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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Reencontro com Maria


Imagem da internet

Retiro Espiritual em Lourdes e Nevers


Maria já está há dois dias na França, conhecendo as entranhas parisienses, e com a estranha sensação de que não deveria estar ali. Sua cabeça está fervilhando. Os sonhos que povoaram sua adolescência se realizavam, mas em contexto que ela jamais poderia imaginar. A vida de criança é lago azul e sereno, mas a de adulto é de fortes correntezas.  Não lhe é fácil ajustar o sonho à realidade, cujas essências são antagônicas. Havia muita expectativa para Paris e viajar a Lourdes e, em seguida, para Nevers foi sua salvação. Por ser um tipo de turismo religioso Maria pode ficar em silêncio, buscando em suas profundezas o equilíbrio que tanto precisava. Lourdes foi o encontro com suas dores, sufocadas nos últimos tempos, e rezar lhe fez muito bem. Maria reza muito, é rezadeira mesmo. Não toma um copo com água sem se lembrar da Poderosa Força do Universo e lhe pedir que purifique seu Ser.  Mas em Lourdes precisou se agarrar às repetições da Ave Maria e Pai Nosso para não se deixar arrastar pela dor.  Lembrei-me dos retiros espirituais que fazíamos no Ginásio Coração de Jesus. Eu não imaginava que ela tinha tanta dor guardada até que comecei a escrever este post, adiado por semanas. 

Em Nevers já havia apaziguado e ajustado seus sentimentos. Não sei se ver o corpo incorrupto fazia alguma diferença naquele momento, pois o que Maria buscava era mesmo se encontrar com outro tipo de fé, a mesma que havia deixado no tempo, junto com os sonhos de viver a França. Nos dois dias as lágrimas foram fartas. A missa em francês, completamente compreendida e sentida. Aproveitou para rezar e pedir por seus amigos e familiares enfermos, pela união da família, pela proteção divina de cada um que lhe pulava à memória. Em verdade, a religião também ajuda o homem a despertar para virtudes latentes. Lapidar-se e buscar a conduta adequada e intensamente prática. Foi mais fácil refazer os passos de Santa Bernadete dentro do convento. Acho que esse foi o caminho dos santos. Superar os obstáculos da caminhada. Encontrar portas fechadas faz parte de nosso cotidiano, abri-las, no entanto, é nosso dever. E se, tendo a chave, não a conseguimos abrir sozinhos, significa que precisamos de ajuda. Ajudar uns aos outros, não no sentido da caridade, é um dos pilares da fraternidade. Maria e eu estávamos novamente juntas e ficaríamos assim até o final da viagem. Eu precisava dela, meu alter ego, e ela de mim (seu contato com a realidade).


Freedom, de Jennie Smallenbroek
Para uma viagem animada, saudável, rica, também é necessário ter boa dose de humor, principalmente no que diz respeito a nós mesmos. Encarar as dificuldades com a certeza de que tudo passa, não apenas é a força que está por trás de toda atitude, mas é também a preparação para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que se compreende que o que traz felicidade é a caminhada, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escrevemos. A vida é um mistério e ganhamos mais tempo vivendo-a, que tentando entendê-la.  Esta é talvez a primeira lição que devemos aprender: o paradoxo com que teremos que lidar durante a caminhada. O intervalo foi inspirador para a viagem, como um oásis no deserto. O principal é manter o foco e não perder de vista nossa contribuição neste universo. Olhar para os lados só acrescenta alguma coisa quando focamos nos talentos das pessoas que nos cercam. Quando se aprende a olhar por ângulos virtuosos tem-se a humildade necessária para aprender com os outros.  Maria e eu tentávamos aprender com a história dos santos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Vida e consciência

Woman with a Burden, de Ron Cheek

Albert Camus usa o mito de Sísifo para explicar a condição humana e promover o que ficou conhecido como “A revolta metafísica”. Explicava Camus que a vida dos homens era tal como o mito de Sísifo: seguir uma rotina diária, sem sentido próprio, determinada por instâncias como a religião e o sistema capitalista de produção. No mundo administrado, levantamos de manhã, trabalhamos, comemos, reproduzimos etc., e tudo isso não faz o menor sentido, já que se refere a modos de pensar que se impõem ao indivíduo sem que ele participe da estruturação desse modo de vida, como se não tivéssemos escolhas.
Entretanto, a culpa de Sísifo foi pensar por conta própria. E sua condenação foi aquela que mais sofrimento pode trazer a um homem que pensa: a realização de um trabalho sem sentido. Por toda a eternidade deveria Sísifo empurrar uma grande pedra redonda até o cume de uma montanha. Ao completar seu trabalho, ele veria a pedra simplesmente rolar ladeira abaixo por força da gravidade. E então ele deveria trazê-la de volta…
O belo, na história de Sísifo, é que ele continua fazendo seu trabalho, e este é o seu objetivo. Ao subir a ladeira, ele se confunde com a própria pedra, comunga com ela o destino de ascender, de não estancar em lugar algum. Ao rolar a pedra, o herói executa sua arte. A descida não lhe interessa, não depende dele, é natural e inexorável.
Sísifo poderia livrar-se do castigo, mas para isso teria que tornar-se inconsciente, ou talvez morrer. Mas ele ama esses dois companheiros: a vida e a consciência. Então continua, mesmo sem considerar a possibilidade de deixar lá em cima a pedra.

A maldição de Sísifo é o que o transformou no verdadeiro herói, como todos somos.

Música: Jota Quest:
 " E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou
E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor... "

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Vozes do silêncio

Leonid Afremov


Ah! Esse clima gostoso - de chuva fina, de periquitos alvoroçados, de ruídos distantes, de silêncio de palavra - transporta Maria para seu mundo secreto, penetrável e habitado unicamente por ela. A eterna contradição de quanto mais dentro de si fica, mais se integra ao Universo e aprofunda sua sensação de pertencimento. Ali os habitantes são outros, as vozes lhe chegam sem som. Gilberto Gil já cantou: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que subir aos céus, tenho que calar a voz”. Em dias de sensibilidade aguçada, amplia-se a possibilidade de ser intensa, generosa, e a sensação de liberdade abre os horizontes. É permitido se sentir plena, feliz, em paz profunda!
Manhãs de chuva e vento frio, aumentam essa sensibilidade em Maria. Gosta da luz, da claridade que ilumina a caminhada interna. Nem sempre é na penumbra ou no isolamento que as reflexões ocorrem. Hoje, em especial, é na convivência íntima com a natureza que a cerca. Há apenas o ser vivente, enamorado das belezas proporcionadas por uma energia cósmica, inimaginável quando se segura o foco no mundo concreto. Tudo e nada se confundem. Impelida pela angústia Maria busca a solidão que lhe permita encontrar argumentos para sua existência.

Não foi fácil sentar para escrever. Trazer os pensamentos do nada para o vazio das letras. Sentir a pressão do tempo fatiado nos ponteiros do relógio. Olha-se no espelho. Quando amanhece num dia chuvoso, de estonteante claridade, está, de certa forma refletindo o que tem na alma. O dia favorece os voos platônicos, mas o espelho permite retê-los. Entre o ideal e a realidade fica o sentimento de que a solidão não é só dela, é humana. Harmonizada com a consciência universal, não está sozinha. Sem delírio ou fanatismo, Maria quer saber se você a acompanha, a não andar, a não falar, a não ter o que trocar a não ser o silêncio.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Justiça e Generosidade

Allegory Of Wisdom And Justice, de Hermann Kaulbach
Justiça e generosidade são dois conceitos que se confundem e se completam, mas só são compreendidos à luz da virtude. Justiça pressupõe um estado de equilíbrio, de imparcialidade, de neutralidade, de igualdade, enquanto a generosidade denuncia o desequilíbrio e pressupõe uma condição de partilha. Para Aristóteles, a justiça denota ao mesmo tempo legalidade e igualdade, e traz embutida o objetivo de manter a ordem social, preservando o direito de todos em sua forma legal. Assim, é justo quem cumpre a lei e também é justo aquele que dá ao outro aquilo que lhe é devido. É nesta última forma que a justiça se confunde com a generosidade e que se faz necessário entender o que é virtude. Para ser justo é necessário ser generoso, e para ser generoso é preciso ser justo.
Virtude não é uma característica da pessoa, mas uma inclinação que ela tem e que a orienta para a prática do bem. Muitos foram os filósofos a tratar de seu conceito, mas citei Aristóteles e fico com ele - embora pudesse me apoiar em qualquer outro que veio depois e ampliou esse conceito - que divide a virtude em intelectual e moral: intelectual é o resultado gerado da aprendizagem, da educação, da inteligência; virtude moral é o resultado do hábito, que nos torna capazes de praticar atos justos. Intelectual ou moral, ninguém nasce virtuoso. As virtudes são adquiridas pela repetição dos atos, que geram o costume e que, por sua vez, geram os atos. Estes não podem se desviar, nem por defeito, nem por excesso, pois a virtude está no equilíbrio, na justa medida.
A justiça também lida com conteúdos internos e quando se busca a igualdade está também lidando com a generosidade, mas tem a seu favor um conjunto de leis para aplicar, o que faz parecer mais fácil de ser praticada. A generosidade é mais fluida, passa pela moral (que sofre influência do tempo e do espaço) e também precisa ser equilibrada. Generosidade de menos é avareza, em excesso é extravagância. Generosidade tem que ser como remédio, aplicada na medida certa, porque a falta causa a morte e o excesso se transforma em veneno.
A vida nos proporciona vários enganos e ninguém está livre de embarcar em uma canoa furada ou errada, mas nem tudo é equivocado. A prática da virtude, da justiça, da generosidade, acaba atuando como escudo e nos protegendo de enganos. Todos somos afetados pelo que está à nossa volta e afetamos o outro com aquilo que somos. São essas certezas interiores que me guiaram a vida toda. Bato as portas da velhice sem os valores imprimidos pelo mundo, mas amparada pela dignidade e orgulho de ter vivido uma vida reta. O que não consegui, pelo menos tentei. Então, grosseiramente, posso concluir que a virtude completa, de modo excelente, a natureza de um ser.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um segredo

Detalhe de La Jeneusse de Baccus, de W. Bouguereau


Maria afirma não ter religião, vai em todas que for convidada e sempre com o mesmo respeito. Tem forte tendência a se ligar ao Criador, cuja percepção não fica atrelada às religiões, sem a necessidade de intermediários, nem santos, nem pastores, nem padres. Traz Deus em sua vida como uma experiência íntima, particular, intransferível e inenarrável. Um segredo. Nessa questão, Maria é total e completamente individual, o que não a impede de pensar de forma plural em todos os outros assuntos que envolvem a vida humana. Então, no jogo entre viver e ser há empate técnico.

Foi Maria que me trouxe a experiência de mãe como exemplo para entender algumas coisas do cotidiano que extrapolam a família. Desde pequenos, seres humanos são solicitados a aprender regras de convivência e quanto mais expostas a elas mais contatos têm com sentimentos de toda natureza: do amor ao ódio, da compreensão à intolerância, da solidariedade ao egoísmo, do radicalismo à maleabilidade, do autoritarismo à liberdade.

As diferenças de nossas individualidades não são computadas de forma isoladas, mas agrupadas de forma que se pode dizer que o coletivo é construído como o resultado da aprendizagem interna, coordenada com o fluxo externo. É aqui que, alertou-me Maria, que nossos filhos nos ensinam muito, tanto a respeito de nós mesmos, quanto de nossos adversários. Regra geral, irmãos brigam quando estão jogando, passam por cima das regras, roubam, criam estratégias, mas muitos apenas brincam, divertem-se durante o processo. A observação do comportamento infantil remete-nos ao ser adulto. As reações podem ser contidas, mas a natureza humana continua lá, à espreita, esperando o momento de se manifestar.

A humanidade, no entanto, já devia estar acostumada ao fato de o tempo alterar a lógica dos fatos. Não vivemos o mundo de verdade absoluta, mas de verdades relativas, suscetíveis às influências e limitações de tempo e espaço. É nítida a percepção de que estamos em um mundo em construção, aprendendo a viver e a conviver com as semelhanças e diferenças, evoluindo em nosso conhecimento intuitivo e científico. Mas apesar de tudo, de todos e de mim, o mundo gira. Obrigada Maria, por estar atenta.



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Ecos do Silêncio

Létoile perdue, de J.W. Bouguereau
Poucos imaginam minha luta para voltar à vida, para acreditar de novo na humanidade, na política. Poucos imaginam que passei meses sem que brotasse um sorriso espontâneo em meu rosto. Meses em que preferia ouvir “eu quero tchu” que deixar a alma se embebedar de sensibilidade na música das esferas. Poucos imaginam a dor que é perder a motivação e o desejo de escrever, quando isso parece ser a única coisa que se sabe fazer. Em meu lado sombrio habitava o desejo de reconhecimento, em conflito com meu lado luz, que achava isso uma bobagem muito grande. O melhor é que essa fase passou.

Feliz quem sabe dobrar os joelhos em oração e alçar dimensões superiores mesmo diante das dificuldades. Feliz quem consegue transformar a oração em canto de exaltação. Feliz daquele, cuja oração permite romper os muros da solidão, do medo, da fragmentação. Feliz o homem que compreende que não vai mudar o mundo, mas que poderá dar sua contribuição moldando a si próprio. Ninguém pode moldar o mundo à sua vontade, mas pode educar-se, disciplinar-se, gerar ações positivas. Este é o grande poder do indivíduo, enquanto apenas indivíduo. Trabalhar por um mundo melhor, implica trabalhar por um ser humano melhor, consciente, generoso, sem preconceitos e tolerante. 

Então, estou de volta à vida e à luta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A música e a literatura

A Arte e a Literatura, de Bouguereau
Diante dos contrastes que o mundo me apresenta, posso escolher como viver nele, como me adaptar às contradições humanas e se saber se tenho a serenidade necessária para não me deixar magoar, nem ser dominada pela vaidade, paixão, ou ganância. Deus me deu o dom da palavra escrita e esta é a única forma que tenho para quebrar a barreira do silêncio e deixar minha voz ecoar na imensidão do universo. Hoje tenho a convicção de que o que me move não é o poder da propaganda, mas a ética que norteia a prática e a estratégia para a realização de um objetivo comum. Minha ação é pensada no sentido do bem estar coletivo. Às vezes é preciso silenciar a palavra.

Rhapsody, de Leonid Afremov
Para silenciar vozes externas preciso sempre de uma boa música. Não entendo de música, sou desafinada, mas a música exerce em mim magia e poder de evocar lembranças, criar imagens e mexer com minhas entranhas. Quando o ritmo é vibrante me desafia a dançar, sacudir o corpo, acompanhar a percussão com os pés. E outras me trazem paz e serenidade. Então quando seleciono o que quero ouvir, de alguma forma, seleciono o que minha alma deseja sentir, ou melhor, adquiro o passaporte para viajar para fora e dentro do mundo. A música me tira do cotidiano e me transporta para uma aventura desconhecida, mas muito familiar, de descobrimento e encantamento interior. Importante também é constatar que além disso, a música me traz o reconhecimento das verdades alheias, da aceitação e tolerância das diversas linhas de pensamento. 



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tempo da delicadeza

Le Crepuscule, de Willian Bouguereau
Às vezes ele me falta, outras parece que ele corre, outras ainda parece que se estanca...não passa. Ah! Como gosto de falar do tempo. Da incoerência humana em sua incansável briga com o tempo.  Depois de ter a certeza que já vivi pelo menos 2/3 de minha vida (pode ser mais, mas vamos ser otimistas...) fico pensando no tempo e nos limites que ele nos impõe.

Neste aprendizado que não acaba, às vezes me pego tomada de saudade de outros tempos, de quando era jovem e o mundo era pequeno demais para abrigar meus sonhos e ideais. Deixo então que o pensamento corra solto, sem qualquer repressão. Sinto que preciso recorrer ao entusiasmo da juventude para não deixar morrer sonhos possíveis de serem realizados no final da vida madura e entrada para a velhice.

As escolhas que fiz, escreveram minha história e continuarão a escrever, talvez com mais serenidade, mais sabedoria, menos ansiedade, mas continua sendo minha história. Ainda estou aqui, agora, disponível para entender que tenho tempo para mudar. Os arroubos dão lugar à compreensão e a intolerância encontra aconchego na ternura. A vida adquire o peso da justa medida.  Nesta caminhada, sempre interior, identificando e analisando cada situação vivida, cada valor cultivado, cada batalha perdida, percebo que a esperança mora no futuro.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sei Que Vou Morrer

When I was Young, de Stephen Bauman

Sempre me lembro da frase do Betinho, irmão do Henfil, quando questionado sobre o que mudava diante de sua iminente morte; “Morrer todos nós vamos, a diferença é que EU SEI que vou morrer”. É assim mesmo, vivemos como se não fôssemos morrer um dia. Falar sobre a morte e o morrer é assunto tabu. Aparecem mil e uma mensagens de autoajuda, mas poucos se detém a refletir sobre a morte ou a se dar o trabalho de compreender como se sentem aquelas pessoas que tem sua morte anunciada.
Algumas vezes somos privilegiados com apenas um sinal. Acontece alguma coisa que nos coloca diante da morte e, infalivelmente, temos que lidar com ela. É o caso de quem tem câncer. Mesmo sabendo que não vai morrer ainda -  existe tratamento: todos os dias aumentam os casos de sucesso em que a sobrevida passa de 30, 40 anos;  já existe cura em alguns casos – , é sempre uma incógnita com a qual se terá que lidar.
Nos últimos três anos tenho pesquisado sobre isso. Minha vida mudou muito. Impossível traduzir tudo que senti, observei ou vivenciei. Mas melhorou. Viver sabendo que se vai morrer é um exercício de amor, de tolerância, de resignação, mas também é lutar por um mundo melhor... e eu estou viva!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O ser coletivo

Operários, de Tarsila do Amaral
Vivemos uma época que o conceito de políticas públicas assumiu o papel de protagonista na vida cotidiana. Protagonista e vilã, a política hoje se coloca, para muitos, como poder constituído oposto ao bem comum. Quando o assunto envolve recursos financeiros, o interesse individual parece entrar em ebulição e sobrepor-se ao interesse coletivo. Atualmente, o maior desafio é criar uma política de solidariedade humana geral. Os tempos modernos desencadeiam violências e criam a necessidade de o governo buscar alternativas novas de contato direto com o cidadão, da mesma forma que a sociedade organizada procura criar mecanismos de contato com as políticas estatais, no sentido de superar a maneira ortodoxa de fazer política. É dentro deste pensamento que o autoconhecimento faz toda a diferença e pode proporcionar uma discussão profunda e ampla sobre política que tem como princípio a condição cultural humana e coletiva.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Olhar crítico

A tecnologia digital trouxe uma explosão de informações e todo mundo, de um jeito ou de outro, acaba atingido por alguma de suas ferramentas. A mídia é ferramenta criada para facilitar a comunicação de massa, e tudo vai depender do uso que se faz, podendo mesmo se transformar em arma mortífera, quando se presta ao marketing  selvagem, às difamações, sem qualquer critério moral ou ético.  Bem utilizadas, essas ferramentas são eficazes para a propaganda e publicidade sem ferir seu público-alvo com boatos e mentiras.
La therapeute, de Renné Magritte
Neste fantástico universo humano, podemos observar que líderes políticos, dotados de entusiasmo, carismáticos, são alvos fáceis para uma oposição sem princípios. Para tentar entender esse processo é necessário levar em conta ideologias, contribuições da memória, conjunturas sociais e econômicas.

Esta geração cresceu num Brasil autoritário, e somente o tempo e o exercício da democracia poderão levar-nos a compreender que nossas escolhas são reflexos de nossa consciência, e o compromisso que assumimos ao escolher nossos representantes é o mesmo que assumimos com nossa existência.

Assim, alguns se identificam mais com o humanismo, outros com a democracia, outros ainda com o autoritarismo, com o socialismo e, lamentavelmente, há também os que se identificam com a arrogância, com a boçalidade imediatista, com a baderna desorientada.

O último trem

Last Train,  de Tony Pro
Há dias que as atividades do cotidiano não se desenvolvem normalmente e perdemos tempo acudindo detalhes e pequenos imprevistos. Nestas condições é comum perdermos o foco. Muitas vezes a solução está diante de nossos olhos e, no entanto, não conseguimos enxergá-la, porque os detalhes tomam a frente. O melhor então é parar e se reorganizar. Vale para a vida profissional, para os relacionamentos, para a educação de nossos filhos.
Administrar a própria vida é como dirigir um carro, ou pegar o último trem, não se pode dar espaço para a dúvida, e o melhor é começar se perguntando o que quer. Bastam duas opções, sim ou não, para que se defina uma escolha. É claro que se optarmos por não escolher seremos sempre vítimas das circunstâncias, e entre ser ativo e passivo a escolha é individual. Nem sempre acertaremos, mas também não erraremos sempre. Importante mesmo é ter consciência de que temos um papel ativo e não de meros espectadores da vida e, principalmente, que não desistimos dela.



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Na pele do outro

Le Gouter, de Willian Bouguereau
Quem pode me garantir o que é certo ou errado? Ou me dar um caderninho com as receitinhas de vida anotadas? Porque é tão fácil julgar os outros? A superficialidade e rapidez com que julgamos e condenamos o outro, não tem o mesmo critério de generosidade que temos conosco.  Julgamos a aparência, o fato isolado. Muito fácil criticar quem recebe cesta básica, quando se tem a barriga cheia. É fácil para o vencedor apontar os erros de quem fracassou. É fácil julgar sem conhecer a força das coisas que conduziram a ação, o sofrimento ou o desejo daquele que,  do nosso ponto de vista, errou. Cruéis ou indulgentes os julgamentos passam sempre pela subjetividade e nos impede de sermos imparciais.  Mas o mais interessante é que quando julgamos refletimos o que temos dentro e só ver defeitos é extremamente sintomático.
Lembro-me de um amigo juiz que analisava atentamente seus processos, escrevia suas decisões e guardava, para só voltar nela uns dias depois. Quase sempre ele alterava sua sentença.  Um julgamento emocionado carece de equilíbrio e interfere de tal forma em nossas ações,  que elas deixam de nos pertencer. Juízes entendem bem o peso de um julgamento. Sabem que ninguém hesitaria em condená-los à morte, se por acaso, movidos pela emoção, condenassem um criminoso.
Sou contra a redução da maioridade penal. Sou a favor da retirada de privilégios para quem tem curso superior. Educação, educação, educação. Escolas de tempo integral, Cefets, Universidades Federais, Brasil Sem Fronteiras.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Travessia II

The lady of shalott, de J. W.  Waterhouse
Muitas vezes a convivência com Maria é insuportável, mas se atentar para o senso de justiça e perceber que ela não atropela princípios como se fosse algo natural, a viagem fica mais animada. É possível olhar a vida por ângulos virtuosos e até encontrar humildade necessária para aprender com os outros. Maria é solitária, mas aprendeu a focar nos talentos das pessoas e por isso não consegue mais ter o radicalismo daqueles que são, acima de tudo, individualistas. Pode até parecer paradoxal uma pessoa ser tão só e ter um pensamento coletivo. É a vida que providencia suas experiências.

No encontro com a dor, ela percebe que sua riqueza está na boa dose de bom humor. Encara as dificuldades com a certeza de que tudo passa. Não é apenas a força que impulsiona suas atitudes, mas é também a preparação que se impõe para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que compreende que é a travessia que lhe traz felicidade, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escreve.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A travessia

Soledad, de Ricardo Fernandez Ortega
Desde que resolvera atravessar o grande rio, Maria experimenta estranhas sensações. Às vezes sente medo, mas não de chegar à outra margem e, sim,  da travessia. Outras vezes, enche-se de coragem por perceber que melhor que a chegada é o caminho que terá que percorrer.  Deixa-se, então, navegar nas águas profundas com a certeza que, mesmo à deriva por um tempo, chegará ao seu destino. Seria tão simples se tivesse uma bússola, mas ela tem apenas a si própria para se guiar,  e sua bússola é somente a percepção que tem de si mesma. Por isso se perde algumas vezes, mas sempre reencontra sua rota.

Na noite escura da alma a possibilidade de ser intensa e generosa se amplia, porque é do escuro que se visualiza a luz.  Ela gosta da luz, da claridade que permite ver a beleza e harmonia que existe no mundo, independente de guerras, tragédias, crises políticas, sociais ou econômicas. Ela não é omissa, mas precisa de momentos para ser apenas uma vivente enamorada das belezas cósmicas. Ela vai sim atravessar o grande rio, mas antes Maria se permite sentir-se plena, feliz, em paz profunda!

Conflito II


Anthony Van Dick
O conflito de João não se prendia apenas às questões do espírito, ele também lutava com suas convicções. O desejo de liberdade era incoerente com seus preconceitos. Sua alegria não era compatível com seu sofrimento interno. Sua autoestima era minada pelo seu sentimento de menos valia. Seu sucesso profissional se revestia de arrogância e vaidade. Mas João era um bom homem, apenas estava perdido em valores errados. Precisava ser sacudido. E quando há uma motivação interior a vida se encarrega de proporcionar as experiências para ajustar pensamento e comportamento, desejo e realidade. João não seria exceção. Apanhou, sofreu, mas aprendeu. Hoje ele rebola e é muito amado.

Conflito I

Conflito


Jeremy Lipking (1975)
Era uma vez um homem que assistia a luta entre Deus e o Demônio, como se fosse um diálogo entre o passado e o futuro. Ao confrontar seu imaginário, trazia à tona o sonho, a esperança, as expectativas, os projetos construídos em conjunto. Também trazia à tona o real: a traição, as mentiras, as mesquinharias, a dor da descoberta, a difamação. Ele não vai permitir que fantasmas voltem para o assombrar. Silêncio sepulcral.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ferida na alma

Monachof Love, de Rassouli
Tento evitar, quero esquecer, mas ainda não consegui, e hoje, foi a primeira coisa que me lembrei ao levantar. Há exatos três anos começava um processo transformador em minha vida, por fora e por dentro.  Retirava o primeiro quadrante de minha mama esquerda. Treze dias depois iriam as duas, inteiras. As marcas são tão profundas, que só mesmo quem passou ou passa pela experiência é capaz de aquilatar os sentimentos desencontrados que tomam conta da gente. Não é o medo da morte, mas a forma como morrer; a vida que se deixou de viver, adiada tantas vezes à espera de um tempo mais favorável. É a certeza de que a vida não termina ali, mas o futuro que se descortina é completamente desconhecido, impossível de ser planejado e os planos possíveis não poderão mais ser a longo prazo. 
Até hoje não consegui decifrar a raiva que senti de tudo e todos que amava. Bendito silêncio. Impediu que eu ferisse mais, pessoas tão queridas. Não existe perdão, não existe justificativa, apenas a pergunta: onde está quem sempre fui? Tempo em que não me reconhecia, embora o espelho refletisse quase a mesma imagem de sempre. Também não era a falta das mamas, elas foram reconstruídas e em seis meses o resultado era surpreendente.  Era alguma coisa mais profunda que ainda persiste e que me leva aos períodos silenciosos em busca de mim.

Desde então tenho percorrido meus labirintos, e se às vezes me sinto isolada do mundo, na maioria, tenho a íntima certeza que faço parte de algo maior, sinto as pessoas como parte de mim. Se às vezes sou rabugenta, intolerante, impaciente, na maioria, sou tomada de amor, compreensão, paciência. Chego até a ser permissiva. Sou mais coletiva que individual.  De tudo só consigo entender que o câncer pode ser extirpado do corpo, mas não sai da alma. Fica ali,
 como um guardião interno, um guia na defesa espiritual, no auxílio à comunhão com minha verdadeira natureza. É a companhia no imenso vazio, a convicção da necessidade de rupturas e desencontros para que a verdade possa emergir do silêncio.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sinfonia da solidão

Carl Vilhelm Holsoe (1863-1935)
A Lady Playing The Piano
Há dias ruidosos e dias musicais. Para silenciar o ruído preciso sempre de uma boa música. Começo então por selecionar as músicas que me farão companhia nesta experiência nada inédita de me buscar em meio ao caos interno. Algumas músicas me acalmam e me conduzem a um estado de serenidade. Outras, com ritmos mais vibrantes, me convidam a dançar, sacudir o corpo, acompanhar a percussão com os pés. Outras ainda evocam lembranças, criam imagens. Mas todas mexem com meu interior. Assim, a música cumpre sua função de me tirar do cotidiano e me transportar para uma aventura desconhecida, mas muito familiar, de descobrimento e encantamento interior. É... O caminho de volta para si mesmo é solitário e particular. Como a música, o que aqui escrevo é apenas minha experiência, que, compartilhada, pode acender o estopim de alguns, mas sem o compromisso de provocar uma grande explosão. A aventura está em descobrir a chave que abre algumas câmaras secretas.

O som do silêncio


Venus and the Sleeper, de Steven J Levin

Há dias barulhentos e há dias silenciosos. Dias em que as palavras morrem sufocadas no desejo de apenas observar. A visão crítica sobre o mundo e as pessoas desenham minha estrada para o silêncio: a má vontade em procurar algo novo, a sensação de já ter visto tudo, as reprises com personagens diferentes, o mundinho em que os indivíduos se fecham como donos da verdade... Estou parecendo ser dona da verdade, não é mesmo? É por isso que treinar o olhar me leva ao silêncio. São pequenas verdades e, no entanto, tão minhas, tão íntimas, que partilhá-las me parece incoerência. Vale para o que vivo, vale para o que sinto. Tagarelar sobre minha vida interior pode despertar dúvidas sobre minha sanidade mental. A vida vem e vai, pende para um lado, para outro, mas algumas experiências nos transformam para sempre. Está claro para mim que a maior batalha é travada comigo mesma, todos os dias. Nem ir além, nem ficar aquém do que é necessário para sobreviver e conviver.

Venus and the Sleeper, de Steven J Levin