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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Encontro Secreto

Welcome footsteps, de Sir Lawrence Alma Tadema
Maria acorda muito cedo. Gestos lentos traduzem sua imensa falta de vontade para levantar. Encaminha-se para o banheiro. Antes coloca um CD com a 5ª Sinfonia de Beethoven. Espera que aquelas notas barulhentas e vibrantes consigam produzir-lhe uma reação interna, ainda que seja de irritação. O que ela não quer mais é continuar naquela apatia. A água fria do chuveiro faz com que a sua pele se retraia e Maria aproveita a sensação para se tocar inteira, despertar cada célula adormecida, reavivar cada sentido. Ela não quer esquecer que tem corpo, que tem sexo, que ainda é capaz de vibrar. Maria toma seu banho sem reprimir sentimentos ou pensamentos, mas sente-se confusa. Só então percebe que é sexta-feira e tem um encontro marcado.
Apronta-se com leveza, cabelos molhados, roupa indiana, larga, dessas que não marcam as formas, sem maquiagem, sandalinha rasteira de couro cru, relembrando o visual hippie que durante anos fez parte de sua vida. João é como ela gosta. Másculo, mas com suavidade no olhar, nas palavras, no jeito de tratá-la, nos sentimentos. É firme e terno.  Sem olhar para trás, Maria se lança ao novo dia, a se preparar internamente para esse encontro.
“E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis”.

(Drummond)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Conflito II


Anthony Van Dick
O conflito de João não se prendia apenas às questões do espírito, ele também lutava com suas convicções. O desejo de liberdade era incoerente com seus preconceitos. Sua alegria não era compatível com seu sofrimento interno. Sua autoestima era minada pelo seu sentimento de menos valia. Seu sucesso profissional se revestia de arrogância e vaidade. Mas João era um bom homem, apenas estava perdido em valores errados. Precisava ser sacudido. E quando há uma motivação interior a vida se encarrega de proporcionar as experiências para ajustar pensamento e comportamento, desejo e realidade. João não seria exceção. Apanhou, sofreu, mas aprendeu. Hoje ele rebola e é muito amado.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A hora de pecar

Aphrodite and Eros, Henri Camille Danger

A noite foi longa e fria.  Maria acorda com o corpo dolorido,  a  cabeça  como  se  estivesse  no vácuo,  o coração apertado.  Espreguiça com vontade e faz alongamento ainda na cama, para enfrentar mais um  dia sem graça, isolada em sua enorme sala, tendo por companhia apenas uma tela de computador. Tem lá suas vantagens: pode ler, ouvir música e escrever. Mas está dividida.Deixa para trás outros aspectos da vida que reclamam  sua  atenção.  Hoje,  especialmente hoje,  ela sabe  que precisa separar um tempo para si, para resolver essa questão interna da divisão. Lembra-se de quando tinha seus filhos pequenos e precisava deixá-los para ir à luta pela sobrevivência. Hora de retribuir o que a vida lhe presenteou.

Em meio à tempestade de areia no deserto, um pequeno oásis. Não saber o que acontece por dentro é andar na escuridão e passos indecisos nunca são capazes de levar ao ponto certo. Ainda assim, Maria se sente estranhamente feliz, com todo aperto no peito, com a voz saindo mais trêmula do que nunca, engasgando quando verdades profundas vem à tona. Encontra, depois de muito tempo, um João, enigmaticamente de olhar tristonho e sorriso risonho, que um dia esteve povoando os sonhos e fantasias de um mundo virtual. João é como a águia que hipnotiza a presa. João é como o rouxinol, seus gorjeios enchem o coração de Maria. João é como o santo, acende a fogueira do coração de Maria. Quer viver. Não quer trazer João para a realidade, não quer distribuí-lo na igualdade de seus dias. Nem tempo, nem espaço, nem qualquer preconceito, limitariam a doce Maria cansada de solidão. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Perdidamente erótica

William Adolphe Bouguereau (1825-1905) Psyche et L'Amour
Bem vinda manhã de sol, de luz, de cores, de sons de pássaros! A Natureza está em festa e acabo de ver um vôo nupcial bem em frente à minha janela. Acordei erótica? Quando o assunto é sexo, o julgamento das pessoas tende a se mascarar e a se esconder atrás de falsa moral, da hipocrisia. Há quem ache divertido, há quem ache chocante e há aqueles que são tão radicais, que o sexo simplesmente inexiste, ainda mais entre pássaros! Mais que qualquer outra geração, conhecemos o sexo como produto de consumo. Erotismo ou pornografia, gestos, nádegas, seios, homens e mulheres despidos servem para vender até amortecedor de carro. Mas problema mesmo é confundir pornografia com erotismo, instinto normal e natural em homens e animais.
Enquanto a pornografia explora o sexo, sempre com explicação cultural e econômica para os atos pervertidos, o erotismo é tão antigo quanto a história do homem. Ele se encontra no Gênesis, nos poemas de Davi, nos pensamentos de Salomão. Está no Rapto das Sabinas, na Guerra de Tróia, em Cleópatra e nos grandes casos de amor. Quem já teve a oportunidade de ler as cartas de Pedro I à Marquesa dos Santos, ou do Príncipe Charles à Camilla Parker sabe disso.
Não existe nada mais difícil que interpretar os fenômenos da vida humana, principalmente quando os pensamentos chocam-se entre si e dão margens a divagações filosóficas. O que é então uma literatura pornográfica? Certamente aquela que descreve situações eróticas, libidinosas, usando linguagem pornográfica ou chula. A literatura em seu sentido puro nunca é pornográfica. Quando não se tem intenção de ser pornográfico, não há pornografia. Ela está nos olhos de quem vê na intenção de quem cria. E não há porque se confundir literatura erótica com mau gosto. A literatura universal incorpora o erotismo e a voluptuosidade desde os tempos primitivos como uma indagação sobre o homem e seu destino, a vida terrena e o futuro. Eliminar a literatura que trata do problema do amor e do sexo faria com que a humanidade perdesse um de seus mais altos instrumentos de busca e resposta sobre sua própria natureza.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Idílio

Idylle, de Willian Bouguereau
Não era um bom dia para fazer a faxina, o calor estava insuportável, a vontade de voltar para a roça, e descansar em uma sombra para sentir o vento no rosto, ficava cada vez mais forte. Ainda assim Maria se levanta, respira fundo, e parte para mais um dia de trabalho. Enquanto jogava água na janela ela aproveitava para se refrescar nos respingos e organizar seus pensamentos. Bailam na lembrança cenas do campo, dos encontros furtivos com João, da alegria da juventude, da irresponsabilidade do amanhã. Tinha os olhos fechados e os movimentos da faxina acompanhavam o ritmo preguiçoso das lembrança. Era como se ele a olhasse. No limite do prazer e da posse, um homem olha para uma mulher como se meditasse sobre o princípio da vida. Queria tê-la em sua consciência sem importuná-la em seu sonho. Ela dormitava, passando lentamente a flanela sobre a mesa de vidro. Também ela, em toda sua simplicidade, precisava se acertar com o tempo. A interioridade sexual era tão intensa, os corpos tão ausentes, que a sensação de serem tocados parecia uma oferta divina duma imaginação profundamente amorosa. Havia muito mais vida no passado, ela sabia, mas precisava viver o presente. De repente, o celular toca e tira Maria de suas reflexões. João é apenas uma lembrança que se desvanece.