sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A música e a literatura

A Arte e a Literatura, de Bouguereau
Diante dos contrastes que o mundo me apresenta, posso escolher como viver nele, como me adaptar às contradições humanas e se saber se tenho a serenidade necessária para não me deixar magoar, nem ser dominada pela vaidade, paixão, ou ganância. Deus me deu o dom da palavra escrita e esta é a única forma que tenho para quebrar a barreira do silêncio e deixar minha voz ecoar na imensidão do universo. Hoje tenho a convicção de que o que me move não é o poder da propaganda, mas a ética que norteia a prática e a estratégia para a realização de um objetivo comum. Minha ação é pensada no sentido do bem estar coletivo. Às vezes é preciso silenciar a palavra.

Rhapsody, de Leonid Afremov
Para silenciar vozes externas preciso sempre de uma boa música. Não entendo de música, sou desafinada, mas a música exerce em mim magia e poder de evocar lembranças, criar imagens e mexer com minhas entranhas. Quando o ritmo é vibrante me desafia a dançar, sacudir o corpo, acompanhar a percussão com os pés. E outras me trazem paz e serenidade. Então quando seleciono o que quero ouvir, de alguma forma, seleciono o que minha alma deseja sentir, ou melhor, adquiro o passaporte para viajar para fora e dentro do mundo. A música me tira do cotidiano e me transporta para uma aventura desconhecida, mas muito familiar, de descobrimento e encantamento interior. Importante também é constatar que além disso, a música me traz o reconhecimento das verdades alheias, da aceitação e tolerância das diversas linhas de pensamento. 



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A crise do afeto

Douleur d'Amour, de Willian Bouguereau
O afeto anda em crise nas relações sociais e muitos são incapazes de manter vínculos sem se colocar na defensiva: têm medo da proximidade, da diversidade cultural, das diferenças de pensamento. A relação de afeto com as pessoas e a humanidade significa considerar todos os componentes deste complexo fenômeno que também se manifesta em sentimentos opostos, assim como a ira, o ciúme, a insegurança e a inveja.
O sentimento de amor pela humanidade é manifesto em ações. Muitos lançam mão do relativismo ético para justificar ações infames com raciocínios inteligentes. Chamam a dubiedade de dualidade e esta atitude é típica de religiões, governos totalitários e pessoas individualistas. É interessante observar que o estado evolutivo superior da afetividade não está ligado à inteligência ou à sensibilidade. Nem todas as pessoas sensíveis e/ou inteligentes são capazes de expressar o amor em sentimentos de empatia e solidariedade.
Experiências concretas de contato e ternura nos levam a conhecer um pouco mais de nós mesmos, de nossas emoções e de nossas resistências.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tempo da delicadeza

Le Crepuscule, de Willian Bouguereau
Às vezes ele me falta, outras parece que ele corre, outras ainda parece que se estanca...não passa. Ah! Como gosto de falar do tempo. Da incoerência humana em sua incansável briga com o tempo.  Depois de ter a certeza que já vivi pelo menos 2/3 de minha vida (pode ser mais, mas vamos ser otimistas...) fico pensando no tempo e nos limites que ele nos impõe.

Neste aprendizado que não acaba, às vezes me pego tomada de saudade de outros tempos, de quando era jovem e o mundo era pequeno demais para abrigar meus sonhos e ideais. Deixo então que o pensamento corra solto, sem qualquer repressão. Sinto que preciso recorrer ao entusiasmo da juventude para não deixar morrer sonhos possíveis de serem realizados no final da vida madura e entrada para a velhice.

As escolhas que fiz, escreveram minha história e continuarão a escrever, talvez com mais serenidade, mais sabedoria, menos ansiedade, mas continua sendo minha história. Ainda estou aqui, agora, disponível para entender que tenho tempo para mudar. Os arroubos dão lugar à compreensão e a intolerância encontra aconchego na ternura. A vida adquire o peso da justa medida.  Nesta caminhada, sempre interior, identificando e analisando cada situação vivida, cada valor cultivado, cada batalha perdida, percebo que a esperança mora no futuro.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sei Que Vou Morrer

When I was Young, de Stephen Bauman

Sempre me lembro da frase do Betinho, irmão do Henfil, quando questionado sobre o que mudava diante de sua iminente morte; “Morrer todos nós vamos, a diferença é que EU SEI que vou morrer”. É assim mesmo, vivemos como se não fôssemos morrer um dia. Falar sobre a morte e o morrer é assunto tabu. Aparecem mil e uma mensagens de autoajuda, mas poucos se detém a refletir sobre a morte ou a se dar o trabalho de compreender como se sentem aquelas pessoas que tem sua morte anunciada.
Algumas vezes somos privilegiados com apenas um sinal. Acontece alguma coisa que nos coloca diante da morte e, infalivelmente, temos que lidar com ela. É o caso de quem tem câncer. Mesmo sabendo que não vai morrer ainda -  existe tratamento: todos os dias aumentam os casos de sucesso em que a sobrevida passa de 30, 40 anos;  já existe cura em alguns casos – , é sempre uma incógnita com a qual se terá que lidar.
Nos últimos três anos tenho pesquisado sobre isso. Minha vida mudou muito. Impossível traduzir tudo que senti, observei ou vivenciei. Mas melhorou. Viver sabendo que se vai morrer é um exercício de amor, de tolerância, de resignação, mas também é lutar por um mundo melhor... e eu estou viva!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O ser coletivo

Operários, de Tarsila do Amaral
Vivemos uma época que o conceito de políticas públicas assumiu o papel de protagonista na vida cotidiana. Protagonista e vilã, a política hoje se coloca, para muitos, como poder constituído oposto ao bem comum. Quando o assunto envolve recursos financeiros, o interesse individual parece entrar em ebulição e sobrepor-se ao interesse coletivo. Atualmente, o maior desafio é criar uma política de solidariedade humana geral. Os tempos modernos desencadeiam violências e criam a necessidade de o governo buscar alternativas novas de contato direto com o cidadão, da mesma forma que a sociedade organizada procura criar mecanismos de contato com as políticas estatais, no sentido de superar a maneira ortodoxa de fazer política. É dentro deste pensamento que o autoconhecimento faz toda a diferença e pode proporcionar uma discussão profunda e ampla sobre política que tem como princípio a condição cultural humana e coletiva.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Olhar crítico

A tecnologia digital trouxe uma explosão de informações e todo mundo, de um jeito ou de outro, acaba atingido por alguma de suas ferramentas. A mídia é ferramenta criada para facilitar a comunicação de massa, e tudo vai depender do uso que se faz, podendo mesmo se transformar em arma mortífera, quando se presta ao marketing  selvagem, às difamações, sem qualquer critério moral ou ético.  Bem utilizadas, essas ferramentas são eficazes para a propaganda e publicidade sem ferir seu público-alvo com boatos e mentiras.
La therapeute, de Renné Magritte
Neste fantástico universo humano, podemos observar que líderes políticos, dotados de entusiasmo, carismáticos, são alvos fáceis para uma oposição sem princípios. Para tentar entender esse processo é necessário levar em conta ideologias, contribuições da memória, conjunturas sociais e econômicas.

Esta geração cresceu num Brasil autoritário, e somente o tempo e o exercício da democracia poderão levar-nos a compreender que nossas escolhas são reflexos de nossa consciência, e o compromisso que assumimos ao escolher nossos representantes é o mesmo que assumimos com nossa existência.

Assim, alguns se identificam mais com o humanismo, outros com a democracia, outros ainda com o autoritarismo, com o socialismo e, lamentavelmente, há também os que se identificam com a arrogância, com a boçalidade imediatista, com a baderna desorientada.

O último trem

Last Train,  de Tony Pro
Há dias que as atividades do cotidiano não se desenvolvem normalmente e perdemos tempo acudindo detalhes e pequenos imprevistos. Nestas condições é comum perdermos o foco. Muitas vezes a solução está diante de nossos olhos e, no entanto, não conseguimos enxergá-la, porque os detalhes tomam a frente. O melhor então é parar e se reorganizar. Vale para a vida profissional, para os relacionamentos, para a educação de nossos filhos.
Administrar a própria vida é como dirigir um carro, ou pegar o último trem, não se pode dar espaço para a dúvida, e o melhor é começar se perguntando o que quer. Bastam duas opções, sim ou não, para que se defina uma escolha. É claro que se optarmos por não escolher seremos sempre vítimas das circunstâncias, e entre ser ativo e passivo a escolha é individual. Nem sempre acertaremos, mas também não erraremos sempre. Importante mesmo é ter consciência de que temos um papel ativo e não de meros espectadores da vida e, principalmente, que não desistimos dela.



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Na pele do outro

Le Gouter, de Willian Bouguereau
Quem pode me garantir o que é certo ou errado? Ou me dar um caderninho com as receitinhas de vida anotadas? Porque é tão fácil julgar os outros? A superficialidade e rapidez com que julgamos e condenamos o outro, não tem o mesmo critério de generosidade que temos conosco.  Julgamos a aparência, o fato isolado. Muito fácil criticar quem recebe cesta básica, quando se tem a barriga cheia. É fácil para o vencedor apontar os erros de quem fracassou. É fácil julgar sem conhecer a força das coisas que conduziram a ação, o sofrimento ou o desejo daquele que,  do nosso ponto de vista, errou. Cruéis ou indulgentes os julgamentos passam sempre pela subjetividade e nos impede de sermos imparciais.  Mas o mais interessante é que quando julgamos refletimos o que temos dentro e só ver defeitos é extremamente sintomático.
Lembro-me de um amigo juiz que analisava atentamente seus processos, escrevia suas decisões e guardava, para só voltar nela uns dias depois. Quase sempre ele alterava sua sentença.  Um julgamento emocionado carece de equilíbrio e interfere de tal forma em nossas ações,  que elas deixam de nos pertencer. Juízes entendem bem o peso de um julgamento. Sabem que ninguém hesitaria em condená-los à morte, se por acaso, movidos pela emoção, condenassem um criminoso.
Sou contra a redução da maioridade penal. Sou a favor da retirada de privilégios para quem tem curso superior. Educação, educação, educação. Escolas de tempo integral, Cefets, Universidades Federais, Brasil Sem Fronteiras.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Educar para a Liberdade

Moravian Teachers Choir, de Alphonse Maria Mucha
Comecei minha vida “profissional” como educadora. Aos 12 anos já era alfabetizadora particular e ensinei muitas crianças de meu bairro a ler e escrever. Ganhava meu dinheirinho para ir ao cinema e tomar sorvete aos domingos. Pré-adolescência da qual me orgulho e cujos princípios ainda são vivos em mim. Já naquela época entendia que ensinar não podia ser do mesmo jeito para todos. Tive um aluno que eu o acompanhava em muro e árvores com o livro para dar minha aula. Outra, fazia tudo sentadinha em meu colo. E alguns nem precisavam de professora particular, como as indiazinhas queridas, lindas e inteligentes. Uma hoje é pedagoga, outra é professora do curso de História na UFMT e ativista indígena. Foi um prazer ensinar as primeiras palavras. 

Hoje sei – com convicção de quem não sabe de tudo – que a concepção de liberdade passa pelo processo de educação e educar significa formar homens conscientes de sua realidade, autônomos, atuantes e não apenas cheios de ciência. A compreensão profunda da arte de educar não desconhece que o homem é um ser em crescimento. Quando pensamos, investigamos, farejamos e concluímos, ficamos mais seguros de nossas convicções, e aí o único risco é nos tornarmos radicais, inflexíveis, daquele tipo de gente que quando é tolerante não consegue esconder o ar de satisfação pela sua superioridade.

Estou atenta e minha mente está aberta para avaliar outros pensamentos. E não há vergonha alguma se por acaso eu voltar atrás, reconhecer que fui parcial, desde que esteja ampliando meu raio de visão. O ser humano é complexo e não cabe a mim, nem a outro, qualquer julgamento. Menosprezo e desrespeito à opinião que é diferente da minha é um dos ingredientes que fazem a guerra. Eu sou de paz... só não estou morta!

Para entender o 4º Poder

Que a Globo não respeita jornalista, isso vem sendo mostrado há muito tempo nas novelas. Não importa o horário, todas têm um (a) jornalista picareta, mau caráter, desonesto (a), desrespeitoso (a) e outros adjetivos. Mas nessa última, Império, chamou-me a atenção a personagem de Paulo Betti: blogueiro, venenoso, temido, não é jornalista, mas é patrão de uma jornalista formada, portadora de diploma e igualmente mau caráter.

Recentemente assisti um diálogo da jornalista com a personagem da Lília Cabral. Hilário e deprimente...algo como "sua mãe não deve ter orgulho nenhum de seu diploma"... Mas o que quer e onde a Globo quer chegar denegrindo a imagens de jornalistas? Tudo bem, o Bonner, que deveria ser o exemplo de jornalismo - afinal é o primeiro da primeira emissora do país - vive tropeçando na ética e nas regras (muitas saídas da própria Globo) de condução de uma entrevista, e muitos jornalistas não podem mesmo expressar suas opiniões, porque dependem de seus empregos. Os que não podem escrever nos jornais ou falar nas emissoras, normalmente usam redes ou blogs e, na maioria das vezes, escondidos sob pseudônimos.

Então hoje, pesquisando, encontrei uma série de blogs - verdadeiramente jornalísticos - mostrando realizações do Governo Dilma, que não são mostradas na mídia convencional, com fotos e textos diretos. Daí a ficha caiu... É preciso desmoralizar também os bloqueiros... Uma pena! A mídia vem se configurando como poderosa ferramenta criadora de opiniões, saberes, normas, valores e subjetividades, utilizando-se de manobras estratégicas e manipuladoras. Essa mídia não dialoga, mas direciona a mensagem para o interlocutor, fazendo com que grande contingente de pessoas veja o mundo por suas lentes. Isso é o que se chama de 4º Poder!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Grande Caudal

Nayade, de Fantin-Latour
O corpo desidratado pedia água e Maria, mesmo sem consciência, sentia que mergulhava fundo. Os sons iam ficando para trás, apenas a sensação de liberdade que substituía o mal -estar anterior. A água lhe abraçava. As vezes sentia frio, outras ela lhe era morna, lhe acolhia. Era como se lhe pedisse para ficar. E Maria queria ficar. É como se mundos se mesclassem em unidade e as coisas do corpo e da alma ficassem mais claras, sem mistérios. É engraçado que naquelas águas acolhedoras, calmas, também se podia perceber a existência de correntezas. Não são correntezas fortes, mas são atraentes, têm luminosidades diferentes, como se a gente pudesse escolher ou simplesmente se deixar levar. Maria se entrega por alguns instantes e é como se abrissem portas internas e ela fosse envolvida por massagens e bálsamos que curavam suas feridas. Imagens e sons que prefere guardar em sua memória para não entregar às contradições humanas. É um estado de alma tão simples, que custa a acreditar que sempre esteve à sua disposição. Emergir é encontrar novos olhares.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Encontro Secreto

Welcome footsteps, de Sir Lawrence Alma Tadema
Maria acorda muito cedo. Gestos lentos traduzem sua imensa falta de vontade para levantar. Encaminha-se para o banheiro. Antes coloca um CD com a 5ª Sinfonia de Beethoven. Espera que aquelas notas barulhentas e vibrantes consigam produzir-lhe uma reação interna, ainda que seja de irritação. O que ela não quer mais é continuar naquela apatia. A água fria do chuveiro faz com que a sua pele se retraia e Maria aproveita a sensação para se tocar inteira, despertar cada célula adormecida, reavivar cada sentido. Ela não quer esquecer que tem corpo, que tem sexo, que ainda é capaz de vibrar. Maria toma seu banho sem reprimir sentimentos ou pensamentos, mas sente-se confusa. Só então percebe que é sexta-feira e tem um encontro marcado.
Apronta-se com leveza, cabelos molhados, roupa indiana, larga, dessas que não marcam as formas, sem maquiagem, sandalinha rasteira de couro cru, relembrando o visual hippie que durante anos fez parte de sua vida. João é como ela gosta. Másculo, mas com suavidade no olhar, nas palavras, no jeito de tratá-la, nos sentimentos. É firme e terno.  Sem olhar para trás, Maria se lança ao novo dia, a se preparar internamente para esse encontro.
“E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis”.

(Drummond)

Travessia II

The lady of shalott, de J. W.  Waterhouse
Muitas vezes a convivência com Maria é insuportável, mas se atentar para o senso de justiça e perceber que ela não atropela princípios como se fosse algo natural, a viagem fica mais animada. É possível olhar a vida por ângulos virtuosos e até encontrar humildade necessária para aprender com os outros. Maria é solitária, mas aprendeu a focar nos talentos das pessoas e por isso não consegue mais ter o radicalismo daqueles que são, acima de tudo, individualistas. Pode até parecer paradoxal uma pessoa ser tão só e ter um pensamento coletivo. É a vida que providencia suas experiências.

No encontro com a dor, ela percebe que sua riqueza está na boa dose de bom humor. Encara as dificuldades com a certeza de que tudo passa. Não é apenas a força que impulsiona suas atitudes, mas é também a preparação que se impõe para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que compreende que é a travessia que lhe traz felicidade, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escreve.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

No fundo do poço

Solidão, de Mitra Shadfar
Desde a visita à Isabel, Maria se sente incomodada, triste, preocupada. Até então tudo parecia claro, resolvido, até que ela se vê no fundo do poço. Está completamente só. Sem família, sem amigos, apenas os contatos holísticos e distantes. Não sabe dizer quando sua convicção virara paranoia. Havia se transformado em uma visionária das trevas. Na mesa de sacrifício era apenas uma criança de dois anos que se entregava a seu carrasco.
Fico pensando na hipocrisia que envolve alguns líderes, religioso ou político, incompatíveis na maneira de discursar e agir. Incoerência que faz levantar bandeira ambientalista, mas comer carne; ser militante sindical e manter a doméstica sem carteira assinada; pregar o Evangelho e discriminar o homossexual; defender a igualdade e tratar as pessoas de modo vertical – sentindo-se superior.  Valores que também traduzem preconceito.
Neste momento, ao avaliar os sentimentos de Maria, tudo que não quero é ser preconceituosa. O ser humano é naturalmente egoísta. Encontra argumento e justifica todas suas atitudes, desde que consiga se beneficiar de alguma forma. Entretanto, isso não quer dizer que ele não possa ser melhor.  Paz, liberdade, plenitude, felicidade, amor, são princípios considerados universais e fazem parte da vida do homem –  como cidadão, pessoa e profissional – que luta para mantê-los inabalados, mas a virtude é um atributo da alma. E quem não cultiva a virtude, termina escravizado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A travessia

Soledad, de Ricardo Fernandez Ortega
Desde que resolvera atravessar o grande rio, Maria experimenta estranhas sensações. Às vezes sente medo, mas não de chegar à outra margem e, sim,  da travessia. Outras vezes, enche-se de coragem por perceber que melhor que a chegada é o caminho que terá que percorrer.  Deixa-se, então, navegar nas águas profundas com a certeza que, mesmo à deriva por um tempo, chegará ao seu destino. Seria tão simples se tivesse uma bússola, mas ela tem apenas a si própria para se guiar,  e sua bússola é somente a percepção que tem de si mesma. Por isso se perde algumas vezes, mas sempre reencontra sua rota.

Na noite escura da alma a possibilidade de ser intensa e generosa se amplia, porque é do escuro que se visualiza a luz.  Ela gosta da luz, da claridade que permite ver a beleza e harmonia que existe no mundo, independente de guerras, tragédias, crises políticas, sociais ou econômicas. Ela não é omissa, mas precisa de momentos para ser apenas uma vivente enamorada das belezas cósmicas. Ela vai sim atravessar o grande rio, mas antes Maria se permite sentir-se plena, feliz, em paz profunda!

Conflito II


Anthony Van Dick
O conflito de João não se prendia apenas às questões do espírito, ele também lutava com suas convicções. O desejo de liberdade era incoerente com seus preconceitos. Sua alegria não era compatível com seu sofrimento interno. Sua autoestima era minada pelo seu sentimento de menos valia. Seu sucesso profissional se revestia de arrogância e vaidade. Mas João era um bom homem, apenas estava perdido em valores errados. Precisava ser sacudido. E quando há uma motivação interior a vida se encarrega de proporcionar as experiências para ajustar pensamento e comportamento, desejo e realidade. João não seria exceção. Apanhou, sofreu, mas aprendeu. Hoje ele rebola e é muito amado.

Conflito I

Conflito


Jeremy Lipking (1975)
Era uma vez um homem que assistia a luta entre Deus e o Demônio, como se fosse um diálogo entre o passado e o futuro. Ao confrontar seu imaginário, trazia à tona o sonho, a esperança, as expectativas, os projetos construídos em conjunto. Também trazia à tona o real: a traição, as mentiras, as mesquinharias, a dor da descoberta, a difamação. Ele não vai permitir que fantasmas voltem para o assombrar. Silêncio sepulcral.

Por enquanto!


São apenas palavras
Que me chegam aos olhos
Não conheço seu rosto
Não ouvi o som de sua voz
Nem senti seu cheiro
Não há nenhum critério
Apenas a vida por ela mesma
E a imaginação livre
Para sonhar, criar e viajar
No tempo e no espaço
Conhecer seu mistério
Nesse silêncio surdo
Não há palavras que quero ouvir
Sem armadura e sem escudo
Não há paradoxo de lutas
Só ternura e meiguice
Só aqui e agora
Um toque diferente
Que, enfim, o revele
Alguém que é
Sem nunca ter sido

Carta de amor

Carta de amor

The Letter, de Albert Lynch (1851-1912)

Ela já perdeu a conta de quantas cartas de amor escreveu. Assim como perdeu o número de vezes que se apaixonou. Paixão é assim mesmo. Uma labareda momentânea que queima, arde, dói, faz chorar, mas sara ao virar a esquina.


Meu querido diário!


Arrested Motion, de Matthew Grabelsky


Hoje tive vontade de escrever de mim para mim. De buscar no próprio âmago explicações para esta existência. Queria analisar crescimento, jeito de escrever, amadurecimento de ideias. Não sei se a vida é um circo de horrores, mas os ciclos são visíveis. Dias marcados por altos e baixos, dias de entusiasmo e euforia, dias de amargura e depressão, dias de trabalho intenso e de preguiça. Sobrevivo. A despeito de estar melhor comigo, estar entusiasmada com os novos desafios que enfrento a cada dia, o lado fantasioso entra em colapso absoluto. Tenho tido pouca vontade de escrever. Muitas vezes chego a redigir mentalmente um conto inteiro, mas ao sentar-me diante do computador é como se passasse uma borracha em meu cérebro. Sinto-me vazia. Feliz e vazia.
Os grandes romances, os melhores poemas parecem mesmo se nutrir da tragédia, dos desencontros, da infelicidade. E quando consigo vencer essa barreira, acredito estar apta a escrever, surpreendo-me completamente muda. É a felicidade (ou seria a ausência de infelicidade?) que me bloqueia? Ou seria a sensação de me sentir espectadora da vida, quando nada mais é novidade? Quando o ser humano perdeu, para mim, o gosto da descoberta? Pior que a ilusão que nutre minha pobre literatura, é a apatia. É me ver frente a frente com a repetição dos ciclos. É não ter criatividade suficiente para me superar a cada vez que no jogo da vida dá a lógica.