segunda-feira, 4 de maio de 2015

Début em Bruxelas

Jacques Carabain (1834) Many Figures at an Auction on the Grande Place in Brussels - Oil On Canvas
Maria me observa atentamente enquanto me visto para o primeiro passeio oficial. Estou confusa ainda: fuso horário, a dor pela perda recente de meu pai, a alegria da concretização de sonho acalentado e abandonado nas curvas da vida... e o medo.
- Medo? Como assim? Porquê? De quê?,  indaga Maria.
- Simples. Medo do desconhecido. Medo de que as informações armazenadas ao longo de nossas experiências não sejam suficientes para fundamentar as surpresas que certamente virão.
Ainda assim me preparo com esmero para sair. Quero estar bonita. Os últimos meses me mostraram um reflexo no espelho de constante sofrimento, cabelos com raízes brancas, olhos inchados e sempre vermelhos.  Tudo bem. Eu sei que não é questão de geografia. Não basta sair para achar que nossos sentimentos mudarão como passe de mágica. Munida de mapa interior de acertos e erros, desejos e realizações enfrento as sonhadas férias. Fica visível para mim a dualidade que permeia as ações humanas. Há um lado subjetivo e abstrato que também escolhe e organiza as atividades, e outro, racional e concreto, que possibilita perceber a realidade. Não é preciso ser mágico ou ter poderes especiais, basta apenas manter a disciplina e ter a certeza de suas reais motivações, ganhos, perdas e riscos para formular bons objetivos, que valham a pena correr para alcançá-los.
- Escolha sem medo.  É assim que agem os vencedores, diz Maria.
Bruxelas é a primeira viagem no tempo. Na Grand Place, o clima medieval se torna áspero e hostil, presente com mais intensidade com o vento frio e a chuva fina. Há sensação de pertencimento, de ter conhecido aquilo e também certo desconforto. A sensação de desconforto se instala em meus olhos. O vento entra por trás das lentes e os fazem arder e lacrimejar. Aproveito então para deixar minhas lágrimas caírem enquanto olho e fotografo apenas com o olhar. Não consigo tirar a mão do bolso, mesmo com luvas, por causa do frio.  São muitos detalhes arquitetônicos. Uma parede vista de longe esconde mil detalhes quando vista de perto. É. Os medievais não conheciam a fotografia. Os artistas se encarregavam do olhar diferenciado.  E são tantas janelas. Tantas janelinhas nos tetos. Não pesquisei, mas deu para perceber que as edificações teriam datas diferentes e pelo menos três estilos ficaram claros: gótico, barroco e clássico. Pesquisa posterior mostrou mais um: o neogótico.
A caminhada pelas ruas e vielas próximas mostrou outro lado: bares e restaurantes frequentados, em sua maioria, por jovens.  Nítida demonstração de que a noite fria não era nenhum problema. Muitos turistas.  Esperava ouvir francês, mas ouvi muito o japonês, ou seria o coreano? E pasmem: português também, e do Brasil. Aliás, brasileiros foram companhia em quase todos os lugares que visitamos.
Passando por uma galeria tenho sessão solitária e nostálgica observando a vitrine de chapéus "retrô" e boinas como as que meu pai usava. Sinto saudades. Mas naquele cantinho eu volto a me encontrar. Pé na realidade para não deixar que o sonho e a fantasia me arrebatem. O frio convida a um chocolate quente, mas já está tudo fechado. Vamos tomar café no hotel mesmo. O chocolate belga só será degustado em Berlim, alguns dias depois.
Maria é mesmo companheirona. Não me abandonou um minuto sequer. Trocamos informações, impressões, mas, principalmente, ela esteve presente para me dar confiança. Sempre poderemos contar com as surpresas, com o imponderável, com situações completamente novas. Isso é fato. No entanto, o que nos segura nas situações imprevistas são princípios e valores que escolhemos para nossas vidas. São colunas de sustentação diante do desconhecido.  Bruxelas deixou sua marca como tempo passado dando suporte ao presente. Estava vista e registrada, possivelmente, como o début. Encantada, mas não deslumbrada! Sim, eu seria capaz de empreender os 30 dias sem me perder de mim e de minhas origens.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Das lições que aprendi

The Passage, de Maureen Hyde


Há momentos na vida que sentimos angústia por não compreendermos nossa condição humana e, ainda assim, ao mesmo tempo, atingimos estados de consciência em que tudo e nada se confundem e se completam. A angústia dá uma sensação de aperto no coração, desperta medos, sem que saibamos exatamente de quê. Momentos que o estudo disciplinado de si mesmo fornece ferramentas necessárias para enfrentarmos o sentimento de desamparo. Somos desafiados a ficar diante de nós mesmos e responder perguntas que sempre evitamos. É neste momento que o conteúdo interno faz a diferença e separa o mundo interior do exterior. Ficamos firmes como a rocha diante das tempestades e vicissitudes da vida. Não é uma questão de educação, cultura ou conhecimento científico, mas de nossa capacidade de interiorização, de administrar os conflitos, de mergulhar na dor e se entregar à vacuidade, ao sentido de inexistência.
Angustiar-se é existir. Quando percebemos que momentos de dor não nos representam, encontramos força suficiente para buscar os fundamentos de Ser. Falar de morte é falar de vida, de renovação, de transformação. No confronto com a morte, o tempo adquire novos significados e assume maior importância na orientação das atividades diárias. A compreensão de que esta vida é passageira, que nosso tempo para ser feliz é aqui e agora, deveria funcionar como um estado de alerta para todos nós. Quem vive sabendo que vai morrer, certamente aproveita melhor seu tempo e privilégio de partilhar sua existência


Deus, o Inefável

Lee Teter
Papai costumava se referir a Deus sempre como O Inefável, como beleza e perfeição tão grandes que se torna impossível descrever em palavras. As palavras sempre falham quando mais precisamos delas, por isso, ouso, dar mais um significado para a palavra inefável: é como me sinto agora. Não existem palavras para definir meu sentimento. Estou há horas dando voltas em torno de um único pensamento, sem conseguir mudar seu curso. São momentos de extrema solidão, sem ter a quem recorrer, a não ser aos próprios conteúdos internos. Tentar falar/escrever causa estranhamento: não falo uma língua comum. Não compreendo o que me dizem e nem me sinto compreendida. Silêncio.

A Travessia

Old man and the sea, de Vic Gomery


Gostaria de agradecer a cada um em particular, mas não tenho condições físicas nem emocionais para fazer isso. Tantos amigos, tantas palavras de conforto, de carinho, de amizade, de gente que há tempos não vemos, de gente que está sempre por perto, de gente que sempre nos surpreende. A atenção dos médicos que o atenderam , em especial Dr. Aloísio Ferreira e sua equipe do Hospital Jardim América, o corpo de enfermagem, duas das quais choraram junto comigo quando meu pai partiu. E foram tantas orações... todas acolhidas pelo nosso pai com o mesmo amor.

Eu nunca vi alguém partir com tanta coragem, consciência, lucidez e serenidade. Eu diria que o papai estava até um pouco eufórico, tão grande era sua fé. A todos que diziam que estariam em oração, ele frisava: "orem para que eu siga o caminho da Luz. A vida não é aqui... está do outro lado". E se foi na Luz... tornou-se estrela. Esbanjou, até o último minuto, sua inteligência singular e sabedoria. Riu, brincou, fez piada... e choramos juntos quando me fez prometer que não deixaria que ele fosse levado para a UTI, que queria ter uma morte natural, sem máquinas a lhe prolongar a morte. Foi tudo do jeito que ele quis, com a família e amigos mais próximos compartilhando seu final. 

A saudade já começa a apertar, antes mesmo que a ficha tenha caído por completo. A casa está vazia, silenciosa. Mamãe muito calada. Mas há paz nos envolvendo. A mesma serenidade que nosso pai demonstrou ao partir. Pequenas mostras que se nosso corpo está aqui e agora, nossa mente pode estar pesquisando outros labirintos, outros sentimentos, outras formas de existência, e a cada descoberta, por menor que seja, percebemos que a vida é um grande presente. O silêncio pode clarear lições. Em silêncio a vida pode encontrar seu sentido, a serenidade pode conhecer seu caminho, e o ser humano pode se render à sua imperfeição sem ser vítima de julgamento.

Poucas vezes paramos para pensar no privilégio que temos em compartilhar um mesmo período de nossa existência com familiares, amigos, autoridades, ou quem quer que seja. Vivemos uma fatia do tempo apenas e muitas vezes perdemos a melhor parte, gastando nosso tempo em satisfazer nosso ego. A preciosidade que é a vida passa despercebida nesse emaranhado que o mundo tece. É a morte que nos nivela, nos torna iguais em todos os sentidos: não há fortuna, cor de pele ou poderio capaz de evitar a morte. Vida e morte fazem parte de um processo único, tudo que nasce morre. Estrelas nascem e morrem. O homem não seria a exceção,

Imagino que todos nós convivemos bem com a morte. O que temos de maneira inexplicável é o medo de morrer. Há uma diferença sutil. A morte é inevitável e acabamos por aceita-la de forma tão legítima, que nem gostamos de pensar nela. Fica o medo de morrer, as dores que poderemos sentir, as humilhações a que poderemos ser submetidos quando não conseguimos mais cuidar do próprio corpo, o sofrimento que poderemos causar nas pessoas que deixamos aqui, a insegurança de habitar um espaço chamado saudade.

Estamos na vida para viver e a morte nos remete de forma direta e inquestionável ao fenômeno da vida. Papai entendeu bem isso, sem medo, foi nosso exemplo de vida e de morte.

Obrigada a todos!

A Árvore da Vida

Arbor Vitae, de Jen Toplak

Foi assim.
A menina saliente,
alegre, feliz,
irmanou-se ao tempo
e abraçou a realidade.
E o tempo transformou
Seus coloridos matizes.
Não mais sorridente,
Não mais menina,
Não corre ao vento.
Fincada ao chão,
Cria raízes.



Vida e consciência

Woman with a Burden, de Ron Cheek

Albert Camus usa o mito de Sísifo para explicar a condição humana e promover o que ficou conhecido como “A revolta metafísica”. Explicava Camus que a vida dos homens era tal como o mito de Sísifo: seguir uma rotina diária, sem sentido próprio, determinada por instâncias como a religião e o sistema capitalista de produção. No mundo administrado, levantamos de manhã, trabalhamos, comemos, reproduzimos etc., e tudo isso não faz o menor sentido, já que se refere a modos de pensar que se impõem ao indivíduo sem que ele participe da estruturação desse modo de vida, como se não tivéssemos escolhas.
Entretanto, a culpa de Sísifo foi pensar por conta própria. E sua condenação foi aquela que mais sofrimento pode trazer a um homem que pensa: a realização de um trabalho sem sentido. Por toda a eternidade deveria Sísifo empurrar uma grande pedra redonda até o cume de uma montanha. Ao completar seu trabalho, ele veria a pedra simplesmente rolar ladeira abaixo por força da gravidade. E então ele deveria trazê-la de volta…
O belo, na história de Sísifo, é que ele continua fazendo seu trabalho, e este é o seu objetivo. Ao subir a ladeira, ele se confunde com a própria pedra, comunga com ela o destino de ascender, de não estancar em lugar algum. Ao rolar a pedra, o herói executa sua arte. A descida não lhe interessa, não depende dele, é natural e inexorável.
Sísifo poderia livrar-se do castigo, mas para isso teria que tornar-se inconsciente, ou talvez morrer. Mas ele ama esses dois companheiros: a vida e a consciência. Então continua, mesmo sem considerar a possibilidade de deixar lá em cima a pedra.

A maldição de Sísifo é o que o transformou no verdadeiro herói, como todos somos.

Música: Jota Quest:
 " E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou
E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor... "

Bem-vindo!

Neste Natal festejamos a anunciação de nova criança na família. Precisava mesmo. Há muitos anos não ouvimos o barulho de crianças, que alegra, que entusiasma, que contagia. Seja bem-vindo Bebê. (Pai: Pedro Henrique Porto Capel; Mãe: Marcelli Pagliuco; Avô: Francisco Fernandes Capel Paco) e em sua homenagem o texto da bisa Alice Capel.

Imagem: Vittore Carpaccio (1450-1525)
Holy Family with Two Donors

                                                                     NATAL




Disse um filósofo – NATAL é um mistério...um evento para o coração!

Pensando bem, realmente, diferentes pessoas em diferentes regiões vivem o advento do NATAL , as mais variadas emoções - alegrias, amor, solidão, ternura, perdão, arrependimento, esperanças, recordações, promessas, e demais sentimentos.

Neste misto de emoções percebemos que há uma inevitável reflexão em cada um de nós. Afloram recordações de um edito romano em que José e Maria, numa árdua caminhada em busca da LUZ, procuram um lugar, apenas um lugar, onde pudessem repousar e relaxar até aguardar o sublime momento. O estábulo, somente um estábulo era o único abrigo disponível.

Foi aí que Maria deu a LUZ ao seu Filho primogênito, envolvendo-o em panos, relaxando o seu corpo cansado.
Imaginar esse cenário e seus personagens simbólicos, leva-nos a refletir sobre a nossa caminhada na vida em direção a uma nova aurora, uma nova LUZ.

Aos poucos vamos compreendendo que a nossa jornada, em busca de nós mesmos, é mais longa que a própria vida. É nesse mistério do NATAL que, a cada ano, nos envolvemos espiritualmente, reforçando nossos princípios, fortalecendo nossas convicções.


Esteja o Cristo presente em nossos corações em cada símbolo, em cada manifestação, dessa jornada natalina, para o advento nos traga a certeza de um ANO NOVO pleno em amor, saúde, prosperidade, harmonia interior, serenidade e muita paz.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Preciso de mudanças!

Springs, de Henri Houben
A mudança está no ar,  Maria não sabe o que a espera pela frente. Mais crescida e madura, reluta em abrir seu universo pessoal. Não há nada de novo sobre a Terra e o que Maria pode esperar é por experiências que lhe mostrem outros aspectos da vida que está aí, desde que o mundo é mundo. Está tudo aí. Ela só precisa ver, mas não sabe o quê. Há um certo cansaço em suas palavras, uma certa impaciência pela falta de surpresas. Seu coração está endurecido como uma pedra. Questiona tudo, Deus, trabalho, sentimentos, valores.

Bem, não sei qual é o rumo que Maria vai tomar, mas eu vou continuar contando histórias. Minhas Marias, personagens reais ou fictícias, sempre passam mesmo pela minha observação e compreensão. Neste sentido, o horizonte é de esperança.  Assim como Jeconias, rei de Judá, quando foi anistiado pelo rei da Babilônia, espero que Maria tire parte das suas roupas de prisioneira para tentar alçar novos voos.  Ela envelhece antes de mim. Vai sempre na frente em suas experiências e agora que é legalmente idosa mistura mais uma vez suas gavetinhas cartesianas em busca de novas combinações para uma velhice honrada. Todas as portas fechadas hão de se abrir. Caminha ainda ruborizada, mas com rosto alegre, enquanto eu, a seu lado, observo cada detalhe de sua transformação para traduzir em palavras. Nada fácil observar o essencial e traduzir a essência, mesmo com o olhar treinado para perscrutar almas humanas.  

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Vozes do silêncio

Leonid Afremov


Ah! Esse clima gostoso - de chuva fina, de periquitos alvoroçados, de ruídos distantes, de silêncio de palavra - transporta Maria para seu mundo secreto, penetrável e habitado unicamente por ela. A eterna contradição de quanto mais dentro de si fica, mais se integra ao Universo e aprofunda sua sensação de pertencimento. Ali os habitantes são outros, as vozes lhe chegam sem som. Gilberto Gil já cantou: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que subir aos céus, tenho que calar a voz”. Em dias de sensibilidade aguçada, amplia-se a possibilidade de ser intensa, generosa, e a sensação de liberdade abre os horizontes. É permitido se sentir plena, feliz, em paz profunda!
Manhãs de chuva e vento frio, aumentam essa sensibilidade em Maria. Gosta da luz, da claridade que ilumina a caminhada interna. Nem sempre é na penumbra ou no isolamento que as reflexões ocorrem. Hoje, em especial, é na convivência íntima com a natureza que a cerca. Há apenas o ser vivente, enamorado das belezas proporcionadas por uma energia cósmica, inimaginável quando se segura o foco no mundo concreto. Tudo e nada se confundem. Impelida pela angústia Maria busca a solidão que lhe permita encontrar argumentos para sua existência.

Não foi fácil sentar para escrever. Trazer os pensamentos do nada para o vazio das letras. Sentir a pressão do tempo fatiado nos ponteiros do relógio. Olha-se no espelho. Quando amanhece num dia chuvoso, de estonteante claridade, está, de certa forma refletindo o que tem na alma. O dia favorece os voos platônicos, mas o espelho permite retê-los. Entre o ideal e a realidade fica o sentimento de que a solidão não é só dela, é humana. Harmonizada com a consciência universal, não está sozinha. Sem delírio ou fanatismo, Maria quer saber se você a acompanha, a não andar, a não falar, a não ter o que trocar a não ser o silêncio.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Apenas moinhos de vento

Maria se emociona ao ver aquela paisagem pela primeira vez. Tudo lhe parece familiar, afinal passara parte de sua vida tendo a fantasia como ferramenta de trabalho e, naquele instante, o que lhe vem à mente é o mito quixotesco que permeou sua literatura. Lutou sim com enormes e cruéis gigantes que, ao final, se transformaram em moinhos de vento, só mesmo para lhe roubar a glória da vitória. E como Quixote, sua luta sempre foi solitária. Arremessou-se sozinha contra todos. Ganhou batalhas em números idênticos às que foi derrotada. Tornou-se mestra em oximoros, em aproximar sentimentos antagônicos, em rir da dor e chorar de alegria. Apostou suas fichas na vizinhança do impossível. Mas viu moinhos se transformarem em gigantes e era isso o que importava. 
Se a luta contra moinhos de ventos é o paradigma da luta inútil, Maria, finalmente, encontrava seu caminho e assumia sua fantasia. Qual era sua alucinação naquele momento? O medo de viver ou de morrer? Entendia profundamente a ficção e a realidade, mas a ela não importava a inutilidade, desde que a entendesse como necessária para seu desejo e, portanto, necessária para o mundo. De suas fantasias alicerçou a ponte para a realidade e pavimentou a realidade com fantasia. A vida lhe pareceu mais suportável. Naquele momento Maria não apenas realizava uma de suas inúmeras viagens imaginárias e fantásticas,  também pincelava de realidade o que um dia não passou de alucinação. 



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Assim mesmo eu costuro

La jeune ouvriere, de Willian Bouguereau
Enquanto remenda as roupas Maria se entrega a seus pensamentos. Seria tão bom se pudesse remendar também sua vida. Algumas costuras ficaram frouxas precisando de um nó mais apertado para que não se desfizessem com o passar do tempo. Velhas e rotas, seus andrajos colam em seu corpo,  seguem-na, perseguem-na, roubam-lhe a liberdade. No silêncio de seus pensamentos busca respostas, caminhos, soluções e a certeza de felicidade possível. Para reaprender a viver terá que romper velhos hábitos, renovar ideias, buscar esse fenômeno catalisador já que o corpo não se renova.
Mergulhada em seus pensamentos enquanto costura, cada nó antecede uma sequência de pontos, assim como as indagações que faz. As vivências, as observações, o estudo, forma seu pensamento, mas naquele momento, a vida real passa pela linha e pela agulha.  Costurar é isso.  Decifrar pensamentos e observações, expressar-se na delicadeza ou firmeza dos pontos, vivenciar o silêncio da atividade e também ouvir e identificar as milhares de vozes e a calar outras. Isso dá conteúdo ao seu trabalho. Nem carne quebrada, nem nervo rendido, apenas o ato de coser para estimular o pensamento.
Trilhar o mundo interior é uma experiência que exige equilíbrio, compreensão. Nem tudo é brilhante e muitas vezes Maria se vê obrigada a lidar com as sombras, com suas sombras. Busca a luz para passar a linha na agulha, busca a luz para encontrar a direção na vida, porque há caminhos que brilham mais, exercem maior fascínio e a tendência natural é que a de se deixar levar pelo que dá mais prazer, como na hora de escolher uma agulha grossa que não dará a perfeição no remendo, mas facilitará o processo. Maria é humana, simplesmente humana e é na convivência consigo mesmo que ela provoca perguntas que não encontram respostas, a menos que haja um firme propósito de disciplinar-se, de aprender com a própria imperfeição. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Paris no túnel do tempo



Evening Beauty, de Mark Spain


Olhando aquele cenário diferente, cheio de histórias e rico em detalhes arquitetônicos, Maria se vê, de repente, lembrando conteúdos que preencheram suas primeiras incursões na alma humana. Não vai se encontrar com Ernest Hemingway, Proust,  Cole Porter, Luis Bruñuel, ou Picasso, ou mesmo Sartre, mas espera por aquela sensação nostálgica que a inspire e a encoraje a escrever, mesmo em relação àquilo que não viveu.

Toda cidade tem suas peculiaridades humanas, aquelas que podem até ser integradas às paisagens, mas estão intrinsecamente ligadas ao comportamento humano. Algumas são típicas de determinadas personagens. Lembro-me, da minha infância, de Judith, que inaugurou o bundaço como protesto e rebeldia aos padrões da época. Mal imaginava ela que um dia isso seria moda. Mas em minha cidade de origem havia outras figuras diferentes, como as minhas xarás “Maria Taquara” e Maria Bobó. A primeira se vestia de homem, desafiava os padrões sociais.  A segunda, mais ingênua e mais coquete,  se enfeitava com laços coloridos de papel crepom para acompanhar as procissões. Aqui em Goiás uma dessas excêntricas personalidades virou boneca: Maria Grampinho, que assim como Mari Bobó gostava de se apresentar bonita e prendia seus cabelos rebeldes com inúmeros grampinhos.

Mas não são só as Marias, as cidades também têm Joãos e Pedros que se destacam por sua singularidade. Em meu setor, João não escapava da observação de minha avó e chegava a lhe arrancar sorrisos. João conta os passos, mas sempre se esquece no meio da contagem, então ele volta atrás – certamente de onde imagina que perdeu os números – e começa tudo de novo. Então, observar a caminhada de João é como assistir a uma dança diferente, não apenas pelo gingado que impõe ao seu corpo, mas pelos volteios, giros e “promenades”.


É. Maria foi buscar a Paris que inspira e encanta e isso é meio surreal, não se mede por números de passos dados, mas por uma contagem interna que certamente terá, muitas vezes, que ser retomada. Não há possibilidade real de se viver outra época, sem que esta se torne também uma prisão. E nas prisões, a criatividade se esgota. Talvez por isso Maria tenha buscado suas primeiras referências, para conhecer a Paris, que como ela, vive de suas histórias. Ao mesmo tempo, usa seu olhar e abertura de alma para deixar o novo entrar. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Coração em festa

James Shannon
Ainda é primavera no coração de Maria. As manhãs são sempre barulhentas. Gorgeios de pássaros e cigarras começam muito cedo. No ar o cheiro de flores toma conta do ambiente. A cidade se veste inteira de flamboyants e bougainvilles de coloridos vivos. Os canteiros das avenidas readquirem seu verde intenso e se enfeitam de sempre-vivas, margaridas, azaléias, campânulas, petúnias e flores típicas do cerrado. Um brinde aos olhos do caminhante desatento. Não é possível ignorar tanta beleza.

Naquela praça,  naquele ponto perdido em algum lugar do espaço, as diferenças não mais existem. Não existe velho, nem novo. Não existe feio ou bonito, não existe perto nem longe. Apenas o mar de sentimentos tão intensos e imenso quanto o tempo que os separou. Nesse instante mágico são apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito e celebrando a vida, o renascimento, o reencontro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Justiça e Generosidade

Allegory Of Wisdom And Justice, de Hermann Kaulbach
Justiça e generosidade são dois conceitos que se confundem e se completam, mas só são compreendidos à luz da virtude. Justiça pressupõe um estado de equilíbrio, de imparcialidade, de neutralidade, de igualdade, enquanto a generosidade denuncia o desequilíbrio e pressupõe uma condição de partilha. Para Aristóteles, a justiça denota ao mesmo tempo legalidade e igualdade, e traz embutida o objetivo de manter a ordem social, preservando o direito de todos em sua forma legal. Assim, é justo quem cumpre a lei e também é justo aquele que dá ao outro aquilo que lhe é devido. É nesta última forma que a justiça se confunde com a generosidade e que se faz necessário entender o que é virtude. Para ser justo é necessário ser generoso, e para ser generoso é preciso ser justo.
Virtude não é uma característica da pessoa, mas uma inclinação que ela tem e que a orienta para a prática do bem. Muitos foram os filósofos a tratar de seu conceito, mas citei Aristóteles e fico com ele - embora pudesse me apoiar em qualquer outro que veio depois e ampliou esse conceito - que divide a virtude em intelectual e moral: intelectual é o resultado gerado da aprendizagem, da educação, da inteligência; virtude moral é o resultado do hábito, que nos torna capazes de praticar atos justos. Intelectual ou moral, ninguém nasce virtuoso. As virtudes são adquiridas pela repetição dos atos, que geram o costume e que, por sua vez, geram os atos. Estes não podem se desviar, nem por defeito, nem por excesso, pois a virtude está no equilíbrio, na justa medida.
A justiça também lida com conteúdos internos e quando se busca a igualdade está também lidando com a generosidade, mas tem a seu favor um conjunto de leis para aplicar, o que faz parecer mais fácil de ser praticada. A generosidade é mais fluida, passa pela moral (que sofre influência do tempo e do espaço) e também precisa ser equilibrada. Generosidade de menos é avareza, em excesso é extravagância. Generosidade tem que ser como remédio, aplicada na medida certa, porque a falta causa a morte e o excesso se transforma em veneno.
A vida nos proporciona vários enganos e ninguém está livre de embarcar em uma canoa furada ou errada, mas nem tudo é equivocado. A prática da virtude, da justiça, da generosidade, acaba atuando como escudo e nos protegendo de enganos. Todos somos afetados pelo que está à nossa volta e afetamos o outro com aquilo que somos. São essas certezas interiores que me guiaram a vida toda. Bato as portas da velhice sem os valores imprimidos pelo mundo, mas amparada pela dignidade e orgulho de ter vivido uma vida reta. O que não consegui, pelo menos tentei. Então, grosseiramente, posso concluir que a virtude completa, de modo excelente, a natureza de um ser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Vida e Morte: irmãs siamesas

The Return, de René Magritte
As irmãs Vida e Morte são como irmãs siamesas, falar de uma é chamar a presença da outra.Aqui e agora é intervalo de tempo que existe entre o nascer e o morrer. É o que chamamos de vida. Ao nascer, o ser vivo traz em si a presença interior da morte. A natureza existe a partir de um processo cíclico, do nascimento e da morte, ou da morte para que haja renascimento. O fruto morre para dar lugar à semente, a semente morre para dar lugar a uma nova planta. Este processo também é nosso, da humanidade, somos parte da natureza, nos diferenciando apenas por nossa capacidade de raciocinar e questionar a nós mesmos. Valores, crenças, saberes, em tudo há um ciclo natural na evolução, nascer, progredir, existir, decair, renovar.
Nesse processo, a morte e os mistérios que envolvem seu significado ainda incomodam o homem. Sabemos que é uma experiência única, última, pessoal, intransferível e inevitável. .Ninguém escapa deste momento: ricos, pobres, bonitos, feios, desconhecidos, famosos, homossexuais, heterossexuais, brancos, negros, comunistas, capitalistas, jovens, idosos. Meditar/filosofar sobre a morte é, segundo Michel de Montaigne, aprender a morrer. Ele nos apresenta a morte como finalidade da vida, e a filosofia como o remédio que nos permite enfrentá-la com serenidade. Não sabemos onde a morte nos aguarda, portanto, podemos esperá-la em toda parte e a qualquer momento. E aprender a morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento, já que a vida nos parece rápida – como um relâmpago – e a morte, ao contrário, nos parece uma condição natural e perpétua. Assim, se algo ou alguém pode nos tirar a vida, nada pode nos tirar a morte.

Hoje, especialmente triste com a partida de um amigo, cavei na alma, e nas raízes de nossa infância, plantei saudade. 


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um segredo

Detalhe de La Jeneusse de Baccus, de W. Bouguereau


Maria afirma não ter religião, vai em todas que for convidada e sempre com o mesmo respeito. Tem forte tendência a se ligar ao Criador, cuja percepção não fica atrelada às religiões, sem a necessidade de intermediários, nem santos, nem pastores, nem padres. Traz Deus em sua vida como uma experiência íntima, particular, intransferível e inenarrável. Um segredo. Nessa questão, Maria é total e completamente individual, o que não a impede de pensar de forma plural em todos os outros assuntos que envolvem a vida humana. Então, no jogo entre viver e ser há empate técnico.

Foi Maria que me trouxe a experiência de mãe como exemplo para entender algumas coisas do cotidiano que extrapolam a família. Desde pequenos, seres humanos são solicitados a aprender regras de convivência e quanto mais expostas a elas mais contatos têm com sentimentos de toda natureza: do amor ao ódio, da compreensão à intolerância, da solidariedade ao egoísmo, do radicalismo à maleabilidade, do autoritarismo à liberdade.

As diferenças de nossas individualidades não são computadas de forma isoladas, mas agrupadas de forma que se pode dizer que o coletivo é construído como o resultado da aprendizagem interna, coordenada com o fluxo externo. É aqui que, alertou-me Maria, que nossos filhos nos ensinam muito, tanto a respeito de nós mesmos, quanto de nossos adversários. Regra geral, irmãos brigam quando estão jogando, passam por cima das regras, roubam, criam estratégias, mas muitos apenas brincam, divertem-se durante o processo. A observação do comportamento infantil remete-nos ao ser adulto. As reações podem ser contidas, mas a natureza humana continua lá, à espreita, esperando o momento de se manifestar.

A humanidade, no entanto, já devia estar acostumada ao fato de o tempo alterar a lógica dos fatos. Não vivemos o mundo de verdade absoluta, mas de verdades relativas, suscetíveis às influências e limitações de tempo e espaço. É nítida a percepção de que estamos em um mundo em construção, aprendendo a viver e a conviver com as semelhanças e diferenças, evoluindo em nosso conhecimento intuitivo e científico. Mas apesar de tudo, de todos e de mim, o mundo gira. Obrigada Maria, por estar atenta.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Campanha política e relações de amizade

La Discussion Politique, de Emile Friant
As redes sociais dão a falsa impressão de que temos amigos. Eu, por exemplo, lotei o perfil, abri um segundo, e percebi que realmente eu continuava muito só e que amigos virtuais não eram amigos, conhecidos não são amigos e amigos são relações que construímos ao longo do tempo. Por outro lado, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas virtualmente que depois se transformaram em amigos queridos na vida real e outros, que mesmo desconhecidos, passaram a fazer parte de minha vida. Reencontrei amigos que o tempo e a distância fizeram questão de afastar.

Em tempo de campanha política acirrada, com o Estado e o Brasil dividido em dois, novas experiências e reflexões. Quem me acompanha pelo facebook sabe que em nenhum momento alisei ou tentei justificar os mensaleiros do PT. Quando todo mundo falava que ia terminar em pizza, bati firme que o julgamento iria até o final e mais, que eles seriam condenados. Durante o julgamento todo mundo dizia que no final eles seriam inocentados. Julgados e condenados, não apareceu ninguém para assumir que errou, que tirou conclusões precipitadas, que apenas queria tumultuar o processo. Teve um do Paraná que, não contente em escrever porcarias na caixa de comentários, usou o in box para me ofender me chamando de “velha” (ele era 3 anos mais velho que eu), “mapa do inferno”, “bixo feio do satanás” e outras que não tenho coragem de postar aqui.

Então pergunto: isso é algo para se conservar? Mesmo em nome da democracia e liberdade de expressão? Decidi bloquear e ponto final. Até porque liberdade de expressão é um conceito que poucas pessoas entendem. É um direito constitucional, mas tem restrições, obedece a limites, obedece a um ordenamento jurídico. O ser humano é livre para escolher, mas se escolhe errado está sujeito a penalidades. Um princípio básico da convivência social entre pessoas civilizadas.
Aqui procurei, inicialmente, mostrar as realizações do governo Dilma.  Há muita difamação, informações erradas  e uma sistemática dos jornais de grande circulação de não divulgarem os benefícios do governo dela. Ora, se alguém é livre para escolher, que tenha, pelo menos, a informação correta. Não faltaram “amigos” a me destratar por isso. Os que pensam de forma contrária continuam aqui, mas os que vinham escrever palavrões e ofensas pessoais estão merecidamente bloqueados.  Aos poucos fui trocando chumbo. Não poupei borrachadas. E foi até interessante. 

Nos debates entre os candidatos observei que a Dilma se sente constrangida ao ouvir as frases desrespeitosas do seu adversário. Nunca retribui na mesma moeda, mesmo quando ataca. Ela não tem a mesma habilidade oratória do hominho e passa a impressão que “perde” a discussão.  O que está por trás de tudo isso é a verdade. A verdade tem vida própria, resiste às contradições, bate forte nas pessoas, mesmo que em algumas produza efeito de rejeição. Estamos diante de dois candidatos com histórias pessoais diferentes, com propostas de modelo de governo diferente. Enquanto uma lutava contra a ditadura, outro era um playboy mimado alheio ao que se passava no país.  Um é neoliberalista, outro é social democrata. O resto é tudo igual.

Alternância de poder é importante no processo democrático,  mas o Brasil vem de 500 anos de governos que só pensaram no econômico, que não perceberam que o mercado interno é importante e que foi a partir desse entendimento que o Brasil chegou à 7ª. economia do mundo.  Da crise mundial aqui só chegou MESMO uma marolinha. Mais 4 anos à Dilma é até uma questão de justiça. É dar a ela a oportunidade de concluir obras importantes no desenvolvimento do país, em especial às regiões que nunca receberam atenção do governo federal – aqui se incluem Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e não apenas o Norte e o Nordeste. 

A menos de uma semana das eleições, vou continuar mobilizada, mas desde já agradeço aqueles que de forma inteligente e polida contribuíram para o debate democrático em meu perfil. Gozo o privilégio de ter amigos leais, inteligentes, comprometidos, parceiros ou não, compartilhando os mesmos pensamentos ou de opiniões contrárias. Cresço com todos. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Complexo do Capitão do Mato



O artista alemão, Rugendas, viajando no Brasil em 1822-1825, retratou um capitão do mato montado a cavalo e puxando um cativo (também negro) com uma corda

Considero meu irmão uma das grandes inteligências que tenho o privilégio de conviver. Ele é lúcido, desapaixonado, racional, reservado, espirituoso, sem contar que foi abençoado com essa inteligência rara e especial capacidade de percepção e discernimento. E nestes tempos (difíceis) de eleição, costumamos conversar muito e ele sempre aclara os pontos duvidosos que tenho em relação às pesquisas que faço. Para chegar à conclusão que meu voto seria da Dilma, há uma pesquisa que antecede a campanha pessoal. Fico satisfeita quando minha conclusão bate com a dele.
Recentemente ele usou um termo que nunca tinha ouvido: Complexo de Capitão do Mato. Só então – a partir da observação dele -  fui pensar a respeito.  Negro, empregado público da última categoria, era encarregado de capturar os escravos fugitivos. Tinha que ser negro, porque, sendo um deles, conhecia os hábitos, pensamentos, estratégias e esconderijos dos escravos. Era um deles, mas tinha conseguido alçar um cargo e, para mantê-lo, não se importava de negar a própria raça, espezinhá-la e, principalmente, não deixá-la alçar ao seu “nobre” status.  Esse sentimento conseguiu atravessar gerações e ainda hoje estamos deparando com a figura do capitão do mato, disfarçada em outras funções e classes, pois também independe da cor atual da pele. (Como assim? Você já reparou naquele funcionário público que pega o cargo de chefia de sua divisão? Prestou bastante atenção na maneira como ele age? Como protege seu cargo? Com certeza, sofre do complexo de capitão do mato). 
Hoje o complexo de capitão do mato pode ser observado no sentimento corporativista, daqueles que batalham muito para chegar a um determinado status.  Quando conseguem ultrapassar a porta, a primeira coisa que fazem é fechá-la para os que vem depois. Afinal, ele ralou muito para chegar até ali. Enquanto quer chegar ele reclama, mas depois que chega, faz exatamente a mesma coisa. Advogados que passaram na OAB não concordam com a retirada do exame. Médicos que tiveram que estudar sete anos para poder trabalhar, não apoiarão jamais “a facilidade” do Mais Médicos. Jovens que estudam para passar no vestibular ou concursos sem cotas, jamais vão aprovar o sistema de cotas para negros e pobres.
Quando o assunto é pobreza então, o complexo de capitão do mato se manifesta como uma explosão de ódio. Agora qualquer um pode ter carro, qualquer um pode viajar de avião, para o exterior!! (olha só que absurdo. Perdeu toda a graça), qualquer um pode almoçar em restaurante, ir a shopping e até usar roupa de marca. Como se explica esse ódio aos nordestinos? Pior, de nordestinos aos nordestinos? De negros contra negros? Quem não se lembra dos comentários a respeito do Joaquim Barbosa assim que começou o julgamento do mensalão? E dos comentários já ao final do mensalão? Passou de protegido a herói, pelos que eram contra petistas, e de competente a arrogante pelos que eram petistas.  E não faltou quem afirmasse que ele fez o papel de capitão do mato ao condenar os mensaleiros ao dobro da pena de Carlinhos Cachoeira.
O tempo muda e a história se repete. O cargo de capitão do mato, para um escravo liberto, de acordo com o professor Nelson Rosa, "atendia às demandas simbólicas de distinção social numa sociedade escravista", mas o que de fato acontecia é que ele, apenas tinha a ilusão da dignidade de seu ofício e se sua suposta autoridade e prestígio de sua função o deixava acima dos escravos e dos pobres livres - mesmo estando mais próximo do senhor do que da escravaria, mesmo morando nas freguesias que atuavam, mesmo vivenciando o cotidiano de outras comunidades -,  nunca foi credencial para ser aceito pelos brancos e poderosos. Não tinha nenhum prestígio social, era inimigo dos negros, e não tinha o respeito dos brancos, mas achava que era superior.
Sempre foi a ralé, como hoje.

https://www.youtube.com/watch?v=albUp-4E1kU#t=48

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Ecos do Silêncio

Létoile perdue, de J.W. Bouguereau
Poucos imaginam minha luta para voltar à vida, para acreditar de novo na humanidade, na política. Poucos imaginam que passei meses sem que brotasse um sorriso espontâneo em meu rosto. Meses em que preferia ouvir “eu quero tchu” que deixar a alma se embebedar de sensibilidade na música das esferas. Poucos imaginam a dor que é perder a motivação e o desejo de escrever, quando isso parece ser a única coisa que se sabe fazer. Em meu lado sombrio habitava o desejo de reconhecimento, em conflito com meu lado luz, que achava isso uma bobagem muito grande. O melhor é que essa fase passou.

Feliz quem sabe dobrar os joelhos em oração e alçar dimensões superiores mesmo diante das dificuldades. Feliz quem consegue transformar a oração em canto de exaltação. Feliz daquele, cuja oração permite romper os muros da solidão, do medo, da fragmentação. Feliz o homem que compreende que não vai mudar o mundo, mas que poderá dar sua contribuição moldando a si próprio. Ninguém pode moldar o mundo à sua vontade, mas pode educar-se, disciplinar-se, gerar ações positivas. Este é o grande poder do indivíduo, enquanto apenas indivíduo. Trabalhar por um mundo melhor, implica trabalhar por um ser humano melhor, consciente, generoso, sem preconceitos e tolerante. 

Então, estou de volta à vida e à luta.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Pintando o cenário

Painting Studio, de Daniel Bilmes
Acredito que ao nascermos encontramos uma parte da vida já desenhada, o cenário, cujo traçado não dependeu de nós. A outra parte está em branco para que a gente possa preencher de acordo com o que somos. Nem sempre precisamos de grandes acontecimentos para sentirmos motivados para a vida, precisamos apenas compreender os pequenos acontecimentos. Em tempo de tirar máscaras, fico impaciente se me pedem para colocar uma. Nortear-me por princípios universais, valores próprios e códigos de ética individuais pode parecer extravagância, excentricidade ou que sou temperamental demais. Nada disso. Vivo mesmo é em um mundo mágico, reservado àqueles que se detém a olhar além do que está visível, um mundo impenetrável por mascarados. Será que pedir uma vida transparente, honesta, verdadeira é pedir muito?


Cada manhã um novo dia se perfila à nossa frente. Algumas coisas seguem o planejamento, outras nos fogem ao controle. Não se controla a vida, não temos poder de garantir o futuro. Podemos ser senhores de nosso destino, apenas no campo mental, que é onde acontecem as coisas do espírito. Parece que preciso de uma caixa de lápis de cor de pelo menos 48 matizes, para pintar as penas do anjo que mora dentro de mim. Não consigo ainda ter o cenário completo de minha vida, mas cada palavra que consigo extrair de mim é uma peça que entra em cena.