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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Paris no túnel do tempo



Evening Beauty, de Mark Spain


Olhando aquele cenário diferente, cheio de histórias e rico em detalhes arquitetônicos, Maria se vê, de repente, lembrando conteúdos que preencheram suas primeiras incursões na alma humana. Não vai se encontrar com Ernest Hemingway, Proust,  Cole Porter, Luis Bruñuel, ou Picasso, ou mesmo Sartre, mas espera por aquela sensação nostálgica que a inspire e a encoraje a escrever, mesmo em relação àquilo que não viveu.

Toda cidade tem suas peculiaridades humanas, aquelas que podem até ser integradas às paisagens, mas estão intrinsecamente ligadas ao comportamento humano. Algumas são típicas de determinadas personagens. Lembro-me, da minha infância, de Judith, que inaugurou o bundaço como protesto e rebeldia aos padrões da época. Mal imaginava ela que um dia isso seria moda. Mas em minha cidade de origem havia outras figuras diferentes, como as minhas xarás “Maria Taquara” e Maria Bobó. A primeira se vestia de homem, desafiava os padrões sociais.  A segunda, mais ingênua e mais coquete,  se enfeitava com laços coloridos de papel crepom para acompanhar as procissões. Aqui em Goiás uma dessas excêntricas personalidades virou boneca: Maria Grampinho, que assim como Mari Bobó gostava de se apresentar bonita e prendia seus cabelos rebeldes com inúmeros grampinhos.

Mas não são só as Marias, as cidades também têm Joãos e Pedros que se destacam por sua singularidade. Em meu setor, João não escapava da observação de minha avó e chegava a lhe arrancar sorrisos. João conta os passos, mas sempre se esquece no meio da contagem, então ele volta atrás – certamente de onde imagina que perdeu os números – e começa tudo de novo. Então, observar a caminhada de João é como assistir a uma dança diferente, não apenas pelo gingado que impõe ao seu corpo, mas pelos volteios, giros e “promenades”.


É. Maria foi buscar a Paris que inspira e encanta e isso é meio surreal, não se mede por números de passos dados, mas por uma contagem interna que certamente terá, muitas vezes, que ser retomada. Não há possibilidade real de se viver outra época, sem que esta se torne também uma prisão. E nas prisões, a criatividade se esgota. Talvez por isso Maria tenha buscado suas primeiras referências, para conhecer a Paris, que como ela, vive de suas histórias. Ao mesmo tempo, usa seu olhar e abertura de alma para deixar o novo entrar. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Onde você estiver...

Era uma vez, em um reino muito distante, uma camponesa, Maria, enfrentava suas primeiras dificuldades como mãe de um lindo garoto. Seu marido saía para longas caçadas e ela tinha que aprender a se virar sozinha nos afazeres domésticos, no cuidado com o filho e nas encomendas dos bordados. Tecia com fios de ouro, sempre colocando em cada ponto traços de delicadeza, de generosidade, de harmonia, de forma que, ao final, gostava de admirar sua obra, como se arte fosse. E a vida era boa, o futuro lhe sorria, a esperança fazia morada em sua casa.
Um dia, entretanto, durante uma das longas caçadas de João, Maria amanhece doente, com tonturas, desmaios, vômitos, diarreia. Com bebê de poucos meses, sozinha e isolada pensa em como fazer para pedir ajuda. Arrasta-se então até à porta na expectativa de ver algum lavrador passar. Depois de algum tempo passa um jovem que se dispõe a ir até o sítio vizinho pedir ajuda. Assim fez, mas a ajuda não veio.
Printemps, de Maria Konstantinowna Bashkirtseff
Está beirando o desespero quando ouve o trotar de cavalos. Anima-se quando um dos soldados do rei apeia e vai ao seu encontro. Maria conta seu drama, mas ele pouco ou nada pode fazer. Para espanto do soldado, mesmo sendo uma camponesa, Maria pede para que avise seu tio, um nobre cavaleiro que se tornou conselheiro do rei. O pelotão parte e seu tio não tarda a chegar. Com o olhar agradecido Maria acompanha cada movimento dele no cuidado com seu filho. Aquele homem forte, imponente, bonito, sabia, mais do que ninguém traduzir em ações aquilo que não conseguia expressar em palavras, a despeito de ser um grande orador. Naquele momento de cumplicidade o que explodia era sentimento, era amor, era a ética do cuidado.
O nobre tio de Maria nasceu em uma pequena Aldeia, não obstante sua origem humilde, soube transformar tudo que se apresentava a seus olhos em livro eficaz. Seu caráter honrado, íntegro e honesto fez com que fosse convocado para servir o Reino, onde prestou relevantes serviços. Foi condecorado por isso. Na vida pessoal, este destemido guerreiro do tempo soube amadurecer seus frutos e lançar suas sementes em terra fértil. No exercício da oração aprendeu a criar uma passagem entre seu interior e o mundo que vivia, marcando o ritmo de seus passos na construção da paz e da justiça.
O episódio mostrou a Maria a grandeza daquele homem que equilibrava dentro de si sentimentos antagônicos como a razão e a emoção. Não era perfeito, certamente, mas tinha a perfeição como meta. Foi um grande pensador e dele Maria aprendeu a deixar o pensamento voar.  As sucessivas batalhas que lutou, acabou o tirando cedo demais do convívio deste mundo. A vida é um mistério, mas também é uma dádiva tão grande, que o mínimo que se tem a fazer é vivê-la em sua plenitude. Hoje ele faz aniversário em uma dimensão ainda desconhecida por nós.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Espírito da Primavera

Spirit of Spring, de Alphonse Marie Mucha
Seria uma manhã típica de primavera, não fosse o ar ainda seco pela falta de chuva.  O sol morde seu corpo. Ainda assim o vento bate em seu rosto trazendo novo ânimo e estranha energia. A natureza se renova e sua alma, assim como ela, se sente cheia de esperança, de alegria. O amor perfuma o deserto. A fonte lacrada agora jorra vida que arde em suas entranhas. É um sentimento que ao seu redor tudo pode se aniquilar, que renascerá cantando a simples olhar. Maria é a própria natureza.  A caminhada até o trabalho acrescenta sons de pássaros, acácias floridas, mangueiras carregadas e céu aberto. Maria nem se incomoda com as buzinas e a pressa dos motoristas. O amor que sente florescer é apenas um botão entreaberto. 

Maria vive período de grande iniciação, o que significa na prática que sai de uma mansão da alma para outra. Durante muito tempo pediu ao Cosmos que não a deixasse só, por algum tempo, chegou a pensar que sua vida só teria sentido se encontrasse sua alma gêmea, alguém que a  acompanhasse não apenas nas atividades terrenas, mas também pelo estreito caminho do misticismo. Hoje ela sabe que não precisa de nada disso. Basta um manhã harmonizada com o espírito da primavera.
Ela ama e é feliz!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Manhã de primavera

Spring, de Frederick Walker



Hoje amanheceu tudo diferente. Por um lapso deixei meu celular carregando ao lado de minha cama e fui acordada às 5h da manhã. Era noite ainda. Não consegui mais dormir - ainda que minhas noites nunca sejam bem dormidas, porque acordo cada vez que um dos meus idosos se levanta para ir ao banheiro. Banho, corrida até à padaria e tênis (outra novidade!) para enfrentar a caminhada até o trabalho. O trajeto é curto e minha colega o faz em 10 ou 15 minutos. Levei quase 60, mas venci dois desafios, do joelho e da respiração. Gostei da experiência e estou pensando em repeti-la, pelo menos até entrar o horário de verão e me roubar esta preciosa hora.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O pecado e doce prazer da gula


Imagem de Botero

15 dias sem colocar doce na boca... Uma vitória para esta formiguinha. A história é antiga, já foi publicada aqui, mas a função é me lembrar que a dieta continua.


Santo Deus! Não me deixe cair em tentação. Dietas são sempre complicadas. Traz à tona a Síndrome da Mulher Mal-Amada. E a saudade de um tempo não vivido, que só se conhece por meio das obras de arte, quando as belezas retratadas eram mulheres cheinhas, de formas arredondadas e de carinhas satisfeitas. Comer, nos dias de hoje, realmente é um ato de coragem. Regra geral, depois dos 50, o maior pecado que assombra a mulher é o da gula. Um absurdo! Gula? Porque será que deram ao ato sexual a característica de "comida"? Que estranha relação é essa que afasta mulheres e homens dos saudáveis prazeres da mesa e da cama? Se quando um falta, o outro supre?
Ah! A mulher mal-amada não consegue mesmo se esconder sem sofrimento.
A Primavera se aproxima e logo depois o Verão. Não terei como me esconder em roupas largas. Certamente não pretendo ser uma modelo esquálida, mas quero usar e abusar da elegância. Em casa, o filho mais velho olha de forma repreensiva quando lanço lânguidos olhares para a sobremesa. A filha caçula, complacente, até tenta agradar.
- Mamãe godinha... mas é tão monita!
Fico olhando para o pé de jabuticaba. Alguns frutos estão maduros, não engordam, mas sonho mesmo é com deliciosas truffas, sorvete com muito chantilly, ou mesmo os deliciosos doces caseiros da minha mãe: banana, goiaba, abóbora com côco. Ambrosia. Porque não? Hum! Que tentação!
Na sala ao lado ouve sua amiga rosnar.
-Eu quero chocolate! Não aguento esta Síndrome de Abstinência!.
Gargalhada geral.
-Abstinência de quê?
-De marido, de comida, de doce. Sou chocólatra assumida! Desse jeito acabo virando um coró.
Nessa luta contra o vício não se pode deixar de lado a análise que mais uma vez as mulheres são mais generosas. Seus homens podem engordar, criar barriguinhas e barrigões, perder todos os cabelos e nem por isso são chamados de feios. A mulher certamente sabe amar melhor e mais intensamente que os homens. Bela herança deixamos para os nossos filhos. Definitivamente, essa escravidão à estética tem que acabar. Por isso mesmo, resisto a todas as tentações, tomo um café com adoçante. A dieta vai continuar. Afinal, tenho pés pequenos, se liberar a boca eles não conseguirão me suportar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A verdadeira beleza é triste

O ano está no fim. A data é um misto de tristeza e de alegria, de vida e de morte. De um lado a comemoração dos 59 anos de casamento dos seus pais, do outro a saudade pelos três anos sem a presença de sua tia querida. Após o almoço em família, Maria e sua mãe levam flores ao cemitério. Falam de saudades, de preocupações, dos sonhos e pesadelos, e do vento. O vento que parece beijar-lhes o rosto, mas que não permite manter a chama acesa, como se estivesse a lhes dizer que um dia tudo se acabará com um sopro. Ainda estavam reflexivas quando foram interrompidas pelo chamado ao celular.
Em menos de meia hora Maria já estava providenciando sua viagem para o Rio de Janeiro. O motivo bem que poderia ser o Réveillon, a queima de fogos em Copacabana, a reunião com os amigos que também estariam lá. O motivo era bem outro e a passagem do ano foi solitária. Da sacada vê alguns fogos de artifício na orla e na Marina da Glória; mais distante, o pipocar de luzes e cores em Niterói. Nenhum espetáculo. Grossas lágrimas lhe escorrem pelo rosto. Marcava-se naquele momento mais um reinício, no tempo e na vida. Recomeçar, reestruturar, refazer-se, com algumas diferenças, desta vez não precisava reencontrar-se consigo mesma. Há algum tempo suas idas ao Rio de Janeiro não tinham o mesmo sabor e entusiasmo da sua juventude.
Nos dias que se seguiram Maria pôde observar – e aí não sabia explicar se era apenas a sua percepção – que o Rio de Janeiro não era mais o mesmo. Cheirava a mofo, à decadência; as paredes do casario antigo, por todos os lados, estavam infiltradas. Ao subir e descer a Ladeira Nossa Senhora da Glória, observa o muro de pedras musgosas do Outeiro, não pode negar a sua beleza histórica. Entre uma pedra e outra, nascem árvores, plantas, samambaias e as raízes expostas evidenciam o capricho com que a Natureza tece o tempo. Na rua calçada com paralelepípedos sabe que terá que usar sandálias rasteirinhas, porque assim como o Rio envelhecia, ela também. Saltos altos e elegância naquele trajeto, não lhe pertenciam mais. Chegou exausta ao topo.
Mais dois dias e Maria fazia seu caminho de volta para casa. Deixava parte de uma história para trás. Vivenciou momentos de muita dor, de renúncia, de desapego. De despedidas. Pôde compreender que é na memória que ficam os verdadeiros registros e os motivos da angústia; que uma caixa de fósforo de papel, com a propaganda de um restaurante, é mais difícil de jogar no lixo, que um aparelho de televisão ou qualquer outro eletrodoméstico. Que o cheiro de mofo se mistura ao ranço da vida. Buscou forças em esconderijos interiores, sabia que aquela não era a sua história, mas era co-protagonista. Daqui pra frente a sua vida não será mais a mesma.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mapa Astral

Foto de Paulo José

Você nasceu com o Sol em Áries e a Lua em Touro. Isso indica uma personalidade dinâmica, obstinada e batalhadora que aborda as questões práticas com cautela.
Graças ao posicionamento propício de sua Lua em Touro, você é mais estável e conservadora que outros com o mesmo signo solar.
Sua lucidez lhe permite ver o essencial de idéias e problemas. Você reluta em envolver-se em situações ambíguas que não prometam segurança instantânea. Suas emoções assumem a forma de possessividade e tenacidade. Embora transmita solidez, praticidade e correção, no fundo, você anseia pela aventura e pelo desconhecido.
No seu caso, a chave para o desenvolvimento harmonioso está na conciliação de duas tendências opostas: a busca do novo e o apego ao velho.

Ascendente em Gêmeos, Mercúrio na Casa 10
No momento de seu nascimento, o signo zodiacal de Gêmeos estava ascendendo no horizonte. Seu regente, Mercúrio, está situado na Casa 10.
O signo ascendente e o posicionamento de seu regente fornecem informações acerca de tendências gerais no curso de sua vida, complementando os dados relativos ao seu temperamento, anteriormente comentados na análise dos posicionamentos conjuntos do Sol e da Lua.
Gêmeos é o terceiro signo do Zodíaco e entre suas principais influências psicológicas sobre a vida estão as seguintes: atividades intelectuais, humanismo e horror à violência, dúvida constante quanto a todos os conceitos mentais, hesitação e interesses acadêmicos.
Aqueles cujo ascendente é Gêmeos geralmente são elegantes, esbeltos e expressivos, inclusive no semblante. Trata-se de pessoas que, além de uma certa inclinação literária, têm habilidade manual, sendo espertas, capazes, espirituosas, inventivas e muito curiosas e sutis.
Os que têm ascendente em Gêmeos distinguem-se pela eloqüência no falar e no escrever, pelo dia-a- dia movimentado e pela eterna incapacidade de tomar decisões com rapidez e determinação. Essa hesitação pode ser compensada pela rapidez de raciocínio.
Embora seja em geral gentil e generosa (dentro de certos limites), sua atitude diante da vida nem sempre é acertada devido ao excesso de vacilação na hora de tomar decisões. Você tem capacidade para subir na vida: basta usar seus dotes intelectuais.
Sua mente é aberta e generosa e sua capacidade intelectual é grande. No entanto, em muitas ocasiões, seu julgamento parece um tanto "distorcido". Procure evitar as brigas e discussões inúteis, pois elas são suas piores inimigas.
Para atingir o sucesso, "capriche" nos estudos literários e científicos, dê asas a seu brilhante intelecto quando for o caso e direcione sua natural diligência para a escrita, as viagens, as comunicações e a análise do ser humano. Todas essas atividades são seu forte.
Mercúrio, o regente de sua vida, está situado na Casa 10, a casa da profissão, da reputação e da vida pública. Este posicionamento faz a sua vida tender à da personalidade extrovertida: você estará sempre diante do público, realizando ao mesmo tempo várias atividades profissionais. Ele lhe garante sucesso em importantes e complexas iniciativas de representação, tornando-a uma pessoa muito versátil do ponto de vista profissional.
Esse sucesso não deve estar longe em seu horizonte: fique atenta a ele.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lady Green

Deméter e Joseph Kern

Olhares a gente não imagina... sente. A homenagem me sensibilizou, claro! Só que prefiro pensar que mais que a probabilidade racional e matemática existe alguma coisa além e inexplicável que torna possível olhares generosos, afetos inesperados, encontros aparentemente impossíveis. Vivemos um novo milênio...Prepare-se para muitas, muiiiitaaass surpresas! Um beijo terno ao JK (o elegante cavalheiro que me acompanhou na noite de autógrafos)!

Ao meu querido Andy, que me dedicou esse texto em seu blog.


LADY GREEN

Texto dedicado à Deméter ( à pessoa, não ao arquétipo)



Tarde ensolarada, eis-me que surge uma dama linda, irreconhecível para minhas últimas imagens que tivera de um último encontro num café.

Com vestido verde, contrastando sua pele alva pelo insinuante decote, fazendo-nos imaginar como seriam as margens daqueles seios...

Teu andar ressonava como as mais belas melodias e versos de Vínicius e Jobim, ao longe acompanhava, captando cada sorriso lançado aos amigos e conhecidos.

Estava acompanhada, mas de seu par ideal: era o encontro do presente, vivido no passado para mudar traços de um futuro, para seu acompanhante era o encontro com o futuro, que se fazia presente para reconstrução de um passado.

Concluí: tratava-se de um encontro, encontro de almas, objetivos, complementos entre si; a troca de sentimentos, sentimentos estes, estarem longe dos perceptíveis olhares questionadores que ali se faziam presentes....

Nem todo amor predestina-se ao sexo....assim como nem todo Deus necessita de uma religião.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Impotência


O Julgamento de Eros e Psiquê - desconheço o autor

Impotência

Muitas vezes entrei em atrito com pessoas que amava por não conseguir explicar de maneira satisfatória o que penso a respeito do amor. E tive sim, muitas vezes, que arcar com o ônus de carregar a pesada cruz do amor, do idealismo, do sonho, da esperança. Reconheço-me humana e esta é a minha maior luta. É contra mim mesmo que se desencadeia a cada nascer do sol uma verdadeira batalha e tenho a consciência de que não sou diferente de ninguém por isso. Mais dia, menos dia, teremos todos que nos olhar no espelho e nos ver sem máscaras, sem dissimulações e, principalmente sem medo.

Quisera eu ser a dona da verdade. Quisera eu ter a certeza de que o caminho que trilho um dia vai me levar ao centro, à verdade absoluta do Ser. Reconheço-me caminhante, corajosa, guerreira, mas, tão longe da Verdade, embora a busque com toda a garra.
Salvar-me de mim mesma é uma guerra diária. Como poderia ter a prepotência de acreditar que poderia ajudar outra pessoa a se salvar de si mesma? Porque esta arrogância de pensar que porque vivi mais, necessariamente tenho que saber mais? Não conheço sequer a estrada onde tenho que andar. A minha própria história de vida é uma história de batalhas perdidas e ganhas.

Às vezes, ao observar os que estão chegando agora para a vida, sinto que poderia indicar alguns atalhos, mas logo percebo meu terrível engano. Dizem que os animais nunca caem duas vezes em um mesmo buraco, mas o ser humano, este sim, vai cair quantas vezes forem necessárias até que a lição seja apreendida. E cada um terá que ter a sua própria experiência. Há alguns que são mais sábios, apoderam-se da experiência alheia como se fosse uma lanterna para os guiar na escuridão. O conhecimento intelectual não nos livra de viver aquilo que temos que viver, mas só terá sentido se servir para clarear e ser um suporte nas vicissitudes da vida.

O que me dá a tranqüilidade de enfrentar dias difíceis é saber que esta não é a primeira vez, que a vida, assim como a natureza, obedece ciclos. Assim,o que hoje parece um infindável inverno, amanhã renasce com todo o esplendor da primavera. Gostaria de poder passar esse meu sentir a todos os que amo, mas sei que é impossível e daí, reconheço, no mais profundo sentido o que significa a impotência. É um querer fazer e não poder, é um querer mostrar e não conseguir, é um querer mover e, no entanto, permanecer estático. E nem mil livros podem mudar essa realidade.

Tudo isto faz parte do processo de envelhecimento. Na nossa cultura onde ter 50 anos já é ser velho, percebo que não me sinto assim. Tenho energia para tudo que ainda sonho em ser/fazer, o que realmente muda é a minha compreensão do que sou. Não sou onipotente! Não posso me sentir Deus na minha vida, nem dos meus filhos, nem na vida de ninguém. Não vou abandonar a luta, mas sei que é uma luta minha, contra mim mesma. Por ora, recolho-me à minha antiga e amiga solidão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O pecado e doce prazer da gula



Imagem de Botero

Santo Deus! Não me deixe cair em tentação. Dietas são sempre complicadas. Traz à tona a Síndrome da Mulher Mal Amada, a saudade de um tempo que só se conhece por meio das obras de arte, quando as belezas retratadas eram todas mulheres cheinhas, de formas arredondadas e de carinhas satisfeitas. Comer, nos dias de hoje, realmente é um ato de coragem. Regra geral, depois dos 40, o maior pecado que assombra a mulher é o da gula. Um absurdo! Gula? Porque será que deram ao ato sexual a característica de "comida"? Que estranha relação é essa que afasta mulheres e homens dos saudáveis prazeres da mesa e da cama? Quando um falta, o outro supre.
Ah! A mulher mal amada não consegue mesmo se esconder sem sofrimento. A Primavera se aproxima e logo depois o Verão.Não terei como me esconder em roupas largas. Certamente não pretendo ser uma modelo esquálida, mas quero usar e abusar da elegância. Em casa, o filho mais velho olha de forma repreensiva quando lanço lânguidos olhares para a sobremesa. A filha caçula, complacente, tenta até agradar.
- Mamãe godinha... mas é tão bonita!
Fico olhando para o pé de jabuticaba. Alguns frutos estão maduros, não engordam, mas ela sonha mesmo é com deliciosas truffas, sorvete com muito chantilly, ou mesmo os deliciosos doces caseiros da minha mãe: banana, goiaba, abóbora com côco. Ambrosia. Porque não? Hum! Que tentação!.
Na sala ao lado ouve sua amiga rosnar:
-Eu quero chocolate! Não agüento esta Síndrome de Abstinência!.
Gargalhada geral.
-Abstinência de quê?
-De marido, de comida, de doce. Sou chocólatra assumida! Desse jeito acabo virando um "coró".
Nessa luta contra o vício não se pode deixar de lado a análise que mais uma vez as mulheres são mais generosas. Seus homens podem engordar, criar barriguinhas e barrigões, perderem todos os cabelos e nem por isso são chamados de feios. A mulher certamente sabe amar melhor e mais intensamente que os homens. E a maioria não tem necessidade de variação. Bela herança deixamos para os nossos filhos. Definitivamente, essa escravidão à estética tem que acabar. Por isso mesmo resisto a todas as tentações, tomo um café com adoçante. A dieta vai continuar. Afinal, tenho pés pequenos, se liberar a boca eles não conseguirão me suportar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Apenas uma redação

Este era o Grupo Escolar Senador Azeredo, hoje transformado em Casa do Artesão. Foto enviada pela Dra. Rosarinha Bastos (Didi), minha companheira inseparável.


Hoje é dia da árvore e por isso Deus nos presenteou com uma bela chuva. No caminho da escola, conversei com cada árvore que encontrei. Elas estavam felizes e irradiavam brilho nas gotinhas de água que guardaram em suas folhas.
Pronto. E agora? Travou.
Maria não conseguia mais escrever. A viagem no mundo das árvores parecia sem volta. Ela queria traduzir cada diálogo que teve, mas a imaginação corria à frente da disciplina e ela se deixava levar. A campainha toca avisando que acabara a aula de redação. Sobressaltada, retorna à realidade da sala de aula. O que faz agora? Chora e diz que está com dor de cabeça e por isso não terminou a redação? Não daria certo. A aula foi depois do recreio e ela, viva, esperta, havia aprontado todas. Ninguém acreditaria. Maria pensa rapidamente em outra desculpa, mas não consegue achar. Decide entregar a tarefa incompleta mesmo, afinal em poucas linhas ela já havia falado tudo o que queria e o seu diálogo com as árvores não tinha nada a ver com o dia comemorativo delas. Ela fazia isso diariamente e há muito tempo as árvores reclamavam da poeira e do tempo seco. Ninguém ouvia as reclamações delas, porque ouviriam seu cântico de agradecimento?
Em casa a realidade era diferente. Ela tinha apenas oito anos, mas alguém havia dito que era inteligente e por isso a cobrança era sempre grande. Todos esperavam mais do que ela podia dar e seu esforço nunca era suficiente para agradar. Você pode ser muito melhor, era a frase que sempre escutava. Nenhuma palavra de incentivo. Nada de parabéns. Maria tinha a obrigação de ser brilhante. Era isso o que esperavam dela.
Nesse dia ela foi para casa pensativa, mas ninguém perceberia. Logo seu irmão estaria pentelhando a sua paciência e ela daria seus gritos estridentes e ficaria tudo por isso mesmo. Difícil mesmo seria a hora de mostrar a redação incompleta em casa, com a observação, certamente, destruidora da professora. Maria resolve esquecer. Até o dia seguinte ela encontraria uma boa desculpa. Se fosse mesmo inteligente, saberia encontrar uma saída honrosa.
O som dos passos em sapato alto anunciava que a professora já estava chegando à sala de aula. O barulho era mais alto que nos dias normais. A escola tinha um porão embaixo e os corredores eram de madeira, somente nas salas a construção era de alvenaria. A julgar pelo barulho ali entraria um furacão vestido de mulher. Chega o momento tão temido e esperado. A professora entrega todas as redações, menos a de Maria que sofre calada vendo o papel na mão dela.
- Esta é a redação de uma colega de vocês. Eu vou ler.
Lágrimas começam a correr pelos olhos de Maria. Ela será humilhada na frente de todos os colegas.
Ao terminar a rápida leitura a professora completou:
- Foi uma pena que Maria não nos brindasse com o diálogo que teve com as árvores. A redação não está completa, mas Maria não me engana. Estamos diante de uma futura escritora. Eu lhe dei a nota máxima, mas ela vai levar a redação para casa e concluir.
Professora Paciana (era esse o seu nome) era uma mulher de menos de um metro e meio, usava sempre preto, guardando o luto do marido. Era uma pessoa suave. Não colocava medo nas pessoas. O medo estava na cabeça de Maria. A professora morreu no final daquele ano. Não viveu para ver as primeiras reportagens de Maria e nem ficou sabendo que foi uma das incentivadoras na carreira que escolheu. Ser escritora foi um sonho que Maria nunca chegou a ter.