem em dinheiro. Logo, não posso educar meu filho para a eternidade ou para a segurança material. Se acreditasse que a finalidade da vida fosse o prazer, ou a arte, ou o poder, ou a obediência, ou o sacrifício, poderia educar meu filho. Faltando-me essas convicções, me perco.
Seria fácil dizer, com uma irresponsabilidade total, que o fim da educação é a sabedoria, a sagesse. Mas, que é a sabedoria? Só os sábios sabem, e os que passam por sábios, os que se recolhem desde o início da civilização às solidões escarpadas, dizem justamente que a sabedoria é aquilo que não se pode transmitir.
Julian Huxley, um racionalista de boa vontade, conta que presenciou uma prática impressionante numa tribo primitiva: as mães esfregavam as criancinhas nas pessoas de fora da família, a fim de que os recém-nascidos se acostumassem a aceitar o próximo. O cientista lamentava que essa tentativa de criar praticamente o amor ao semelhante fosse um exercício exclusivo daqueles selvagens. O lamento implica uma nostalgia da sociedade utópica. Não seria muito difícil fazer um santo de laboratório; mas eu não iria condicionar meu filho para o amor e a bondade e depois soltá-lo numa selva de asfalto. Na frase de Machado de Assis, o único consolo de levar uma cruz ao Calvário é ser crucificado nela – mas seríamos monstruosos se fôssemos educar para a cruz.
A criança de hoje viverá no mundo violento de amanhã, de ontem, de sempre. Para mim, o melhor é ainda não educá-la, isto é, deixar que a sociedade a amolgue com seus vícios, seu furor, seu egoísmo. Ela, a criança, responderá ao desafio. Se somos mentira, hipocrisia, preconceito, amor, medo, fraternidade, coragem e covardia, melhor deixar que a criança se cozinhe e tempere nesse caldeirão absurdo. É por medo que educamos, não por amor; é por convenção que educamos, não é por entendimento.
Só espero que também a meus filhos ocorra a mesma certeza que me mantém vivo: não existe nada, a não ser que a justiça e o amor sejam alguma coisa.

"O que realmente importa em qualquer biografia é o que a pessoa pensa e sente, e não aquilo que fez." (Glenn Gould)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Noite de inverno


Sonho que estás à porta...
Estás - abro-te os braços! - quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade.
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?


Maria está, há horas, a observar João. Sentado despojadamente em sua poltrona, ar distraído a folhear um livro. Confirma seu porte de aristocrata inglês, mesmo em momentos de total descontração. Ele lê Bilac.

Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte...


Ela fixa seus olhos na sua pele alva de João, nas mãos delicadas, nos cabelos que lhe lembram a neve, naquela noite fria. Ele está ali, bem pertinho de dela, absorto em seu mundo, alheio ao seu pedido silencioso de amor. Não sabe o que fazer para chamar a sua atenção. João continua a sua leitura.

Mas... talvez te ofendesse o meu desejo.
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado.
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.


Maria resolve então preparar um chá de maçã com biscoitos de canela, que ele tanto gosta. Antes coloca uma música suave, apenas orquestrada e acende um incenso. João levanta os olhos e sorri.

Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do dano ardente
Que os passos te acompanha


Com o olhar João aprova a iniciativa de Maria e isso a deixa feliz. É escrava do seu amor, do seu silêncio, da sua solidão compartilhada.

Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
- Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora...


Ela chega com o chá e seus olhares se encontram. Ele lhe acaricia os cabelos e entende seu apelo. Agora é Maria quem vê o desejo em seu olhar, no seu gesto solene de fechar o livro.
Maria sorri sem nada lhe dizer.
O aroma do chá de maça mistura-se ao incenso e ao seu perfume. Inebriada de amor, encosta seus lábios aos dele. Um beijo quente e suave, com gosto de maçã.

Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço...


A noite está apenas começando!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma premonição em sonho

Imagem: Tentation, de W. Strang

Acordo sentindo a sua mão despudorada investigando cada milímetro do meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas dos meus sonhos, da minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com a minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Nada do que observo em você, nos meus delírios, é físico.Hoje é diferente. Estou no limite do prazer e da posse, olho para você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que estas imagens me inspiram. No meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Sinto a sua língua rastejante, lambendo, sugando, explorando. Uma oferenda divina de uma imaginação amorosa. Sem penetração real, essa falta é o eterno desejo de que o tempo se transforme em autoridade fálica e me satisfaça a sonolência sensual. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que pára o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim. Que seja a minha umidade, o afrodisíaco da sua inspiração emocional, até que nossos corpos, um dia, possam estremecer sobre o linho branco da nossa cama.

A Noite na Ilha

Imagem: Nu sur la Plage, de Godward




Poema de Pablo Neruda



Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia .

domingo, 20 de fevereiro de 2011

As voltas que a vida dá



Maria se enrosca à saia da mãe e cochicha ao seu ouvido.
- Mãe, aquela mulher colocou um presente na bolsa.
Dona Pequenina olha de soslaio e dá uma cutucada em Maria, sinal para que ela fique calada.
Faladeira, irriquieta, observadora, Maria não obedece.
-Mas Mãe, eu vi! Ela está roubando!
A alternativa é sair com Maria dali. Dona Pequenina puxa a filha pela mão e vai se misturar às amigas na cozinha.
No pequeno povoado de Vila Engenho, as festas de aniversário se constituem num grande acontecimento social. A festa dura, no mínimo, dois dias. Começa com os preparativos, a matança dos animais e os infalíveis momentos de lazer, marcados pelo arrasta-pé. Viola e sanfona, gente suarenta, roupas coloridas, flores no cabelo, lencinho na mão. Esta riqueza de tipos brasileiros marcam as festas no interior e, claro, os tipos esquisitos também.
A conversa a boca pequena traz à tona tipos como Dona Cláudia, aquela que colocou um presente na bolsa. Figurinha carimbada, não perdia uma só festa, chegava sempre no dia anterior para participar dos preparativos e não perder uma só dança no final da tarde. Todo mundo já sabia: o presente que levava, ela pegava de volta na hora de sair. Se o adulto entendia, Maria não pensava a mesma coisa. Estava indignada e não queria saber dessa Dona Cláudia na festa dela.
Com Maria já distraída, Dona Pequenina volta com ela ao salão. Diverte-se com as pessoas e suas performances. Maria está impaciente. Incomoda-lhe o cheiro de suor, comida e bebida, a música alta, os risos de bocas abertas e com falhas nos dentes, os tapinhas na cabeça.
- Quando esse povo vai entender que eu já sei que sou uma gracinha?, pensa
ela irritada, arquitetando uma dor de barriga para sair dali mais depressa.
Seu semblante se ilumina em um sorriso ao perceber que seu pai chega para buscá-las. Corre ao encontro dele aliviada. Era o fim da sua tortura.

Anos se passaram. Maria guarda na lembrança seus tempos de criança. Hoje, trabalhando com manifestações folclóricas e culturais, ela não resiste e chega às lágrimas ao ver reproduzidas cenas, que antes lhe pareciam dignas do inferno de Dante.
Maria leva Lídia para a apresentação da equipe de Eventos da 3ª Idade, que apresenta um grupo de dança e cantares portugueses. Vozes afinadas, harmoniosas e firmes desafiam o tempo ao entoar com alegria e animação músicas típicas portuguesas. Ao som de cavaquinhos, violões, triângulos e pandeiros, um pedacinho de Portugal, mais especificamente da região próxima ao Porto, transfere-se para o Brasil naquela tarde. Dá vida à tradição de cantar e dançar nas praças públicas e conta um pouco da história e da tipicidade dos nossos colonizadores.
A apresentação marcou um momento de rara emoção quando, ao final, embalados pela música "Oh, Linda, Vou-me Embora", todos, homens e mulheres, jovens e idosos, portugueses e brasileiros foram convidados para dançar em uma grande roda. Para Maria, uma tarde divertida e emocionante, para Lídia, uma verdadeira tortura.
-Não sei o que minha mãe vê de tão emocionante nessa festa brega.
É. A vida dá muitas voltas! Um dia ela vai se lembrar.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Por causa de um brinco

Imagens : Yes or No, de Godward e The Painter Honeymoon, de Frederich Leighton


João está confuso. Por mais que não queira admitir, vive uma situação que lhe é estranha. Maria o desorganiza, atrapalha o correr simples da vida, não deixa passar detalhes, portanto, ocupa boa parte do seu pensamento. Ele ainda não sabe se isso é bom ou ruim. Sabe apenas que voltar para casa não significou o reencontro com a serenidade. A cabeça está recheada de questionamentos e dúvidas. Custa-lhe acreditar que Maria seja uma mulher madura, sensata, de sentimentos nobres, apesar das circunstâncias. O brinco pode ser uma evidência. Aborrece Maria, mas depois se culpa pelo equívoco. Justo com Maria que nada quer dele. Ela, por sua vez, compreende que tudo é novo, diferente, que João não tem outras informações para conhecê-la. Também ele está empenhado em buscá-la. Se para Maria, João é o presente maior, não tem certeza da sua significância para ele. Por isso, inicialmente, se aborrece. Precisam se conhecer melhor, dar espaço para a confiança.
No trato com seu anfitrião, Maria pôde perceber que João tem facilidade em fazer amigos, mostrando-se original, encantador e espontâneo, com boa dose de refinamento na arte de conviver. Diria mesmo que ele é pouco ortodoxo, com abertura para abraçar idéias progressistas. Diz-se simples, mas seus gostos são sofisticados. Humanista por natureza, João mostra-se dotado de lucidez e espírito positivo, daquele tipo que assume o comando com total naturalidade em qualquer situação.
Maria está encantada. Acostumada a homens frágeis, entrega-se ao seu poder de sedução. João é imbatível neste aspecto. Coloca nas coisas a pitada certa de humor. Algo, no entanto, intriga Maria. João lhe parece livre, aberto à mudanças, mas ela tem a certeza íntima que a vida dele se orienta por princípios bem definidos e fixos, ainda que a demanda pela liberdade seja constante. Ele fala, com verdade e despojamento, dos seus relacionamentos e nada passa despercebido para Maria que, mesmo envolvida, observa os mínimos detalhes. Pode, sem medo de errar, afirmar, que em questões de amor, ele é bem peculiar. Mesmo emocionalmente atraído por alguém, ele consegue romper um relacionamento, de repente. Sem grandes explicações. Os passatempos de João, os prazeres, os casos amorosos são marcados pela imprevisibilidade e excentricidade, haja vista que sua visão de sexo também não é nada convencional. Muito carinhoso, ele age com liberalidade, ignorando convenções religiosas e sociais.
Do ponto de vista social, pela frequência com que dá valor financeiro às coisas, Maria entendeu que, mentalmente, João aspira a glória, o prestígio social, as honrarias, o poder e a ascensão por meio da compreensão intelectual. Ele soube escolher o caminho certo. É um estudioso e sua visão da vida é otimista, segura e generosa.
Maria é dura. Conhece a si mesma como ninguém. Costuma entender as coisas pelo avesso. Percebe, lá no fundinho, traços semelhantes aos seus e uma agressividade bem disciplinada, submissa a um rígido autocontrole. Ela aprendeu, a duras penas, que fazer concessões demonstra força de caráter, e não fraqueza. Quer ser respeitada por sua maturidade e não se esconde. Age com espontaneidade e deixa vir à tona sua personalidade dinâmica, obstinada e batalhadora, que aborda as questões práticas com cautela. Ironicamente, Maria talvez seja, em relação a João, um pouco mais conservadora. Sua perspicácia lhe permite ver o essencial - o que sempre foi um trunfo em sua profissão - mas suas emoções estão divididas. Anseia pela aventura e pelo desconhecido. A chave está na habilidade de conciliação das duas tendências opostas: a busca do novo e o apego ao velho. Não julgaria João por causa de um brinco. O Ser habita águas mais profundas.

Com o coração apertado Maria se vê diante do homem que povoou seus sonhos e descobre que juntos, eles poderiam ter sido mais do que são separados. São pessoas fortes individualmente e a energia conjunta é brilhante. Maria está cheia de idéias e poderia se recolher por semanas, que a riqueza daquele encontro lhe inspiraria muitas páginas. Encontra uma afinidade de propósitos, que nunca encontrou em outra pessoa. Não é um relacionamento sexual apenas. Está diante de significativo amor, puro e verdadeiro, tão forte que foi capaz de promover aquele encontro insólito. A felicidade, na maioria das vezes, é equivocada. Está relacionada à aquisição de bens materiais, sucesso pessoal e profissional. Por isso, cada vez mais o ser humano clama por uma mudança interior, o vazio interno pede mais que palavras para ser preenchido. É no silêncio, quando as palavras se aquietam em nós, que conseguimos ouvir as vozes que vêm de dentro. No silêncio aprendemos como dissecar as nuances da nossa percepção, mesmo que elas nos pareçam vagas ou enigmáticas. O maior entrave é o medo que nos ronda, quando percebemos que este processo pode ser doloroso. Quando olhamos para nosso espelho, e vemos apenas reflexos. Quando nos deparamos com o vazio, trazemos ao campo da consciência essas forças contraditórias que nos desconsertam e nos fazem sofrer. Se por um lado nos causa sofrimento reconhecer que não somos absolutamente bons - nem maus -, a compreensão deste processo areja as nossas mentes e pode nos tornar agentes ativos na tarefa de descobrir a nós mesmos.
João! Prazer em (re)conhecê-lo!

Sou Flor

Imagem: Purple Summer, de Sally Rosenbaum



Hoje João declamou para mim. Dizia seu poema, que algumas flores cumprem a sua função: florir. Eu era uma dessas. Lembrei-me então de uma brincadeirinha que fiz - já que admito não saber escrever poesia - há algum tempo. Dois pequenos poemas, rasos, simples, pobres, e que republico aqui. O primeiro, eu o ilustrei, certa vez, com uma árvore plantada na estrada que dava acesso à Pirenópolis e o segundo, justifica-se pela comparação.










Brincando de árvore

Hoje,
Plantada em solidão
Brinquei de árvore
Tipo estrada poeirenta
Sem nenhuma nota apreciável

Nunca vi sombra tão pequena
Embora alguma vez
Servisse ao caminhante
Que por ali passava
Em busca de verdade

Por carência de ninho
Certamente
Um sonho-pássaro
De canto alegre
Morou por uma tarde
Nos meus galhos

Arvorezinha de brinquedo
Agasalha saudade
Ternura
Esperança
E grita aos que se vão:
Não pareço
Mas sou árvore
E dou sombra.


Sou flor

Para viver a Primavera
Ainda plantada em solidão
Tornei-me frágil vegetal
Brinquei então de flor

Em meio a borboletas
Fui flor-botão
Flor-perfume, flor-beleza
de coloridos matizes

Estive no buquê
Que celebrava a Vida
Estive na coroa
Que reverenciava a Morte

Adornei juras escondidas
Consolei lágrimas de saudade
Frágil, feneci sozinha
Num solitário de vidro
Sobre a mesa de um jornal.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tecendo os sonhos

Imagem de Goya


Há algum tempo Maria se dedicava a buscar nas coisas que escrevia o que sentia de verdade. Precisava mergulhar em si própria para distinguir o que era real e o que era ficção. Não podia se enganar, pois se sentia como uma juíza pronta para julgar, absolver ou condenar. Na busca de si mesma compreendeu que era fácil lhe dar absolvição, que era possível ser generosa consigo mesma e encontrar explicações para tudo que fosse insensato, impensado, incoerente e todos os outros ins possíveis.
Foi assim, como uma fetichista de si mesma, que ela passou a espreitar a vida e as inúmeras personagens que representava. Interessava-se pelo seu mundo, seus sentimentos, suas analogias, as histórias que contava. Maria não queria perder de vista a generosidade com que aceitava a si mesma e nem os motivos que a levaram àquela investigação projetiva. A aventura em sua alma, especialmente naquele instante, era como uma volta na montanha-russa, nunca viu tanto altos e baixos. Lembrou-se da primeira - e única - vez que havia subido em uma montanha-russa. Maria sentiu como se lhe faltasse o chão. Aliás, o chão já lhe faltava, mas sentiu sumir toda a segurança que a havia encorajado a uma experiência que não lhe era essencial. As intermináveis voltas, as subidas e descidas, os solavancos não a divertiam. Estava emocionalmente arrasada e fisicamente enjoada. Quando, finalmente, terminou o passeio macabro, Maria pôde colocar para fora tudo aquilo que sentiu e, sem se importar se seria papelão ou não, vomitou ali mesmo, no meio do parque e na frente de todo mundo.
Conhecer-se, no entanto, não é uma escolha, como é uma aventura na montanha-russa. É uma experiência essencial e de leitura difícil, que se faz acompanhar pelas próprias angústias, pela sua humanidade e sua crueldade. Quanto mais hermética tentava ser, mais transparente se tornava. Estava nauseada. Poderia até fazer um comparativo com a obra de Sartre, mas não era literatura ou filosofia que ela procurava entender. Queria a sua intimidade, mais próxima do conceito de amor-próprio defendido por Kant. Maria quer justificar o que lhe parece ser fora dos padrões, julgar a si mesma sem nenhuma generosidade, como seria julgada se ela estivesse no lugar da outra. A doutrina moral de Kant toma o amor-próprio como único princípio material da razão prática.O ideal de felicidade, como satisfação completa de todas as inclinações, deve reivindicar que é possível ser feliz sob condições empíricas. A situação imaginada é, porém, inconcebível, sem a suposição das circunstâncias externas. Por enquanto, nenhuma conclusão. O estado de ser feliz permanece indefinido na sua definição de felicidade. O tempo vivido a deixa à mercê dos sentimentos.
Maria está feliz. João também!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Mistério do Amor

Imagem: Anunciação, de Caravaggio


Maria entra no banheiro e chora escondida. É um sofrimento atroz e, mesmo sem culpas, ela não consegue se desvencilhar da sensação de impotência.
A história parecia ser a mesma, embora os tempos e os limites fossem outros. Os pesos da balança estavam em perfeito equilíbrio, mas existia o tempo, existia o espaço. Sempre esses dois fatores de limitação tentando impedir que sua alma alçasse voo.
Foram dias de alegria, de partilha, de intensa caminhada, de grandes descobertas, de entrega total. A harmonia entre ela e João não poderia encontrar nas palavras dos mortais uma simples definição. Seria preciso sentir, viver cada momento, ser cada movimento, para ter a compreensão do céu que ela havia experimentado. O paraíso só pode ser conquistado pelos puros de coração, pensa ela. Desde a juventude Maria buscou a sabedoria. Pediu a Deus por ela e decidiu procurá-la até o fim, seguindo as pegadas do amor com passos retos. Inclinou seus ouvidos para ouvir, e um Anjo apareceu para lhe sussurrar ensinamento abundante.
O domingo amanhece lindo. Conhece aquela missa, sabe que mexerá com suas emoções e com lembranças muito bem guardadas. Não sabe o que fazer para evitar que o passado lhe bata a porta e interrompa a magia e o encantamento com João. Está perdida em seus pensamentos. O tempo passa e com ele o horário da missa. Chegam ainda a tempo de ver a saída das irmandades, dos anjinhos, do cortejo de seminaristas. Maria engole a seco. Sofre. Deplora o que seus ouvidos também ouviram, seus olhos viram, sua percepção mostrou. Lamenta o desencontro. Prefere ouvir o Anjo - seu guardião interno - e se ajoelha em busca de conexão com Deus. Suas entranhas tremem ao dirigir-se a Ele.
- Desejei a sabedoria e a encontro na pureza. Afasto de mim a tristeza, não me deixo afligir com preocupações, quero apenas agradecer a Quem me concedeu sabedoria – reza Maria em estado de contrição. Não quero mais me privar de sentimentos que a minha alma tem sede. Também não posso confiar em caminhos que não têm obstáculos. Ah! Pai Poderoso aqueça meu coração, não quero causar dor, mas também não quero sentir. Eu amo João. Preciso de Luz, de discernimento.
E o Anjo, no seu pedestal de luz, inclina-se para mais uma vez sussurrar-lhe ao ouvido.
- Grave-o como um selo em seu coração, pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão.

Com o coração aquietado Maria deixa o banheiro. O nariz está vermelho, único vestígio das lágrimas que caíram um pouco antes. Lágrimas de amor, de compreensão, de saudade. Tem trabalho pela frente. Precisa se inspirar para o artigo da semana. Busca a Bíblia. Abre no Cântico dos Cânticos. O amor humano é espelho, sacramento e manifestação do próprio Deus, que se torna presente nos seres humanos que se amam.

Beijos

Beije-me com os beijos de sua boca!
Seus amores são melhores que o vinho,
O odor de seus perfumes é suave,
Seu nome é como óleo escorrendo,
E as donzelas se enamoram de você...
Arraste-me com você, corramos!
Leve-me, ó rei, aos seus aposentos,
E exultemos! Alegremo-nos em você!
Mais que ao vinho, celebremos seus amores!
Com razão se enamoram de você...
(Cântico dos Cânticos)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Eu Não Existo Sem Você

Imagem: Marie-Madeleine, do pintor austríaco Friedrich Heinrich Füger.



Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Carta a João

Imagem: Madalena, de Caravaggio


Hoje acordei com vontade de continuar na cama, de deixar a imaginação passear livre e, quem sabe, entender tudo que me acontece por dentro. Preciso daquele cantinho só meu – o meu sanctum sanctorum – para conversar com Deus, pedir-lhe luz e clareza em meus pensamentos. Para subir aos céus é necessário um mínimo de silêncio e, ao que tudo indica, a programação cósmica para meu dia é outra. O trabalho – estou de férias – vem onde estou e me pede, além do tradicional das terças-feiras, mais três textos: duas apresentações de livros e uma apresentação de CD. Não é o que quero fazer. Não é o que gostaria de escrever. Estou em momento de interiorização, de questionamentos profundos, de acerto de contas comigo e com o tempo. Ainda não desisti de ser feliz, mesmo que essa felicidade chegue por caminhos tortuosos, por uma marginalidade branca. Não quero destruir nada, mas acredito que posso construir uma ponte paralela e ter uma vida alternativa, longe das preocupações diárias.
Mal começo a pesquisar para escrever sobre um importante escritor goiano o telefone toca. Havia esquecido que hoje é dia 15 e tenho que acompanhar uma prima que veio de longe em busca de tratamento espiritual para mieloma múltiplo. Sofro! Por vários motivos eu sofro, mas já há algum tempo entendi que não posso ser Deus na vida dos outros e cada um terá que ter sua própria experiência. Não há atalhos.
Os textos continuam por escrever, tenho pouco mais de duas horas para entregá-los (duas laudas e meia – não é muito), mas antes preciso me esvaziar. Sentei aqui para escrever o quê não sei. Escrevendo posso me ler e aumento a possibilidade de encontrar uma luz para minha angústia. Estou feliz, isto é certo e verdadeiro. O bloqueio é porque nos acostumamos a pensar que a felicidade tem que seguir um rito próprio, padronizado, criado por um monte de gente – alguns até bem intencionados – que nem sempre vivenciou esta intimidade consigo. No meu coração tudo está certo, porque se eu não sou nem o meu pensamento, sou menos ainda o pensamento social. Sou mais que meu pensamento, sou mais que minha percepção, sou mais que meu querer. Pronto. Estou em paz com a minha felicidade, posso senti-la sem culpa. Mas o que faço desta saudade que toma todo meu ser, meu sentir, meu pensar, meu querer? Nossa! Quanto meu, meu, meu. Acho que estou com medo de me perder de mim e estou buscando garantias. Sou humana, portanto, por mais que me esforce no desenvolvimento das virtudes, o egoísmo está presente. Que bela mentirosa eu seria se não admitisse para mim mesma que os possessivos não apareceram por acaso, mas que evidenciam meu estado de alma atual. Entendo que preciso agora me fixar em sentimentos nobres. Talvez, renúncia. Não a renúncia de ser, mas a renúncia dos moldes tradicionais. Descobrir, a cada momento, que o amor consegue romper os limites do tempo e do espaço. Posso fechar os olhos e encontrar você em algum lugar do imaginário. Volto então a ser Maria. Nossos olhares perdidos se encontram, nossas almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. A fascinação deste encontro é como um poema, sedução e paixão. Apenas sentimento e o som universal do piano que agora escuto, introduzindo a música Todo Sentimento.
Posso então voltar ao trabalho!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entre o silêncio e o sentimento

Imagem: Promenade, de Marc Chagall


O avião levanta vôo e Maria seca as tímidas lágrimas que lhe escorrem pelo rosto. Ela não quer chorar. Aquele fim de semana já estava arquivado junto com os momentos mais felizes de sua vida e não justificava nenhum traço de tristeza. Começava ali outra história, sem data para terminar. O contato com a natureza, o local cuidadosamente escolhido, a recepção afetuosa regada a champagne oferecido pela administração da pousada, o reencontro após 40 anos, conseguiam a façanha de interromper o repetitivo filme de preocupações de Maria. Ela percebia a necessidade interior de ampliar o contato com a vida universal e começar a ver o mundo externo de forma diferente, bebendo em fonte de águas puras.

Antes das reflexões que inevitavelmente aconteceriam, Maria revisita, no tempo e no espaço, o sonho vivido nos últimos dias. Sonho é encantamento, e entender a inserção dessa magia na realidade exigiria dela mergulhos mais profundos no rio das almas, para além da consciência comum, com sensações que não podem ser comparadas aos nossos sentidos. Uma experiência individual que derruba todo e qualquer limite e a coloca em harmonia com outra lógica, outra dimensão do amor. Enfim, sentia-se privilegiada sem precisar se esconder do silêncio – seu espião interior. Podia se entregar ao sentimento, certa de não estar infringindo o direito e a dignidade de João, de não estar atendendo primeiro aos seus instintos.

Hoje, em tempos que o tempo se acelera diante das nossas consciências, Maria não precisa se angustiar com o futuro, nem camuflar seus medos, nem nadar contra a correnteza. Pode manter seu coração sereno, sabendo que a natureza seguirá seu curso normal, obedecendo aos ritmos e à harmonia. A vida é um exercício de humildade, de disciplina, de constância naquilo que se faz, assim, ela circula com coragem no seu interior e vive o exterior nos momentos em que é solicitada pela realidade.

Lembra-se de quando criança amanhecer o domingo recitando a quadrinha “hoje é domingo, pede cachimbo"; não se conformava com o trecho que dizia “a gente é fraco, cai no buraco”. O tempo e a vida aos poucos lhe ensinaram que o fraco realmente cai no buraco e esse buraco pode ser bem fundo. No entanto, o “a gente é fraco” é questionável e não necessariamente uma verdade. O ser humano é capaz de realizar a si mesmo, pensar, escolher, arrepender, voltar atrás, fazer de novo. A cada recomeço, a consciência e o aprendizado são frutos individuais, de tal forma que a vida pode ser realmente um buraco fundo ou uma grande ciranda em que se mesclam as vicissitudes da nossa existência com a alegria de viver.

Falar sobre a felicidade é complicado demais, mas sem dúvida Maria pode abordar a alegria de viver como um antídoto do “a gente é fraco; cai no buraco; o buraco é fundo; acabou-se o mundo”. A alegria lhe é próxima; está tão perto dela, que gargalhar não é dificuldade alguma. Ela pode até escolher se quer olhar um quadro de Goya ou de Matisse; mesmo diferentes, os dois artistas conheciam muito bem a existência da luz e da sombra. Opta por Chagall, que pinta o sonho e a fantasia. Pode escolher a fotografia ou o negativo no mundo analógico, mas vive um mundo digital. E sorrir faz bem não apenas na hora da fotografia. Sorrir torna a vida mais fácil. Então, para quê chorar? João não foi embora, ele voltará. Maria deixa o aeroporto confiante, sem receio de ser punida, porque tem a ousadia de sorrir quando o mundo parece desabar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tudo Que Se Quer

Imagem: Madalena
Desconheço o autor



Com Verônica Sabino e Emílio Santiago









Olha nos meus olhos!
Esquece o que passou.
Aqui neste momento,
Silêncio e sentimento.
Sou o teu poeta;
Eu sou o teu cantor;
Teu rei e teu escravo;
Teu rio e tua estrada.


Vem comigo meu amado amigo
Nessa noite clara de verão!
Seja sempre o meu melhor presente.
Seja tudo sempre como é.
É tudo que se quer.


Leve como o vento,
Quente como o sol
Em paz na claridade,
Sem medo e sem saudade.


Livre como o sonho,
Alegre como a luz;
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.


Eu sou teu homem,
Sou teu pai, teu filho,
Sou aquele que te tem amor.
Sou teu par, o teu melhor amigo.
Vou contigo, seja aonde for
E onde estiver estou.


Vem comigo meu amado amigo;
Sou teu barco neste mar de amor.
Sou a vela que te leva longe.
Da tristeza, eu sei, eu vou!
Onde estiver estou
E onde estiver estou.

Para ouvir:http://www.youtube.com/watch?v=9wxYQfOSL3I&feature=related

Todo o Sentimento

Imagem: Madalena (desconheço o autor)

Composição: Chico Buarque e C. Bastos













Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu


Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=k8dRse14hI8

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Padre, eu pequei!

Imagem: Madalena (autor desconhecido)


- Alô. Você sabe quem está falando?
- A voz não me parece conhecida, mas o sotaque é bem familiar. Lembra o da minha terra natal.
- Seria de estranhar se você se lembrasse da minha voz. Há mais de 20 anos que nós não nos falamos.

A essa altura o coração de Maria já batia disparado. Estava casada, com um neném pequeno, e aquela voz, tinha o poder de desequilibrá-la internamente.
- João? É você?

Depois da procissão, Maria se desfaz da fantasia de anjo para assumir sua verdadeira identidade. Uma menina magrinha, bonita, irrequieta, inteligente e muito esperta. Muito católica, ela goza da confiança e admiração do pároco da Igreja que, a despeito de sua pouca idade, confia a ela tarefas de adulto. Feliz, ela coordena toda a movimentação da quermesse. Há mais de uma semana ela trabalhava cada detalhe, fazia escalas, definia atividades e brincadeiras, sempre com o intuito de angariar fundos para a paróquia.
Toda essa atividade e desempenho não passaram despercebidas a seu professor,  um clérigo de apenas 22 anos de idade e muito bonito. Beleza sempre conta entre adolescentes.
Desde que se transferira do colégio das freiras para o colégio dos padres, Maria provocara um verdadeiro rebu na escola, que antes só recebia alunos do sexo masculino. Na pequena cidade, as opções eram poucas, as meninas que estudavam no colégio das freiras, ao terminarem o ginásio, só tinham como alternativa ir para a Escola Normal, ou para a Escola Técnica de Comércio. Se pretendessem uma faculdade, teriam que partir para o curso científico no único colégio estadual da cidade. Já para os meninos era diferente. Eles tinham a opção de continuar com os padres, ir para o colégio estadual, e ainda poderiam estudar na Escola Técnica Federal, considerada a melhor da região, que naquele tempo também só aceitava homens.
Maria não pensou duas vezes, organizou uma comissão e foi para o colégio dos padres pleitear a abertura de matrículas para as meninas. Até então, o único contato entre as duas escolas era no dia 7 de setembro, quando a fanfarra masculina tocava no desfile (e nos ensaios) das meninas. Sempre motivo de muita dor de cabeça para as freiras. A comissão foi tão convincente que o padre diretor abriu uma turma noturna para receber as alunas. Acabou tendo muito mais sucesso que o esperado. Já no primeiro ano, eram três classes mistas. No entanto, não foi tudo simples. Às meninas só faltava enlouquecerem com os aprendizes de padre. Começou então  divertido jogo de cartas na tentativa de tentarem os santos rapazes. Três deles faziam muito sucesso,  e a diferença de idade deles para as alunas não era superior a 5 anos. Maria era "quente" na escrita e escrevia cartinhas para as colegas.

Naquela noite, João, um dos clérigos, estava na quermesse. Não falou com Maria, mas não desgrudou os olhos dela ,  que fazia a farra com o correio elegante. Ela ficou preocupada. Sentia o olhar que a acompanhava, que a desnudava em sua ingênua esperteza. Ela era normal como suas colegas, no auge de seus 15 anos, exuberante em sua beleza, era  natural que também se sentisse atraída por aquele rapaz lindo, bem falante, inteligente, bem educado e de bons princípios. Escrever para ele era fácil. Deixava fluir o que tinha na alma, escudada pelo nome das amigas. Mal conseguiu dormir naquela noite. Sentia que seu coração lhe preparava uma peça.

Domingo. Maria chega à missa no último toque do sino. A igreja estava lotada, mas ela tinha lugar reservado na frente, porque era responsável pela primeira leitura. Ao atravessar a igreja, sente um gelo na barriga. João estava lá, sentado discretamente entre as pessoas e, na simples travessia, ela conseguiu identificar de onde vinha o olhar que a queimava como um raio.
A missa foi uma sequência de pecados, por pensamentos. O pecado por palavras e obras só aconteceria depois da missa, quando João se ofereceu para acompanhá-la até em casa e no meio do caminho disse a ela que se apaixonou pela autora das cartas assinadas com os nomes de suas colegas, mas como professor , ele conhecia o estilo e potencial de cada uma delas.
Antes de chegarem á casa de Maria os dois se sentaram no banco de uma praça e o beijo que trocaram selaria um pacto de silêncio de 22 anos.

- Meu Deus, como você está? Já é bispo? Sempre tive vontade de receber notícias suas.
- Eu não sou sacerdote. Sou professor da Universidade.

A conversa segue o ritmo das lembranças até que foi interrompida bruscamente.

- Preciso desligar, minha esposa está entrando.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sonho

Mulher e Rosas, de Marc Chagall
Poema de Pablo Neruda


Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Benedicite

A dúvida tomava conta do coração de Maria. Pensou muito se iria àquele encontro, já havia decidido, no entanto, sentia medo, suas mãos tremiam, seu coração estava apertado e ela perdia o ar. Tenta lembrar dos exercícios respiratórios, das técnicas de relaxamento, das cores tranquilizantes, mas ainda assim seu ritmo continua descompassado. Era agora ou nunca mais.
Ela chega ao aeroporto atrasada e o vê de costas no mirante, observando as luzes da cidade. Está em forma, discretamente vestido, e assim de costas, a única coisa que ela pode observar é que os cabelos se tornaram brancos. Sente ímpetos de ir ao seu encontro e abraçá-lo, falar da sua saudade, mas sente-se grudada ao chão, com os pés de chumbo. De repente, o rosto de Maria se ilumina. Aquele encontro, adiado tantas vezes, finalmente acontecia. Ele se volta e seus olhos se cruzam. Vencido o impacto inicial, ele lhe estende a mão e sorri com leve discrição ao perceber que a dela está gelada. João sempre foi um cavalheiro. A emoção do encontro lembra ainda aquela corrida desvairada de sua casa até a casa da amiga, quando ainda era uma adolescente despertando para vida.
Naquele tempo, Maria teve que amargar a escolha de João com uma carta, a despedida com um único abraço. Agora ela não quer ser surpreendida pelo acaso, preparou-se durante semanas para entender que viveria com ele também a sua primeira aventura, e depois a vida deveria seguir seu curso normal. Não era um início, não era um recomeço, mas o fechamento de uma vida que não chegou a ser vivida. Em sua existência abriu e fechou parênteses, enfrentou duras rupturas, viveu experiências que voluntariamente não escolheria viver e que muitas vezes a sufocaram e oprimiram. Pensa então de que adiantaria ter vivido tudo isso se não pudesse compreender que lição deveria extrair. Maria e João queriam aquele momento como se fosse o primeiro em suas vidas, mesmo sabendo que o final seria inevitável.
João também evidenciava emoção e sabia que aquele era um momento definitivo para os dois. Não podia mais adiar decisões porque estava ciente da impossibilidade de mudanças. Era aquele momento quando tudo já foi pensado e repensado em detalhes; quando já se dialogou, ponderou, alertou, mas tudo encaminha para o fim. Não é fácil deixar para trás situações, trabalhos e pessoas amadas, não obstante se sentir angustiado, preso, impedido de dar um próximo passo. A palavra certa a ser adotada é decisão e na bagagem estão ainda as decepções, as dores, as incompreensões, as promessas não cumpridas, o medo do futuro, do desconhecido, de ter que enfrentar o mundo, tendo como ferramenta apenas a si próprio.
Mais para João que para Maria esse era um momento difícil. O que fazer quando esta avaliação já foi feita, o medo identificado, a direção a ser tomada já foi escolhida, mas ainda assim falta coragem para a decisão final? Talvez aqui a luta interna - fora do campo da razão - seja a mesma para os dois. Maria também precisa proteger a própria luz para não ser sugada pelas trevas. É o momento de dissociar-se, sair do filme, reprogramar o cérebro para o novo, para as possibilidades que só ela mesma tem como avaliar. João e Maria conversam sobre suas vidas, fazem verdadeiros relatórios, manifestam a saudade que sentiram, mas também falam do fim. Compreendem, finalmente, que tudo passa, não só a vida, mas os problemas, as dificuldades, os momentos felizes, a novidade.
Alguns dias depois, no hotel fazenda que haviam escolhido para o balanço de vida João e Maria se olham com ternura. Foi um jantar simples, romântico, nostálgico, cheio de lembranças. Tudo que era ruim e feio foi esquecido em alguma curva do tempo. Viveram vidas separadas, sofreram os reveses do dia a dia, mas conseguiram se manter com o coração puro, sem mágoas, prontos para vibrar diante da simplicidade daqueles dias. O vento frio ajudou a aproximar os corpos sedentos de afeto.
Maria aconchegou-se àquele peito forte, o perfume gostoso e másculo a deixava inebriada, as mãos seguras lhe davam a certeza que não estaria mais só. Não envelheceriam juntos, mas eram poupados da parte dolorida de todos os relacionamentos. João não seria distribuído na igualdade dos seus dias. Continuaria ali, onde sempre esteve, no cantinho sagrado do seu coração, como um segredo. Finais são quase sempre doloridos, são momentos de análise e avaliação, são momentos de colheita. Final não é briga, é conclusão. Maria e João estavam felizes!