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quinta-feira, 10 de março de 2016

Versailles para pensar!


Saímos cedo para a viagem à Versailles.  Dedé já estava com tudo esquematizado e reservado. Pode até ter sido coincidência, mas no vagão em fomos só tinha brasileiro e durante a visita no palácio, o brasileiro só perdeu mesmo para os turistas de olhos puxados. Em meio à multidão (estava muito, muito cheio) eram muitas as vozes com sotaque brasileiro – Rio, São Paulo, Nordeste, Sul, Minas. Não resistia pegar no pé do brasileiro, afinal o país vive, segundo informações da imprensa a maior crise da história (memória curta. Lembro-me bem de entrevistar o Shigeaki Ueki, quando era secretário geral do Delfin Neto, para que ele explicasse a inflação de três dígitos). Todo mundo em viagem, bem-humorado, a resposta era quase sempre na linha: “a gente dá um jeito de driblar. Somos brasileiros”. Nada mal!



O Palais de Versailles mostra, definitivamente, o que é luxo e tira da cabeça de qualquer um dos que ali estavam a ideia de riqueza. Fica mais fácil entender a revolta da população francesa. A primeira visão do Palácio é de encher os olhos. Todo dourado, a sensação que se tem é de que é ouro mesmo. A manutenção ali não deve ser nem um pouco simples. Guardei o folheto, o mapa, mas escrevo agora de um local que não tenho acesso a ele. Então vou confiar na minha memória de um ano depois. De qualquer forma acho que vale. Afinal o que impressiona mais, fica guardado.
Fiquei impressionada com tudo, com a falta de privacidade a que a família real era submetida, o poder do rei no trânsito do palácio, os detalhes da arquitetura, a riqueza do mobiliário, as obras de arte espalhadas e o luxo, muito luxo e suntuosidade. Tudo que a gente olha é enorme. Queríamos achar mais algum detalhe que nos revelasse como viviam os moradores da casa. Mas os tronos/penicos estavam bem escondidos. Esse é um momento de privacidade e de igualdade entre os seres viventes. Neste aspecto todo mundo é igual.


O Palais de Versailles é muito, muito grande, não é possível ver tudo em um único dia, mas também não sei se aguentaria mais de um dia ali. Foi um passeio maravilhoso, mas também cansativo. Tentarei agrupar os assuntos, quem sabe consigo criar esses arquivos também na memória e mantê-los vivos por mais tempo, porque as informações nesse dia foram muitas. Começo pela história.  Maria Antonieta era austríaca, conhecemos os palácios da família quando visitamos Viena, acostumada ao luxo, nobre criada como nobre. Foi peça de negociação para acomodar os ânimos entre França e Áustria. Casou-se com apenas 14 anos. Mãe dominadora, marido distante/frio, um casamento que demorou a se consumar, vivia isolada da realidade da população e cercada de intrigas e de gente traiçoeira, é preciso entender que ainda era uma criança e recebeu dos franceses todo o ódio que eles nutriam pelos austríacos. Então, boa parte do meu olhar ao percorrer as dependências do Palácio, remetiam-me à história, e em especial à uma simpatia natural que tenho pela rainha Maria Antonieta. E foi nessa situação que ela teve que amadurecer e morrer guilhotinada aos 37 anos. 




No século XVIII não havia fotografia, então as histórias são contadas pelas pinturas. No palácio tem muitas que mostram o cotidiano da rainha com os filhos, das festas, das caçadas do rei, das saídas e retornos das batalhas. Nem preciso dizer que me maravilhei com as telas (também gigantescas) e esculturas (estas me encantavam,  além das expressões,  pela leveza e transparência que artistas conseguiam imprimir ao mármore). E assim também observamos que todas as imagens retratadas, nenhuma mostrava a pessoa sorrindo. E meu irmão pesquisou e concluímos: não havia dentistas, os dentes eram estragados. Mas cá prá nós, artistas são sensíveis, ligados à estética,  eles sabiam que os dentes eram feios. Nessa imagem ao lado dá para ver duas obras de arte, a escultura em bronze e uma dessas telas que falei, os retratos de cenas cotidianas. Essas telas podem ser vistas com detalhes nos museus virtuais da internet. Os quartos eram todos interligados por um único corredor sem portas. O rei entrava e saía de qualquer quarto na hora que quisesse. Era absoluto também em família. Os aposentos do Rei ficavam bem no meio do Palácio, de onde ele podia se maravilhar com o sol e ter a visão dos jardins.


Os quartos e salas de chá eram até certo ponto simples. Não é difícil encontrar algumas mobílias no estilo ainda hoje, mas sempre se diferenciando pelos detalhes.  E entre as peças colocadas e protegidas por vidros, algumas, sim, em puro ouro. Apesar de ser bonito de se ver, achei tudo pesado, sufocante,  e meu sangue de plebeia não deixava dúvidas: não gostaria de dormir num daqueles quartos. Meu estilo é bem clean. Gosto do liso. Em Versailles é tudo estampado e as paredes e portais, com relevos riquíssimos em detalhes sempre dourados, são muito desenhados.




Conta a história que a vida conturbada de Maria Antonieta levou-a a viver no Petit Trianon que foi construído para abrigar Mme. Pompadour, amante do rei Luís XV.  Imaginava que veria no Petit Trianon o mesmo luxo da sede, ou pelo menos uma simplicidade mais apurada, vez que Pompadour era ligada às artes, e usava seu poder junto ao rei para beneficiar os artistas. Mas não. O Petit Trianon seria o que aqui em Goiás chamamos de barracão perto do Palácio de Versailles. E também não dá para saber como era na época de Pompadour, porque as instalações foram reformadas ao gosto de Maria Antonieta. Enfim, um pequeno castelo, que carrega as ilusões da amante e a depressão da rainha. Volto a falar da rainha quando for na Conciergerie. 
Na foto, a escadaria do Petit Trianon. 




Versailles é como se fosse um condomínio fechado. Toda a corte estava instalada ali. Na internet é possível encontrar o mapa do Palácio e de todos os anexos, mas abertos para o público só mesmo os aposentos reais e a famosa Sala dos Espelhos. Lindíssima. O teto todo pintado –como era uso na época – de deixar a gente com dor no pescoço de tanto olhar para cima, os lustres chegam a ofuscar os olhos e os famosos espelhos, estrategicamente colocados em combinação com as janelas de forma que pudessem refletir os jardins. Conta-se que um espelho, naquela época, demorava sete anos para ser feito e se um dos serviçais quebrasse algum, teria que trabalhar como escravo durante sete anos. Daí o conhecido ditado que quem quebra um espelho tem sete anos de azar.
Estava muito cheio de turistas e não foi possível fazer uma foto com os jardins refletidos nos espelhos como eu gostaria, mas na internet é possível encontrar fotos profissionais que mostram a magnitude do palácio, inclusive imagens do filme Maria Antonieta.  Roupas luxuosas, música da melhor qualidade, futilidades á vontade, muito "futchico de dgente batcha", e muitos dramas pessoais se desenrolavam naquele salão. Mas o melhor mesmo devia ser o baile. Dança comigo?





















*



Finalmente os jardins! Fomos em abril, era primavera, embora já desenhados e replantados, ainda não estavam todo florido, mas não impedia de admirar sua magnitude. Até porque tirando os desenhos e as espécies de flores plantadas típicas da região, como as variedades de tulipas e lírios, já não eram novidades depois de Keukenhof e o espetáculo de cores e raridades que vimos. Mas tinha a imensidão, os bosques, as esculturas, e a fonte (que estava em reforma), que deixavam o Palácio de Schönbrunn – onde Maria Antonieta nasceu – no chinelo.  E olha que Schönbrunn é um espetáculo para os olhos.

A invasão do palácio pelo povo faminto se justifica, embora a análise completa não se encaixe neste texto. O rei tinha poderes absolutos, a sociedade estratificada e hierarquizada e na base estavam os trabalhadores e camponeses,  que viviam em extrema miséria para sustentar o luxo dos que estavam no topo da pirâmide. A revolução foi a revolta do povo, mas depois começaram as mudanças  políticas e estabeleceram-se as lutas pelo poder entre girondinos (alta burguesia) e jacobinos (proletariado) e a fase de terror quando milhares de pessoas, inclusive intelectuais e artistas foram guilhotinados, como Robespierre, Danton e Marat, até que Napoleão assume após o Golpe do Brumário com objetivo de implantar um governo burguês, mas essa é outra história.






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A Ponte da Imaginação

Pedro Campos


No segundo dia em Paris a ficha começou a cair. Dessa vez aprontei bonitinha e começamos nosso passeio pela imediação do Hôtel des Invalides. Sim, eu estava realmente em Paris, e com gostinho brasileiro. Explico: tomamos sorvete de uma barraca em que o rapaz estava ouvindo música brasileira e conversamos um pouco. Ele é a terceira geração de sorveteiro no mesmo lugar e nos mostra orgulhoso o jornal que conta a história.

Não me lembro exatamente de que lado descemos do Metrô, mas eu delirava em silêncio com a beleza da Ponte Alexandre III, cenário de muitos filmes, e eu com a tremenda sensação de que conhecia muito bem aquele local dei asas ao meu romantismo. Fazia a ponte entre a fantasia e a realidade e o sentimento se encontrava ali, na Ponte Alexandre III. Magnifíca, imponente, suntuosa, elegantérrima, como tudo que a gente vê na Europa.  Unindo O Grand Palais e Petit Palais ao Hôtel des Invalides, e por perto da Avenue Champs Elysée. Voltamos a esse ponto no fim do passeio do dia. Pausa para fotografar uma coreana de cabelos ruivos que circulava sozinha. Engraçado como a gente se comunica, mesmo com os entraves da língua. A ponte fez isso. Uniu a coréia ao Brasil. A ruivinha dos olhinhos puxados à cuiabana quase ruiva. Sons, cheiros, cores e o sol que ofuscava os olhos eram sinais que tudo era real. E lá no fundo eu agradecia por poder ver tudo aquilo.


Sentamos em silêncio em frente ao Grand Palais e Petit Palais para sentir o ambiente parisiense sem ser apenas turistas.  Agora, quase um ano depois, escrevendo, veio-me à lembrança que vimos uma equipe, possivelmente de paramédicos, colocando uma senhora na ambulância. Isso estava apagado da memória, mas me lembro agora que em mim o silêncio se aprofundou pelas lembranças que deixei no Brasil. Meu coração ainda doía pela perda de meu pai.



Voltemos à ponte,  e ao romantismo que a envolve vou acrescentar uma certa frustração por não conseguir fotografá-la por inteiro.   A ponte é um museu aberto a ser explorado. Em cima das colunas tem esculturas douradas.  Cada detalhe, cada escultura, cada poste/lampião, cada Alegoria Art Nouveau parecia evocar saudade. Um sentimento que hoje se repete. Ela me lembrou um pouco a ponte Carlos em Praga, mas não consegui curtir a outra como essa. Acho que foi por causa dos turistas. Não tinha mesmo como parar para observar detalhes.  É tanta informação para a gente absorver, que começo a pensar na possibilidade de voltar à Paris. Certamente seriam novos olhares. Esse segundo dia já foi diferente do primeiro. A emoção estava lá, mas mais controlada. 


Do outro lado, no Hôtel des Invalides a história das guerras, as lutas políticas, os restos mortais de Napoleão Bonaparte e outras figuras importantes na história francesa. Ali era um hospital, destinado a abrigar inválidos de guerra, e ainda continua sendo. Pudemos ver alguns pacientes tomando sol. O dia estava muito bonito, ensolarado, embora frio.  A  Cathedral de Saint-Louis des Invalides tem uma cúpula dourada e é lá que estão as sepulturas. Andamos um pouco ali por dentro, por alguns corredores e encontramos um café e um jardim para sentar mais um pouquinho antes de seguir o passeio. É... já estava na França há cinco dias e ainda não conhecia a Tour Eiffel. Cinco dias e não conhecia o maior símbolo da França. O monumento que todo mundo reconhece, como o Pão de Açúcar ou o Cristo Redentor no Rio.Estava visto o conjunto-monumento consagrado pela República à glória da arte francesa, e símbolo do gosto de parte da sociedade da época (Belas Artes). 
De todos, me encantou mais a ponte. Fotografei-a mais no último dia de Paris, durante passeio pelo Rio Sena, mas nenhuma foto consegue reproduzir a beleza impregnada em meu olhar.

O passeio continua em direção à Tour Eiffel!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Um dia mergulhada em déjà-vu

Le Quai du Louvre, Luigi Loir  (Séc.XVII)



Da Catedral de Notre Dame saímos margeando o Rio Sena, sentindo um pouco os ares parisienses com turistas e franceses, o perfume das flores nas pequenas floriculturas, o ritmo dos moradores em seu dia de lazer. Não dá para expressar tudo que se sente, se observa, mas escrever traz de volta à memória as sensações, as reflexões. O déjà-vu não para no tempo presente. Sensações do passado se tornam presentes.  Eu estava feliz, não apenas por realizar o sonho, mas pela oportunidade de mergulhar em registros inconscientes e em muitos momentos tive que segurar as lágrimas. Não me perguntem porquê. Não saberia explicar. Não era apenas o que li e ouvi, mas uma vibração que cada um sente de um jeito.


Paris em minha cabeça está muito ligada a uma outra época, a belle époque, quando as artes, a literatura, a moda, pautavam as tendências em outros países. Era chic, mas era mais que isso. Sim, eu conseguia ter aquele encontro com sensações nostálgicas, inspiradoras, mesmo sabendo que não me encontraria com Hemingway, Proust, Picasso ou Sartre. Mas eu estava dentro do tempo, como no filme Meia-noite em Paris (que eu gostaria de ter sido a roteirista). O cenário antigo, cheio de história e rico em detalhes arquitetônicos facilitava as incursões na imaginação. Maria (sempre juntinho de mim) procurava personagens nos olhares, nos anônimos que passavam. Paris se identifica comigo porque, como eu, vive de suas histórias. Por isso inspira e encanta. E fomos passando Conciergerie, Pont des Arts (onde tem os cadeados), floriculturas, Pont Neuf. 


Sentamo-nos para descansar e eu me sentia em casa vivendo dentro do cenário dos artistas plásticos de séculos passados. Tudo era muito familiar. Entramos no Louvre pelos fundos, observamos a enorme e cansativa fila de entrada. Impossível num domingo, mas essa visita ao Louvre já bastava, porque há outro museu por fora que não dá para ver em um dia. 



No Jardim de Tuillerie eu estava em total ebulição por dentro.  O Jardim conserva sua tradição e as cenas de hoje são semelhantes às das telas. Tinha as referências das telas e de como era o jardim em outros tempos, quando ainda existia um palácio lá (mais tarde fiquei sabendo que Marie Antoinette ficou nesse palácio que foi demolido, antes de ir para a Conciergerie). Umas fotinhas no  Arc du Carrousel (monumento em homenagens às vitorias de Napoleão que lembra um pouco o Arco do Triunfo e o  Portão de Brandemburgo), passamos batido pelo Jardin du Carrousel  (conhecemos em outro dia, quando fomos ao Museu D’Orsay), paramos para um café e curtir o jardim, depois nos encaminhamos para a Place Concorde para pegar o Metrô. Nesse dia foram muitos quilômetros a pé, mas nem percebi. Nenhuma dor e muito encantamento. Será que um anestesia o outro? Pode ser.





Cabe aqui um registro de hoje. Nós, e em especial minha cunhada, nos encantávamos com as flores, as árvores floridas e elas realmente faziam a diferença no cenário: as flores dos jardins por não serem as nossas tradicionais, normalmente grande variedade de tulipas que não se adaptam ao nosso clima tropical, e árvores carregadas de flores brancas ou rosas. Lindas mesmo.  Mas agora, passo a observar como esta cidade e este país são encantadores. Percorremos avenidas inteiras com árvores floridas, flamboyants em matizes que vão do amarelo ao vermelho, bougainvilles do branco ao carmim, acácias que lembram as cores de nossa bandeira, barrigudas (não sei o nome, então vai o apelido), quaresmeiras, ipês... e nem prestamos atenção nelas. É preciso ver flores em uma paisagem cinzenta para aprender a valorizar a beleza que temos aqui. Brasil, meu Brasil brasileiro, mulato, colorido, alegre!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Enfim, Paris na superfície!

Louis Theodore Eugene Gluck (1820-1898), In The Luxermbourg Gardens, Paris
 - Ei! Acorda, acorda! Vamos sair para passear, hoje é nosso primeiro dia na superfície de Paris, diz Maria, eufórica, me sacudindo.
- Oui...je suis a Paris!... penso eu enquanto me visto e os meninos descem para fumar. É um domingo ensolarado, temperatura por volta dos 16º C e pela primeira vez tenho dúvida do que vestir, acabei em uma estranha combinação de azul vermelho e bege. Não estava de todo mal, mas não foi meu figurino mais bonito. Tanta coisa borbulhava dentro de mim, que é difícil explicar em palavras. Por trás do sonho, existem histórias, informações e impressões de outras pessoas. Paris e Milão carregam a tradição e imagem de serem centros de moda, coisa que não faz diferença para mim, mas faria, se por acaso eu destoasse a ponto de chamar a atenção. Algo como os americanos que chegam com camisas toda estampada e escandalosas no Rio de Janeiro. Ufa! Foi tranquilo em relação a isso.
Quando comecei a estudar francês, ainda pré-adolescente, fiquei encantada com a língua. Achava-a de uma sonoridade gostosa, e para ler , mesmo sem conhecer todas as palavras, eu tinha a sensação de entender tudo. Não era bem assim. Eram livros didáticos, próprios para iniciantes, então era fácil mesmo. Somente mais tarde, na universidade voltei a ter contato com a língua e, para minha surpresa, eu ainda me lembrava de muita coisa. Tive a sorte de ganhar uma bolsa de estudo na Aliança Francesa, fiz o teste de nível e já entrei no terceiro ano. Fiz mais dois e a bolsa não incluía o curso avançado. Aprendi muita gramática e isso me ajudou pouco para o que queria na viagem. Explico: Eu queria soltar a língua, falar, conversar, mas ficar estruturando frases na cabeça só fazia atrapalhar. Tinha testado isso nos trens na viagem para Lourdes e Nevers. 


Estávamos no Quartier Latin então começamos a explorar Paris por ali mesmo. Andando por ruas aleatórias vi cartaz anunciando show de Gilberto Gil e Caetano Veloso no Palácio do Congresso de Paris, patrocinados pelo Carrefour e Fnac. Achei legal. Entramos no Jardim de Luxemburgo pela Port-Royal e o atravessamos inteirinho. Aí eu me senti como no clip de Mickey 3D – Paris t’es belle. A gente está ali, sente como é viver em Paris, mas Paris não nos pertence e nem temos sensação de pertencimento. Somos meros observadores. Domingo ensolarado de primavera e o parisiense estava fazendo piquenique. Os gramados cheios, crianças brincando e o astro-rei mostrando sua importância naquela parte da terra. Alguma coisa – respeitada a intensidade dos raios – como se estatelar ao sol em uma manhã de domingo em Ipanema. Ainda fazia frio, mas as roupas já eram mais leves. Nós mesmos já não usávamos o sobretudo. Falar da beleza e da imensidão do Jardim me parece desnecessário. A internet o mostra de todos os ângulos e formas.

Muita escultura, algumas tendendo ao naturalismo, outras mostrando linhas de grande delicadeza e graça com  caráter ornamental, impressionantes levezas esculpidas em mármore, fisionomias capturadas por artistas que o tempo fez anônimos, não que sejam anônimos, muitas obras estão assinadas, mas nós, míseros mortais, pouco sabemos deles. O Jardim de Luxemburgo é um museu aberto, mas como turista, é impossível olhar cada peça em detalhe. As fontes são maravilhosas. Foi divertido procurar uma escultura em meio a tantas obras espalhadas no imenso jardim. Queríamos ver a réplica da estátua da liberdade. Sabemos que Bartholdi fez várias réplicas da Estátua da Liberdade, uma inclusive está no Brasil. Outra está nos Jardins de Luxemburgo e foi um presente do artista ao Museu de Luxemburgo. A estátua é feita em bronze e serviu como modelo para a construção da estátua de Nova Iorque. Ela segura uma tábua com a inscrição da data de inauguração de outra réplica que está também em Paris na Île de Cygnes. Não sei quanto tempo ficamos por ali, mas eu teria ficado o dia inteiro se fosse possível.


A variedade de flores também enchia os olhos. Minha cunhada arregalava os olhos encantada com as flores , Maria me cutucava para me mostrar a satisfação estampada em seu rosto, e eu aproveitava para fotografá-la em sua espontânea admiração. Ela ficava verdadeiramente envolvida e amei que Maria tenha percebido. A beleza das flores inspira e atrai qualquer pessoa com sensibilidade suficiente para se deixar envolver por ela. Achava que depois do espetáculo de Keukenhof nada mais chamaria nossa atenção. Poderia até ser meia-verdade para mim, mas para minha cunhada era diferente. Ela buscava o perfume além da forma e da cor. Como se fossem gentes. Vejo isso como uma espécie de talento, capaz de enxergar beleza em coisas simples. E vejo talento em Maria que se atreveu a transformar a realidade em ficção. Inserir-se em outra cabeça e ter o atrevimento de escrever sobre pensamentos e emoções. Maria pede licença, é sensível e respeitosa, mas seu mundo só existe porque a imaginação lhe permite.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Paris no túnel do tempo



Evening Beauty, de Mark Spain


Olhando aquele cenário diferente, cheio de histórias e rico em detalhes arquitetônicos, Maria se vê, de repente, lembrando conteúdos que preencheram suas primeiras incursões na alma humana. Não vai se encontrar com Ernest Hemingway, Proust,  Cole Porter, Luis Bruñuel, ou Picasso, ou mesmo Sartre, mas espera por aquela sensação nostálgica que a inspire e a encoraje a escrever, mesmo em relação àquilo que não viveu.

Toda cidade tem suas peculiaridades humanas, aquelas que podem até ser integradas às paisagens, mas estão intrinsecamente ligadas ao comportamento humano. Algumas são típicas de determinadas personagens. Lembro-me, da minha infância, de Judith, que inaugurou o bundaço como protesto e rebeldia aos padrões da época. Mal imaginava ela que um dia isso seria moda. Mas em minha cidade de origem havia outras figuras diferentes, como as minhas xarás “Maria Taquara” e Maria Bobó. A primeira se vestia de homem, desafiava os padrões sociais.  A segunda, mais ingênua e mais coquete,  se enfeitava com laços coloridos de papel crepom para acompanhar as procissões. Aqui em Goiás uma dessas excêntricas personalidades virou boneca: Maria Grampinho, que assim como Mari Bobó gostava de se apresentar bonita e prendia seus cabelos rebeldes com inúmeros grampinhos.

Mas não são só as Marias, as cidades também têm Joãos e Pedros que se destacam por sua singularidade. Em meu setor, João não escapava da observação de minha avó e chegava a lhe arrancar sorrisos. João conta os passos, mas sempre se esquece no meio da contagem, então ele volta atrás – certamente de onde imagina que perdeu os números – e começa tudo de novo. Então, observar a caminhada de João é como assistir a uma dança diferente, não apenas pelo gingado que impõe ao seu corpo, mas pelos volteios, giros e “promenades”.


É. Maria foi buscar a Paris que inspira e encanta e isso é meio surreal, não se mede por números de passos dados, mas por uma contagem interna que certamente terá, muitas vezes, que ser retomada. Não há possibilidade real de se viver outra época, sem que esta se torne também uma prisão. E nas prisões, a criatividade se esgota. Talvez por isso Maria tenha buscado suas primeiras referências, para conhecer a Paris, que como ela, vive de suas histórias. Ao mesmo tempo, usa seu olhar e abertura de alma para deixar o novo entrar.