quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Complexo do Capitão do Mato



O artista alemão, Rugendas, viajando no Brasil em 1822-1825, retratou um capitão do mato montado a cavalo e puxando um cativo (também negro) com uma corda

Considero meu irmão uma das grandes inteligências que tenho o privilégio de conviver. Ele é lúcido, desapaixonado, racional, reservado, espirituoso, sem contar que foi abençoado com essa inteligência rara e especial capacidade de percepção e discernimento. E nestes tempos (difíceis) de eleição, costumamos conversar muito e ele sempre aclara os pontos duvidosos que tenho em relação às pesquisas que faço. Para chegar à conclusão que meu voto seria da Dilma, há uma pesquisa que antecede a campanha pessoal. Fico satisfeita quando minha conclusão bate com a dele.
Recentemente ele usou um termo que nunca tinha ouvido: Complexo de Capitão do Mato. Só então – a partir da observação dele -  fui pensar a respeito.  Negro, empregado público da última categoria, era encarregado de capturar os escravos fugitivos. Tinha que ser negro, porque, sendo um deles, conhecia os hábitos, pensamentos, estratégias e esconderijos dos escravos. Era um deles, mas tinha conseguido alçar um cargo e, para mantê-lo, não se importava de negar a própria raça, espezinhá-la e, principalmente, não deixá-la alçar ao seu “nobre” status.  Esse sentimento conseguiu atravessar gerações e ainda hoje estamos deparando com a figura do capitão do mato, disfarçada em outras funções e classes, pois também independe da cor atual da pele. (Como assim? Você já reparou naquele funcionário público que pega o cargo de chefia de sua divisão? Prestou bastante atenção na maneira como ele age? Como protege seu cargo? Com certeza, sofre do complexo de capitão do mato). 
Hoje o complexo de capitão do mato pode ser observado no sentimento corporativista, daqueles que batalham muito para chegar a um determinado status.  Quando conseguem ultrapassar a porta, a primeira coisa que fazem é fechá-la para os que vem depois. Afinal, ele ralou muito para chegar até ali. Enquanto quer chegar ele reclama, mas depois que chega, faz exatamente a mesma coisa. Advogados que passaram na OAB não concordam com a retirada do exame. Médicos que tiveram que estudar sete anos para poder trabalhar, não apoiarão jamais “a facilidade” do Mais Médicos. Jovens que estudam para passar no vestibular ou concursos sem cotas, jamais vão aprovar o sistema de cotas para negros e pobres.
Quando o assunto é pobreza então, o complexo de capitão do mato se manifesta como uma explosão de ódio. Agora qualquer um pode ter carro, qualquer um pode viajar de avião, para o exterior!! (olha só que absurdo. Perdeu toda a graça), qualquer um pode almoçar em restaurante, ir a shopping e até usar roupa de marca. Como se explica esse ódio aos nordestinos? Pior, de nordestinos aos nordestinos? De negros contra negros? Quem não se lembra dos comentários a respeito do Joaquim Barbosa assim que começou o julgamento do mensalão? E dos comentários já ao final do mensalão? Passou de protegido a herói, pelos que eram contra petistas, e de competente a arrogante pelos que eram petistas.  E não faltou quem afirmasse que ele fez o papel de capitão do mato ao condenar os mensaleiros ao dobro da pena de Carlinhos Cachoeira.
O tempo muda e a história se repete. O cargo de capitão do mato, para um escravo liberto, de acordo com o professor Nelson Rosa, "atendia às demandas simbólicas de distinção social numa sociedade escravista", mas o que de fato acontecia é que ele, apenas tinha a ilusão da dignidade de seu ofício e se sua suposta autoridade e prestígio de sua função o deixava acima dos escravos e dos pobres livres - mesmo estando mais próximo do senhor do que da escravaria, mesmo morando nas freguesias que atuavam, mesmo vivenciando o cotidiano de outras comunidades -,  nunca foi credencial para ser aceito pelos brancos e poderosos. Não tinha nenhum prestígio social, era inimigo dos negros, e não tinha o respeito dos brancos, mas achava que era superior.
Sempre foi a ralé, como hoje.

https://www.youtube.com/watch?v=albUp-4E1kU#t=48

2 comentários:

  1. Marley Costa Leite, artista das letras, arquiteta das frase, maestrina das ideias... Eu, encantado!

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