quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Fim de tarde



Eugène Galien-Laloue (1854-1941)
Place De La Republique, Paris
Gouache


Estar em Paris não era apenas uma viagem turística, mas uma viagem no túnel do tempo, à Belle Époque, uma história de florescimento total do belo, de transformações. Tempo, pós-guerra,  em que cenário cultural fervilha. Surgem os cabarés, o cancan, o cinema ganha impulso. A face artística é subvertida com o nascimento do Impressionismo e da Art Nouveau. Entretanto, para que o projeto da Praça da República fosse concretizado, vários teatros foram derrubados. Mas a Praça da República também conta outras histórias que vai além do artístico, para lançar as bases ideológicas. O monumento “Marianne” traz as alegorias da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Être à Paris n'était pas seulement un voyage touristique, mais un voyage dans le tunnel du temps, à la Belle Époque, une histoire pleine de belles fleurs de transformations. Temps, l'après-guerre, la scène culturelle grouille. Lève-toi cabarets, cancan, des gains de cinéma dynamique. Le côté artistique est renversé avec la naissance de l'impressionnisme et Art Nouveau. Cependant, pour le projet de Place de la République ont été réalisés, de nombreux théâtres ont été démolies. Mais la place de la République a également d'autres histoires qui va au-delà artistique, pour jeter les bases idéologiques. Le monument "Marianne" apporte les allégories de la Liberté, de l'Égalité et de la Fraternité

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Histórias escondidas


Basile Lemeunier (Place de La Nation)
Maria acorda bem cedo e animada, as caminhadas, que teria que enfrentar durante o dia, seriam longas, mas ela não queria perder tempo. Junto às imagens, vinham à memória a história e as fantasias criadas no período de espera. Custava-lhe acreditar que estava ali, em plena Place de La Nation, pisando o chão que escondia poças de sangue de vidas guilhotinadas. Mas também contava histórias de amor, de vaidades, de cultura. A Praça é hoje ponto de partida de muitas manifestações. Chama-lhe atenção naquele espaço a escultura de Jules Dalou – O Triunfo da República – que demorou vinte anos para ser elaborada. Mostra uma figura simbólica da República em uma carruagem puxada por leões (Liberdade), com participação de Trabalho e Justiça, seguidos por Abundância. Dalou não poupou detalhes...







Maria se réveille tôt et excité, Les randonnées, qui devront faire face au cours de la journée serait longue, mais elle ne voulait pas perdre de temps. Avec les images, l'histoire vient à l'esprit et les fantasmes créés dans la période d'attente. Elle pouvait à peine croire que j'étais là en pleine Place de la Nation, de marcher sur le sol qui cachait bassins de vie de sang guillotinés. Mais aussi raconter des histoires d'amour, de vanités, de la culture. La place est le point de nombreuses manifestations commence aujourd'hui. Appeler l'attention que la sculpture de l'espace de Jules Dalou - Le Triomphe de la République - il a fallu vingt ans et être préparé. Montre un chiffre symbolique de la République dans un char tiré par des lions (Liberté), avec la participation du Travail et de la Justice, suivis par l'abondance. Dalou épargné aucun détail ...

Sonho de outono




Edouard Leon Cortes (1882-1969)
Boulevard Bonne Nouvelle, Paris
No Brasil a primavera enchia os cenários de cores e perfumes, mas Maria  vivia seu melhor outono. Confiante, extrovertida, sentia que, finalmente, se esvaziava  por dentro para traçar novas perspectivas, realizar antigos sonhos, restaurar sua no ser humano. Tudo o que vivia lhe trazia novas fontes de inspiração. O cheiro que aquela cidade exala tem o efeito de incenso: a transporta para a essência de seu Ser. Ama aquele exercício diário de enxergar além das aparências. Como uma sinfonia que toca sua alma. Ela ainda tem caminhos a percorrer, mas viverá até o final esta experiência inédita. inédita. “Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. Que sabes tu do fim?” (Menotti Del Picchia)

Au Brésil, le printemps rempli de couleurs et de parfums scénarios, mais Marie a vécu sa meilleure automne. Confiant, sortant, a estimé que, finalement vidé l'intérieur d'attirer de nouveaux prospects, faire de vieux rêves, restaurer leurs humains. Tout ce qui a vécu lui a apporté de nouvelles sources d'inspiration. L'odeur que dégage cette ville a pour effet de l'encens: les transports à l'essence de votre être qui aime l'exercice quotidien de voir au delà des apparences. Comme une symphonie qui touche votre âme. Elle a encore du chemin à faire, mais vivre à la fin de cette expérience inédite. sans précédent. "Non indagues si nos routes, la météo et le vent, tombent dans l'abîme. Que savez-vous de la fin? "(Menotti Del Picchia)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A trilha

Eduardo Leon Garrido (1856-1906)
Elegante, Place De La Concorde, Paris



O desafio não era o de atravessar rios em cordas, pontes móveis e pinguelas, subir e descer em paus de sebo. Para Maria aquela trilha significava muito mais. Seria a prova de que a vida não se acabava ali. Ela estava em Paris, realizando se...u sonho mais acalentado. O grupo era desigual na faixa etária, Maria era a mais velha, e a mais nova no grupo, sabia que podia aprender e ensinar, mas antes precisava ter um encontro com a juventude de seu espírito. Constatava que enquanto a mente fosse solicitada, ela estaria inserida no contexto, e todos aqueles jovens com quem se relacionava emprestavam-lhe um pouco de energia. Em troca Maria mostrava-lhes que a vontade, a perseverança, eram fortes aliados na tarefa de romper fronteiras. Não existe um tempo para recomeçar, existe um espírito que não se dobra aos obstáculos. A esperança de reconstruir.


Le défi était de ne pas traverser les rivières sur des cordes, des ponts mobiles et pinguelas, monter et descendre en bâtonnets de sébum. Pour Marie entend cette piste plus. Il serait la preuve que la vie n'est pas terminée là. Elle était à Paris, effectuant son rêve le plus cher. Le groupe a été inégale d'âge, Maria a été l'aîné et le plus jeune du groupe, elle savait qu'elle pouvait apprendre et d'enseigner, mais d'abord nécessaire d'avoir une réunion avec les jeunes de votre esprit. A noté que, bien que l'esprit a été demandé, serait inséré dans le contexte, et tous ces jeunes avec qui elle apparentées lui a prêté un peu d'énergie.. Au lieu de Marie leur a montré la volonté, la persévérance, étaient de solides alliés dans la tâche de briser les frontières. Temps de commencer n'existe pas, il ya un esprit qui ne se plie pas aux obstacles. L'espoir de reconstruction.

 

Simples assim

A Sesta, de Van Gogh
Em sua maneira de simplificar as coisas,de amenizar – melhor dizendo –, João mostrou-me ser capaz de abrir caminhos alternativos que lhe permitem trafegar em todos os reinos físicos e psicológicos, com maturidade interna. Entendo então que o ser humano não pode ser aprisionado por estereótipos porque é livre para agir e reagir. Ao escrever, Maria se propõe a ir além do humano e criar o encontro en...tre o sutil e o belo. É verdade que o momento tende ao ocre, mas o importante é entender que o sentimento do outono não está, necessariamente, ligado ao declínio, mas ao sentido e ao significado que se percebe com o olhar experiente. A sabedoria pode ser bem mais simples do que imaginamos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sozinha no escuro

Imagem: After the Bath, de Edgar Degas, ( inspiração para mim, que me preparo para  ir à França)
Maria acorda cansada. A água fria que escorre sobre seu corpo não produz o choque necessário para um desertar cheio de energia. Pela primeira vez, Maria tem medo. O medo, por si só, já é sofrimento. Natural, portanto, essa angústia generalizada e sem motivo aparente, mas que assusta. A angústia desequilibra a dinâmica psicológica, provoca transtornos mentais, dá a sensação de aperto no coração e o medo que não sabe de quê. Certa está que estas sensações fundamentam a condição humana diante da liberdade absoluta, da morte ou da distância. É difícil seguir em frente quando se sente em estado de desamparo, quando falta convicção de que pode sobreviver por conta própria, nutrindo-se dos conteúdos internos, sentimentos e pensamentos que a identificam. Há um vazio enorme em tudo que Maria olha. Ela fecha os olhos num gesto de fuga de tudo que a cerca. Sozinha, na escuridão que sua alma se encontra, ela se deixa levar pelos caminhos do inconsciente. São vários os porões de sua alma...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Mensageiros dos Deuses

Imagem de Gustave Courbet (1819-1877)
Woman with a Parrot
Acostumada a ter beija-flores em minha garagem e, às vezes, até atravessando por dentro de minha casa, imagina só o susto que levei quando, há duas semanas, um urubu pousou na janela aqui no trabalho. Ele é enorme, feio, as asas me pareceram grandes e fortes ao tocarem as laterais da janela. Não senti cheiro. Fiquei preocupada com uma possível simbologia da ave, justamente em época de refazer exames para monitorar o CA. Hoje a surpresa foi dupla. Primeiro foi um papagaio e depois um periquito.O papagaio, arisco se debateu um pouco até equilibrar e logo voou. Mas o perquito me olhou, deixou-se observar e ficou um tempo se exibindo para mim, até que os outros devem tê-lo chamado. Continuam brincando lá fora no maior alvoroço. Se for para significar alguma coisa, que seja a esperança!
De acordo com a cultura xamã, estes são os significados:

  • A mensagem do Urubu é de purificação, limpeza profunda. Está ligado ao fogo ou Sol em várias culturas, assim como os xamãs ele usa as energias da terra ao seu favor. Simboliza a vida e a morte, dons proféticos e mistérios.
  • A primeira coisa que nos ocorre quando pensamos nos papagaios é sua capacidade de imitação. Eles refletem tudo o que existe à volta deles, tons de voz, ruídos, gargalhadas. A energia do papagaio é como um grande espelho universal, e este não mente, apenas reflete o que existe fora dele.
  • Os beija-flores parecem ter a vibração mais alta e suave da Natureza. São as únicas aves que voam em qualquer direção, para cima, para baixo, para trás e para os lados. Devido à rapidez com que batem as asas, parecem aos nossos olhos estar completamente imóvel no ar. O beija-flor nos estimula a encontrar a doçura e a alegria de cada situação. Se o beija-flor tem voado nas suas visões, prepare-se para rir musicalmente e apreciar muitos presentes do Criador. Mensageiro da cura, amor romântico, claridade, graça, sorte, suavidade, alegria e entusiasmo.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Divagando



Bluebells, de Alma Tadema
Sons de pássaro, e eu aqui, precisando de 4mil caracteres para concluir meu trabalho. Escrever não é só escrever, há o pensamento que antecede e que muitas vezes estão desencontrados, expressando-se apenas em rápidos flashs, pílulas homeopáticas de luz, sem nenhuma ordem. Não sei que mecanismo mágico é esse que faz as ideias se concatenarem e o pensamento, enfim, se expressar. Mas o que fazer quando estamos vazios e apenas queremos contemplar a vida sem pensar, sem explicar, sem concluir? Muita disciplina e ... voltar ao trabalho, para a engenharia das letras que se formam em pensamentos, mas que dispensam sentimentos. Pura técnica!

Dia de Finados

Imagem de Bastien Lepage
O ano está chegando ao fim. Sempre um misto de tristeza e de alegria, de esperança e de saudade, de vida e de morte. Após o almoço em família, Maria e sua mãe levam flores ao cemitério. Falam de saudades, de preocupações, de sonhos e pesadelos, e do vento. O vento que parece beijar-lhes o rosto, não permite manter a chama acesa, como se estivesse a lhes dizer que um dia tudo se acabará com um sopro. Maria fazia seu caminho de volta para casa. Deixava parte de uma história para trás. Vivenciou momentos de dor, de renúncia, de desapego. De despedidas. Pôde compreender que é na memória que ficam os verdadeiros registros. Também ficam os registros de nossas desistências, de nossos medos. Depois de enfrentar o câncer, Maria namora a morte, sem pressa de se casar. Agora, somente agora, respira vida, cores, sons, beleza.  A vida nunca é a mesma todos os dias.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Era sapo!


Imagem de Leon Bonnat
A semana se arrastava com dificuldade. Vazia de emoções, Maria toma uma decisão que certamente a tiraria do marasmo. Resolvera extirpar aquele amor, que como a semana vivida se arrastava, seco, árido, infértil. Desde que conhecera João não conseguia mais se interessar por ninguém, mas João era instável, frio, preconceituoso. Vivia sob uma redoma com medo que alguém descobrisse suas fraquezas. Aparentemente era um rapaz simpático, agradável, bonito. Inteligência e sutileza eram suas características mais marcantes.
Esse comportamento paradoxal, visível apenas àqueles poucos que rompiam suas barreiras, atava Maria a João, quase que de forma neurótica. Já disse Chico Buarque que cabeça de mulher é para ninguém entender, "olha, você tem todas as coisas/ que um dia eu sonhei pra mim/ a cabeça cheia de problemas /não importa / eu gosto mesmo assim". Só mesmo as marias.
De poucas palavras, gestos lentos e um ar alheio às coisas comuns do cotidiano, João colecionava mulheres lindas. Havia um acordo tácito entre elas, afinal sabiam que ele não ficaria com nenhuma. Elas se arrastavam, se enrolavam nele como verdadeiras gatas, lânguidas, melosas, sensuais. Maria não fugiu à regra, era mais uma tolinha a lhe estender tapetes. Ele queria ser conquistado. Ela queria conquistar.
Foi assim, enfrentando uma dura e desleal concorrência que João passou a fazer parte da vida de Maria e quando ela percebeu, ele já estava lá há dois anos. Saiam juntos para beber, dançar, acampar e Maria sempre ali firme esperando a hora que daria o bote. Sonhava em fazer amor com ele e seu desejo era tão forte quanto a sua incapacidade para perceber que alguma coisa não estava certa naquele relacionamento.
A partir do momento que decidiu não dar mais continuidade àquela farsa, decidiu também que não sairia do relacionamento sem antes experimentar juntar as carnes. As férias estavam terminando e saíram para acampar. Desta vez ela conseguiu convence-lo de ir apenas os dois. Escolheram uma cidadezinha do interior, que recentemente haviam descoberto. A natureza na região era pródiga, cheia de pequenas cachoeiras e recantos inexplorados pelo homem. O verde e o ar puro tinham a capacidade de transportar as almas para uma outra esfera. No ar, pontos brilhantes, como se fossem a visão de pequenos átomos, dançavam a sua frente.
Maria partiu para cima de João, sem lhe dar tempo para processar o que estava acontecendo. Agora, ela não sabe explicar o que aconteceu, será que a culpa foi sua?
João, impotente, tentava se justificar. Que diabo de homem era aquele, que tinha medo de mulher? Porque a necessidade de estar sempre rodeado delas?
Maria chora. Sem máscaras, seu príncipe não passava de um sapo.

(In, Histórias de Maria)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O estrangeiro



Imagem de Shane Wolf
O clima de alegria no ambiente não era real. Por trás de cada sorriso escondiam-se almas solitárias, sedentas de toques e afetos. João estava ali, como se comandasse um grande espetáculo, mas completamente perdido de si mesmo, sem saber se encontrar em meio a tantos sentimentos. Sentia os olhares das mulheres, afinal, ele era um garoto bonito, mas como se situar? Não sabia que pedaço seu ele poderia entregar naquele ambiente que lhe era tão estranho. João, contido em seus pensamentos, imobilizado em seus gestos, sufocado em sua sensibilidade, sentia-se algemado pela situação.
De longe, Maria o observa, atraída pela curiosidade dos jogos que ele travava para poder esconder-se  No seu isolamento interno, único espaço que seu ser expandia,  pode-se observar o gestual delicado e estudado de um corpo que pedia silêncio. Procurava  ar, precisava respirar e se organizar por dentro. Seus olhos se cruzam com o de Maria. E nessa fração de segundo Maria encontra seu olhar de homem rendido. O jogo da sedução exige que haja pelo menos dois jogadores. Sua alma era prisioneira de seu corpo. João jogava consigo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ah! O tempo!

The Tender, de Mary Cassat
Muitas vezes eu escrevi sobre o tempo. Entendo que nós, humanos, temos dois grandes limitadores, o tempo e o espaço. Sinto mais o tempo. O espaço “está sendo alterado” pela internet, mas o tempo. Ah! O tempo! É possível fazer o tempo parar, de forma a nunca mais envelhecermos? Sempre vi o envelhecimento com os olhos da compreensão, da maturidade. Nunca entendi completamente os preconceitos contra a velhice.
Quero ficar velhinha sim. Quero ter muitas histórias para contar. Quero passar experiências aprendidas – mesmo aquelas em que a lição demorou a entrar na consciência – ou aquelas que não deram certo, ou mesmo os equívocos que infalivelmente nós cometemos ao longo da vida. Envelhecer é momento de reconciliação com erros e fracassos. É momento de reflexão, de contemplação de aceitação. É uma sorte não morrer antes!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Para sempre

Imagem de Malaquias Belo

Ao bater os olhos na imagem do jornal, Maria sentiu seu coração bater mais forte. Não restava dúvida: aqueles traços em estilo surrealista só poderiam ser de Ezequias Brandão. Mais de 15 anos sem vê-lo, no entanto, a identificação continuava a mesma. Sem pensar duas vezes, Maria busca o fio da meada para reatar uma relação que sempre foi marcada por profunda identidade espiritual. Fecha os olhos, faz retrospectiva, vendo o tempo passado voltar e contar uma história por meio de imagens que a memória armazenou. Sente saudades, um sentimento nostálgico que se mistura à alegria presente. Reencontrar esse amor que se traduzia em imagens e silêncio mexia com as entranhas de Maria, uma sensação emoldurada por boas, profundas e inesquecíveis lembranças.
O dia não amanhece como todos os outros. Maria teve uma noite povoada de sonhos surreais e se prepara para ir ao encontro do insólito; mais uma vez, iria à luta para vencer os limites do tempo e do espaço.
Impossível prever os resultados daquele encontro.
Começam então pelos relatórios do tempo. Casaram-se no mesmo ano, têm filhas da mesma idade e com o mesmo nome, as datas das grandes transformações também coincidem. Maria deixa a fábrica de chocolate, na mesma época em que Ezequias Brandão, cria um novo estilo artístico e mais comercial, que firma seu talento em outro mercado. O lançamento do livro de Maria coincide com o período em que ele retorna às telas. O recomeço encontra então seu ponto de partida.
A tarde inicia com uma visita à galeria onde Ezequias está expondo. Maria observa cuidadosamente cada quadro. Ali também, observa que o artista recomeça de onde parou. Nada de bananas cortadas em rodelas voando no espaço, o masculino encontra expressão, apenas o mito de Eva ainda se mostra em conflito (simbolizado pela maçã verde, cortes feitos com lâmina e em presença de sangue) e em diversos planos - janelas ou portais da existência. Maria busca o humano. Não há ainda uma presença real, mas em algumas telas já se pode perceber elementos da vida. Os antigos ovos que se explodiam ou se dissolviam, se transformaram em formas orgânicas "humanovegetais" que se assemelham a cromossomas, ou espermatozóides, ou larvas, ou algas, e que se sobrepõe, em outra perspectiva, transformando-se em verdadeiras cidades-fantásticas - supostamente metafísicas - de perturbadora solidão.
Há na obra de Ezequias uma aparente sensualidade pela presença de elementos fálicos e eróticos, mas percebe-se também que não é essa a pretensão. A expressão está mais para a indagação dos mistérios que envolvem o mito da criação e a ruptura com o paraíso, tudo dentro de um contexto simbiótico e contraditório de lirismo e dor, cujo resultado é uma obra que transmite a solitária solidão de Ezequias.
No texto do catálogo a confirmação do que Maria percebia: "Após percorrer outros caminhos em modalidades diversas, aprimorando outras técnicas, o artista retoma seus antigos aspectos da vertente surrealista que marcou sua personalidade artística no começo da carreira, em que predomina o virtuosismo técnico, tanto na execução da pintura como no engajamento temático que define a sua estética com rigoroso apuramento técnico e excelente resultado de plasticidade".
Um café tomado depois da chuva em ambiente acolhedor, algumas palavras para marcar momentos importantes vividos no passado, a constatação das mudanças que aconteceram ao longo do tempo, mas que não alteravam o profundo e inexplicável amor que unia as duas almas. Ligados por essa energia lírica, intimamente eles sabem que nunca vão promover um rompimento, ainda que seus caminhos insistam em seguir direções opostas.
É noite quando os dois se separam. No ar, inúmeras possibilidades, mas somente o tempo - sempre o tempo - poderá explicar a magia desse encontro.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Idílio

Idylle, de Willian Bouguereau
Não era um bom dia para fazer a faxina, o calor estava insuportável, a vontade de voltar para a roça, e descansar em uma sombra para sentir o vento no rosto, ficava cada vez mais forte. Ainda assim Maria se levanta, respira fundo, e parte para mais um dia de trabalho. Enquanto jogava água na janela ela aproveitava para se refrescar nos respingos e organizar seus pensamentos. Bailam na lembrança cenas do campo, dos encontros furtivos com João, da alegria da juventude, da irresponsabilidade do amanhã. Tinha os olhos fechados e os movimentos da faxina acompanhavam o ritmo preguiçoso das lembrança. Era como se ele a olhasse. No limite do prazer e da posse, um homem olha para uma mulher como se meditasse sobre o princípio da vida. Queria tê-la em sua consciência sem importuná-la em seu sonho. Ela dormitava, passando lentamente a flanela sobre a mesa de vidro. Também ela, em toda sua simplicidade, precisava se acertar com o tempo. A interioridade sexual era tão intensa, os corpos tão ausentes, que a sensação de serem tocados parecia uma oferta divina duma imaginação profundamente amorosa. Havia muito mais vida no passado, ela sabia, mas precisava viver o presente. De repente, o celular toca e tira Maria de suas reflexões. João é apenas uma lembrança que se desvanece.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta de Maria

Imagem: Penning A Letter, de George Goodwin Kilburne
Hoje tive vontade de escrever de mim para mim. De buscar no próprio âmago explicações para esta existência. Não sei se a vida é um circo de horrores, mas os ciclos são visíveis. Dias, meses e anos marcados por ganhos e perdas, altos e baixos, dias de entusiasmo e euforia, dias de amargura e depressão, dias de trabalho intenso e de desemprego. Sobrevivo.
Estou de bem comigo, mas tenho tido pouca vontade de escrever. E quando consigo vencer a minha barreira, surpreendo-me completamente muda. É a felicidade (ou seria a ausência de infelicidade?) que me bloqueia? Ou seria a sensação de me sentir espectadora da vida, quando nada mais é novidade, quando o ser humano perdeu, para mim, o gosto da descoberta?
Os grandes romances, os melhores poemas de amor parecem mesmo se nutrir da tragédia, dos desencontros, da infelicidade. Pior que a ilusão que nutre minha pobre literatura, é a apatia em viver. É não saber o que é necessário para ser feliz. É a certeza de que tudo o que existir depois da vida será lucro, porque, aqui e agora, tempo e espaço limitam meu ser. Pior que esta inadequação é me ver frente a frente com a repetição dos ciclos. É não ter criatividade suficiente para me superar cada vez que no jogo da vida dá a lógica.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Janela

 At the window, de Carl Vilhelm Holsoe
Houve um tempo que , de onde me sentava para trabalhar, a única visão que tinha pela janela era um pé de jabuticaba. Época fértil, criativa, povoada de sonhos e fantasias. Vi florir, nascer e amadurecer os frutos. Vi larvas, casulos se formando e borboletas romperem para a vida. Ouvi o cântico das cigarras. Era como se minha vida se entrelaçasse com aquela árvore. Hoje me pergunto o que vem pela frente. Na solidão de minha sala, vejo o topo das árvores – uma mangueira, um coqueiro e um cajueiro – e topos de prédios. Mas vejo mesmo é o céu. Ele toma conta de quase toda janela. Às vezes azul e com nuvens brancas, outras cinzentas, chuvosas. E são muitos os sons. Pássaros que não identifico, bem-te-vis, pardais, latidos de cachorros, carros que passam longe. Um tempo, de novo, para ficar comigo.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Manhã de Amor


(Imagem: Le jour, de Willian Bouguereau)
Hoje acordei com algazarra de pássaros em minha janela. Temperatura amena e disposição física para saudar esta manhã clara de céu azul. Da cama para o chuveiro foi necessário apenas um salto. Um movimento mais rápido que o de um pião no jogo de xadrez. Manhã, tão bonita manhã, canta o meu coração...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Espelho meu!


(Imagem de Jon Boe Paulsen, artista norueguês contemporâneo. Segue a tendência do Realismo)
Sem sono, assisti ontem ao filme “Espelho, espelho meu”, com Julia Roberts, e fiquei imaginando como os contos de fadas são ricos em elementos simbólicos. No caso, o espelho exerce grande fascínio sobre mim por trazer à tona coisas guardadas na profundeza inconsciente. Por efeito de estranha magia permite-me quebrar a cadeia habitual de pensamentos para mergulhar em considerações a respeito de meu próprio reflexo. É muito bom quando posso me identificar com a beleza, com a sabedoria, com a ética. Mas a luz tem suas sombras. Percebo que também as pessoas são como espelhos e só identifico nelas, aquilo que tenho em mim.

Esperança

(Imagem: Hope, de George Frederic Watts, mais famosa depois que Obama disse se inspirar nela)

Recomeçar, quando tudo encaminha para o desânimo; sorrir quando as máscaras caem; continuar acreditando, mesmo quando evidências apontam para a perda da fé; enfim, manter a firmeza sem se deixar levar pelas ondas. Quando nos exigimos muito, corremos o risco de ir à fronteira de nossa capacidade. Renovar-se é dar chance à esperança, à crença emocional de resultados positivos, que estimula a seguir na labuta. Esperança, como disse Bilac, “a divina mentira que dá ao homem o dom de suportar o mundo”. Esperança de nos acharmos, de nos compreendermos, de nos transformarmos, de vencermos o conflito interno de angústia e solicitude, de voltarmos para o outro com o mesmo olhar generoso que nos vemos no espelho.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

No túnel do Tempo

 Alegoria do Tempo (Chronos e Eros) , de Johann Heinrich Schonfeld




O tempo impõe limites, no entanto, o aprendizado nunca acaba. Nesta caminhada interna, ao analisar e identificar cada situação vivida, cada valor cultivado, cada batalha perdida ou ganha, percebi que a esperança habita o futuro. No passado estão apenas as lembranças. As escolhas que fiz escreveram a minha história e continuarão a escrever, talvez com mais serenidade, mais sabedoria, menos ansiedade, mas ainda a mesma história. A juventude deu lugar à maturidade, a rebeldia cedeu à compreensão, a intolerância encontrou aconchego na ternura e, finalmente, entendi que estou na vida para buscar a felicidade. Sou privilegiada ao entender que ainda tenho tempo para mudar. A chave do tempo está na capacidade de mudança e de adaptação ao novo. Viver é o antídoto para o tempo.