segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Para entender o 4º Poder

Que a Globo não respeita jornalista, isso vem sendo mostrado há muito tempo nas novelas. Não importa o horário, todas têm um (a) jornalista picareta, mau caráter, desonesto (a), desrespeitoso (a) e outros adjetivos. Mas nessa última, Império, chamou-me a atenção a personagem de Paulo Betti: blogueiro, venenoso, temido, não é jornalista, mas é patrão de uma jornalista formada, portadora de diploma e igualmente mau caráter.

Recentemente assisti um diálogo da jornalista com a personagem da Lília Cabral. Hilário e deprimente...algo como "sua mãe não deve ter orgulho nenhum de seu diploma"... Mas o que quer e onde a Globo quer chegar denegrindo a imagens de jornalistas? Tudo bem, o Bonner, que deveria ser o exemplo de jornalismo - afinal é o primeiro da primeira emissora do país - vive tropeçando na ética e nas regras (muitas saídas da própria Globo) de condução de uma entrevista, e muitos jornalistas não podem mesmo expressar suas opiniões, porque dependem de seus empregos. Os que não podem escrever nos jornais ou falar nas emissoras, normalmente usam redes ou blogs e, na maioria das vezes, escondidos sob pseudônimos.

Então hoje, pesquisando, encontrei uma série de blogs - verdadeiramente jornalísticos - mostrando realizações do Governo Dilma, que não são mostradas na mídia convencional, com fotos e textos diretos. Daí a ficha caiu... É preciso desmoralizar também os bloqueiros... Uma pena! A mídia vem se configurando como poderosa ferramenta criadora de opiniões, saberes, normas, valores e subjetividades, utilizando-se de manobras estratégicas e manipuladoras. Essa mídia não dialoga, mas direciona a mensagem para o interlocutor, fazendo com que grande contingente de pessoas veja o mundo por suas lentes. Isso é o que se chama de 4º Poder!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Grande Caudal

Nayade, de Fantin-Latour
O corpo desidratado pedia água e Maria, mesmo sem consciência, sentia que mergulhava fundo. Os sons iam ficando para trás, apenas a sensação de liberdade que substituía o mal -estar anterior. A água lhe abraçava. As vezes sentia frio, outras ela lhe era morna, lhe acolhia. Era como se lhe pedisse para ficar. E Maria queria ficar. É como se mundos se mesclassem em unidade e as coisas do corpo e da alma ficassem mais claras, sem mistérios. É engraçado que naquelas águas acolhedoras, calmas, também se podia perceber a existência de correntezas. Não são correntezas fortes, mas são atraentes, têm luminosidades diferentes, como se a gente pudesse escolher ou simplesmente se deixar levar. Maria se entrega por alguns instantes e é como se abrissem portas internas e ela fosse envolvida por massagens e bálsamos que curavam suas feridas. Imagens e sons que prefere guardar em sua memória para não entregar às contradições humanas. É um estado de alma tão simples, que custa a acreditar que sempre esteve à sua disposição. Emergir é encontrar novos olhares.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Encontro Secreto

Welcome footsteps, de Sir Lawrence Alma Tadema
Maria acorda muito cedo. Gestos lentos traduzem sua imensa falta de vontade para levantar. Encaminha-se para o banheiro. Antes coloca um CD com a 5ª Sinfonia de Beethoven. Espera que aquelas notas barulhentas e vibrantes consigam produzir-lhe uma reação interna, ainda que seja de irritação. O que ela não quer mais é continuar naquela apatia. A água fria do chuveiro faz com que a sua pele se retraia e Maria aproveita a sensação para se tocar inteira, despertar cada célula adormecida, reavivar cada sentido. Ela não quer esquecer que tem corpo, que tem sexo, que ainda é capaz de vibrar. Maria toma seu banho sem reprimir sentimentos ou pensamentos, mas sente-se confusa. Só então percebe que é sexta-feira e tem um encontro marcado.
Apronta-se com leveza, cabelos molhados, roupa indiana, larga, dessas que não marcam as formas, sem maquiagem, sandalinha rasteira de couro cru, relembrando o visual hippie que durante anos fez parte de sua vida. João é como ela gosta. Másculo, mas com suavidade no olhar, nas palavras, no jeito de tratá-la, nos sentimentos. É firme e terno.  Sem olhar para trás, Maria se lança ao novo dia, a se preparar internamente para esse encontro.
“E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis”.

(Drummond)

Travessia II

The lady of shalott, de J. W.  Waterhouse
Muitas vezes a convivência com Maria é insuportável, mas se atentar para o senso de justiça e perceber que ela não atropela princípios como se fosse algo natural, a viagem fica mais animada. É possível olhar a vida por ângulos virtuosos e até encontrar humildade necessária para aprender com os outros. Maria é solitária, mas aprendeu a focar nos talentos das pessoas e por isso não consegue mais ter o radicalismo daqueles que são, acima de tudo, individualistas. Pode até parecer paradoxal uma pessoa ser tão só e ter um pensamento coletivo. É a vida que providencia suas experiências.

No encontro com a dor, ela percebe que sua riqueza está na boa dose de bom humor. Encara as dificuldades com a certeza de que tudo passa. Não é apenas a força que impulsiona suas atitudes, mas é também a preparação que se impõe para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que compreende que é a travessia que lhe traz felicidade, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escreve.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

No fundo do poço

Solidão, de Mitra Shadfar
Desde a visita à Isabel, Maria se sente incomodada, triste, preocupada. Até então tudo parecia claro, resolvido, até que ela se vê no fundo do poço. Está completamente só. Sem família, sem amigos, apenas os contatos holísticos e distantes. Não sabe dizer quando sua convicção virara paranoia. Havia se transformado em uma visionária das trevas. Na mesa de sacrifício era apenas uma criança de dois anos que se entregava a seu carrasco.
Fico pensando na hipocrisia que envolve alguns líderes, religioso ou político, incompatíveis na maneira de discursar e agir. Incoerência que faz levantar bandeira ambientalista, mas comer carne; ser militante sindical e manter a doméstica sem carteira assinada; pregar o Evangelho e discriminar o homossexual; defender a igualdade e tratar as pessoas de modo vertical – sentindo-se superior.  Valores que também traduzem preconceito.
Neste momento, ao avaliar os sentimentos de Maria, tudo que não quero é ser preconceituosa. O ser humano é naturalmente egoísta. Encontra argumento e justifica todas suas atitudes, desde que consiga se beneficiar de alguma forma. Entretanto, isso não quer dizer que ele não possa ser melhor.  Paz, liberdade, plenitude, felicidade, amor, são princípios considerados universais e fazem parte da vida do homem –  como cidadão, pessoa e profissional – que luta para mantê-los inabalados, mas a virtude é um atributo da alma. E quem não cultiva a virtude, termina escravizado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A travessia

Soledad, de Ricardo Fernandez Ortega
Desde que resolvera atravessar o grande rio, Maria experimenta estranhas sensações. Às vezes sente medo, mas não de chegar à outra margem e, sim,  da travessia. Outras vezes, enche-se de coragem por perceber que melhor que a chegada é o caminho que terá que percorrer.  Deixa-se, então, navegar nas águas profundas com a certeza que, mesmo à deriva por um tempo, chegará ao seu destino. Seria tão simples se tivesse uma bússola, mas ela tem apenas a si própria para se guiar,  e sua bússola é somente a percepção que tem de si mesma. Por isso se perde algumas vezes, mas sempre reencontra sua rota.

Na noite escura da alma a possibilidade de ser intensa e generosa se amplia, porque é do escuro que se visualiza a luz.  Ela gosta da luz, da claridade que permite ver a beleza e harmonia que existe no mundo, independente de guerras, tragédias, crises políticas, sociais ou econômicas. Ela não é omissa, mas precisa de momentos para ser apenas uma vivente enamorada das belezas cósmicas. Ela vai sim atravessar o grande rio, mas antes Maria se permite sentir-se plena, feliz, em paz profunda!

Conflito II


Anthony Van Dick
O conflito de João não se prendia apenas às questões do espírito, ele também lutava com suas convicções. O desejo de liberdade era incoerente com seus preconceitos. Sua alegria não era compatível com seu sofrimento interno. Sua autoestima era minada pelo seu sentimento de menos valia. Seu sucesso profissional se revestia de arrogância e vaidade. Mas João era um bom homem, apenas estava perdido em valores errados. Precisava ser sacudido. E quando há uma motivação interior a vida se encarrega de proporcionar as experiências para ajustar pensamento e comportamento, desejo e realidade. João não seria exceção. Apanhou, sofreu, mas aprendeu. Hoje ele rebola e é muito amado.

Conflito I

Conflito


Jeremy Lipking (1975)
Era uma vez um homem que assistia a luta entre Deus e o Demônio, como se fosse um diálogo entre o passado e o futuro. Ao confrontar seu imaginário, trazia à tona o sonho, a esperança, as expectativas, os projetos construídos em conjunto. Também trazia à tona o real: a traição, as mentiras, as mesquinharias, a dor da descoberta, a difamação. Ele não vai permitir que fantasmas voltem para o assombrar. Silêncio sepulcral.

Por enquanto!


São apenas palavras
Que me chegam aos olhos
Não conheço seu rosto
Não ouvi o som de sua voz
Nem senti seu cheiro
Não há nenhum critério
Apenas a vida por ela mesma
E a imaginação livre
Para sonhar, criar e viajar
No tempo e no espaço
Conhecer seu mistério
Nesse silêncio surdo
Não há palavras que quero ouvir
Sem armadura e sem escudo
Não há paradoxo de lutas
Só ternura e meiguice
Só aqui e agora
Um toque diferente
Que, enfim, o revele
Alguém que é
Sem nunca ter sido

Carta de amor

Carta de amor

The Letter, de Albert Lynch (1851-1912)

Ela já perdeu a conta de quantas cartas de amor escreveu. Assim como perdeu o número de vezes que se apaixonou. Paixão é assim mesmo. Uma labareda momentânea que queima, arde, dói, faz chorar, mas sara ao virar a esquina.


Meu querido diário!


Arrested Motion, de Matthew Grabelsky


Hoje tive vontade de escrever de mim para mim. De buscar no próprio âmago explicações para esta existência. Queria analisar crescimento, jeito de escrever, amadurecimento de ideias. Não sei se a vida é um circo de horrores, mas os ciclos são visíveis. Dias marcados por altos e baixos, dias de entusiasmo e euforia, dias de amargura e depressão, dias de trabalho intenso e de preguiça. Sobrevivo. A despeito de estar melhor comigo, estar entusiasmada com os novos desafios que enfrento a cada dia, o lado fantasioso entra em colapso absoluto. Tenho tido pouca vontade de escrever. Muitas vezes chego a redigir mentalmente um conto inteiro, mas ao sentar-me diante do computador é como se passasse uma borracha em meu cérebro. Sinto-me vazia. Feliz e vazia.
Os grandes romances, os melhores poemas parecem mesmo se nutrir da tragédia, dos desencontros, da infelicidade. E quando consigo vencer essa barreira, acredito estar apta a escrever, surpreendo-me completamente muda. É a felicidade (ou seria a ausência de infelicidade?) que me bloqueia? Ou seria a sensação de me sentir espectadora da vida, quando nada mais é novidade? Quando o ser humano perdeu, para mim, o gosto da descoberta? Pior que a ilusão que nutre minha pobre literatura, é a apatia. É me ver frente a frente com a repetição dos ciclos. É não ter criatividade suficiente para me superar a cada vez que no jogo da vida dá a lógica.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ferida na alma

Monachof Love, de Rassouli
Tento evitar, quero esquecer, mas ainda não consegui, e hoje, foi a primeira coisa que me lembrei ao levantar. Há exatos três anos começava um processo transformador em minha vida, por fora e por dentro.  Retirava o primeiro quadrante de minha mama esquerda. Treze dias depois iriam as duas, inteiras. As marcas são tão profundas, que só mesmo quem passou ou passa pela experiência é capaz de aquilatar os sentimentos desencontrados que tomam conta da gente. Não é o medo da morte, mas a forma como morrer; a vida que se deixou de viver, adiada tantas vezes à espera de um tempo mais favorável. É a certeza de que a vida não termina ali, mas o futuro que se descortina é completamente desconhecido, impossível de ser planejado e os planos possíveis não poderão mais ser a longo prazo. 
Até hoje não consegui decifrar a raiva que senti de tudo e todos que amava. Bendito silêncio. Impediu que eu ferisse mais, pessoas tão queridas. Não existe perdão, não existe justificativa, apenas a pergunta: onde está quem sempre fui? Tempo em que não me reconhecia, embora o espelho refletisse quase a mesma imagem de sempre. Também não era a falta das mamas, elas foram reconstruídas e em seis meses o resultado era surpreendente.  Era alguma coisa mais profunda que ainda persiste e que me leva aos períodos silenciosos em busca de mim.

Desde então tenho percorrido meus labirintos, e se às vezes me sinto isolada do mundo, na maioria, tenho a íntima certeza que faço parte de algo maior, sinto as pessoas como parte de mim. Se às vezes sou rabugenta, intolerante, impaciente, na maioria, sou tomada de amor, compreensão, paciência. Chego até a ser permissiva. Sou mais coletiva que individual.  De tudo só consigo entender que o câncer pode ser extirpado do corpo, mas não sai da alma. Fica ali,
 como um guardião interno, um guia na defesa espiritual, no auxílio à comunhão com minha verdadeira natureza. É a companhia no imenso vazio, a convicção da necessidade de rupturas e desencontros para que a verdade possa emergir do silêncio.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

No ritmo do tempo





Winter, de Maureen Hyde
Há dias de inspiração
Há dias de silêncio.
Há dias de transição.
Há dia de pausa.
Tempo para girar o foco
Tempo de voltar para dentro.
Tempo de intimidade e repouso.
Tempo de solidão amiga.
De ordenar sentimentos desencontrados.
De frear a pressa, a vaidade,
a paixão desenfreada.
Tempo em que passado e futuro
se encontram no mesmo ponto.
Dias de acolhimento.
Dias de nova reflexão.
Há dias de verdade
Tempo para compreender
e se entender com a própria existência.
Tempo de harmonizar diferenças.
Há dias de intuição.
De viver cada tempo.
Dias de viver com clareza.
No intervalo de tempo
o xeque mate à realidade.
Um silêncio de atitudes.
A cada pausa, um novo recomeço.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Em surto, surtadinha!


Laura Pritchett

Já sentada no carro, Maria arruma e retrovisor para dar ré e sair da garagem. É a primeira vez que se olha no espelho. Cabelos molhados totalmente desgrenhados. Essa é a imagem que vê. Havia se esquecido de pentear os cabelos. Na viagem até o trabalho ela vai se lembrando de outras coisas que esquecera: os telefones dos médicos e da dentista que terá que marcar consultas, a receita do remédio do pai, as pesquisas do novo projeto, o pneu que deveria ficar no borracheiro. Já no trabalho começa por responder os e-mails. No primeiro segue só o texto, sem o anexo. No segundo envia a imagem errada. No terceiro... ah! Desiste. Melhor respirar e colocar tudo no lugar. Maria está em surto!

PS. Alguém seria capaz de adivinhar quantas vezes postei e deletei (sem querer) este post? Prêmio surpresa para quem adivinhar.

Sinfonia da solidão

Carl Vilhelm Holsoe (1863-1935)
A Lady Playing The Piano
Há dias ruidosos e dias musicais. Para silenciar o ruído preciso sempre de uma boa música. Começo então por selecionar as músicas que me farão companhia nesta experiência nada inédita de me buscar em meio ao caos interno. Algumas músicas me acalmam e me conduzem a um estado de serenidade. Outras, com ritmos mais vibrantes, me convidam a dançar, sacudir o corpo, acompanhar a percussão com os pés. Outras ainda evocam lembranças, criam imagens. Mas todas mexem com meu interior. Assim, a música cumpre sua função de me tirar do cotidiano e me transportar para uma aventura desconhecida, mas muito familiar, de descobrimento e encantamento interior. É... O caminho de volta para si mesmo é solitário e particular. Como a música, o que aqui escrevo é apenas minha experiência, que, compartilhada, pode acender o estopim de alguns, mas sem o compromisso de provocar uma grande explosão. A aventura está em descobrir a chave que abre algumas câmaras secretas.

O som do silêncio


Venus and the Sleeper, de Steven J Levin

Há dias barulhentos e há dias silenciosos. Dias em que as palavras morrem sufocadas no desejo de apenas observar. A visão crítica sobre o mundo e as pessoas desenham minha estrada para o silêncio: a má vontade em procurar algo novo, a sensação de já ter visto tudo, as reprises com personagens diferentes, o mundinho em que os indivíduos se fecham como donos da verdade... Estou parecendo ser dona da verdade, não é mesmo? É por isso que treinar o olhar me leva ao silêncio. São pequenas verdades e, no entanto, tão minhas, tão íntimas, que partilhá-las me parece incoerência. Vale para o que vivo, vale para o que sinto. Tagarelar sobre minha vida interior pode despertar dúvidas sobre minha sanidade mental. A vida vem e vai, pende para um lado, para outro, mas algumas experiências nos transformam para sempre. Está claro para mim que a maior batalha é travada comigo mesma, todos os dias. Nem ir além, nem ficar aquém do que é necessário para sobreviver e conviver.

Venus and the Sleeper, de Steven J Levin

terça-feira, 1 de julho de 2014

Fora da tormenta

Aphrodite, de Robert Fowler (1853 - 1926)

Maria está pensativa nesses últimos dias. São pequenos detalhes que tem para resolver, mas as circunstâncias parecem aumentar a importância deles. Além disso, são muitas áreas que tem que atender. Mas o que sente não é desânimo, é apenas aborrecimento, já que a vida insiste e apresentar tudo de uma só vez. Suas convicções são suficientemente robustas para enfrentar as adversidades. Está uma manhã bonita, de sol e céu azul, apesar do frio, que a inspira a pensar na vida, um exercício de se esvaziar de pensamentos para tão somente apreciar a harmonia e beleza da criação.
As palavras fogem e a poesia se acrescenta ao olhar, com o único propósito de sentir e reverenciar esse momento pleno. Lá fora, nada mudou: política, copa, trânsito mal humorado, filas em bancos, pontos de ônibus, hospitais. O cotidiano de lutas não permite que a contemplação passe dos momentos. Estado que Maria apenas visita, que se sujeita aos ciclos de seu humor, de sua capacidade de abstrair. É um estado que, aos olhos do mundo, se chama alienação. No entanto, os rumores que ouve, ao vivenciar esses momentos, não incomodam. Visita campos mentais, que nem todos terão o privilégio de conhecer.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

As duas faces do amor

Venus and Adonis, de Jacopo Amigoni
Vênus e Adônis é um poema de Shakespeare e insinua uma alegoria moral, na maneira da mitologia. Vênus representa a si mesma como deusa, não somente da paixão erótica, mas também do amor eterno conquistando o tempo e a morte. Porque Adônis perversamente recusa esse ideal, Vênus conclui que a beleza humana deve perecer e que a felicidade humana deve ser sujeita ao infortúnio. Vênus e Adônis são porta-vozes de atitudes contrastantes diante do amor. 

Vênus, por exemplo, alerta Adônis da necessidade de precaução ao perseguir o javali, opina que “O perigo planeja mudança; a argúcia espera com medo”. Adônis suplicando o seu despreparo para o amor, cita analogias de triviais: “Nenhum pescador exceto o girino imaturo reprime / A suave ameixa cai; o verde crava rápido”. No âmago, seus argumentos são usualmente convencionais. Vênus encoraja se apegar ao momento do prazer. “Faça uso do tempo, não deixe a vantagem escorregar; / A beleza dentro de si não deve ser desperdiçada”. Adônis pleiteia tempo para amadurecer.
Assim, nenhum competidor ganha o argumento.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A hora de pecar

Aphrodite and Eros, Henri Camille Danger

A noite foi longa e fria.  Maria acorda com o corpo dolorido,  a  cabeça  como  se  estivesse  no vácuo,  o coração apertado.  Espreguiça com vontade e faz alongamento ainda na cama, para enfrentar mais um  dia sem graça, isolada em sua enorme sala, tendo por companhia apenas uma tela de computador. Tem lá suas vantagens: pode ler, ouvir música e escrever. Mas está dividida.Deixa para trás outros aspectos da vida que reclamam  sua  atenção.  Hoje,  especialmente hoje,  ela sabe  que precisa separar um tempo para si, para resolver essa questão interna da divisão. Lembra-se de quando tinha seus filhos pequenos e precisava deixá-los para ir à luta pela sobrevivência. Hora de retribuir o que a vida lhe presenteou.

Em meio à tempestade de areia no deserto, um pequeno oásis. Não saber o que acontece por dentro é andar na escuridão e passos indecisos nunca são capazes de levar ao ponto certo. Ainda assim, Maria se sente estranhamente feliz, com todo aperto no peito, com a voz saindo mais trêmula do que nunca, engasgando quando verdades profundas vem à tona. Encontra, depois de muito tempo, um João, enigmaticamente de olhar tristonho e sorriso risonho, que um dia esteve povoando os sonhos e fantasias de um mundo virtual. João é como a águia que hipnotiza a presa. João é como o rouxinol, seus gorjeios enchem o coração de Maria. João é como o santo, acende a fogueira do coração de Maria. Quer viver. Não quer trazer João para a realidade, não quer distribuí-lo na igualdade de seus dias. Nem tempo, nem espaço, nem qualquer preconceito, limitariam a doce Maria cansada de solidão. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Oh de casa!



On the roof of Paris, de Marc Chagall
Às vezes as atividades cotidianas me afastam de momentos  de intimidade  comigo, e quando sobra um tempinho, percebo que estava com saudades de mim. Assim, hoje, resolvi dar um passeio por dentro.  Revisitar,  no tempo e no espaço, antigos sonhos e realidade.  Apaziguar sentimentos, lançar luzes e novas compreensões sobre fatos da vida, aceitar o que está pronto e não pode ser mudado, encher-me de coragem para ainda promover mudanças. Não é fácil cumprir todas as tarefas, o tempo estratifica conceitos, mas se o corpo pode envelhecer, quero me manter jovem mentalmente, ter abertura para compreender o novo e, em especial, dar-lhe o espaço necessário para crescer e se realizar. Em uma dessas gavetinhas reencontro minhas emoções e percebo a necessidade de ampliar o contato com a vida universal, bebendo em fonte de águas puras.  Não preciso me angustiar com o futuro, nem camuflar meus medos, nem nadar contra a correnteza. Minha vida se tornou um exercício de humildade, de disciplina, de constância naquilo que faço. Enfim, posso circular em meu interior com coragem e confiança, sem precisar me esconder no silêncio.