domingo, 20 de fevereiro de 2011

As voltas que a vida dá



Maria se enrosca à saia da mãe e cochicha ao seu ouvido.
- Mãe, aquela mulher colocou um presente na bolsa.
Dona Pequenina olha de soslaio e dá uma cutucada em Maria, sinal para que ela fique calada.
Faladeira, irriquieta, observadora, Maria não obedece.
-Mas Mãe, eu vi! Ela está roubando!
A alternativa é sair com Maria dali. Dona Pequenina puxa a filha pela mão e vai se misturar às amigas na cozinha.
No pequeno povoado de Vila Engenho, as festas de aniversário se constituem num grande acontecimento social. A festa dura, no mínimo, dois dias. Começa com os preparativos, a matança dos animais e os infalíveis momentos de lazer, marcados pelo arrasta-pé. Viola e sanfona, gente suarenta, roupas coloridas, flores no cabelo, lencinho na mão. Esta riqueza de tipos brasileiros marcam as festas no interior e, claro, os tipos esquisitos também.
A conversa a boca pequena traz à tona tipos como Dona Cláudia, aquela que colocou um presente na bolsa. Figurinha carimbada, não perdia uma só festa, chegava sempre no dia anterior para participar dos preparativos e não perder uma só dança no final da tarde. Todo mundo já sabia: o presente que levava, ela pegava de volta na hora de sair. Se o adulto entendia, Maria não pensava a mesma coisa. Estava indignada e não queria saber dessa Dona Cláudia na festa dela.
Com Maria já distraída, Dona Pequenina volta com ela ao salão. Diverte-se com as pessoas e suas performances. Maria está impaciente. Incomoda-lhe o cheiro de suor, comida e bebida, a música alta, os risos de bocas abertas e com falhas nos dentes, os tapinhas na cabeça.
- Quando esse povo vai entender que eu já sei que sou uma gracinha?, pensa
ela irritada, arquitetando uma dor de barriga para sair dali mais depressa.
Seu semblante se ilumina em um sorriso ao perceber que seu pai chega para buscá-las. Corre ao encontro dele aliviada. Era o fim da sua tortura.

Anos se passaram. Maria guarda na lembrança seus tempos de criança. Hoje, trabalhando com manifestações folclóricas e culturais, ela não resiste e chega às lágrimas ao ver reproduzidas cenas, que antes lhe pareciam dignas do inferno de Dante.
Maria leva Lídia para a apresentação da equipe de Eventos da 3ª Idade, que apresenta um grupo de dança e cantares portugueses. Vozes afinadas, harmoniosas e firmes desafiam o tempo ao entoar com alegria e animação músicas típicas portuguesas. Ao som de cavaquinhos, violões, triângulos e pandeiros, um pedacinho de Portugal, mais especificamente da região próxima ao Porto, transfere-se para o Brasil naquela tarde. Dá vida à tradição de cantar e dançar nas praças públicas e conta um pouco da história e da tipicidade dos nossos colonizadores.
A apresentação marcou um momento de rara emoção quando, ao final, embalados pela música "Oh, Linda, Vou-me Embora", todos, homens e mulheres, jovens e idosos, portugueses e brasileiros foram convidados para dançar em uma grande roda. Para Maria, uma tarde divertida e emocionante, para Lídia, uma verdadeira tortura.
-Não sei o que minha mãe vê de tão emocionante nessa festa brega.
É. A vida dá muitas voltas! Um dia ela vai se lembrar.

2 comentários:

  1. Um mimo esse conto. Mescla o registro da tradição às reflexões que só você mesmo consegue extrair das coisas mais simples.

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  2. Obrigado meu caro Anônimo. As fontes de inspiração são inúmeras e até o vazio pode ser suporte para as nossas reflexões. Grande abraço.

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