quinta-feira, 10 de maio de 2012

Não canse quem te quer bem

Imagem: O Relógio, de Salvador Dali



Por MARTHA MEDEIROS  




Uns mais, outros menos, todos passam dos limites na arte de encher os tubos



 
Foi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: Não canse quem te quer bem. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado. Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos causos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica. Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias. Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim. Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída. Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela posar para 297 fotos no fim de semana em Gramado. Todo mundo já sabe como é Gramado. Tirem duas, como lembrança, e aproveitem o resto do tempo. Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto. Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas. Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, guri?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar. Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive-o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Maria, carnaval, cinzas e ressurreição

Nasceu Maria quando a folia não alcançava mais o dia. Em meio às cinzas percebe que como a Fênix precisa ressurgir, retomar sua vida, libertar-se do mau humor, da raiva pela vida. Maria precisava desse tempo de hibernação, e a impossibilidade de viver o seu silêncio a empurrava para um estado de estresse constante. João era um bom companheiro no silêncio e lhe deu o direito de espernear, gritar, revoltar-se com a situação, mas até com ele, Maria conversava pouco. Vivia uma fase difícil, muito pessimista, perdendo a paciência facilmente. Assim como ele, precisava do silêncio para alinhavar seus novos pensamentos. Mas não tinha, mesmo se quisesse, como se isolar. Foi nessa época que começaram a decidir o que ela devia fazer de sua vida, como deveria se comportar, como deveria reagir, como deveria ser sua alimentação. As pessoas achavam que ela estava deprimida, mas não era nada disso. Maria estranhava não ser mais dona de sua vida, mas sabia que existiam fases que ela precisava viver. Ela precisava entender tudo que havia se passado e para isso precisava estar a sós consigo. Gostava de conversar com algumas pessoas, mas havia coisas e situações que a deixavam com a sensação de perda de tempo. É como se soubesse a data da sua morte e quisesse aproveitar cada minuto que lhe reatava apenas com coisas que gostava. Não queria nada que lhe criasse necessidades, nada que a empurrasse para o comum dos dias. Voltar a trabalhar não havia sido uma boa idéia e ela se sentia cada vez mais vulnerável às contingências do ambiente. Maria entendia com grande clareza que não gostava mais de ser jornalista, que seu talento para escrever poderia sobreviver sem ter nada a ver com a inutilidade da profissão. Estava muito cansada e a pressão externa a deixava profundamente irritada. Para sua surpresa, ela não se sentia na obrigação de esconder seus sentimentos. Enfim qualquer que fosse a sua escolha, teria sempre que lidar com coisas boas e ruins. Maria só precisava curtir seu momento, seu silêncio. Precisar desse momento de quietude e calmaria não significava nenhuma crise existencial, antes, significava que estava consciente que a pausa faz parte do ritmo. Significava também, que tinha coragem suficiente para enfrentar a angústia - e até o desespero – da existência. Poderia questionar e nunca encontrar respostas, mas também poderia se satisfazer com possíveis respostas encontradas. Importante mesmo é emergir das reflexões com a alma renovada. Maria acorda naquela quarta-feira de cinzas sentindo-se diferente. Entendia a boa vontade das pessoas em ajudá-la, em se esforçarem para que ela não sucumbisse diante da doença, mas se ela cavava um fosso entre ela e o mundo, o mundo o aprofundava ainda mais querendo que ela fosse a mesma. Ela nunca mais seria a mesma e não conhecia palavras que pudessem explicar seu estado de espírito. Não tinha como pedir desculpas porque estava em processo de derrubada de máscaras. Foram ciclos bem definidos: enfrentou a doença, lutou contra a depressão, buscou o silêncio, irritou-se, revoltou-se, reagiu, acalmou-se, e finalmente, compreendeu que precisava ter paciência. Ainda que fosse estranha a sua atitude, ela se fechara para se proteger, para não sentir pena de si, para conhecer a intensidade e o limite de sua força interior. Não imaginava que isso fosse incomodar tanto. Passou! Está passando...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

És Ferramenta?

Imagem:Kagaya Você que trabalhou, batalhou, criou os filhos, envelheceu... Os filhos cresceram, saíram de casa, você se aposentou... E agora o tempo se estende vazio à sua frente, pouco importa levantar-se cedo ou tarde, não faz diferença, os dias ficaram todos iguais, não há batalhas a travar, ninguém precisa de você... Cada dia é um peso, é preciso matar o tempo, descobrir um jeito de não pensar, pois o pensamento dói, e vem uma vontade de beber, uma vontade de esquecer, uma vontade de morrer... Chegou o momento da inutilidade, e é isso que você não suporta, pois lhe ensinaram (e você acreditou) que os homens e as mulheres são como as ferramentas, que só valem enquanto forem úteis. Ensinaram-lhe que você é uma ferramenta que merece viver enquanto puder fazer. E agora que o seu fazer não faz mais diferença, você se coloca ao lado dos objetos sem uso. À espera de que a morte venha colocá-lo no devido lugar, pois nada mais há que esperar. Você está sem esperança. Mas lhe ensinaram mal, muito mal. Pois nós não somos ferramentas. Não vivemos para ser úteis. Dizem os textos sagrados que Deus trabalhou seis dias para plantar um jardim. Terminado o trabalho, já não havia nada mais para ser feito. E foi justamente então que Deus sentiu a maior alegria. Terminado o tempo do trabalho, chegara o tempo do desfrute. E o Criador se transformou em amante: entregou-se ao gozo de tudo o que fizera. Com as mãos pendidas (pois tudo o que devia ser feito já havia sido feito), seus olhos se abriram mais. Olhou para tudo e viu que era lindo. Pôs-se a passear pelo jardim, gozando as delícias do vento fresco da tarde. E, embora os poemas nada digam a respeito, imagino que o Criador tenha também se deleitado com o gosto bom dos frutos e com o perfume das flores - pois que razões teria ele para criar coisas tão boas se não sentisse nelas prazer? Se há uma lição a ser aprendida desses textos, lição que é que não somos como serrotes, enxadas, alicates, fósforos e lâmpadas que, uma vez sem o que fazer, são jogados fora. A nossa vida começa justamente com o advento da inutilidade. Pois o momento da inutilidade marca o início da vida de gozo. Nada mais preciso fazer. Travei as batalhas que tinha de travar. Nada devo a ninguém. Estou livre agora para me entregar ao deleite. Todas as escolas só nos ensinam a ser ferramentas. Será preciso que você procure mestres que ainda não foram enfeitiçados por elas. Você deve procurar as crianças. Somente elas têm o poder para quebrar o feitiço que o está matando ainda em vida. As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! Desde os seis anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinquenta anos publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver oitenta anos, terei realizado mais progressos, aos noventa penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida. Vamos! A vida é bela. Pare de namorar a morte! Beba a taça até o fim!" Por Rubem Alves Também publicado em: http://wagnerdeluca.blogspot.com/2012/01/es-ferramenta.html

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Começar de novo

Imagem: Kagaya

Hoje tirei o preto do meu template. Busco dentro de mim novas motivações para continuar vivendo e, mais uma vez, descubro que escrever ainda é minha grande paixão. Voltar às histórias de Maria, brincar com o pensamento e a propriedade deles, distinguir um trabalho do outro. Não é uma tarefa fácil para mim que tenho a transparência como escudo. Mas a palavra, ah... ela pode adquirir novos contornos, ter significados diferentes, mesmo que sejam as mesmas. Talvez pelo olhar de quem faz a leitura.
Estou retornando. Devagar. Sofrida com os sucessivos choques de 2011. Se forem confirmadas as profecias maias, 2012 não me reserva mais surpresas. Perdas já fazem parte da minha vida e já perdi a conta de quantas vezes tive que reiniciar. Agora, nesta fase, sinto-me um pouco perdida. Não consigo pensar em projetos a longos prazos. É como se fosse uma defesa, nada querer, nada desejar, nada planejar. Deixar a vida acontecer e o vento me levar para onde soprar. Não estou deprimida, apenas vazia. Contemplativa, para ser mais poética. Imaginei, após o impacto da doença, que seria a mulher mais serena do mundo, que não me preocuparia com mais nada e que promoveria uma mudança radical na minha vida. Como se isso fosse possível. Nunca me senti tão cobrada. Tenho que conversar, quando o que mais desejo é me recolher à minha interioridade. Tenho que sorrir, mesmo se meu coração sangrar. Afinal, sempre fui uma mulher forte e agora sou obrigada a manter a fama.
O mais estranho é que apesar de me cobrarem fortaleza, alegria, as atitudes de muitos mudaram. Tratam-me como ... doente? Todo mundo sabe mais a meu respeito que eu mesma, todos sabem decidir como devo programar a minha vida, o que me falta, o que tenho em excesso, o que devo comer, que médico é melhor pra mim. Qualquer reação de minha parte e logo recebo um rótulo. Sempre procurei ver o mundo partindo das minhas próprias percepções. O que mudou agora? Estou me vendo pelo olhar dos outros? Não tenho as respostas. Ainda. Mas sei que algumas pessoas conseguiram me magoar profundamente neste período pós-câncer. Pode ser que seja carência de minha parte, mas ninguém – salvo a família – está preocupado comigo. Acho que pela minha fragilidade física, alguns pensaram que podiam me falar o que quisessem, me julgar como bem entendessem, me definir como seus próprios reflexos. Em meus momentos de silêncio, aceitei. Achava que precisava ver o mundo com ternura, com compreensão, mas não deixamos de ser quem somos porque temos um câncer, e meu espírito não tem essa passividade dos iogues. Comecei a reagir e, às vezes, até com agressividade. Precisava proteger meu Ser, meu Sanctum, minha integridade. Cultivo princípios e valores que não são fáceis de carregar, mas não uso máscaras. Então, não me cutuque, porque agora, principalmente agora, não tenho mais que engolir disparates. Não me julgue, se não quiser ouvir o meu julgamento a seu respeito, não me trate como doente, se não quiser ver sua projeção em mim. Não morri! Só peço que respeitem os meus momentos de silêncio. Vivo meu período de transição e estou em busca de outras compreensões. Um tempo de pausas e meditação. Um tempo em que preciso girar o foco e voltar para dentro, para minha intimidade. Um ponto em que preciso entender o passado sem saber se há futuro, aliás, passado e futuro tem o mesmo significado de presente. Um tempo que desafia a arrogância intelectual e me proporciona reflexões, acolhimento e a sensação de uma solidão que é amiga. É quando posso chorar as perdas, as mágoas, o desengano, mas que aprendo a contar os dias com o coração mais sábio.
Palavras podem tentar quebrar o isolamento e ecoar no silêncio, no vazio, em algum ponto do caminho. Um silêncio de atitudes que poderia ser preenchido com palavras, fecha-se entre o silêncio e a solidão.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Estou com câncer


Chronos, de Goya
Meus amigos e amigas, pensei um pouco antes de começar a escrever esta nota. Seria uma superexposição, ou um ato de coragem, ou ainda a necessidade de partilhar um problema que pode atingir a qualquer um de nós? Nestes últimos dias parece que estou em uma gangorra. Meu humor sobe e desce, minha coragem idem, minha disposição pela vida adquire contornos nunca imaginados. Recebo mensagens belíssimas, e, mesmo no mundo virtual, os verdadeiros amigos se revelam. Deixo de lado, então, a preocupação com a superexposição. No Facebook mesmo a seleção começou a ser feita. Aqueles que encheram minha caixa de mensagens diretas, que ligaram, que choraram juntos, que fizeram orações, novenas, que se preocuparam com o lado financeiro e se ofereceram para ajudar. Meu coração é realmente muito forte, mas emocionei-me várias vezes. Por estas pessoas, familiares ou não, já teria valido a pena as dores que estou passando. Os que não gostam de mim simplesmente se silenciaram. Não tiveram coragem de expressar “tomara que morra”. Outros sumiram:  deixei de ter o apelo da “poderosa” da Cultura. Quer maior benção que poder conhecer as pessoas por uma situação que se instala em sua vida , e que independente do mundo, vai mudá-la profunda e radicalmente? Esse é um privilégio dos que tem uma doença que causa impacto, como o câncer.
Fiz a minha primeira cirurgia. Retirei um quadrante da mama esquerda e fiquei satisfeita com a reconstrução dela. Ficou bonita, apesar de sentir dores no braço e no ombro. Aguardei com impaciência o resultado da biópsia, com a segurança de que o médico – Dr. Júlio Roberto Bernardes Júnior – tinha optado pelo procedimento correto, sem me apavorar e me transmitindo sempre grande serenidade. Entendi nas poucas palavras, que teria que enfrentar um tratamento por radioterapia, por causa da opção conservacionista. Enfim, nada que me apavorasse, embora ele – o médico – tenha deixado claro que só poderia falar em tratamento depois do resultado da biópsia. Cinco horas em ponto entrei no site do Laboratório para pegar o resultado, e não precisava ser nenhuma especialista para entender a palavra carcinoma. Eu estava com câncer, mas sentia certo alívio em tê-lo extirpado. Minha família – próxima e/ou distante – não me deixou sucumbir. Meus amigos fizeram coro. Tinha ainda que enfrentar o médico para que ele avaliasse de forma segura e definisse o tratamento. Foi um choque!
Cuidadoso, relembrando meu histórico familiar, o médico foi decodificando o resultado: tratava-se de um câncer agressivo, de reprodução rápida e as margens de segurança, que ele havia tirado, apresentava infiltrações. Tratamento: uma nova cirurgia. Só que desta vez para retirar as duas mamas. Meus sentimentos estavam confusos. Nada  explica melhor a vida, que a caminhada que se faz entre o princípio e o fim. A vida está no intervalo e a aventura de viver se consolida nas vivências e experiências. Quando experimentamos determinadas situações, sabemos que elas são íntimas, nossas, particulares. Se por um lado podemos notar as ações concretas, por outro, existe um campo mental que apenas nós temos acesso e que, muitas vezes, sepultam propósitos, dores, incompreensões. Lidamos com um aspecto obscuro da vida que não nos permite um exercício de imaginação futurística, em que dê sempre a lógica. Assim, fiquei ilhada no campo mental, vivendo meu mundinho com pena de mim.
Todos nós, em rápida revisão da própria existência, podemos observar que mesmo mantendo o mesmo cenário, nossa compreensão da vida se altera à medida que amadurecemos ou aprendemos a nos pesquisar interiormente com a consciência desperta. Ter câncer nos obriga a essa caminhada interior. É neste momento que o amadurecimento nos dita regras mais seguras e consistentes, mostrando-nos a circularidade dos comportamentos humanos. O tempo vivido nos mostra que a vida continua, mesmo com pontos nebulosos, indagações que não encontram respostas e pensamentos que surgem do nada. Mas a percepção continua sendo pessoal, mesmo que os fatos e acontecimentos sejam os mesmos para diferentes pessoas.
Não é regra geral e válida para todas pessoas, mas quero aproveitar este período para chegar ao ponto mais profundo de mim - chame esse ponto do nome que quiser -, espero desenvolver cada vez mais uma íntima convivência com o Deus de meu coração, de minha compreensão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pago o preço

Maria Madalena, Georges de La Tour

Roteiro

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha, "Poemas" Editorial Inova, Porto, p.196


Pago o Preço

Na constante batalha da vida, nem sempre sou capaz de identificar quem é meu real adversário. As dificuldades que enfrento dependem da forma como as recebo e compreendo. Se partir de mim para compreender o mundo, posso entender que sou minha maior inimiga. Sou meu defeito, minha limitação, meus medos. No entanto, observo que nem todas as pessoas estão voltadas para seus sentimentos internos ou preocupadas em lidar com eles em busca de melhor convivência. Sexo, dinheiro e poder são metas que determinam comportamentos e códigos pessoais de ética. No fundo, percebo que a luta interna se resume aos instintos de sobrevivência e destruição: vida e morte, luz e sombra.
Poucos conseguem uniformidade de comportamento, sem prejuízo – em algum momento – de seus princípios ou objetivos. Realizar o prodígio do equilíbrio em um mundo tormentoso, com certeza torna os homens raros, verdadeiras obras-primas. Nem uma palavra, nem uma linha, nem um passo em falso. Nada que possa ser explorado contra os interesses da humanidade. Esta seria uma possibilidade para aqueles que tem cabedal de virtudes interiores. Na vida, estou sempre representando papéis – impostos ou escolhidos por mim –, constantemente remando contra a correnteza. Momento em que a pedra arremessada tem a força da realidade e o peso da minha incoerência. Ir contra meus próprios valores causa-me sofrimento interno.
Preparo-me para envelhecer com dignidade. Os princípios éticos, que nortearam minha vida, não deixam brechas para arrependimento ou recomeço. Fiz minhas escolhas, criei mecanismos de defesa para me adequar à realidade. Muitas as preocupações que começam a assombrar, principalmente, a econômica, com inevitável redução da renda a que se expõe o aposentado. O mundo parece girar mais rapidamente. Os avanços da medicina acenam a um tempo de vida mais longo. Tempo que, para muitos, simboliza o prolongamento da batalha quando o viver já não registra a esperança de dias melhores. O mercado de trabalho não consegue absorver a população jovem. Os mais idosos significam excedentes na mão de obra, embora a idade seja, em si mesma, um trunfo, prerrogativa de experiência, conhecimento e percepção.
Tudo que escrevo, desvio para a vida interior, mas o mundo não está preocupado em conhecer o luminoso e terrível significado da guerra interna. A realidade dual me incita a lutar, dentro de mim mesma, contra minhas imperfeições. Difícil é identificar as situações, porque elas se camuflam. Nem sempre são o que parecem. Quando brigo desesperadamente pela vida é quando mais me aproximo da morte. A energia sexual – que acreditava extinta em mim –, a energia criativa e, consequentemente, de vida, corre o risco de ser desviada para degradações ou formas mais sutis. Eu escrevo. Apesar de parecer que isso é bom, por produzir a sensação de prazer, não estou convicta de não violar leis.
Todos sentem, todos veem, todos sabem admirar minha coragem, a fidelidade aos princípios, mas poucos compreendem a complexidade do conflito para me fixar uma linha de conduta. Não posso desistir da luta, entregar-me à morte e ao desânimo. Quero viver. Por você. Por nós.

terça-feira, 15 de março de 2011

Que venha o outono

Imagem: The Leaf, Elizabeth Forbes (1897-1898).


Foram dias sofridos, marcados pela dúvida. Maria não consegue sequer escrever, perdida no emaranhado dos seus pensamentos. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que ela só consegue fechar os olhos e pedir a Deus que lhe dê discernimento. Está visivelmente em seu limite e, por mais que procure, não consegue encontrar uma área da sua vida que esteja realmente serena. Trabalho, família, amor, tudo tem uma marca de angústia, tudo está em compasso de espera. Não consegue ler também. Uma rápida passada em frente à TV arranca-lhe lágrimas doloridas: chora por ela, chora pelas notícias, chora pelo Japão, chora pela humanidade. Acostumada a percorrer os labirintos da alma humana, Maria se vê, mais uma vez, diante de si mesma, precisando lidar com conceitos de moral, de lealdade, e, infalivelmente, com a verdade. Pensa em conversar com João, quem sabe aqueles detalhes reveladores, escondidos nas justificativas, venham à tona. É complicado falar das fraquezas do ser humano sem resvalar-se nos próprios reflexos e Maria parte do princípio que só identifica nos outros aquilo que tem nela mesma.
– Posso sair na frente, admitindo os meus erros, pensa ela.
Ledo engano. Maria não consegue conversar com João. Ele desvia o assunto para amenidades e a faz parecer uma pessoa complicada, daquelas que criam chifres em cabeça de cavalo. Pela primeira vez Maria o acha vaidoso. Ela também seria vaidosa? Onde e o quê é que estava “pegando”? Porquê não conseguiam se entender? Era evidente que o bloqueio não era apenas dele. Maria estava em um turbilhão de pensamentos e João deu a pista com um simples comentário.
– Para mim está tudo bem, mas você está recebendo pouco de mim e isso não a está deixando satisfeita. Por isso está angustiada.
– Não é apenas isso, responde ela, a verdade bate na minha cara. Fico procurando defeitos em você para justificar minha desistência, mas acabo os encontrando em mim mesma. Há pouco, achei-o vaidoso, mas mesmo a vaidade tem dois lados. Vista de forma positiva é autoestima, de forma negativa é orgulho. E neste momento, nós dois, vaidosos, nos colocamos em lados opostos.
– Minha Vida, não complique as coisas. Vamos levar as coisas com serenidade, vivendo o que nos é permitido viver e com a alegria que marcou nossos primeiros encontros. Aos poucos, vou me acostumando às suas alfinetadas. Tento entender que a sua crítica afiada não tem o sentido de denegrir a mim, mas é uma máscara que você usa para compensar a carência, a sensação de desamparo. Eu também me sinto carente, talvez não da mesma forma que você. Minha solidão é outra. Meu silêncio grita e delata outras situações.
Fragilidade e impotência estão presentes em todos nós. O outono está próximo, o sol radiante depois das pancadas de chuva será mais raro e, aos poucos, o que hoje é verde dará lugar ao alaranjado, com matizes em musgo e marrom. Maria se sente contagiada, desde já, pelo ciclo da natureza. Está no outono da sua vida. Na natureza isto significa o tempo de preparo para enfrentar dias frios e sombrios. Na vida também. Humana que é, sabe que terá que se equilibrar nas estações da existência e ser capaz de enxergar o belo no escuro e decodificar, pela linguagem da arte, a cultura da sombra.
– Tenho pressa de viver.
O tempo que tenho pela frente é precursor de horrores e não posso deixar que mágoas e raivas sejam interiorizadas e expressas em detrimento da harmonia do cotidiano, conclui Maria. Em sua maneira de simplificar as coisas, em amenizar – melhor dizendo –, João lhe mostrou ser capaz de abrir caminhos alternativos que lhe permitem trafegar em todos os reinos físicos e psicológicos, com maturidade interna. Maria entende que o ser humano não pode ser aprisionado por estereótipos porque é livre para agir e reagir. Não há regras fixas de comportamento, mas Maria pauta sua vida no bem coletivo. Quando o assunto é a emoção, o comportamento humano não se enquadra em nenhuma expressão matemática de resultado exato. Na nossa cultura, em que o novo e o descartável são supervalorizados, a serenidade madura ocupa outro espaço. De novo, Maria tem a oportunidade de exercitar sua habilidade em trafegar entre o novo e o antigo, entre o moderno e o tradicional, entre o maleável e o estratificado. Se por um lado, inventamos mecanismos para facilitar nossa sobrevivência, inventamos também a arte, um instrumento para alimentar o espírito, para nos distrair de um mundo duro e chato. Pela sua escrita, Maria se propõe a ir além do humano e criar o encontro entre o sutil e o belo. É verdade que o momento tende ao cinza, mas o importante é entender que o sentimento do outono não está, necessariamente, ligado ao declínio, mas ao sentido e ao significado que se percebe com o olhar experiente. Parabéns João! A sabedoria pode ser bem mais simples que imaginamos.

domingo, 13 de março de 2011

A guerra de Maria

Imagem: autor desconhecido

-Repete se for macho.
-Bêbado!! E ainda grita o nome bem alto para todo mundo ouvir!
-Seu burro, covarde, cretino, imbecil!, grita João jogando a mochila em Carlinhos. Poderia ser uma briga comum entre crianças, mas as ofensas eram típicas de gente grande. De longe, Maria observa as crianças em silêncio. Pensa em intervir. Aliás, no seu íntimo, pensa que só vai interferir na briga se João estiver apanhando. Enquanto ele estiver batendo, Maria se sente, de alguma forma, vingada. Nada a ver com aquela história, mas a cena a remete à única vez em que rolara na rua batendo (e apanhando) em uma colega de escola. A cena, hoje, permite análise diferente da que fez quando menina. A bebida fez parte de sua infância, de sua adolescência, de sua vida madura, de sua primeira gravidez, de seu primeiro divórcio. Era um fardo pesado demais para ser carregado, até entender que o problema estava única e exclusivamente nela. Ninguém precisava sofrer tanto por tão pouco. Ela sofria. Sua autoestima ia ao chão, como se fosse ela a se arrastar com a bebida. Desvencilhar-se desse sentimento de menos-valia não foi fácil. Entender-se como pessoa independente dessas circunstâncias foi verdadeira guerra interior. Mas conseguiu.
A liberdade significava para ela, nesse instante, o resgate de pessoas muito queridas, muito amadas, que acima de tudo precisavam ser compreendidas e respeitadas. Foi preciso sofrer para conseguir sair de seu mundinho e perceber que existiam outras pessoas no universo, com sentimentos tão contraditórios como os dela. Que travavam lutas diárias, assim como ela, para conseguir percorrer seus próprios labirintos. Umas precisavam de muletas como a bebida, outras usavam drogas, outras usavam desculpas socialmente mais aceitas. No fundo era tudo a mesma coisa.
O ser humano cria mecanismos de defesa, procura justificativas para suas atitudes e, na maioria das vezes, é complacente consigo mesmo. O autoenfrentamento é sinal de coragem, mas os mais conflituados são aqueles que mais se buscam. Maria havia aprendido a lidar com gente assim em grupos de apoio a pessoas com depressão. Aprendeu a amar o ser humano, embora reconhecesse em muitos a maldade programada e consciente. Tinha pena desses.
Maria não sabe exatamente quanto tempo durou suas reflexões. Os gritos das crianças a tiram do alheamento e a colocam de volta à realidade. Os dois meninos estão rolando no chão. Não dá para saber quem está ganhando a briga. Naquele momento, Maria entende que são apenas duas crianças aprendendo a viver como os adultos. O que ela está fazendo ali que nada faz para mostrar que o mundo não é apenas essa m... que aparenta ser? Percebe que de novo andou dando voltas em torno de seu próprio umbigo. Sente as lágrimas correr em seu rosto e vai ao encontro dos garotos. Separa os dois, espanta a platéia, leva-os para lavar as mãos, secar as lágrimas, fazer as pazes e os convida para, juntos, tomar sorvete.

domingo, 6 de março de 2011

Nós


Imagem: Apollo e Daphne, de Waterhouse
Poema de J.G. de Araújo Jorge


Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...

Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?!

Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!

E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Tudo em mim dói

Imagens: Goodward

Como previsto, Maria se encontra com a dor, mas o amor não se altera com o passar das horas ou das semanas, nem se deixa estremecer diante das tempestades, ou se curva diante das forças contrárias. A impressão que Maria tem é que tanto faz se começou ontem ou há mil anos. Nem ela, nem João, são servos do tempo, embora vítimas. Hoje eles sabem muito mais um do outro, estão juntos, por isso é difícil dizer adeus e perder tudo que viveram. Maria e eu marcamos então um encontro para, mais uma vez, buscar explicações, porque é cansativo viver sem vírgulas. Maria respira a existência de João 24 horas por dia e só coloca mesmo pausas teatrais para que ele não enjoe dela. O desejo era bem outro. Queria esquecer o relógio.
Encontro-a com desarranjo intestinal, olheiras bem marcadas, inapetente e com fortes dores no peito. A tristeza é visível em seu olhar e, justamente nesse dia, ela terá que gravar um programa para a televisão. Não quer ser delatada. Chora escondida, e para não ceder ao desejo, desliga até o celular. Voltará a ligá-lo no final da tarde. Ainda não está pronta para a separação. Seria tão mais fácil se estivesse desiludida, decepcionada com João, mas não é nada disso. Mais do que nunca ela admira João, e amor para Maria começa com a admiração, que desperta o respeito e desencadeia uma série de sentimentos bons e verdadeiros. João é paradoxo. É, ao mesmo tempo, simples e sofisticado, velho e menino, rei e escravo, alegre e triste (aqueles olhos não a enganavam). João é como um pássaro cativo, seu gorjeio preenche o coração de Maria. João também é de barro, está sem tempo reformando a casa da esperança. João é como o santo, acende a fogueira do seu coração. Maria ama João. Sempre o amou. Mesmo sem toques, sem proximidade física, sem poder, sequer, validar se a sua imaginação é semelhante à realidade. Maria perde o brilho do ouro. Sente a dor íntima e inconfessável de ter sido enganada pelos próprios critérios. Está revoltada com a mediocridade da sua vida e se promete mudanças.
 - É verdade, Maria, mas antes é necessário conter seu espírito impulsivo, manter a calma, cultivar a paciência. Não se esqueça que está no sétimo período! Destruir para construir depois. Caos total! Procure manter a serenidade, sem querer precipitar o que pensa que será o fim.
 - Eu não imaginava que resgatar João, na memória e na vida, significaria um exercício de transcendência do amor. Foram novas emoções. Agora preciso esquecer. Foi um sopro de vida. Eu queria me sentir bonita de novo. Iniciei uma dieta, até batom tenho usado, reclama, sentindo pena de si mesma.
 - Querida, você despertou a mulher que insistiu em enterrar, na esperança de não sofrer mais. Viver é isso mesmo: expor-se às emoções, aos sentimentos, aos desejos. A Maria que conheço encontrou um porto seguro para desembarcar com sua bagagem poética. Isso é muito bom, não deixe acabar. Faça de João apenas o estopim para sua explosão criativa.
 - Ah se fosse assim tão fácil... Enquanto só amei João, ele era realmente minha fonte de inspiração. Fui longe, eu o toquei, fui tocada. O cheiro de sua pele ainda está entranhado em mim. Eu o desejo. Estou viva, apaixonada, com sede de afagos e beijos. Contida, é verdade, mas dentro sou barril de pólvora.
 Maria percebe que, desde que optou por colocar João como homem em sua vida, seus hormônios parecem descontrolados. Ela é mais olhada. Às vezes ouve algum comentário sobre o brilho dos seus olhos, ou sobre a sensualidade da sua cruzada de pernas. Observações sempre muito discretas, ainda que galanteadoras, porque há muito Maria criou muralhas que a separavam dos desejos comuns. Tudo isso coloca em erupção o vulcão que tem dentro.
A noite foi longa e fria. Maria não conseguiu dormir. Rolava na cama à procura de João. As imagens do sonho se misturavam aos ecos da realidade. Maria acorda cansada. Olha com desânimo o chuveiro, ainda sente frio. Com a alma em frangalhos espera notícias de João. Ele resolveu quebrar o silêncio. Maria bebe palavra por palavra, enquanto grossas lágrimas lhe escorrem pelo rosto sem maquiagem alguma. A cada frase, mais dor! Uma dor que se mistura à ira, ao amor irrealizado, à vergonha de ainda continuar querendo, ao desejo de se entregar a um amor proibido. Terá que conviver com suas sombras. Nem Deus poderá livrá-la de seus pecados, mas como confessá-los? Há um vazio enorme em tudo que Maria olha. Ela fecha os olhos num gesto de fuga de tudo que a cerca. Sozinha, na escuridão que sua alma se encontra, ela se deixa levar pelos caminhos do inconsciente. São vários os porões da sua alma.
 - Ah! João, quanta falta você me faz!, suspira conformada.
João deve estar agora buscando sua paz em meio ao verde, aos sons da água viva dos rios e cachoeiras. Maria experimenta, conscientemente, sentimentos pouco nobres. Sabe agora o que é a inveja. Sente profunda inveja da mulher que tem a propriedade de João. Da inveja ao ciúme, o movimento é menor que o de um peão no jogo de xadrez. Pássaros, anjos, músicas das esferas, nada disso tem importância. Maria vive um inferno. Não tem a alma de João e nem seu corpo. Terá que se contentar com migalhas de um amor que nunca será seu. Maria está mais só do que nunca.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A prece por Maria

Poema e pintura: Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

http://anegraamajesus.blogspot.com/



Súbita rainha.
Maria de Deus,
Maria das dores,
Maria das honras,
Maria das mães.
Maria das graças,
Maria das pretas,
Maria dos famintos.
Marias somos.
De todos os filhos e filhas,
De todos os calvários,
De todos os ventres.
Livrai-nos, senhor,
De todos os maus agouros.
De toda sorte de padecimento junto ao pé do Criador.
Acaricia meu pequenino rosto de menina,
Veja onde a sua graça me tocou.

Mariazinhas...
Enfeitadas de graças,
Enfeitadas de carne,
Enfeitadas de flor.
Enfeitadas de espinhos,
Enfeitadas de cruz,
Enfeitadas de dor.
A hora do amor,
A hora profunda da dor...
Filhos pari,
Amores perdi.
Meu corpo secou.
Maria, levanta,
A cruzada apenas começou.
Maria da força,
Maria da caça.
Maria, acorda.
Tua força,
Teu pulso leviano,
Tua âncora sem cor.
O teu nome, Maria,
Foi teu deus que ordenou.
Não fuja, Maria, da trincheira.
Reserva, Maria, a tua glória final.
Em nome do pai,
Teu parceiro encantado.
Em nome do filho,
Teu rebento encarnado.
Em nome das rosas
Em teu útero geradas.

Amém.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ninguém sabe a dor que sinto

Imagem de Munch



Os últimos dias não foram risonhos para Maria. O clima chuvoso, cheio de nuvens e escuro a atingem como um petardo de guerra e tudo que ela deveria ter pensado antes, vem à consciência agora. Está irremediavel- mente apaixonada. Não é o amor que a faz sofrer, mas a paixão. Sofre duplamente, por que a paixão, “posto que é chama”, está fadada ao fim e, ainda, por que a distância a impede de alimentar o fogo. Que sei eu do fim para fazer previsões? Uma visão otimista diria que a paixão vai passar e o amor vai se fortalecer, alicerçado pelo genuíno desejo de ver João feliz. É verdade. Palavras que consolam.
João já é feliz sem Maria. Sabe lidar com suas influências aquarianas como ninguém, sem perder o foco da objetividade, do utilitarismo. Pela primeira vez, desde que se encontraram Maria tem medo de sofrer. O medo, por si só, já é sofrimento. Natural, portanto, essa angústia generalizada e sem motivo aparente, mas que assusta. A angústia desequilibra a nossa dinâmica psicológica, provoca transtornos mentais, dá a sensação de aperto no coração e o medo que não sabemos de quê. Certa está que estas sensações fundamentam a condição humana diante da liberdade absoluta, da morte ou da distância.
Ronda-me a morte e é difícil seguir em frente quando nos sentimos em estado de desamparo, quando nos falta convicção de que podemos sobreviver por conta própria, nutrindo-nos dos conteúdos internos, sentimentos e pensamentos que nos identificam. Afirmei que João é feliz, mas coloquei-o numa condição objetiva. Fui rasa. Todos nós, em maior ou menor intensidade, somos constantemente desafiados a nos olhar no espelho, a ficar diante de nós mesmos e responder as perguntas que mais evitamos. Podemos até tentar empurrar com a barriga, mas só conseguimos adiar a crise. Passear na alma de João é um risco, uma incógnita. Ele sabe guardar bem seus sentimentos e dúvidas. Vive. Se isso lhe basta, basta a mim também. Sorte a nossa que o inconsciente não se deixa corromper pelas facilidades.
Maria sempre olha João com amor. Não o rotula pela educação, cultura ou conhecimento, mas pela sua capacidade de administrar conflitos – se é que os têm –, de forma que sua vida não se sustenta no que o outro pensa. Na realidade, a vida de Maria também não, mas ela tem o hábito de mergulhar em águas profundas para se encontrar com sua vacuidade, sua inexistência, sua angústia da ausência. Reconhecer as diferenças entre João e Maria, no entanto, não me dão autoridade para qualquer julgamento, uma vez que nem todo o conhecimento do mundo seria capaz ou suficiente para me representar diante do abismo da identificação. Também eu procuro pela harmonia interna, pelo resgate da minha identidade.
Desde que eu, João ou Maria, aceitemos o desafio de derrubarmos o mundo que construímos baseado nas pessoas que amamos, colocamos em xeque os nossos alicerces. Sinto que é possível, sem alterar o visível, desnudar-nos do aparato lógico, encontrar novas possibilidades e experimentar a sensação de liberdade. Uma liberdade que, segundo Sartre, “não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo, mas o radical da mais íntima estrutura da existência, separado de todos os outros”. Não sei como se faz isso na prática.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O pecado e doce prazer da gula


Imagem de Botero

15 dias sem colocar doce na boca... Uma vitória para esta formiguinha. A história é antiga, já foi publicada aqui, mas a função é me lembrar que a dieta continua.


Santo Deus! Não me deixe cair em tentação. Dietas são sempre complicadas. Traz à tona a Síndrome da Mulher Mal-Amada. E a saudade de um tempo não vivido, que só se conhece por meio das obras de arte, quando as belezas retratadas eram mulheres cheinhas, de formas arredondadas e de carinhas satisfeitas. Comer, nos dias de hoje, realmente é um ato de coragem. Regra geral, depois dos 50, o maior pecado que assombra a mulher é o da gula. Um absurdo! Gula? Porque será que deram ao ato sexual a característica de "comida"? Que estranha relação é essa que afasta mulheres e homens dos saudáveis prazeres da mesa e da cama? Se quando um falta, o outro supre?
Ah! A mulher mal-amada não consegue mesmo se esconder sem sofrimento.
A Primavera se aproxima e logo depois o Verão. Não terei como me esconder em roupas largas. Certamente não pretendo ser uma modelo esquálida, mas quero usar e abusar da elegância. Em casa, o filho mais velho olha de forma repreensiva quando lanço lânguidos olhares para a sobremesa. A filha caçula, complacente, até tenta agradar.
- Mamãe godinha... mas é tão monita!
Fico olhando para o pé de jabuticaba. Alguns frutos estão maduros, não engordam, mas sonho mesmo é com deliciosas truffas, sorvete com muito chantilly, ou mesmo os deliciosos doces caseiros da minha mãe: banana, goiaba, abóbora com côco. Ambrosia. Porque não? Hum! Que tentação!
Na sala ao lado ouve sua amiga rosnar.
-Eu quero chocolate! Não aguento esta Síndrome de Abstinência!.
Gargalhada geral.
-Abstinência de quê?
-De marido, de comida, de doce. Sou chocólatra assumida! Desse jeito acabo virando um coró.
Nessa luta contra o vício não se pode deixar de lado a análise que mais uma vez as mulheres são mais generosas. Seus homens podem engordar, criar barriguinhas e barrigões, perder todos os cabelos e nem por isso são chamados de feios. A mulher certamente sabe amar melhor e mais intensamente que os homens. Bela herança deixamos para os nossos filhos. Definitivamente, essa escravidão à estética tem que acabar. Por isso mesmo, resisto a todas as tentações, tomo um café com adoçante. A dieta vai continuar. Afinal, tenho pés pequenos, se liberar a boca eles não conseguirão me suportar.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Maria e eu

Imagem de Tolouse Lautrec


Nem todos os dias amanhecem com sol radiante, com algazarras de pássaros, música no ar. A Natureza também obedece a seus ciclos e faz chover, escurecer, calar os bons sons. Troveja lá fora e em mim. As janelas estão fechadas para a tempestade e dentro de mim também. Não vejo o relâmpago lá fora e, em mim faltam lampejos de luz. O dia amanheceu triste. Para mim e para Maria.
Encontro Maria no saguão da Igreja, após a missa. Acontece ali uma apresentação da orquestra de câmara. Sentamo-nos a um canto, embaladas ao som dos grandes clássicos, para conversar sobre nossas últimas experiências. Maria representa a esperança, o sonho, a vontade de realização, e eu, a mente pesquisadora querendo lhe invadir a alma. Somos, ao mesmo tempo, o complemento e a diferença. Invejo a capacidade de Maria de começar, começar sempre. Comento com ela sobre o constante recomeço e ela explica que nunca recomeçou.

- Recomeçar significa zerar tudo e voltar atrás fazendo um novo início, mas o que já vivemos não é possível apagar. Então, estou sempre começando, com uma nova compreensão, outro olhar, outro ambiente.

Maria diz invejar em mim a capacidade de aceitar a vida sem que a luta signifique guerra, pela habilidade da eterna transformação do cotidiano em palavras. Conversamos sobre ética, sobre valores que, hoje, parecem não pautar mais o comportamento das pessoas.

- Em todas as camadas hierárquicas, a necessidade de sobrevivência tomou o lugar da ética e o ser humano não tem mais tempo de apreciar o outro lado da vida, comenta ela.

Já encontramos o cenário pronto quando chegamos para a vida, mas esse cenário não existe apenas para o passado e o presente. Ele está pronto, inclusive, para muitas das etapas futuras. Não é tão fácil como parece desvencilhar-se das tendências da massa e ter pensamento e luz próprios. Algumas situações são ainda mais constrangedoras, pois não adianta fazer a coisa certa, porque está estabelecida outra forma para a sobrevivência e convivência, que nos deixa com a sensação de sermos inadequados para o mundo. Comento então com Maria que a humanidade parece ter um ritmo, que não é necessariamente o nosso.

- Gente é gente, no oriente e no ocidente, e sempre terá que lidar com a dualidade de tudo que existe, procurando o equilíbrio e a sensatez. Mesmo aquele que tem a percepção mais limitada é chamado, em algum momento, a participar da vida, sem representar papel algum.
- É chamado, mas pode recusar o convite e continuar a sua vida dentro dos limites que se impôs, completa Maria.
- Não seja tão dura.

Assim, reconhecemos que passamos por períodos de transição, ela e eu. Percebemos o quanto somos resistentes às mudanças. No entanto, há um momento em que colocamos o passado e o futuro em um mesmo ponto: no presente.

- O tempo inibe a nossa arrogância, enquanto senhores do mundo, quando não permite ser palpável.
- Somos corajosas. (Risos). Olhamos em nossos espelhos sem tentar esconder nossos lados sombrios e arrancamos, sem titubear, as nossas máscaras.
- O mundo está aí, cheio de contrastes, mas podemos escolher de que lado viver, que papel representar e, nós escolhemos construir nosso ser e prepará-lo para buscar a serenidade.
- Humanas e falíveis. Erraremos ainda muitas vezes, mas sempre tentando acertar.

O tempo passou sem que percebêssemos. Emocionadas com o reencontro, com o elegante espaço que nos cercava, com a música envolvente, com a conversa intimista, fizemos um acordo: não nos abandonaremos outra vez.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Homem e o Tempo

Imagem: Melancolia, de Munch


Na porta do mundo
Há um homem sentado.
Está ali há tanto tempo
Que criou raízes.

Diante do tempo,
O medo da morte.
Indefinível
Ser e estar
Tempo e espaço
Vida e morte.
Limites do homem.

Atrás do tempo
O mundo não pára.
Dia e noite
Noite e dia
Em tudo há ritmo.
A vida passa rápida

Passa a criança
passa o sonho
Passa o jovem
passa a coragem
Passa o Ser
passa a hora.
Passa o tempo
Passa o tempo?

Passatempo
O tempo que traz
O tempo que leva
Então passa a vida.
Fica só saudade!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Intimamente intenso

Imagens de John William Godward


Mal os primeiros raios da manhã despontam no horizonte e Maria acorda. Bem antes do horário habitual. Está especialmente triste. Especial usado aqui, como João sempre frisa, no sentido de ter alguma significação, de levar coisas boas. Ainda que seja muito especial, é uma tristeza. Profunda. Maria tenta passear por seus labirintos mentais à procura dos reais motivos. Seu corpo chora com saudade. Sua alma pede alimento. Pensa que precisa comprar dois livros para presentear João: O Amor nos Tempos do Cólera, de García Marquez, e Auto de Fé, de Elias Canetti. Levanta-se com a firme idéia de pedir pela internet e mandar entregar no endereço dele. Já ao computador lembra-se que não tem o endereço. Precisa esperar. O tempo de espera começa então a produzir seus questionamentos. O tempo chega para todo mundo e quando amadurecemos adquirimos a sabedoria de nos recolhermos. A cada recolhimento, a quietude interior nos proporciona reflexões, acolhimento e a sensação de uma solidão amiga. Aprendemos a chorar as dores das perdas, a mágoa, o desengano e infalivelmente aprendemos a contar os nossos dias com o coração mais sábio.
Maria não sabe se vai comprar os livros. Talvez o momento seja adequado para uma releitura, e isto também será um desafio para ela. Sempre ávida por leitura, indisciplinada – não gosta de parar quando começa – nunca achou sentido no retorno a um mesmo livro, a não ser que fosse para pesquisa. Certamente este era momento de pesquisa de si mesma, seus valores, suas dúvidas e suas certezas.
A improdutividade do dia anterior a deixava com sentimento de culpa, principalmente em relação a João. Ela o atrapalhava. Do mesmo modo, a presença distante dele também a perturbava. Precisava colocar as emoções no lugar, reequilibrar-se, mas não sabia como fazer isso sem quebrar a aura de sonho. Não apenas ouvir as palavras, as entonações, mas ouvir as pausas, os intervalos silenciosos, como lê as entrelinhas. A intenção era apenas superar a distância, dar a impressão de que estavam próximos, mas a estratégia estava dando errado. João e Maria precisam encontrar outra forma para alimentar o amor que sentem, ou deixar que ele morra de inanição. Para João esta é uma possibilidade mais palpável que para Maria. O amor dele por ela é novo, ainda que ele se sinta constrangido em admitir. Para Maria, entretanto, sempre foi uma sombra – ou seria uma luz? –que a acompanhou durante toda a sua vida. Ela terá que buscar nos detalhes. Encontrar elementos que a façam ver João de forma mais real, não é o que ela quer. Não pode e não quer trazer João para o nível da realidade. Ela o quer para sonho, para amar, para dar colorido à sua vida cinzenta, plena de responsabilidades.
Como o homem primitivo, ela aprendeu a fazer operações mentais complexas, com rapidez fulminante. Pelo rastro deixado, ela podia ler as pistas mudas. A situação fugia ao seu controle e mais do que ninguém ela sabia farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais. Muitas vezes, os indícios imperceptíveis para a maioria, forneciam-lhe a chave para o que o outro pretendia ocultar. Situações incontroláveis são especiais em fornecer estes elementos, pois desencadeiam atividades inconscientes. É bem verdade que a interpretação correta é diretamente proporcional à distância emocional do observador e Maria está emocionalmente envolvida, o que compromete a sua avaliação.
Desistir, no entanto, não é a solução. Lutar sim, sem perder de vista que há uma interdependência entre o individual e o coletivo. Esta dualidade que coloca Maria no centro do conflito milenar entre o bem e o mal, entre o bom e o mau. Nem sempre os anseios de ordem material coincidem com os de ordem espiritual.
João disse que Maria o estava viciando com suas mensagens de bom dia. Criar necessidades é como amarrar nós para o futuro. Sem clareza interna quanto à sua intenção, Maria decide recolher-se e buscar no escudo da consciência a certeza de que suas escolhas foram guiadas pelo desejo de harmonia. O processo deverá ser lento, assim como é a aprendizagem, mas não quer passar o tempo que lhe resta de vida, sem entender o que acontece em suas entranhas. Ser guerreira faz parte do seu temperamento, mas importante é ser leal aos princípios e não abandonar a luta. Olhando para dentro Maria pode ter a segurança de que não há vitória se não há crescimento interno. Conhecer-se significa não ter medo das próprias sombras. Maria sabe mergulhar em águas profundas e encontrar-se no silêncio.

O Amor Acaba

Imagens: Julien, de Hiroshi Furuyoshi
Le Défi, de Marina Dieul




Texto de Paulo Mendes Campos


Uma vez eu estava em Londres numa sala comum da classe média inglesa: a lareira acesa, todo mundo com sua taça de chá, a família imersa naquela naturalidade (chega a parecer representação) com que os ingleses aceitam a vida. Os ingleses, diz o poeta Pessoa, nasceram para existir!
A certa altura, um garoto de uns dez anos começou a contar uma história de rua, animou-se e começou a gesticular. Só comecei a perceber o que se passava quando notei que aquele doce sorriso mecânico, estampado em cada rosto de todas as pessoas da família, sumiu de repente, como se uma queda de voltagem interior houvesse afetado o sorriso coletivo. Olhos de avó, mãe, tias e tios concentraram-se em silêncio sobre o menino que continuava a narrativa com uma inocência maravilhosa. Diante disso, uma das senhoras falou para ele com uma voz sem inflexão: “Desde quando a gente precisa usar as mãos para conversar?”
Vi deliciado o garoto recolher as mãos e se esforçar para transmitir o seu conto com o auxílio exclusivo das palavras. O sorriso doce de todos iluminou de novo a sala: a educação britânica estava salva.
Mas minha atitude diante do “problema da educação” continuava se afogando. Realmente, pensei, não precisamos das mãos para conversar; ora, se a gente obriga uma criança a abrir mão da mímica, a exprimir-se exclusivamente por palavras, essa criança aperfeiçoará sua capacidade verbal. Perfeito. Uma meta educacional foi atingida. Os ingleses sabem.
Mas mudemos o ambiente geográfico do problema. Imaginemos um garoto italiano de dez anos que fosse coartado pela família em seus gestos meridionais. Seria uma crueldade, uma afetação pedagógica, uma amputação social.
Daí, cheguei pela milésima vez à mesma conclusão que me espera no fim das reflexões desse gênero: os ingleses educam seus filhos para que eles venham a ser ingleses, os italianos, para que sejam italianos.
Em outras palavras: não existe Educação, mas uma atmosfera educacional. Melhor seguir instintivamente as sugestões desse ambiente, certas ou erradas, do que procurar estabelecer normas de educação intocáveis, universais. O erro grosseiro é deixar menino inglês comportar-se como italiano ou forçar o italianinho a comportar-se como inglês.
A reflexão pode parecer (e deve ser) irrelevante, mas é base de todas as idéias que me faltam sobre educação. Nunca cheguei a pensar nada sobre a educação. Nunca concordei extensivamente com nenhum autor ou nenhum amigo a respeito de educação. Nunca tive opiniões sobre educação, principalmente de filhos meus.
Minha perplexidade começa exatamente no que deve ser o ponto de partida da certeza dos outros: só podemos educar para alguma coisa; dado um objetivo, procuramos fornecer à criança os meios de atingir esse objetivo.
Por exemplo: decido que meu filho deve estudar piano; contrato-lhe um certo número de aulas por semana, obrigo-lhe a um certo tempo de exercícios diários, mas o caso é que eu não posso decidir que meu filho deve estudar piano. Por que estudar piano? De duas, uma: se sou eu que gostaria que ele estudasse piano, o problema é meu e não dele, nada tenho a ver com educação; mas se eu acho que seria bom que ele estudasse piano, tenho de responder honestamente às seguintes questões: Por quê? Para quê? Para ser um concertista? Um concertista mais ou menos ou o melhor do mundo? Para facilitar sua vida social?
Caso eu não responda a essas perguntas com convicção, estou blefando; e mesmo que as responda, não poderei nunca ter a certeza de que meu filho gostará de ser o melhor concertista do mundo ou de tocar um pianinho para divertir os presentes. Volto assim à minha patetice inicial: quando decido que meu filho deve estudar piano (ou inglês, sociologia, matemática) não tenho a menor certeza de que estou a educá-lo; apenas transfiro para ele ansiedades minhas ou idéias convencionais de minha classe.
Ora, dirão que educar não é impor obrigações mas captar as aspirações da criança. Se isso fosse uma verdade absoluta, os colégios andariam vazios e as praias cheias de crianças da manhã à noite. Admito, no entanto, que uma criança chegue para os pais e peça para estudar piano com a maior seriedade; neste caso, é ela mesma que se educa, que escolhe, certa ou errada, um caminho.
Minha perplexidade portanto é a seguinte: que só podemos educar uma criança para que ela atinja um objetivo é fora de dúvida; a dúvida é esta: desconheço os objetivos que devam ser atingidos. Sei que se vive e morre, mas desconheço os objetivos da vida; desconhecendo os objetivos da vida, desconheço os objetivos da educação. Para se viver e morrer, a educação é desnecessária.
Para quem acredita em Deus, não há problema; para quem acredita em dinheiro, não há problema. Mas eu não acredito nem em Deus nem em dinheiro. Logo, não posso educar meu filho para a eternidade ou para a segurança material. Se acreditasse que a finalidade da vida fosse o prazer, ou a arte, ou o poder, ou a obediência, ou o sacrifício, poderia educar meu filho. Faltando-me essas convicções, me perco.
Seria fácil dizer, com uma irresponsabilidade total, que o fim da educação é a sabedoria, a sagesse. Mas, que é a sabedoria? Só os sábios sabem, e os que passam por sábios, os que se recolhem desde o início da civilização às solidões escarpadas, dizem justamente que a sabedoria é aquilo que não se pode transmitir.
Julian Huxley, um racionalista de boa vontade, conta que presenciou uma prática impressionante numa tribo primitiva: as mães esfregavam as criancinhas nas pessoas de fora da família, a fim de que os recém-nascidos se acostumassem a aceitar o próximo. O cientista lamentava que essa tentativa de criar praticamente o amor ao semelhante fosse um exercício exclusivo daqueles selvagens. O lamento implica uma nostalgia da sociedade utópica. Não seria muito difícil fazer um santo de laboratório; mas eu não iria condicionar meu filho para o amor e a bondade e depois soltá-lo numa selva de asfalto. Na frase de Machado de Assis, o único consolo de levar uma cruz ao Calvário é ser crucificado nela – mas seríamos monstruosos se fôssemos educar para a cruz.
A criança de hoje viverá no mundo violento de amanhã, de ontem, de sempre. Para mim, o melhor é ainda não educá-la, isto é, deixar que a sociedade a amolgue com seus vícios, seu furor, seu egoísmo. Ela, a criança, responderá ao desafio. Se somos mentira, hipocrisia, preconceito, amor, medo, fraternidade, coragem e covardia, melhor deixar que a criança se cozinhe e tempere nesse caldeirão absurdo. É por medo que educamos, não por amor; é por convenção que educamos, não é por entendimento.
Só espero que também a meus filhos ocorra a mesma certeza que me mantém vivo: não existe nada, a não ser que a justiça e o amor sejam alguma coisa.

"O que realmente importa em qualquer biografia é o que a pessoa pensa e sente, e não aquilo que fez." (Glenn Gould)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Noite de inverno


Sonho que estás à porta...
Estás - abro-te os braços! - quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade.
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?


Maria está, há horas, a observar João. Sentado despojadamente em sua poltrona, ar distraído a folhear um livro. Confirma seu porte de aristocrata inglês, mesmo em momentos de total descontração. Ele lê Bilac.

Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte...


Ela fixa seus olhos na sua pele alva de João, nas mãos delicadas, nos cabelos que lhe lembram a neve, naquela noite fria. Ele está ali, bem pertinho de dela, absorto em seu mundo, alheio ao seu pedido silencioso de amor. Não sabe o que fazer para chamar a sua atenção. João continua a sua leitura.

Mas... talvez te ofendesse o meu desejo.
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado.
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.


Maria resolve então preparar um chá de maçã com biscoitos de canela, que ele tanto gosta. Antes coloca uma música suave, apenas orquestrada e acende um incenso. João levanta os olhos e sorri.

Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do dano ardente
Que os passos te acompanha


Com o olhar João aprova a iniciativa de Maria e isso a deixa feliz. É escrava do seu amor, do seu silêncio, da sua solidão compartilhada.

Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
- Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora...


Ela chega com o chá e seus olhares se encontram. Ele lhe acaricia os cabelos e entende seu apelo. Agora é Maria quem vê o desejo em seu olhar, no seu gesto solene de fechar o livro.
Maria sorri sem nada lhe dizer.
O aroma do chá de maça mistura-se ao incenso e ao seu perfume. Inebriada de amor, encosta seus lábios aos dele. Um beijo quente e suave, com gosto de maçã.

Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço...


A noite está apenas começando!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma premonição em sonho

Imagem: Tentation, de W. Strang

Acordo sentindo a sua mão despudorada investigando cada milímetro do meu corpo, penetrando as minhas entranhas. Mergulho a cabeça entre lençóis e travesseiros, testemunhas dos meus sonhos, da minha solidão compartilhada. É como se você me espreitasse. Perturbo-me com as lembranças de uma música suave composta de suspiros, respirações ofegantes e algumas palavras, por que nem sempre são necessários poetas para fazer poemas e muito menos palavras que rimem. Quero ficar na cama o dia todo, mas não posso. Fico mais um pouco, perdida com a minha música que ninguém ouve, de olhos fechados, com o pensamento fixo no vazio, a aguardar alguém que não vai chegar. Murmuro coisas que você não ouve, não ouvirá. Nada do que observo em você, nos meus delírios, é físico.Hoje é diferente. Estou no limite do prazer e da posse, olho para você como se meditasse sobre o princípio da vida. E continuo a dormitar no silêncio que o prazer me transmite. Seria um crime violar a propriedade sensual que estas imagens me inspiram. No meu abandono, está outra forma de ser possuída sexualmente. Sinto a sua língua rastejante, lambendo, sugando, explorando. Uma oferenda divina de uma imaginação amorosa. Sem penetração real, essa falta é o eterno desejo de que o tempo se transforme em autoridade fálica e me satisfaça a sonolência sensual. Entrego ao tempo a sexualidade do corpo, sem medo. Como um relógio que pára o instante, cheio de imagens provocantes, que traz você, de novo, para perto de mim. Que seja a minha umidade, o afrodisíaco da sua inspiração emocional, até que nossos corpos, um dia, possam estremecer sobre o linho branco da nossa cama.