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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Intimamente intenso

Francesco Hayez
Acordo sentindo ainda sua mão despudorada investigando cada milímetro de meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas de meus sonhos, de minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Estou no limite do prazer e da posse, o penso em você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que essas imagens me inspiram. Em meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que para o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Quero cama!



Thomas Benjamin Kennington (1856-1916)

Levanto num salto. Preciso levantar. Assim começa a rotina diária. Chuveiro, lanche rápido, sequência de dias, semana que seguirá sem grandes surpresas, a não ser pelos sentimentos que deverão se modificar diante das situações. A chuva fina que caiu durante a noite começa a ceder, deve fazer sol durante o dia. Mas esses dias chuvosos parecem encher de nuvens negras o céu e o meu coração. Ando sedenta de luz! Odeio esse horário de verão. Levantar hoje, para mim, significou abrir os olhos para a realidade, para a necessidade de sobrevivência, para o eterno aprendizado da tolerância, da superação, da busca da serenidade diante de tantas adversidades.  Entendo que preciso do sonho, da compreensão, da esperança para continuar acreditando no ser humano. O mundo está aí da maneira como sempre foi e o homem caminha a passos lentos para a evolução interior.
Enfim, vida que só vale a pena porque é vivida.  

terça-feira, 15 de março de 2011

Que venha o outono

Imagem: The Leaf, Elizabeth Forbes (1897-1898).


Foram dias sofridos, marcados pela dúvida. Maria não consegue sequer escrever, perdida no emaranhado dos seus pensamentos. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que ela só consegue fechar os olhos e pedir a Deus que lhe dê discernimento. Está visivelmente em seu limite e, por mais que procure, não consegue encontrar uma área da sua vida que esteja realmente serena. Trabalho, família, amor, tudo tem uma marca de angústia, tudo está em compasso de espera. Não consegue ler também. Uma rápida passada em frente à TV arranca-lhe lágrimas doloridas: chora por ela, chora pelas notícias, chora pelo Japão, chora pela humanidade. Acostumada a percorrer os labirintos da alma humana, Maria se vê, mais uma vez, diante de si mesma, precisando lidar com conceitos de moral, de lealdade, e, infalivelmente, com a verdade. Pensa em conversar com João, quem sabe aqueles detalhes reveladores, escondidos nas justificativas, venham à tona. É complicado falar das fraquezas do ser humano sem resvalar-se nos próprios reflexos e Maria parte do princípio que só identifica nos outros aquilo que tem nela mesma.
– Posso sair na frente, admitindo os meus erros, pensa ela.
Ledo engano. Maria não consegue conversar com João. Ele desvia o assunto para amenidades e a faz parecer uma pessoa complicada, daquelas que criam chifres em cabeça de cavalo. Pela primeira vez Maria o acha vaidoso. Ela também seria vaidosa? Onde e o quê é que estava “pegando”? Porquê não conseguiam se entender? Era evidente que o bloqueio não era apenas dele. Maria estava em um turbilhão de pensamentos e João deu a pista com um simples comentário.
– Para mim está tudo bem, mas você está recebendo pouco de mim e isso não a está deixando satisfeita. Por isso está angustiada.
– Não é apenas isso, responde ela, a verdade bate na minha cara. Fico procurando defeitos em você para justificar minha desistência, mas acabo os encontrando em mim mesma. Há pouco, achei-o vaidoso, mas mesmo a vaidade tem dois lados. Vista de forma positiva é autoestima, de forma negativa é orgulho. E neste momento, nós dois, vaidosos, nos colocamos em lados opostos.
– Minha Vida, não complique as coisas. Vamos levar as coisas com serenidade, vivendo o que nos é permitido viver e com a alegria que marcou nossos primeiros encontros. Aos poucos, vou me acostumando às suas alfinetadas. Tento entender que a sua crítica afiada não tem o sentido de denegrir a mim, mas é uma máscara que você usa para compensar a carência, a sensação de desamparo. Eu também me sinto carente, talvez não da mesma forma que você. Minha solidão é outra. Meu silêncio grita e delata outras situações.
Fragilidade e impotência estão presentes em todos nós. O outono está próximo, o sol radiante depois das pancadas de chuva será mais raro e, aos poucos, o que hoje é verde dará lugar ao alaranjado, com matizes em musgo e marrom. Maria se sente contagiada, desde já, pelo ciclo da natureza. Está no outono da sua vida. Na natureza isto significa o tempo de preparo para enfrentar dias frios e sombrios. Na vida também. Humana que é, sabe que terá que se equilibrar nas estações da existência e ser capaz de enxergar o belo no escuro e decodificar, pela linguagem da arte, a cultura da sombra.
– Tenho pressa de viver.
O tempo que tenho pela frente é precursor de horrores e não posso deixar que mágoas e raivas sejam interiorizadas e expressas em detrimento da harmonia do cotidiano, conclui Maria. Em sua maneira de simplificar as coisas, em amenizar – melhor dizendo –, João lhe mostrou ser capaz de abrir caminhos alternativos que lhe permitem trafegar em todos os reinos físicos e psicológicos, com maturidade interna. Maria entende que o ser humano não pode ser aprisionado por estereótipos porque é livre para agir e reagir. Não há regras fixas de comportamento, mas Maria pauta sua vida no bem coletivo. Quando o assunto é a emoção, o comportamento humano não se enquadra em nenhuma expressão matemática de resultado exato. Na nossa cultura, em que o novo e o descartável são supervalorizados, a serenidade madura ocupa outro espaço. De novo, Maria tem a oportunidade de exercitar sua habilidade em trafegar entre o novo e o antigo, entre o moderno e o tradicional, entre o maleável e o estratificado. Se por um lado, inventamos mecanismos para facilitar nossa sobrevivência, inventamos também a arte, um instrumento para alimentar o espírito, para nos distrair de um mundo duro e chato. Pela sua escrita, Maria se propõe a ir além do humano e criar o encontro entre o sutil e o belo. É verdade que o momento tende ao cinza, mas o importante é entender que o sentimento do outono não está, necessariamente, ligado ao declínio, mas ao sentido e ao significado que se percebe com o olhar experiente. Parabéns João! A sabedoria pode ser bem mais simples que imaginamos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carta a João

Imagem: Madalena, de Caravaggio


Hoje acordei com vontade de continuar na cama, de deixar a imaginação passear livre e, quem sabe, entender tudo que me acontece por dentro. Preciso daquele cantinho só meu – o meu sanctum sanctorum – para conversar com Deus, pedir-lhe luz e clareza em meus pensamentos. Para subir aos céus é necessário um mínimo de silêncio e, ao que tudo indica, a programação cósmica para meu dia é outra. O trabalho – estou de férias – vem onde estou e me pede, além do tradicional das terças-feiras, mais três textos: duas apresentações de livros e uma apresentação de CD. Não é o que quero fazer. Não é o que gostaria de escrever. Estou em momento de interiorização, de questionamentos profundos, de acerto de contas comigo e com o tempo. Ainda não desisti de ser feliz, mesmo que essa felicidade chegue por caminhos tortuosos, por uma marginalidade branca. Não quero destruir nada, mas acredito que posso construir uma ponte paralela e ter uma vida alternativa, longe das preocupações diárias.
Mal começo a pesquisar para escrever sobre um importante escritor goiano o telefone toca. Havia esquecido que hoje é dia 15 e tenho que acompanhar uma prima que veio de longe em busca de tratamento espiritual para mieloma múltiplo. Sofro! Por vários motivos eu sofro, mas já há algum tempo entendi que não posso ser Deus na vida dos outros e cada um terá que ter sua própria experiência. Não há atalhos.
Os textos continuam por escrever, tenho pouco mais de duas horas para entregá-los (duas laudas e meia – não é muito), mas antes preciso me esvaziar. Sentei aqui para escrever o quê não sei. Escrevendo posso me ler e aumento a possibilidade de encontrar uma luz para minha angústia. Estou feliz, isto é certo e verdadeiro. O bloqueio é porque nos acostumamos a pensar que a felicidade tem que seguir um rito próprio, padronizado, criado por um monte de gente – alguns até bem intencionados – que nem sempre vivenciou esta intimidade consigo. No meu coração tudo está certo, porque se eu não sou nem o meu pensamento, sou menos ainda o pensamento social. Sou mais que meu pensamento, sou mais que minha percepção, sou mais que meu querer. Pronto. Estou em paz com a minha felicidade, posso senti-la sem culpa. Mas o que faço desta saudade que toma todo meu ser, meu sentir, meu pensar, meu querer? Nossa! Quanto meu, meu, meu. Acho que estou com medo de me perder de mim e estou buscando garantias. Sou humana, portanto, por mais que me esforce no desenvolvimento das virtudes, o egoísmo está presente. Que bela mentirosa eu seria se não admitisse para mim mesma que os possessivos não apareceram por acaso, mas que evidenciam meu estado de alma atual. Entendo que preciso agora me fixar em sentimentos nobres. Talvez, renúncia. Não a renúncia de ser, mas a renúncia dos moldes tradicionais. Descobrir, a cada momento, que o amor consegue romper os limites do tempo e do espaço. Posso fechar os olhos e encontrar você em algum lugar do imaginário. Volto então a ser Maria. Nossos olhares perdidos se encontram, nossas almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. A fascinação deste encontro é como um poema, sedução e paixão. Apenas sentimento e o som universal do piano que agora escuto, introduzindo a música Todo Sentimento.
Posso então voltar ao trabalho!