sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Por causa de um brinco

Imagens : Yes or No, de Godward e The Painter Honeymoon, de Frederich Leighton


João está confuso. Por mais que não queira admitir, vive uma situação que lhe é estranha. Maria o desorganiza, atrapalha o correr simples da vida, não deixa passar detalhes, portanto, ocupa boa parte do seu pensamento. Ele ainda não sabe se isso é bom ou ruim. Sabe apenas que voltar para casa não significou o reencontro com a serenidade. A cabeça está recheada de questionamentos e dúvidas. Custa-lhe acreditar que Maria seja uma mulher madura, sensata, de sentimentos nobres, apesar das circunstâncias. O brinco pode ser uma evidência. Aborrece Maria, mas depois se culpa pelo equívoco. Justo com Maria que nada quer dele. Ela, por sua vez, compreende que tudo é novo, diferente, que João não tem outras informações para conhecê-la. Também ele está empenhado em buscá-la. Se para Maria, João é o presente maior, não tem certeza da sua significância para ele. Por isso, inicialmente, se aborrece. Precisam se conhecer melhor, dar espaço para a confiança.
No trato com seu anfitrião, Maria pôde perceber que João tem facilidade em fazer amigos, mostrando-se original, encantador e espontâneo, com boa dose de refinamento na arte de conviver. Diria mesmo que ele é pouco ortodoxo, com abertura para abraçar idéias progressistas. Diz-se simples, mas seus gostos são sofisticados. Humanista por natureza, João mostra-se dotado de lucidez e espírito positivo, daquele tipo que assume o comando com total naturalidade em qualquer situação.
Maria está encantada. Acostumada a homens frágeis, entrega-se ao seu poder de sedução. João é imbatível neste aspecto. Coloca nas coisas a pitada certa de humor. Algo, no entanto, intriga Maria. João lhe parece livre, aberto à mudanças, mas ela tem a certeza íntima que a vida dele se orienta por princípios bem definidos e fixos, ainda que a demanda pela liberdade seja constante. Ele fala, com verdade e despojamento, dos seus relacionamentos e nada passa despercebido para Maria que, mesmo envolvida, observa os mínimos detalhes. Pode, sem medo de errar, afirmar, que em questões de amor, ele é bem peculiar. Mesmo emocionalmente atraído por alguém, ele consegue romper um relacionamento, de repente. Sem grandes explicações. Os passatempos de João, os prazeres, os casos amorosos são marcados pela imprevisibilidade e excentricidade, haja vista que sua visão de sexo também não é nada convencional. Muito carinhoso, ele age com liberalidade, ignorando convenções religiosas e sociais.
Do ponto de vista social, pela frequência com que dá valor financeiro às coisas, Maria entendeu que, mentalmente, João aspira a glória, o prestígio social, as honrarias, o poder e a ascensão por meio da compreensão intelectual. Ele soube escolher o caminho certo. É um estudioso e sua visão da vida é otimista, segura e generosa.
Maria é dura. Conhece a si mesma como ninguém. Costuma entender as coisas pelo avesso. Percebe, lá no fundinho, traços semelhantes aos seus e uma agressividade bem disciplinada, submissa a um rígido autocontrole. Ela aprendeu, a duras penas, que fazer concessões demonstra força de caráter, e não fraqueza. Quer ser respeitada por sua maturidade e não se esconde. Age com espontaneidade e deixa vir à tona sua personalidade dinâmica, obstinada e batalhadora, que aborda as questões práticas com cautela. Ironicamente, Maria talvez seja, em relação a João, um pouco mais conservadora. Sua perspicácia lhe permite ver o essencial - o que sempre foi um trunfo em sua profissão - mas suas emoções estão divididas. Anseia pela aventura e pelo desconhecido. A chave está na habilidade de conciliação das duas tendências opostas: a busca do novo e o apego ao velho. Não julgaria João por causa de um brinco. O Ser habita águas mais profundas.

Com o coração apertado Maria se vê diante do homem que povoou seus sonhos e descobre que juntos, eles poderiam ter sido mais do que são separados. São pessoas fortes individualmente e a energia conjunta é brilhante. Maria está cheia de idéias e poderia se recolher por semanas, que a riqueza daquele encontro lhe inspiraria muitas páginas. Encontra uma afinidade de propósitos, que nunca encontrou em outra pessoa. Não é um relacionamento sexual apenas. Está diante de significativo amor, puro e verdadeiro, tão forte que foi capaz de promover aquele encontro insólito. A felicidade, na maioria das vezes, é equivocada. Está relacionada à aquisição de bens materiais, sucesso pessoal e profissional. Por isso, cada vez mais o ser humano clama por uma mudança interior, o vazio interno pede mais que palavras para ser preenchido. É no silêncio, quando as palavras se aquietam em nós, que conseguimos ouvir as vozes que vêm de dentro. No silêncio aprendemos como dissecar as nuances da nossa percepção, mesmo que elas nos pareçam vagas ou enigmáticas. O maior entrave é o medo que nos ronda, quando percebemos que este processo pode ser doloroso. Quando olhamos para nosso espelho, e vemos apenas reflexos. Quando nos deparamos com o vazio, trazemos ao campo da consciência essas forças contraditórias que nos desconsertam e nos fazem sofrer. Se por um lado nos causa sofrimento reconhecer que não somos absolutamente bons - nem maus -, a compreensão deste processo areja as nossas mentes e pode nos tornar agentes ativos na tarefa de descobrir a nós mesmos.
João! Prazer em (re)conhecê-lo!

Sou Flor

Imagem: Purple Summer, de Sally Rosenbaum



Hoje João declamou para mim. Dizia seu poema, que algumas flores cumprem a sua função: florir. Eu era uma dessas. Lembrei-me então de uma brincadeirinha que fiz - já que admito não saber escrever poesia - há algum tempo. Dois pequenos poemas, rasos, simples, pobres, e que republico aqui. O primeiro, eu o ilustrei, certa vez, com uma árvore plantada na estrada que dava acesso à Pirenópolis e o segundo, justifica-se pela comparação.










Brincando de árvore

Hoje,
Plantada em solidão
Brinquei de árvore
Tipo estrada poeirenta
Sem nenhuma nota apreciável

Nunca vi sombra tão pequena
Embora alguma vez
Servisse ao caminhante
Que por ali passava
Em busca de verdade

Por carência de ninho
Certamente
Um sonho-pássaro
De canto alegre
Morou por uma tarde
Nos meus galhos

Arvorezinha de brinquedo
Agasalha saudade
Ternura
Esperança
E grita aos que se vão:
Não pareço
Mas sou árvore
E dou sombra.


Sou flor

Para viver a Primavera
Ainda plantada em solidão
Tornei-me frágil vegetal
Brinquei então de flor

Em meio a borboletas
Fui flor-botão
Flor-perfume, flor-beleza
de coloridos matizes

Estive no buquê
Que celebrava a Vida
Estive na coroa
Que reverenciava a Morte

Adornei juras escondidas
Consolei lágrimas de saudade
Frágil, feneci sozinha
Num solitário de vidro
Sobre a mesa de um jornal.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tecendo os sonhos

Imagem de Goya


Há algum tempo Maria se dedicava a buscar nas coisas que escrevia o que sentia de verdade. Precisava mergulhar em si própria para distinguir o que era real e o que era ficção. Não podia se enganar, pois se sentia como uma juíza pronta para julgar, absolver ou condenar. Na busca de si mesma compreendeu que era fácil lhe dar absolvição, que era possível ser generosa consigo mesma e encontrar explicações para tudo que fosse insensato, impensado, incoerente e todos os outros ins possíveis.
Foi assim, como uma fetichista de si mesma, que ela passou a espreitar a vida e as inúmeras personagens que representava. Interessava-se pelo seu mundo, seus sentimentos, suas analogias, as histórias que contava. Maria não queria perder de vista a generosidade com que aceitava a si mesma e nem os motivos que a levaram àquela investigação projetiva. A aventura em sua alma, especialmente naquele instante, era como uma volta na montanha-russa, nunca viu tanto altos e baixos. Lembrou-se da primeira - e única - vez que havia subido em uma montanha-russa. Maria sentiu como se lhe faltasse o chão. Aliás, o chão já lhe faltava, mas sentiu sumir toda a segurança que a havia encorajado a uma experiência que não lhe era essencial. As intermináveis voltas, as subidas e descidas, os solavancos não a divertiam. Estava emocionalmente arrasada e fisicamente enjoada. Quando, finalmente, terminou o passeio macabro, Maria pôde colocar para fora tudo aquilo que sentiu e, sem se importar se seria papelão ou não, vomitou ali mesmo, no meio do parque e na frente de todo mundo.
Conhecer-se, no entanto, não é uma escolha, como é uma aventura na montanha-russa. É uma experiência essencial e de leitura difícil, que se faz acompanhar pelas próprias angústias, pela sua humanidade e sua crueldade. Quanto mais hermética tentava ser, mais transparente se tornava. Estava nauseada. Poderia até fazer um comparativo com a obra de Sartre, mas não era literatura ou filosofia que ela procurava entender. Queria a sua intimidade, mais próxima do conceito de amor-próprio defendido por Kant. Maria quer justificar o que lhe parece ser fora dos padrões, julgar a si mesma sem nenhuma generosidade, como seria julgada se ela estivesse no lugar da outra. A doutrina moral de Kant toma o amor-próprio como único princípio material da razão prática.O ideal de felicidade, como satisfação completa de todas as inclinações, deve reivindicar que é possível ser feliz sob condições empíricas. A situação imaginada é, porém, inconcebível, sem a suposição das circunstâncias externas. Por enquanto, nenhuma conclusão. O estado de ser feliz permanece indefinido na sua definição de felicidade. O tempo vivido a deixa à mercê dos sentimentos.
Maria está feliz. João também!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Mistério do Amor

Imagem: Anunciação, de Caravaggio


Maria entra no banheiro e chora escondida. É um sofrimento atroz e, mesmo sem culpas, ela não consegue se desvencilhar da sensação de impotência.
A história parecia ser a mesma, embora os tempos e os limites fossem outros. Os pesos da balança estavam em perfeito equilíbrio, mas existia o tempo, existia o espaço. Sempre esses dois fatores de limitação tentando impedir que sua alma alçasse voo.
Foram dias de alegria, de partilha, de intensa caminhada, de grandes descobertas, de entrega total. A harmonia entre ela e João não poderia encontrar nas palavras dos mortais uma simples definição. Seria preciso sentir, viver cada momento, ser cada movimento, para ter a compreensão do céu que ela havia experimentado. O paraíso só pode ser conquistado pelos puros de coração, pensa ela. Desde a juventude Maria buscou a sabedoria. Pediu a Deus por ela e decidiu procurá-la até o fim, seguindo as pegadas do amor com passos retos. Inclinou seus ouvidos para ouvir, e um Anjo apareceu para lhe sussurrar ensinamento abundante.
O domingo amanhece lindo. Conhece aquela missa, sabe que mexerá com suas emoções e com lembranças muito bem guardadas. Não sabe o que fazer para evitar que o passado lhe bata a porta e interrompa a magia e o encantamento com João. Está perdida em seus pensamentos. O tempo passa e com ele o horário da missa. Chegam ainda a tempo de ver a saída das irmandades, dos anjinhos, do cortejo de seminaristas. Maria engole a seco. Sofre. Deplora o que seus ouvidos também ouviram, seus olhos viram, sua percepção mostrou. Lamenta o desencontro. Prefere ouvir o Anjo - seu guardião interno - e se ajoelha em busca de conexão com Deus. Suas entranhas tremem ao dirigir-se a Ele.
- Desejei a sabedoria e a encontro na pureza. Afasto de mim a tristeza, não me deixo afligir com preocupações, quero apenas agradecer a Quem me concedeu sabedoria – reza Maria em estado de contrição. Não quero mais me privar de sentimentos que a minha alma tem sede. Também não posso confiar em caminhos que não têm obstáculos. Ah! Pai Poderoso aqueça meu coração, não quero causar dor, mas também não quero sentir. Eu amo João. Preciso de Luz, de discernimento.
E o Anjo, no seu pedestal de luz, inclina-se para mais uma vez sussurrar-lhe ao ouvido.
- Grave-o como um selo em seu coração, pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão.

Com o coração aquietado Maria deixa o banheiro. O nariz está vermelho, único vestígio das lágrimas que caíram um pouco antes. Lágrimas de amor, de compreensão, de saudade. Tem trabalho pela frente. Precisa se inspirar para o artigo da semana. Busca a Bíblia. Abre no Cântico dos Cânticos. O amor humano é espelho, sacramento e manifestação do próprio Deus, que se torna presente nos seres humanos que se amam.

Beijos

Beije-me com os beijos de sua boca!
Seus amores são melhores que o vinho,
O odor de seus perfumes é suave,
Seu nome é como óleo escorrendo,
E as donzelas se enamoram de você...
Arraste-me com você, corramos!
Leve-me, ó rei, aos seus aposentos,
E exultemos! Alegremo-nos em você!
Mais que ao vinho, celebremos seus amores!
Com razão se enamoram de você...
(Cântico dos Cânticos)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Eu Não Existo Sem Você

Imagem: Marie-Madeleine, do pintor austríaco Friedrich Heinrich Füger.



Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Carta a João

Imagem: Madalena, de Caravaggio


Hoje acordei com vontade de continuar na cama, de deixar a imaginação passear livre e, quem sabe, entender tudo que me acontece por dentro. Preciso daquele cantinho só meu – o meu sanctum sanctorum – para conversar com Deus, pedir-lhe luz e clareza em meus pensamentos. Para subir aos céus é necessário um mínimo de silêncio e, ao que tudo indica, a programação cósmica para meu dia é outra. O trabalho – estou de férias – vem onde estou e me pede, além do tradicional das terças-feiras, mais três textos: duas apresentações de livros e uma apresentação de CD. Não é o que quero fazer. Não é o que gostaria de escrever. Estou em momento de interiorização, de questionamentos profundos, de acerto de contas comigo e com o tempo. Ainda não desisti de ser feliz, mesmo que essa felicidade chegue por caminhos tortuosos, por uma marginalidade branca. Não quero destruir nada, mas acredito que posso construir uma ponte paralela e ter uma vida alternativa, longe das preocupações diárias.
Mal começo a pesquisar para escrever sobre um importante escritor goiano o telefone toca. Havia esquecido que hoje é dia 15 e tenho que acompanhar uma prima que veio de longe em busca de tratamento espiritual para mieloma múltiplo. Sofro! Por vários motivos eu sofro, mas já há algum tempo entendi que não posso ser Deus na vida dos outros e cada um terá que ter sua própria experiência. Não há atalhos.
Os textos continuam por escrever, tenho pouco mais de duas horas para entregá-los (duas laudas e meia – não é muito), mas antes preciso me esvaziar. Sentei aqui para escrever o quê não sei. Escrevendo posso me ler e aumento a possibilidade de encontrar uma luz para minha angústia. Estou feliz, isto é certo e verdadeiro. O bloqueio é porque nos acostumamos a pensar que a felicidade tem que seguir um rito próprio, padronizado, criado por um monte de gente – alguns até bem intencionados – que nem sempre vivenciou esta intimidade consigo. No meu coração tudo está certo, porque se eu não sou nem o meu pensamento, sou menos ainda o pensamento social. Sou mais que meu pensamento, sou mais que minha percepção, sou mais que meu querer. Pronto. Estou em paz com a minha felicidade, posso senti-la sem culpa. Mas o que faço desta saudade que toma todo meu ser, meu sentir, meu pensar, meu querer? Nossa! Quanto meu, meu, meu. Acho que estou com medo de me perder de mim e estou buscando garantias. Sou humana, portanto, por mais que me esforce no desenvolvimento das virtudes, o egoísmo está presente. Que bela mentirosa eu seria se não admitisse para mim mesma que os possessivos não apareceram por acaso, mas que evidenciam meu estado de alma atual. Entendo que preciso agora me fixar em sentimentos nobres. Talvez, renúncia. Não a renúncia de ser, mas a renúncia dos moldes tradicionais. Descobrir, a cada momento, que o amor consegue romper os limites do tempo e do espaço. Posso fechar os olhos e encontrar você em algum lugar do imaginário. Volto então a ser Maria. Nossos olhares perdidos se encontram, nossas almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. A fascinação deste encontro é como um poema, sedução e paixão. Apenas sentimento e o som universal do piano que agora escuto, introduzindo a música Todo Sentimento.
Posso então voltar ao trabalho!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entre o silêncio e o sentimento

Imagem: Promenade, de Marc Chagall


O avião levanta vôo e Maria seca as tímidas lágrimas que lhe escorrem pelo rosto. Ela não quer chorar. Aquele fim de semana já estava arquivado junto com os momentos mais felizes de sua vida e não justificava nenhum traço de tristeza. Começava ali outra história, sem data para terminar. O contato com a natureza, o local cuidadosamente escolhido, a recepção afetuosa regada a champagne oferecido pela administração da pousada, o reencontro após 40 anos, conseguiam a façanha de interromper o repetitivo filme de preocupações de Maria. Ela percebia a necessidade interior de ampliar o contato com a vida universal e começar a ver o mundo externo de forma diferente, bebendo em fonte de águas puras.

Antes das reflexões que inevitavelmente aconteceriam, Maria revisita, no tempo e no espaço, o sonho vivido nos últimos dias. Sonho é encantamento, e entender a inserção dessa magia na realidade exigiria dela mergulhos mais profundos no rio das almas, para além da consciência comum, com sensações que não podem ser comparadas aos nossos sentidos. Uma experiência individual que derruba todo e qualquer limite e a coloca em harmonia com outra lógica, outra dimensão do amor. Enfim, sentia-se privilegiada sem precisar se esconder do silêncio – seu espião interior. Podia se entregar ao sentimento, certa de não estar infringindo o direito e a dignidade de João, de não estar atendendo primeiro aos seus instintos.

Hoje, em tempos que o tempo se acelera diante das nossas consciências, Maria não precisa se angustiar com o futuro, nem camuflar seus medos, nem nadar contra a correnteza. Pode manter seu coração sereno, sabendo que a natureza seguirá seu curso normal, obedecendo aos ritmos e à harmonia. A vida é um exercício de humildade, de disciplina, de constância naquilo que se faz, assim, ela circula com coragem no seu interior e vive o exterior nos momentos em que é solicitada pela realidade.

Lembra-se de quando criança amanhecer o domingo recitando a quadrinha “hoje é domingo, pede cachimbo"; não se conformava com o trecho que dizia “a gente é fraco, cai no buraco”. O tempo e a vida aos poucos lhe ensinaram que o fraco realmente cai no buraco e esse buraco pode ser bem fundo. No entanto, o “a gente é fraco” é questionável e não necessariamente uma verdade. O ser humano é capaz de realizar a si mesmo, pensar, escolher, arrepender, voltar atrás, fazer de novo. A cada recomeço, a consciência e o aprendizado são frutos individuais, de tal forma que a vida pode ser realmente um buraco fundo ou uma grande ciranda em que se mesclam as vicissitudes da nossa existência com a alegria de viver.

Falar sobre a felicidade é complicado demais, mas sem dúvida Maria pode abordar a alegria de viver como um antídoto do “a gente é fraco; cai no buraco; o buraco é fundo; acabou-se o mundo”. A alegria lhe é próxima; está tão perto dela, que gargalhar não é dificuldade alguma. Ela pode até escolher se quer olhar um quadro de Goya ou de Matisse; mesmo diferentes, os dois artistas conheciam muito bem a existência da luz e da sombra. Opta por Chagall, que pinta o sonho e a fantasia. Pode escolher a fotografia ou o negativo no mundo analógico, mas vive um mundo digital. E sorrir faz bem não apenas na hora da fotografia. Sorrir torna a vida mais fácil. Então, para quê chorar? João não foi embora, ele voltará. Maria deixa o aeroporto confiante, sem receio de ser punida, porque tem a ousadia de sorrir quando o mundo parece desabar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tudo Que Se Quer

Imagem: Madalena
Desconheço o autor



Com Verônica Sabino e Emílio Santiago









Olha nos meus olhos!
Esquece o que passou.
Aqui neste momento,
Silêncio e sentimento.
Sou o teu poeta;
Eu sou o teu cantor;
Teu rei e teu escravo;
Teu rio e tua estrada.


Vem comigo meu amado amigo
Nessa noite clara de verão!
Seja sempre o meu melhor presente.
Seja tudo sempre como é.
É tudo que se quer.


Leve como o vento,
Quente como o sol
Em paz na claridade,
Sem medo e sem saudade.


Livre como o sonho,
Alegre como a luz;
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.


Eu sou teu homem,
Sou teu pai, teu filho,
Sou aquele que te tem amor.
Sou teu par, o teu melhor amigo.
Vou contigo, seja aonde for
E onde estiver estou.


Vem comigo meu amado amigo;
Sou teu barco neste mar de amor.
Sou a vela que te leva longe.
Da tristeza, eu sei, eu vou!
Onde estiver estou
E onde estiver estou.

Para ouvir:http://www.youtube.com/watch?v=9wxYQfOSL3I&feature=related

Todo o Sentimento

Imagem: Madalena (desconheço o autor)

Composição: Chico Buarque e C. Bastos













Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu


Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=k8dRse14hI8

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Padre, eu pequei!

Imagem: Madalena (autor desconhecido)


- Alô. Você sabe quem está falando?
- A voz não me parece conhecida, mas o sotaque é bem familiar. Lembra o da minha terra natal.
- Seria de estranhar se você se lembrasse da minha voz. Há mais de 20 anos que nós não nos falamos.

A essa altura o coração de Maria já batia disparado. Estava casada, com um neném pequeno, e aquela voz, tinha o poder de desequilibrá-la internamente.
- João? É você?

Depois da procissão, Maria se desfaz da fantasia de anjo para assumir sua verdadeira identidade. Uma menina magrinha, bonita, irrequieta, inteligente e muito esperta. Muito católica, ela goza da confiança e admiração do pároco da Igreja que, a despeito de sua pouca idade, confia a ela tarefas de adulto. Feliz, ela coordena toda a movimentação da quermesse. Há mais de uma semana ela trabalhava cada detalhe, fazia escalas, definia atividades e brincadeiras, sempre com o intuito de angariar fundos para a paróquia.
Toda essa atividade e desempenho não passaram despercebidas a seu professor,  um clérigo de apenas 22 anos de idade e muito bonito. Beleza sempre conta entre adolescentes.
Desde que se transferira do colégio das freiras para o colégio dos padres, Maria provocara um verdadeiro rebu na escola, que antes só recebia alunos do sexo masculino. Na pequena cidade, as opções eram poucas, as meninas que estudavam no colégio das freiras, ao terminarem o ginásio, só tinham como alternativa ir para a Escola Normal, ou para a Escola Técnica de Comércio. Se pretendessem uma faculdade, teriam que partir para o curso científico no único colégio estadual da cidade. Já para os meninos era diferente. Eles tinham a opção de continuar com os padres, ir para o colégio estadual, e ainda poderiam estudar na Escola Técnica Federal, considerada a melhor da região, que naquele tempo também só aceitava homens.
Maria não pensou duas vezes, organizou uma comissão e foi para o colégio dos padres pleitear a abertura de matrículas para as meninas. Até então, o único contato entre as duas escolas era no dia 7 de setembro, quando a fanfarra masculina tocava no desfile (e nos ensaios) das meninas. Sempre motivo de muita dor de cabeça para as freiras. A comissão foi tão convincente que o padre diretor abriu uma turma noturna para receber as alunas. Acabou tendo muito mais sucesso que o esperado. Já no primeiro ano, eram três classes mistas. No entanto, não foi tudo simples. Às meninas só faltava enlouquecerem com os aprendizes de padre. Começou então  divertido jogo de cartas na tentativa de tentarem os santos rapazes. Três deles faziam muito sucesso,  e a diferença de idade deles para as alunas não era superior a 5 anos. Maria era "quente" na escrita e escrevia cartinhas para as colegas.

Naquela noite, João, um dos clérigos, estava na quermesse. Não falou com Maria, mas não desgrudou os olhos dela ,  que fazia a farra com o correio elegante. Ela ficou preocupada. Sentia o olhar que a acompanhava, que a desnudava em sua ingênua esperteza. Ela era normal como suas colegas, no auge de seus 15 anos, exuberante em sua beleza, era  natural que também se sentisse atraída por aquele rapaz lindo, bem falante, inteligente, bem educado e de bons princípios. Escrever para ele era fácil. Deixava fluir o que tinha na alma, escudada pelo nome das amigas. Mal conseguiu dormir naquela noite. Sentia que seu coração lhe preparava uma peça.

Domingo. Maria chega à missa no último toque do sino. A igreja estava lotada, mas ela tinha lugar reservado na frente, porque era responsável pela primeira leitura. Ao atravessar a igreja, sente um gelo na barriga. João estava lá, sentado discretamente entre as pessoas e, na simples travessia, ela conseguiu identificar de onde vinha o olhar que a queimava como um raio.
A missa foi uma sequência de pecados, por pensamentos. O pecado por palavras e obras só aconteceria depois da missa, quando João se ofereceu para acompanhá-la até em casa e no meio do caminho disse a ela que se apaixonou pela autora das cartas assinadas com os nomes de suas colegas, mas como professor , ele conhecia o estilo e potencial de cada uma delas.
Antes de chegarem á casa de Maria os dois se sentaram no banco de uma praça e o beijo que trocaram selaria um pacto de silêncio de 22 anos.

- Meu Deus, como você está? Já é bispo? Sempre tive vontade de receber notícias suas.
- Eu não sou sacerdote. Sou professor da Universidade.

A conversa segue o ritmo das lembranças até que foi interrompida bruscamente.

- Preciso desligar, minha esposa está entrando.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sonho

Mulher e Rosas, de Marc Chagall
Poema de Pablo Neruda


Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Benedicite

A dúvida tomava conta do coração de Maria. Pensou muito se iria àquele encontro, já havia decidido, no entanto, sentia medo, suas mãos tremiam, seu coração estava apertado e ela perdia o ar. Tenta lembrar dos exercícios respiratórios, das técnicas de relaxamento, das cores tranquilizantes, mas ainda assim seu ritmo continua descompassado. Era agora ou nunca mais.
Ela chega ao aeroporto atrasada e o vê de costas no mirante, observando as luzes da cidade. Está em forma, discretamente vestido, e assim de costas, a única coisa que ela pode observar é que os cabelos se tornaram brancos. Sente ímpetos de ir ao seu encontro e abraçá-lo, falar da sua saudade, mas sente-se grudada ao chão, com os pés de chumbo. De repente, o rosto de Maria se ilumina. Aquele encontro, adiado tantas vezes, finalmente acontecia. Ele se volta e seus olhos se cruzam. Vencido o impacto inicial, ele lhe estende a mão e sorri com leve discrição ao perceber que a dela está gelada. João sempre foi um cavalheiro. A emoção do encontro lembra ainda aquela corrida desvairada de sua casa até a casa da amiga, quando ainda era uma adolescente despertando para vida.
Naquele tempo, Maria teve que amargar a escolha de João com uma carta, a despedida com um único abraço. Agora ela não quer ser surpreendida pelo acaso, preparou-se durante semanas para entender que viveria com ele também a sua primeira aventura, e depois a vida deveria seguir seu curso normal. Não era um início, não era um recomeço, mas o fechamento de uma vida que não chegou a ser vivida. Em sua existência abriu e fechou parênteses, enfrentou duras rupturas, viveu experiências que voluntariamente não escolheria viver e que muitas vezes a sufocaram e oprimiram. Pensa então de que adiantaria ter vivido tudo isso se não pudesse compreender que lição deveria extrair. Maria e João queriam aquele momento como se fosse o primeiro em suas vidas, mesmo sabendo que o final seria inevitável.
João também evidenciava emoção e sabia que aquele era um momento definitivo para os dois. Não podia mais adiar decisões porque estava ciente da impossibilidade de mudanças. Era aquele momento quando tudo já foi pensado e repensado em detalhes; quando já se dialogou, ponderou, alertou, mas tudo encaminha para o fim. Não é fácil deixar para trás situações, trabalhos e pessoas amadas, não obstante se sentir angustiado, preso, impedido de dar um próximo passo. A palavra certa a ser adotada é decisão e na bagagem estão ainda as decepções, as dores, as incompreensões, as promessas não cumpridas, o medo do futuro, do desconhecido, de ter que enfrentar o mundo, tendo como ferramenta apenas a si próprio.
Mais para João que para Maria esse era um momento difícil. O que fazer quando esta avaliação já foi feita, o medo identificado, a direção a ser tomada já foi escolhida, mas ainda assim falta coragem para a decisão final? Talvez aqui a luta interna - fora do campo da razão - seja a mesma para os dois. Maria também precisa proteger a própria luz para não ser sugada pelas trevas. É o momento de dissociar-se, sair do filme, reprogramar o cérebro para o novo, para as possibilidades que só ela mesma tem como avaliar. João e Maria conversam sobre suas vidas, fazem verdadeiros relatórios, manifestam a saudade que sentiram, mas também falam do fim. Compreendem, finalmente, que tudo passa, não só a vida, mas os problemas, as dificuldades, os momentos felizes, a novidade.
Alguns dias depois, no hotel fazenda que haviam escolhido para o balanço de vida João e Maria se olham com ternura. Foi um jantar simples, romântico, nostálgico, cheio de lembranças. Tudo que era ruim e feio foi esquecido em alguma curva do tempo. Viveram vidas separadas, sofreram os reveses do dia a dia, mas conseguiram se manter com o coração puro, sem mágoas, prontos para vibrar diante da simplicidade daqueles dias. O vento frio ajudou a aproximar os corpos sedentos de afeto.
Maria aconchegou-se àquele peito forte, o perfume gostoso e másculo a deixava inebriada, as mãos seguras lhe davam a certeza que não estaria mais só. Não envelheceriam juntos, mas eram poupados da parte dolorida de todos os relacionamentos. João não seria distribuído na igualdade dos seus dias. Continuaria ali, onde sempre esteve, no cantinho sagrado do seu coração, como um segredo. Finais são quase sempre doloridos, são momentos de análise e avaliação, são momentos de colheita. Final não é briga, é conclusão. Maria e João estavam felizes!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um segredo íntimo

Imagem de Godward


Num mundo perfeito eu estaria dormindo assim, em paz, e nenhum pensamento ruim contaminaria o mundo que encontrarei ao acordar e abrir os olhos.


De repente, instalou-se em mim um cenário de caos emocional. Princípios, ética, consciência, tudo parecia ter trocado de lugar na escala de valores. Passado e futuro marcaram encontro em algum ponto da imensidão cósmica e eu aqui, mísera mortal, procuro explicações para o inexplicável. É nesse espaço imaginário que os olhares perdidos se encontram, que as almas se entrelaçam num profundo e esplendoroso abraço. Não existem diferenças, não existe certo ou errado, não prevalece a lei dos homens. Pouco importa o que o mundo pensa. Não existe velho, nem novo. Não existe feio, nem bonito. Não existe perto, nem longe. Apenas sentimentos tão intensos e imensos quanto o espaço que nos separa. Neste instante mágico somos apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito. Fundimo-nos construindo o amor, além das muralhas das convenções, além dos limites humanos. Como um artista que, embalado pela música, voa para encontrar a sua musa, como a adolescente que esquece o olhar em um ícone qualquer, deixando seu pensamento expandir-se em espirais de luz. Um encontro sem toques. Como em um templo. O amor existe além de nós.
Acordo assustada. Não terei mais o sono restaurador, mas é uma vigília gostosa que traz à memória cenas passadas, lampejos do futuro e alguma clareza em situações presentes. Hoje bailou na minha lembrança imagens da mais linda história de amor que já vivi. Sonhos que revigoram. Desilusões que se transformam em compreensão. Diferenças que se igualam e se desfazem diante do sentimento verdadeiro da união de almas. Entendo que preciso do sonho, da compreensão, da esperança para continuar acreditando no ser humano. De novo as reflexões sobre o tempo. O tempo que gastamos para entender o próprio tempo.
Seis horas. Preciso levantar. Levantar significa exatamente abrir os olhos para a realidade, para a necessidade de sobrevivência, para o eterno aprendizado da tolerância, da superação, da busca da serenidade diante de tantas adversidades.
O tempo será curto para cumprir as atividades do dia. Pulo da cama num salto. Chuveiro, lanche rápido, escolher uma roupa larga, briga eterna com o espelho. Saio de cabelo molhado. Assim começa a rotina do primeiro dia de uma semana que deveria seguir sem alterações. A chuva fina que caiu durante a noite inteira começa a ceder, deve fazer sol durante o dia. Do carro vejo que a lua ainda está firme no céu. Nem percebi que estávamos em época de lua cheia. Adoro a lua cheia. Posso vê-la da janela do meu quarto e muitas vezes ela me acompanha até o início da madrugada. Fico plena. Mas esses dias chuvosos parecem encher de nuvens negras o céu e o meu coração. Ando sedenta de luz!
Dentro de mim, sei que preparo um encontro como o do sonho. Sinto-me novamente adolescente, com a cabeça cheia de fantasias, vivendo em um mundo arquitetado pela imaginação e impenetrável por estranhos. O coração bate desritmado. Sem pestanejar pego o telefone. Aquele encontro, adiado tantas vezes, finalmente acontecia. Estou aqui, ouvindo a voz do homem que povoou minha mente e protagonizou meus sonhos. Não sei como reagir, não sei se expresso minha felicidade ou se me deixo tragar pela timidez. O encantamento que nos envolve parece tão denso quanto o tempo de espera.Uma história que começou a ser escrita em outro tempo e que nos fez vítimas do nosso medo, prisioneiros de um mesmo destino. Talvez o mesmo destino que se encarregava agora de promover um novo encontro. Trago-o escondido, como um segredo íntimo e só meu. Não quero análises, nem perguntas de mais ninguém. Quero-o só para mim. Durante uma hora, um dia, um mês. Quero-o dentro de mim. Na memória.

Segredos que nos unem

Lamia (Waterhouse)




Segredos.
Sempre segredos guardados
que se libertam ao vento
por uma brecha da distração
Ou do desejo
Que é esse vento liberto
Sussurrante
Que leva a escutar a melodia dos dias
Das tempestades e da calmaria
No equilíbrio
Encontrado no desconhecido
Desencontrado
De um encontro sofrido de séculos de desencontro
De vidas nascendo na mistura dos sangues
Enamoramento ou brutalidade
Beleza
De um nevoeiro mágico
que une mesmo sem deixar tudo ver
De um nevoeiro que não apaga o mal
Nem projeta um futuro comum
De adivinhação
De achamento
De todos nós



Entre o silêncio e a solidão, palavras nos faltam, quando cremos poderiam fazer alguma diferença. Depois pensamos, podem mesmo? De que servem as palavras? Elas tentaram quebrar o isolamento e encontraram o silêncio. Elas ecoaram no vazio, perderam-se em algum ponto do caminho. Será? Será, que afinal, poderiam fazer alguma coisa? Talvez apenas isso: elas nos acompanham, depois que já não temos aquilo, mesmo que nunca o tenhamos tido. Esse silêncio de gestos e de toques que se preenche com palavras. Essa solidão, tecida de palavras.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minha vida sem Deus

"Clarie" - Frederic Leighton

Passou-se mais de um mês desde que Maria recebeu o telefonema de João. Nos primeiros dias ela se sentiu extremamente incomodada, as lembranças daquele amor ingênuo e puro povoavam sua mente e inundavam seu coração de ternura. Só recebeu dele uma única carta. Não a guardou, mas ainda sabia de cor todas as palavras: "Você é uma menina de ouro! Posso antever o lar maravilhoso que você vai formar, dá até água na boca, mas escolhi um caminho diferente do seu. É a Deus que quero dedicar cada momento de minha vida. Sei quanto é dura a caminhada, mas sei também quanto vale a pena".
Maria pensava no tempo, que transformou aquelas palavras em ironia. Nem ele se tornou padre, nem ela tinha um lar maravilhoso. Teve uma vida sofrida, estava no segundo casamento que também já capengava. Não era infeliz, tinha conquistado o lugar que buscou no mundo, e o preço a ser pago não era negociável. Uma vida quadradinha certamente não a deixaria satisfeita. Não lhe proporcionaria as experiências e a profundidade com que lidava com as situações adversas. Nada do que se arrepender, nada por que procurar reviver o passado. Sua vida estava ali, na frente dela, limpa, transparente, vigorosa.
Do outro lado, João certamente se culpava por sentir tanta saudade, por não ter tido a oportunidade de estar perto dela no momento que sua vida tomou um novo rumo. Nunca soube explicar a si mesmo se foi a vontade de viver sua sexualidade que o tirou do seminário, ou se sua vocação não era assim tão forte. Não teve muitas experiências amorosas, casou-se logo depois de abandonar a batina, mas os anos reprimidos pareciam explodir com o vigor da adolescência agora na vida madura. Depois de muito debater consigo mesmo decide ligar para Maria outra vez. Tomaria cuidado de deixar o escritório fechado, não queria passar pelo fiasco de ter que desligar o telefone abruptamente. Maria o atende com a mesma espontaneidade, e eles conversam animadamente, quando o marido dela chega. Sem colocar a mão no fone ela retribui o beijo e pede que ele a espere no quarto com as crianças.

- Com quem você está falando?
- João, um amigo meu de adolescência. Há mais de 20 anos que havíamos perdido o contato.
- Dê meu abraço a ele.

O diálogo deixa João sem jeito.

- É o seu marido? Como você consegue?
- Viver, sem necessariamente ter dedicado minha vida a Deus, proporcionou-me um valor muito maior. Sou livre e essa liberdade eu conquistei com a minha consciência. Não estou pecando por conversar com pessoas queridas.

Desligar o telefone era como fechar a porta de um consultório médico, sentindo dor, com o coração sangrando. A impotência esbofeteava sua arrogância. Não tinha como controlar o tempo. A vida, enquanto se é jovem, parece eterna. Somente o tempo e a compreensão dos valores reais podem dar a dimensão exata do prazer que as pequenas coisas proporcionam. Somente o tempo é capaz de mostrar que sua solidão é sempre uma grande solidão, porque é dela. Estas constatações evidenciam a pequenez de Maria diante da grandeza do Ser, coberto ainda por camadas de ignorância, vaidade, egoísmo. Intuitivamente sabe que suas experiências internas a despertam para a compreensão de uma realidade maior, que transcende a consciência comum e as atribulações na lufa-lufa dos dias.

A vida acontece no intervalo entre o nascer e o morrer. O modelo tradicional - crescer, comer, beber, dormir, estudar, trabalhar, casar, ter filhos, criar filhos, aposentar - não promete nenhuma felicidade e embaça a visão do fim. Há uma aura de mistério envolvendo Maria. Sentimentos, sensações, percepções se instalam em sua profundeza, sem que ela saiba como lidar com eles. Busca no recolhimento intuir sobre o significado dessas experiências em sua vida. Isto sim é ser mestre de si mesmo - pensa ela -, é aprender a percorrer a solidão e o silêncio sem medo das próprias sombras; só simplicidade e liberdade de espírito. Não teve coragem de enfrentar Deus, mas tem coragem de enfrentar os homens. Revive momentos marcados no tempo, e cada lembrança é como se abrisse uma gavetinha em seu coração. Seus olhos se enchem de lágrimas de saudades.

Saudades de você, João!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MEU MINUTO

Waldemar LC Moreira®

A mim não interessa
A intensidade do seu amor,
Nem se realmente é amor.
Nem se tem intensidade.
Um minuto só...
Era o que eu queria,
Mas um minuto
Que fosse intenso,
Que fosse inteiro meu,
Numa entrega total,
Num misto de lucidez e fantasia,
Confundindo tudo em você.
E depois desse minuto, meu amor,
Numa comoção tresloucada,
Gritaria ao mundo
Que nosso minuto foi eterno.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A hora da vingança



O estilo era o mesmo. João chegava de mansinho, desmanchando-se em gentilezas, mostrando uma discrição que jamais poderia ser confirmada na vida real. O tempo não conseguiu apagar a mágoa e agora tudo o que ela queria era a oportunidade de se vingar e desmascarar aquele homem. Ainda não sabia exatamente onde iria chegar aquela brincadeira, mas tinha certeza que o faria experimentar a mesma dor, a mesma desilusão.
Foram apenas quatro contatos. O suficiente para Maria perceber que João não valia mesmo a pena, nem como alvo de vingança. Maria era uma médica nutricionista de 45 anos, viúva, mãe de uma linda jovenzinha de 14 anos. A vingança, tão detalhadamente planejada, perdia seu sentido ao observar a fragilidade daquele homem. Era apenas um coitado, ávido, solitário, incapaz de manter relações duradouras e/ou profundas. Tinha limites, mas de alguma forma conseguia encobri-los com máscaras que não duravam muito tempo. Ainda tinha o detalhe da aparência que ele próprio não conseguia superar, a princípio, sempre muito sério, parecia um nerd. Não podia sorrir; faltavam-lhe dentes. Falava compulsoriamente sobre todos os best sellers, demonstrando que não tinha uma programação de leitura e a superficialidade nas análises comprovavam que "burro carregado de livro não é doutor".
Ainda assim, houve uma época em que Maria se deixou levar pela solidariedade. Fez todo o trabalho de editoração e revisão (quase reescreveu) do livro sobre comida, que aos poucos percebeu se tratar de uma tradução de obras americanas e, muitas, conservavam até o ranço dos americanos em relação aos latinos. Maria só percebeu que estava sendo usada em suas habilidades quando terminou o último capítulo do livro, de graça. A constatação a deixou muito irritada, chegou a ter dúvidas da sua lisura ética. Ela teria feito aquilo para qualquer pessoa que precisasse, sem precisar das mentiras, da perda de tempo emocional de ficar levantado a autoestima de um homem sem grandes atrativos.



Esparramada sozinha na cama de casal, entre quatro travesseiros, Maria aproveita a manhã de chuva para um passeio em seu interior. Os últimos tempos não foram convidativos para esses mergulhos; mágoas, desejos de vingança, impaciência, eram sentimentos que fechavam os portais e a jogavam para um isolamento cada vez mais difícil de romper. Não conseguir se ler, de alguma forma, a impedia de se escrever. Se não se escreve, também não se lê e acaba perdida dentro de uma teia tecida por ela mesma.
Busca a saída, mas os momentos de luz se tornam raros.
-Perdoe, ouve, sem identificar quem lhe fala.
Aconchega-se ainda mais ao travesseiro, indecisa se é isso mesmo o que quer. Essas vozes são incômodas e, na maioria das vezes, é muito mais fácil encerrar esses papos apenas ignorando o apelo.
-Perdoe, torna a insistir a voz , certa de que está a incomodando.
Espreguiça-se languidamente, levanta-se, abre a janela para ver melhor o dia, respira o ar molhado, encanta-se com o violeta das flores da quaresmeira, encaminha-se para o banheiro com a decisão tomada.
Esta manhã escura, chuvosa, fria, tem um mérito: trouxe-a de volta à vida.

Esperou muito para poder planejar a vingança, mas uma vez possível, ela se envergonha do seu plano. A vingança se assemelhava à conquista. Concretizá-la seria preencher de vazio a sua vida. Desistir dela, abria-lhe as portas da sua alma para horizontes desconhecidos. Maria entendia o significado da vingança e a desistência a fazia feliz. Maria não era um monstro!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Um vôo de liberdade


A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura a si próprio (Sartre)

Um Triste Resgate

O verão tinha levado João para perto de seus filhos, enquanto o inferno se instalava definitivamente no coração de Maria. João andava monótono, sem vida, sem inspiração. A estratégia de Maria para ressuscitar João estava dando errado e ele, decidido a mostrar que estava realmente interessado na alma de Maria, continuava a agir como se o mundo fosse apenas pensamento. O que se sucedeu foi uma verdadeira serenata e a cada dia ela se surpreendia com a forma sutil como João se revelava por meio das músicas que tocava. Se ele tentou falar, Maria estava surda. Ouvia apenas os gorjeios tristes do seu pássaro cativo.

O poema de Menotti Del Picchia entrou em seu âmago e alterou o rígido esquema de proteção que Maria havia adotado para não sofrer mais. Se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta . Ela (ou ele?) estava se esgotando na tentativa de se fazer compreender antes de calar? Um misto de saudade e compreensão passava a tomar conta de Maria a partir daquele instante. Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro, continuava Del Picchia, enquanto Maria se enternecia com as suas lembranças.

Respirou fundo, olhou-se no espelho da existência. Seria João seu eco e reflexo? Ele ainda tinha caminhos desconhecidos para ela e, além de tudo, seria uma oportunidade para compreender o significado da renúncia e experimentar apenas o sentimento do amor. Amor não precisa dar certo, basta que abra o caminho para entrar no mundo dos sentimentos. O amor irrealizado ainda tem outra característica: pode ser sublimado, universalizado. Transforma-se em mais amor. Amor que acaba é paixão, tesão, que não resiste à mesmice dos dias. Outro suspiro e a conclusão de que se permitiu viver até o final aquela experiência inédita. Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. Que sabes tu do fim?

Aquele será um final de semana diferente. Acordou na sexta-feira disposta a revolver mágoas, mas principalmente, a resolvê-las. Acabou se colocando dentro de um turbilhão de sentimentos difíceis de serem identificados: a mágoa se confundia com dor-de-cotovelo, a raiva parecia amor reprimido, o amor maltratava como se fosse doença, a insegurança se vestia de indiferença. A luta pela verdade parecia uma briga com moinhos de vento. De tudo, ela tinha uma única certeza: poderia não haver resgate, mas a definição acabaria acontecendo.

Agora só consegue sentir de novo aquele vazio enorme. Vai precisar buscar forças extras para conseguir superar tudo. Em compensação, deve dar a aposentadoria merecida ao seu coração. Naquela idade não se pode esperar que a vida seja um conto de fadas, mas a experiência adquirida teria que ser capaz de transformar a relação a dois em um lago azul e sereno. Já que teria que amargar mais um fracasso, seria bom começar a aprender que essa serenidade pode ser conquistada na solidão. Maria merece envelhecer em paz profunda.

domingo, 9 de janeiro de 2011

João também é comum

Imagem: Munch - Two Peoples The Lonely

Maria chega em casa arrasada. Encontrava-se com a realidade, com elementos que enriqueciam seu conteúdo no pequeno círculo masculino em que transitava.
Conversava com desconhecidos, fazia-lhes perguntas íntimas, queria saber como se sentiam diante das adversidades, dos relacionamentos. Eram homens comuns, alguns com o brilho da inteligência, com enorme capacidade de realização, mas comuns. O que os fazia iguais era sempre a forma de se relacionar, de objetificar a mulher, de colocar o sexo em prioridade ao Ser.
Aquela pesquisa a deixava confusa. O questionário era padronizado, com pouquíssimas perguntas abertas, mas de alguma forma ela pressentia que a margem de erro seria mínima mesmo se xerocasse os questionários. As respostas pareciam ensaiadas, ainda que se diferenciassem quanto à religião, ao grau de instrução e à classe social.
Quando se aventurou a descrever o comportamento masculino do homem de meia idade, acreditava que seria uma grande oportunidade de conhecer pessoas diferentes, capazes de exteriorizar as lições que aprenderam na vida. Encontrava homens pacatos, acomodados ao casamento e ao conforto de uma família, raramente encontrava homens apaixonados por suas mulheres. Encontrava homens voltados para a neurótica ascensão profissional, para a vigilância da fortuna acumulada, para a preservação de uma imagem de homem forte e viril. Encontrava homens fracos e desiludidos, viciados mal resolvidos, buscadores incansáveis de uma felicidade utópica, mas não encontrava o homem que queria. Não era o homem perfeito que buscava para ilustrar seu trabalho, mas o homem consciente, que não estivesse correndo atrás do tempo perdido, que procurasse na rotina o encantamento de um amor que se renova e amadurece com a convivência, que o trabalho não fosse a fuga da sua impotência, que o sexo anônimo não acobertasse as dificuldades da parceria constante.
O homem que não aprende com a maturidade está fadado á decadência moral na velhice. Saber viver, com certeza, é preparar o terreno para entrar na velhice com dignidade. É criar valores que sirvam de suporte num momento em que faltam forças físicas para superar a vida. É por ser o homem uma criatura capaz de pensar a si mesmo e de questionar a própria existência que se diferencia dos animais.
Maria estava cansada de tudo aquilo. Queria a rotina, as coisas simples do dia a dia, preparar uma sobremesa especial, tomar um vinho num dia de chuva, curtir a companhia silenciosa enquanto cada um lia seu livro. Não tinha situações semelhantes para lembrar, portanto queria construir cada etapa de uma vida a dois.
Hoje, por alguns momentos, ela acreditou na esperança. Por alguns momentos apenas.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A verdadeira beleza é triste

O ano está no fim. A data é um misto de tristeza e de alegria, de vida e de morte. De um lado a comemoração dos 59 anos de casamento dos seus pais, do outro a saudade pelos três anos sem a presença de sua tia querida. Após o almoço em família, Maria e sua mãe levam flores ao cemitério. Falam de saudades, de preocupações, dos sonhos e pesadelos, e do vento. O vento que parece beijar-lhes o rosto, mas que não permite manter a chama acesa, como se estivesse a lhes dizer que um dia tudo se acabará com um sopro. Ainda estavam reflexivas quando foram interrompidas pelo chamado ao celular.
Em menos de meia hora Maria já estava providenciando sua viagem para o Rio de Janeiro. O motivo bem que poderia ser o Réveillon, a queima de fogos em Copacabana, a reunião com os amigos que também estariam lá. O motivo era bem outro e a passagem do ano foi solitária. Da sacada vê alguns fogos de artifício na orla e na Marina da Glória; mais distante, o pipocar de luzes e cores em Niterói. Nenhum espetáculo. Grossas lágrimas lhe escorrem pelo rosto. Marcava-se naquele momento mais um reinício, no tempo e na vida. Recomeçar, reestruturar, refazer-se, com algumas diferenças, desta vez não precisava reencontrar-se consigo mesma. Há algum tempo suas idas ao Rio de Janeiro não tinham o mesmo sabor e entusiasmo da sua juventude.
Nos dias que se seguiram Maria pôde observar – e aí não sabia explicar se era apenas a sua percepção – que o Rio de Janeiro não era mais o mesmo. Cheirava a mofo, à decadência; as paredes do casario antigo, por todos os lados, estavam infiltradas. Ao subir e descer a Ladeira Nossa Senhora da Glória, observa o muro de pedras musgosas do Outeiro, não pode negar a sua beleza histórica. Entre uma pedra e outra, nascem árvores, plantas, samambaias e as raízes expostas evidenciam o capricho com que a Natureza tece o tempo. Na rua calçada com paralelepípedos sabe que terá que usar sandálias rasteirinhas, porque assim como o Rio envelhecia, ela também. Saltos altos e elegância naquele trajeto, não lhe pertenciam mais. Chegou exausta ao topo.
Mais dois dias e Maria fazia seu caminho de volta para casa. Deixava parte de uma história para trás. Vivenciou momentos de muita dor, de renúncia, de desapego. De despedidas. Pôde compreender que é na memória que ficam os verdadeiros registros e os motivos da angústia; que uma caixa de fósforo de papel, com a propaganda de um restaurante, é mais difícil de jogar no lixo, que um aparelho de televisão ou qualquer outro eletrodoméstico. Que o cheiro de mofo se mistura ao ranço da vida. Buscou forças em esconderijos interiores, sabia que aquela não era a sua história, mas era co-protagonista. Daqui pra frente a sua vida não será mais a mesma.