segunda-feira, 25 de maio de 2015

Nem só de valsas viveu o Danúbio

Rudolf von Alt - View of Budapest from Castle Hill at Museum of Fine Arts Budapest Hungary



Amanhece frio em Budapeste. Venta muito e uma chuva fina insistente ameaça cair a todo instante. Nem assim ficamos em casa, havia muito o que explorar e nosso roteirista havia reservado um dia para Buda e outro para Peste. Ainda não completamente invadida por turistas, a cidade é fascinante e repleta de monumentos grandiosos. É bom conhecer um pouco de sua história e, para não escrever o que alguém já fez com mais propriedade que eu faria, vai aqui um site:  http://www.aproximaviagem.pt/n5/05_budapeste.html


Conhecendo, então a história de Budapeste e sabendo do sofrimento de seu povo com o nazismo e o comunismo a cidade tem o que mostrar. Começamos com nossa tradicional caminhada até a Ponte das Correntes para ir a Buda. Antes passaríamos pela praia onde foi construído o memorial em homenagem aos judeus assassinados pela milícia fascista Arrow Cross (Cruz de Flechas) durante a Segunda Guerra Mundial, quando Budapeste se aliou ao nazismo. Eles eram obrigados a retirarem os seus sapatos antes de serem executados com um tiro na nuca ou metralhados. Os corpos caiam sobre o Danúbio e eram levados pela correnteza. Mais conhecido como Monumento do Sapatos, o monumento “Os Sapatos às Margens do Danúbio” foi idealizado pelo diretor de cinema Can Togay e criado por ele e o escultor Gyula Pauer, que criou sessenta pares de sapatos em ferro, no estilo dos anos quarenta. Os sapatos foram fixados na pedra por cerca de 40 metros e numa base de 70 centímetros. Em três pontos existem placas com o seguinte texto: "Em memória as vítimas assassinadas no Danúbio pelos militantes da Cruz de Flecha no período de 1944 e 1945. Produzido em 16 de abril de 2005." Este memorial foi erigido num sábado e instituído como o dia de lembrança às vítimas do Holocausto na Hungria.

O frio intenso e o vento dolorido no rosto parecem ter ajudado a aflorar minha sensibilidade. Chorei muito nesse dia e ainda mais porque estava lá um grupo de turistas judeus prestando homenagem. Carregavam flores que depois foram jogadas no Danúbio. Este é um Danúbio cinzento, que em nada lembra a magnitude exaltada na valsa vienense. Ele também conta histórias tristes.

A travessia pela Ponte das Correntes foi embaixo de chuva. Mal pudemos vê-la nesse dia, mas no dia seguinte a vimos sobre vários ângulos no tour de barco e de ônibus. Inclusive à noite. A Ponte é simplesmente magnífica.  Enfim, chegamos do outro lado e pegamos o funicular para subir a colina. Um carro ameaça os pedestres e quase pega minha cunhada. Aparece aí uma personagem que não anotei o nome, confiando em minha memória, e chegando ao hotel já havia esquecido. Ela deu a maior bronca no motorista e depois nos pediu desculpas dizendo que ele era um louco. Eu o fotografei um pouco depois usando um capacete vermelho e conversando com outro homem. Certamente alguém que não gosta de turistas. Lá em cima muitas lojas de souvenirs e eu só pensando na feirinha que tínhamos visto antes de chegarmos ao Danúbio. Não comprei nada, embora me sentisse tentada também a comprar um guarda-chuva.  Pensei melhor, na quantidade de coisa que eu esqueço, já havia perdido as luvas e tive que comprar novas em Praga que manchava toda minha mão (consequentemente o rosto também, e infalivelmente, o nariz, já que ficava gelado e toda hora eu passava a mão nele para aquecer um pouco) e um pouco porque o casaco que tinha elegido como curinga era impermeável. Havia me protegido muito bem. Acabei não comprando umas colheres de pau que tinha a matrioska esculpida no cabo. E não as encontrei mais.

O palácio/castelo é mais bonito visto de Peste ou do Danúbio,  mas a visão da cidade é belíssima. O Parlamento e a Basílica se sobressaem por sua imponência. A Cidadela conta histórias de medo e de bruxas que ali habitaram. O Bastião dos Pescadores guarda belas esculturas e os museus guardam as histórias da cidade, dos reis, das invasões, das revoluções. Hoje o castelo abriga o Museu da História de Budapeste e a Galeria Nacional Húngara. Tivemos sorte em presenciar uma troca de guardas e eu, particularmente, brinquei muito com um pitbull que insistia em buscar um pedaço de pau e me trazer para jogar de novo. Dócil como um poodle, atendia pelo nome de Bull.  Voltamos para Peste e pudemos comer o típico goulash servido dentro de um pão redondo. Antes passamos pela Basílica de Santo Estevão.


À noite, no hotel, recebo a notícia da morte de uma amiga de infância muito querida e isso me deixou extremamente abalada. Ainda teria o dia seguinte e eu estava especialmente triste.  A sorte é que o dia amanheceu de céu azul, sem chuva. Caminhávamos nas proximidades da Basílica à procura da  Av. Andrássy -  que faríamos à pé até a Praça dos Heróis -  quando  demos de frente outra vez com a mocinha do funicular vendendo o tour de ônibus e barco. Explicou-nos onde era a rua, mas acabou nos convencendo a comprar o tour. Foi ótimo. Poderíamos parar nos pontos turísticos, descer, fotografar, ficar o tempo que quiséssemos, e depois pegar outro ônibus. A cada meia hora parava um novo ônibus, além da vantagem de ter um áudio-guia em 23 idiomas, inclusive em português, que era o oitavo da lista. Nem preciso dizer que encontramos vários brasileiros fazendo o mesmo. Com isso o Café New York  e o Mercado Central ficou para a próxima vez, se houver.  O ticket incluía o tour noturno e o barco. Depois de completar a visita no lado Peste, fizemos o tour de barco. Almoçamos ali mesmo e fomos atendidos por um garçom húngaro que falava português. Voltamos e fizemos o tour noturno, revisitando todos os lugares e confirmando: Budapeste reluz como o ouro.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Bratislava é um encanto!

De main square in Bratislava, de Rudolf Von Alt (por volta de 1800)



Ao chegar na estação já percebemos a diferença de um país pobre da Europa. Em nenhum dos locais anteriores vimos carregadores de malas, mas em Bratislava tem, embora usando uns casacos uniformizados, detalhes como sapatos furados, casacos puídos e dentes estragados não passaram despercebidos. Não só os trabalhadores da gare, mas boa parte das pessoas que circulavam por ali. Os meninos não podiam acender um cigarro que logo aparecia alguém para pedir. Então, lá também tem pedinte. Não esperava encontrar isso em um país que foi comunista. Minha imaginação idealista achava que, ao sair do comunismo, a massa da população seria mais ou menos igual, teriam tido os mesmos acessos e as diferenças começariam a aparecer somente depois de algum tempo, quando os talentos pessoais se destacassem. Não foi o que percebi nessa olhada superficial. Digo superficial, porque qualquer coisa aqui publicada, carece de comprovação que vá além de meu olhar curioso.
Nas imediações da Gare a cidade é muito suja, mas à medida que nos afastamos a cidade vai ficando mais limpa e começa também a me encantar. Entendo porque os arquitetos gostam tanto de viajar pro velho mundo. Não se vê duas janelas iguais e, embora tudo pareça igual, basta um olhar um pouco mais atento, para perceber a riqueza de detalhes que diferenciam uma da outra.  Faz muito frio ainda, venta e as árvores ainda estão secas, sem folhas.  Os jardins já começam a florir.  Caminhamos da gare até a praça central na cidade velha. É pertinho. Paramos em Bratislava apenas por um dia, para não perder a oportunidade de conhecer a cidade já que fica entre Praga e Budapeste. Pegaríamos o trem à noite para Budapeste.

Acredito que vimos o principal, castelos, palácios, praças, igrejas, arquitetura rococó e gótica, que, em especial, guardavam o ambiente mágico de idade média. Mágico na nossa cabeça, porque viver nessa época certamente não era fácil. Já em Paris, meu irmão fez uma pesquisa de como era viver na Idade Média, a partir de uma observação de minha cunhada que nas pinturas/retratos não se via nenhum sorrindo. Claro! Os dentes eram estragados, não existiam dentistas. Enfim, sair de nosso mundinho sempre é um banho de história e cultura. Até porque o que a gente não sabe, vai procurar depois que se conhece. Também percebi – como a Eslováquia pertenceu ao império austro-húngaro – há muitas lojinhas lembrando o nome de Sissi e da Rainha Maria Tereza. Até as bonequinhas de porcelana que comprei tem as fisionomias e roupas das imperatrizes.
 



A cidade não me pareceu grande e eu tinha colhido poucas informações de lá antes de ir. Nada que impedisse conhecer a cidade sob outro aspecto. Artesanato, lojas de souvenirs, feirinhas na praça central, restaurantes, cafés, ainda conservam características típicas embora já estejam preparados para o aumento de turistas, o que certamente vai melhorar a circulação de dinheiro no local. Também lá tinha turistas de olhinhos puxados e brasileiros. Não como em Praga, mas já dá para perceber que cada vez mais Bratislava está sendo incluída nos roteiros. E os preços me parecera bons, pois foi lá que desandei a comprar. As echarpes mais diferentes foram de lá. E ainda me arrependi de não comprar mais. Só que era complicado, ainda estávamos itinerantes e não dava para carregar muito peso. Tenho limitações com os braços depois da cirurgia. Diverti pra caramba me soltando nas fotos com as esculturas esquisitas. Soltar não era fácil.


Almoçamos em um restaurante de comida típica e pasmem! Comi um prato que tinha arroz. A carne era de porco e o molho lembrava o barbecue.  Achei uma delícia! E no restaurante se tocava música típica.  Sinto que não consegui reproduzir com fidelidade o que vi e senti em Bratislava, por isso serei reducionista: Bratislava é um encanto! 



Hoje viajei de novo pra lá, refiz cada imagem. cada sentimento, procurei lembrar de cada detalhe, senti novamente o cheiro das guirlandas artesanais, o sabor da comida, o clima do restaurante, e o texto ficou isso aí: um amontoado de frases curtas evidenciando mais uma vez que as palavras são sempre insuficientes para reproduzir com fidelidade sentimentos e sensações.
Descrevem coisas, cenários, mas exibem seus limites quando  se trata de abordar coisas mais profundas. Não sei o que esperava encontrar, mas vi e senti gente como nós. Sofridas com o regime comunista que não é, na prática, aquilo que se propaga nos ideais. Vi avó cuidando de netos na praça da prefeitura, certamente enquanto a mãe sai para trabalhar, vi pessoas com faixas, organizadas,  reivindicando não sei o quê... nem sei se estava escrito em tcheco, alemão ou húngaro. No leste europeu, principalmente, senti o que é ser analfabeto. Não sei porquê - teria que ver se consegui registrar isso em foto, alguma palavra escrita no cartaz que me desse essa pista  - mas tenho a sensação que a passeata era de professores. Pode ser projeção de minha parte, mas estou sendo honesta. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Concedam-me uma valsa vienense

 
View of Vienna from the Belvedere, de Bernardo Bellotto (1721-1780)
 
Acordo com a sensação de que ouço “parabéns prá você”, mas é só uma sensação e então eu canto baixinho. Claro que há um motivo. Sempre há um motivo. Maria conseguiu me alcançar na viagem de Praga a Viena. Eu precisava compartilhar com ela a paisagem coberta de neve, mas cumpriríamos o nosso pacto de curtir o passeio e deixar as questões profundas para outras ocasiões. Ela estaria ali, tão alegre e satisfeita como eu, colhendo materiais que compartilharíamos depois em outras ocasiões ou quando fossem necessários evocá-los à consciência.

Do metrô ao hotel dava para perceber que em Viena a primavera ainda não se instalara. A paisagem cinzenta, árvores sem folhas, contrastavam com a exuberância e luxo de suas construções. Viena é uma cidade linda! Facilmente se percebe que é rica também culturalmente, a ponto de ouvir meninos/adolescentes sentados em banco de praça e assobiando um clássico nada popular.

Chego ao hotel louca para tomar banho e trocar de roupa. Tinha derramado leite na roupa, durante o café da manhã em Praga e estava com cheiro azedo. Um banho rápido e revigorante. Estava pronta para sair. Tento contato em casa, mas não consigo conexão com o Wi-Fi do hotel, só mesmo na rua. Vários locais oferecem a conexão free. Neva um pouco e logo para. Então seguimos para conhecer Viena. Passamos por praças, pela Universidade, Igreja de São Pedro e encerramos esse dia no Palácio de Belvedere.

Uma escultura muito estranha, moderna. Fotografei-a por todos os ângulos , honestamente, não consegui entender o que ela pretendia dizer, o que fazia ali,  que justificativa poderia ter em colocar uma coisa tão feia na frente do palácio barroco mais bonito do mundo. Enfim, procuraria saber alguma coisa a respeito na internet. Não achei!! No Palácio de Belvedere está o maior acervo de obras de Klimt.  Podia estar lá também a escultura de Canova – Eros e Psiquê – que também ilustra histórias de Maria, ainda quando ela se sentia fortemente ligada aos deuses do Olimpo e se misturava ao arquétipo de Deméter. Essa obra está no Louvre.

À noite assisto, ao vivo, pela tevê, um concerto em homenagem a Vivaldi na Catedral de Santo Estevão. Na segunda feira, se não se incomodar de ficar em pé, o concerto é gratuito. Para assistir sentado é pago. Um lugar mediano custa 30 euros. E pela manhã, ao descer do metrô os músicos da orquestra fazem outro tipo de espetáculo. Estão todos vestidos como cavalheiros medievais e vendendo ingressos. São simpáticos e insistentes. Tentam comunicação de todas as formas, em inglês, francês e espanhol. Fui abordada em francês... e meu irmão em espanhol. Porque será? Acho que ele já estava usando um gorro peruano.  Mas não posso deixar de constatar que a vida de músico é difícil em todo o mundo. Reservei um post só para falar como a música me atingiu nesses dias europeus.
Rudolf Von alt

A Catedral de Santo Estevão é belíssima, em estilo gótico, mas tem um telhado colorido, geométrico, diferente. Eleito por mim como o mais bonito que vi. Viena me encantou em vários sentidos, mas o povo me pareceu carrancudo e apressado.  Era domingo em Viena,  e no dia seguinte, não sei dizer se era feriado ou se não trabalham na segunda-feira, mas o comércio estava todo fechado. Difícil entender a pressa, o estresse. Como disse anteriormente, para vivermos um pouco o dia a dia da cidade, andávamos de metrô, e ali não estávamos entre turistas, mas com os moradores da cidade. Difícil voltar lá, mas registro que gostaria muito de passar uns dias como fizemos em Paris. Acho que o fato de ter conhecido Viena antes de Paris tirou boa parte do impacto e da expectativa parisiense. Tem seus encantos, seu charme, mas Viena é forte concorrente. Falarei sobre isto no post de Paris.

Uma visita rápida na casinha de Sissi, como diz a Adélia, completa o encantamento.
O Palácio de Schönbrunn, da dinastia dos Habsburg, cujos ramos chegaram até o Brasil com a família imperial. Essa dinastia imperou por mais de 600 anos em grande parte dos países Europeus. Para saber a história vai aqui: http://www.viagensimagens.com/cast_schonbrunn.htm . 
         
Sissi, de Franz Xaver Winterhalter 
Em Bratislava, principalmente, pude ver que Sissi, a Princesa de Wittelsbach, depois coroada Rainha da Hungria, ocupa um lugar carinhoso e de admiração até hoje. O tempo era curto e antecipadamente foi combinado que entraríamos apenas no Palácio de Versailles. Passamos a manhã toda, com neve caindo de vez em quando, só na parte externa do Palácio e assim mesmo não vimos tudo. As esculturas no jardim eram vistas, não podiam nem ser admiradas em seus detalhes. Meus olhos estavam cheios da beleza, da leveza das esculturas em mármores. Sabe o que é dar forma e leveza a um material tão duro? Esse espetáculo visual era bem semelhante ao que encontraríamos em Versailles. O Dedé tinha razão: teríamos que escolher, porque viu um, viu todos, já que detalhes e diferenças dificilmente seriam percebidos em pouco tempo.  Só o valente Marcelo subiu  a colina para filmar o Monumento Gloriette, local que parecia o pavilhão de caça. Optamos em ver o filme. Atravessar os jardins (ainda não floridos, mas já desenhados e plantados) já seria um exercício bem grande e ainda teríamos que fazer o Ringstrasse. Uma visita ao centro histórico, teatro nacional, Museums Quartier (complexo de museus, cafés, lojas e restaurantes, espalhados por uma praça onde acontecem shows e outros eventos, é um dos grandes representantes da Viena moderna).

Viena também estava vista, com uma ressalva: seria uma cidade para ser revisitada. Vou rever todos os filmes da história da Áustria. Fomos em Graz e eu adorei a cidade também. Viena em estilo cidade de interior. Mas essa é outra história.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Praga: fui, não vi e gostei

Vitrais na Catedral de San Vito, de Alphonse Marie Mucha

Sexta-feira Santa. Chego cansada em Praga, com o pé esfolado de calo, mas cheia de expectativa. Todos com quem conversei antes da viagem elegiam Praga como a número 1. Cidade lotada de turistas que mal se podia andar. Até para tirar fotografia a gente não conseguia espaço. Para variar a campeã de turistas continuava sendo o Japão (ou Coréia, vai saber...) seguida pelo Brasil. Encontrar gente do país da gente já é uma farra, do mesmo Estado já é coincidência, mas o que dizer quando se encontra turista da mesma cidade e ainda amigo? Pois bem, em Praga, isso aconteceu.
Sou apaixonada em cristais e nesse aspecto Praga superou minhas expectativas. Um espetáculo inesquecível para os olhos. Desde as peças em miniaturas, extremamente mimosas e delicadas, às peças imensas e requintadas que exigiriam, no mínimo, um palácio para colocá-las. Os preços, se comparados ao Brasil, muito baratos, mas ainda assim caros. Afinal, são cristais da Bohemia. Há de se convir que transportar essas peças para quem não vai comercializá-las é comprar dor de cabeça e preocupação. Então é melhor esquecer a posse e se fixar na admiração. Impregnar os olhos com a beleza, o brilho e o tilintar dos cristais.
Rudolf von Alt "Brückenturm auf der Kleinseite in Prag-1843
Achei que só eu estava cansada, mas a turma chegou ao hotel e apagou. Durante o dia tínhamos visto na feirinha uma barraca (lotada por sinal) assando um pernil e o cheiro ficou guardado, aguçando o apetite. Saímos meu irmão e eu para comer e ao chegarmos à pracinha – já perfeitamente limpa – a barraca ainda estava lá. E caímos com vontade nesse presunto suculento. Para nossa decepção, só suculento e gostoso na primeira mordida. Num instante está gelado e a porção é tão grande que comê-la toda é uma batalha entre a gula e a sensatez. Não pude deixar de lembrar de minha avó, que quando se via diante de um prato grande, ao terminá-lo, suspirava e dizia: “Venci!”. Foi assim conosco!  Aprendemos a lição de que em terra fria não se come ao ar livre. Enquanto comíamos, fiquei vigiando as horas. De onde estávamos dava para ver um relógio lateral. Detalhe: o relógio estava cinco minutos atrasado em relação ao Relógio Astronômico. Não deu para ver. Bom, ainda teríamos dois dias em Praga e de hora em hora o relógio dava seu show. Veria outra hora, outro dia. Nem preciso voltar ao assunto porque não vi o relógio funcionando dia nenhum.
A visita ao Castelo de Praga me fez vivenciar alguma coisa que já escrevi por aqui, algo como o importante é a jornada e não o destino. A travessia na Ponte foi tumultuada, as ondas de gente lhe carregavam e o que era esperado aconteceu: o grupo acabou se perdendo, ou melhor, se dividindo em dois. Eu era a “ímpar” e desta vez fiquei com a Adélia e o Marcelo. Essa nossa ‘miguinha’, por sinal, recebeu o título de Miss Simpatia. Alegre, espontânea e disposta coloria nossos passeios com seu entusiasmo.  Emocionei-me em uma capela que entramos. Não sei como o Marcelo a descobriu. Do lado de fora era apenas uma portinha. Sentei, rezei, chorei, agradeci. Uma subida longa até o Castelo nos esperava. Além dos calos (agora incomodando pouco por causa do band aid), a questão do joelho e do tornozelo, cujas dores me acompanham desde o tratamento do câncer, era preocupante. Subimos rindo, conversando, fotografando, parando, perguntando preços, que nem percebemos quando chegamos lá em cima.
Bom, estava combinado que se perdêssemos no mar de gente nos encontraríamos todos lá. É, mas isso parece que não ficou bem explicado. Marcelo saiu para procurar os outros dois e desapareceu. Quando os outros dois apareceram, já tinham entrado no castelo e na Catedral de San Vito. Pelo celular ficamos sabendo que o Marcelo estava em uma torre de metal filmando e que se encontraria conosco no hotel. Só então Adélia e eu entramos no castelo e já nos sentindo desanimadas. Desânimo maior ainda quando vimos a fila para entrar na Catedral. E eu queria muito entrar e ver os vitrais de Alphonse Marie Mucha. Esse artista tcheco tem ilustrado muitas das minhas histórias, em especial, com suas Quatro Estações. Adélia compartilha comigo o desânimo. Fazemos algumas fotos ali fora mesmo. Apreciamos a arquitetura externa e demos a Catedral como vista. Estamos pensando mesmo é no chocolate quente no pé do morro.
Mais tarde resolvo sair sozinha e comprar petiscos para a viagem de trem no dia seguinte. Entro no supermercado pego umas barras de chocolate e umas caixas de batata frita, pago, e quando estou saindo, a coisa apita de novo. O rapaz do caixa me olha e faz sinal para eu andar, sair. Ufa! Nem de bolsa eu estava. Dessa vez não me senti nem um pouco constrangida, apesar de que na hora achei estranho o raio ter caído duas vezes no mesmo lugar. Volto para o hotel ouvindo uma moça americana (a julgar pelo sotaque) que canta na rua Wave.
A cidade das cem cúpulas estava vista.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Berlim: Esqueci Maria em Amsterdam...

Unter den Linden in Berlin, Anna Bilinska-Bohdanowicz (1857-1893)


A viagem de Amsterdam para Berlim não teve grandes surpresas. O cenário bucólico dos pequenos lugarejos enchiam os olhos, mas já não chamava tanta atenção,  e eu me sentia mais entrosada com o grupo. Já estava desmatutizada. A Alemanha foi a minha maior surpresa em toda viagem. Primeiro, por ter sido palco e protagonista de duas grandes guerras e pelas impressões que o nazismo deixou marcado na história, acho que esperava encontrar um povo hostil, mal-humorado, truculento. Enganei-me redondamente. Um povo alegre, gentil, atencioso. Uma cidade moderna. Segundo, estava frio em Berlim, embora já fosse primavera, e nevou. Pouca neve, mas suficiente para matar minha curiosidade de como é a neve. Um floquinho de gelo, ou melhor, uma espuminha congelada. Não precisaria mais ir a lugar nenhum para conhecer a neve. Na minha idade -  aliás, nem quando era nova -  esquiar ou praticar qualquer esporte de inverno não está incluído em minha caixa de desejos. A neve, portanto, estava vista.
Os passeios em Berlim foram históricos. Hospedamos bem pertinho da Alexander Platz e fomos recepcionados na gare por dois artistas que tocavam e dançavam. Não sei dizer de onde eram. Eu até diria que eram meio ciganos, meio hyppies, mas que transmitiam alegria. Começava a mudar minha impressão dos alemães. Não é só porque tinha dois artistas na praça, mas porque tinha gente da cidade apreciando os dois, dando moedinhas. Acho que os que filmavam e fotografavam eram turistas. E embora em todo lugar a gente ouvisse alguém falando em português, ali, a maioria falava alemão mesmo.
De todo jeito procuramos viver um pouco da cidade.  O Café da Manhã no
 Hotel era 18 euros. Então saímos e nos fartamos no Back Factory.  Minha boca ainda enche de água quando me lembro do sabor dos pães, croissants, donnuts, pretzels.   Aliás, amei os pães da Europa. Tomei chocolate quente.  Andamos a pé e também pegamos metrô. Comprávamos o ticket, validávamos, e ninguém nas roletas para conferir. É, mas se um fiscal pedir para ver o ticket e você não tiver, a multa, dizem, é bem cara. Então, no metrô, a preocupação era não perder o ticket até que chegássemos ao destino.  Fizemos compras e tivemos que andar todo o passeio carregando as sacolas, mas valeu a pena. Impossível passar diante das lojas e ver coisas incrivelmente baratas, mesmo em euro, e não se sentir atraída. Pelo menos em alguns aspectos não posso esquecer que sou mulher e no mundo feminino, vitrine está incluída.
Não vou descrever os lugares todos em que passamos. Foram os tradicionais: Reichstag, Potsdamersplatz, Brandenburg Tor, Unter den Linden, Gendarmenmarket, Memorial do Holocausto, Topography of terror, Berliner Mauer, Zeughaus, Berliner Dom, Checkpoint Charlie. Vou destacar dois: O Memorial do Holocausto e o Museu Topografia do Terror. Experiência pesada, dolorida que me fez chorar várias vezes. Sou sensível à história judaica, mas ali, vendo os alemães enfrentando suas feridas, eu não tinha preferência. Via os dois lados, o sofrimento e a falta de opção dos alemães e minha conclusão foi só uma. Alemães não são nazistas, assim como o muro de Berlim nada teve a ver com a guerra. Eles  se redimiram diante dos meus olhos. Por outro lado, convenhamos, a geração que aí está, não tem nada a ver e nem culpa do aconteceu. É história e ponto final.
Ainda nevou duas vezes nesse dia. Numa corrida para nos esconder da neve, em uma galeria, encontramos umas jovens fazendo o mesmo e falando em português.  Como sempre, sou conversadeira, logo perguntei às meninas de onde eram. Era o Brasil representado ali: do Sul (Curitiba e uma cidade de Santa Catarina que me esqueci o nome agora) , de Mato Grosso do Sul (Dourados), do Rio e de Fortaleza. Participavam do programa Ciência Sem Fronteiras na Espanha, estavam em férias e aproveitavam para conhecer outros países da Europa. Esse é o Brasil que eu vivo. Um país que abre portas e dá oportunidades. Não tinha isso quando eu era jovem e queria estudar na Sorbonne e tem gente que diz que o Brasil vai de mal a pior. Mas esse é outro papo.
Também foi em Berlim que passei por enorme constrangimento. Aguardávamos Adélia e Marcelo que compravam alguma coisa em um supermercado e entramos. Estava frio lá fora. Ao sair o alarme tocou. Eu estava com a sacola das compras que havíamos feito mais cedo e imaginei que alguma coisa dentro dela ainda estava com etiqueta. Quando o segurança pediu para ver, eu me senti muito mal, era algo que nunca tinha acontecido comigo e eu não sabia que essas máquinas apitavam errado. Sem falar alemão e inglês só pedi socorro com o olhar para minha cunhada que tirou pacientemente as coisas da sacola e mostrou para ele. Só depois de chorar muito no hotel tive condições de processar o ocorrido. O pobre do segurança tinha sido extremamente gentil, muito cauteloso em explicar que precisava ver, que não podia colocar a mão dentro de minha sacola. Enfim, doeu, mas passou. O mais incrível é que não tinha etiqueta nenhuma nas compras.  Era eu que apitava. Chegando no Hotel a Cleuza cortou todas as etiquetas de minhas roupas novas. Mas na volta, no aeroporto Charlles De Gaulle eu apitei de novo, só então descobrimos que o meu cartão de crédito, guardado na pochete dentro da calça é que disparava o alarme. Mas meu irmão e minha cunhada passavam com o deles sem apitar. Vai entender. Quando tirei a pochete, parei de apitar. E aí a pochete apitou na mão da fiscal.
E onde esteve Maria esse tempo todo que não veio me socorrer? Não veio me ajudar a processar o que estava acontecendo comigo? Meu Deus! Só então é que me dou conta que deixei Maria em Amsterdam...



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um olhar diferente sobre a Holanda

View of Arles with irises in the Foreground, de Vincent Van Gogh
A viagem de trem, as belas paisagens, o período de silêncio, serviram para me preparar para a chegada em Amsterdam, mas não para o vento gelado. No mesmo dia saímos para Keukenhof, fomos ver as plantações de tulipas. Um verdadeiro espetáculo para olhos que me fez esquecer as primeiras impressões. Vermelhas, amarelas, azuis, roxas, grandes, enormes, pequenas, miúdas. Fotografei até ficar sem bateria e perdi de registrar um dos salões mais interessantes em homenagem a Van Gogh. A sorte que meu irmão registrou tudo. Entramos no pavilhão sem perceber, vi as cópias gigantescas de obras do artista até que me deparei com a reprodução do quarto de Van Gogh. Sabe a tela do quarto dele? Pois bem eu estava ali, diante do próprio quarto. Fiquei quase eufórica e voltei para ver tudo de novo, agora com o olhar direcionado, mas já com o celular descarregado. Sunflowers, Irises, Irises in vase, View of Arles with irises, e tantas outras. Sensível e singular homenagem com criatividade de apresentação. Keukenhof me presenteava com o seu melhor espetáculo de cores e beleza. E mais, lá tinha o moinho que eu tanto queria ver. Claro, montado para prazer dos turistas, mas me satisfazia, e tinha também enormes tamancos. A loja de souvenirs oferecia uma quantidade enorme de miniaturas e tamancos para uso pela bagatela de 40 euros. Não comprei nenhum, lógico! Mas a Holanda se completava para mim com os moinhos, os tamancos, as tulipas e Van Gogh.
The New Town Hall in Amsterdam, de Jan van der Heyden
Ao voltarmos para Amsterdam fizemos um passeio a pé pela cidade. Tinha expectativas a respeito da cidade, achei-a acolhedora e de uma população diversificada. Não estava mais esperando ver moinhos ou pessoas de tamanco, talvez no interior do País, e, mesmo sabendo que ali, em frente ao hotel onde nos hospedamos, estava o maior bicicletário do mundo, me surpreendi com a quantidade de idosos usando a bicicleta como meio de transporte. Saí do Brasil com a cabeça de legalmente idosa e na Europa eu percebi que ainda era jovem. Não sei se são velhos pela idade ou se aparentam ser mais velhos, talvez pelo clima, mas de qualquer forma em toda a viagem esses idosos que vi me ajudaram. Senti uma força descomunal para superar a mim mesma fisicamente. Não era possível que eu, jovem ainda em relação aos idosos europeus, entregasse os pontos. Em todos os lugares também vi cadeirantes. A começar pelas calçadas, é possível trafegar nas cidades por onde passei (mesmo as menores como Lourdes, Graz, e Never) em uma cadeira de rodas. A sensação que tive é que na Europa tem muito cadeirante. Sensação certamente equivocada, acho que lá o deficiente físico sai de casa. Enfim, alguma coisa que é deles lá - e que a simples observação não consegue ir além da superfície – tira de dentro de casa o idoso e deficiente físico. Algumas vezes senti pena de ver velhinhos alquebrados pelo tempo, com a cabeça caída, carregando suas compras de supermercado. Não sei se isso é bom e/ou ruim.
Capricio sunlit towh view in amsterdam, de Joahannes Franciscus Spohler
Não é preciso conhecer bem a história da cidade para perceber que o rio e os canais desempenharam papel importante no desenvolvimento da cidade. Sentia-me desafiada a encontrar essas imagens, mostradas pelo olhar diferenciado dos artistas. As construções muito lindas e, se olhadas no geral, muito parecidas. Era preciso descer aos detalhes. Nenhuma janela igual a outra. Como as pessoas que também caminhavam. Passamos na rua da Luz Vermelha e os companheiros masculinos se sentiram constrangidos e fisgados pelos olhares tristes das prostitutas nas vitrines. Engraçado que nenhum fez comentário algum, somente depois, no hotel trocando as impressões, os dois constataram ter percebido a mesma coisa. As meninas se silenciaram a respeito do assunto. Particularmente prestei atenção em outras coisas e não cheguei a cruzar o olhar com nenhuma delas. Talvez porque elas também não me olharam nos olhos. Em nossas andanças fomos ao local na Universidade onde meu sobrinho lecionou por seis meses, passamos pelo Museu do Nemo e voltamos para o Hotel. Amsterdam não me convidou a grandes reflexões. Acho que começava a me entregar mais a viagem e a sair um pouco dos meus sentimentos. Parodiando Marcelo: Amsterdam estava vista

terça-feira, 5 de maio de 2015

Um brinde aos olhos do viajante

Jacob van Ruisdael (1628-1692) Paisagem com Moinhos de Vento Perto de Haarlem 

A manhã foi tomada na viagem de trem de Bruxelas a Amsterdã. Viajo calada (isso não é normal, rsrsrs), olhos inquietos e filmo tudo que vejo. A paisagem rural é, em tudo, diferente da nossa. Boa parte da vegetação ainda exibe a aridez provocada pelo inverno. Caules que se levantam formando imagens que se alteram segundo o estado de espírito. Ora belas, ora tristes, ora medonhas. Enquanto isso a imaginação cria histórias sobre elas que serão esquecidas na próxima curva do trem. Muito vai se perder e, de fato, se perdeu ainda nos trilhos. Mas também não dava para ficar anotando tudo que passava pela cabeça, então a decisão foi deixar a alma filmar, sentir, fotografar, viver. Apenas o que ficasse retido na memória faria parte do arquivo.
Os lugarejos por onde passávamos evocavam outras histórias, lembranças, cenas de filmes, telas, romances. Tudo parecia, paradoxalmente, familiar e diferente, afinal passáramos parte de nossas vidas tendo a fantasia como ferramenta de trabalho e, naquele instante, o que me vem à mente é o mito quixotesco que permeou minha literatura. Lutei sim com enormes e cruéis gigantes que, ao final, se transformaram em moinhos de vento. Claro! Ao entrar em terras holandesas não esperava encontrar mulheres de roupas típicas usando tamancos – isso seria muito complicado enxergar da janela do trem – mas, os moinhos de vento, ah! Isso sim, sem dúvida veria muitos naquele cenário rural.  Apostei minhas fichas no impossível. Vi sim moinhos se transformarem em gigantes. Imensos moinhos modernos produtores de energia eólica. Mais uma vez a luta contra moinhos de vento se transformou no paradigma da inutilidade e é Maria que vem – de novo – a meu socorro. Ela entendia o significado profundo da literatura. Ficção e realidade se entrelaçavam e uma alicerçava a outra, pavimentavam as pontes, de forma que a inutilidade da imaginação não importava. Naquele momento Maria não apenas realizava, por meu intermédio, uma de suas inúmeras viagens imaginárias e fantásticas, também pincelava de realidade o que um dia não passou de alucinação. O tempo não pára (já disse que não consigo escrever sem assento?) e tem um momento que somos obrigados a assumir nossa fantasia.

Então volto a pensar no tempo, enquanto passo o tempo observando novas paisagens. Maria muda comigo, se transforma a cada experiência e ainda não se pode saber que rumo tomaremos. Estamos envelhecendo, o que vivenciamos tem agora outro sentido e não sei se conseguirei traduzir tudo em palavras. A mesma inutilidade da luta contra moinhos de vento alimenta as palavras. Nunca é fácil sentar e escrever sem qualquer objetivo. Trazer os pensamentos do nada para o vazio da palavra e sentir a pressão do tempo. Entre o ideal e a realidade fica o sentimento de vazio. O que queremos, Maria e eu, é saber se você nos acompanha nesta viagem. Se aceita a vir conosco e a não falar, a não escrever, a não sentir, a não ter o que trocar a não ser o silêncio e a beleza dessa paisagem fria e bucólica.