quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Encontro de almas



Imagem de Julie Bell







Pouco importa se é primavera  na natureza e eu estou no outono da existência . 
Ali, naquele ponto perdido em algum lugar do espaço as diferenças não existem. Apenas sentimentos. 
A paixão é habitada por um demônio, alucinação amorosa, abismo, arma que corta e faz sangrar. 
Mas naquele instante mágico somos apenas dois amantes apaixonados alimentando o espírito. 
Fundimo-nos embalados pela música que somente nós ouvimos. 
Almas entrelaçadas. 
Um encontro sem toques.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Na chuva

Imagem de Andre Kohn


Cheiro de chuva
Cheiro de terra molhada
Tipo estrada poeirenta
Choveu ontem
Sobre a cidade
E em minh’alma
Como a terra fecundada
Também eu
Fui fertilizada
Plantada em solidão
Brinquei de árvore
Servi de abrigo para
Um sonho pássaro
De canto alegre
Ninho de saudade
Amanheci prenhe de
Ternura  e esperança.
Prenhe de vida.
Bem vinda Primavera


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A hora de se jogar

Imagem de Julie Bell
Tenho um rosto, um nome, um endereço conhecido. Aposto naquilo que conheço e a primeira atitude concreta é assumir cada palavra, cada pensamento, cada ato aqui registrado. 

Comecei pela disciplina de me obrigar a escrever, pelo menos, uma vez por semana. 
A obrigatoriedade de percorrer os labirintos mentais e emocionais abre, com certeza, os portais da compreensão, sem medo de me expor. 

Este escrever a que me refiro vai além das palavras, das frases bem elaboradas, dos textos brilhantes. Falo de sentimentos, de descoberta. 

Deixo para trás a timidez, mas vou continuar contando histórias. O olhar treinado para perscrutar almas mostra que só posso esperar por novas experiências se estiver aberta a elas. 

Quem sabe não surge uma Maria mais atrevida, que deixa sua sensualidade vir à tona e supera a natural impaciência pela falta de surpresas?

Um sonho

Duas crianças, de Pierre Auguste Renoir
Sonhos todo mundo tem. O meu é fazer literatura infantil. Que comece com "Era uma vez..." e termine com "e foram felizes para sempre". Escrever para crianças é, na minha opinião, a depuração máxima da palavra: pura, simples, acessível, despida de qualquer vaidade e interessante a ponto de prender a atenção de um leitor exigente. Busco isso na vida, busco isso na literatura. Antes tenho que me libertar de minha história...

À espera da Primavera


The Flower Girl, de Emile Vernon
Os dias tristonhos se findam. Esta quinta amanhece com céu azul, nuvens brancas, sol brilhante, vento frio e seco. Mais um dia para louvar e agradecer a vida, sem tentar entender o propósito dela, mas simplesmente, deixar-se esvaziar de pensamentos e contemplar a dádiva recebida. O olhar poético, as palavras soltas e a criatividade apenas fluem. Desvendar o grande mistério da vida começa de forma individual, passos lentos de uma caminhada que se faz de dentro para fora. Enquanto brindo à vida, o mundo que existe fora de mim segue seu curso normal, cheio de contradições, de dualidade, de um cotidiano de lutas que não permite a contemplação do que realmente importa: a beleza da criação no caminho de ida ao trabalho – em meio ao engarrafamento – , na revoada de periquitos e cantos de bem-te-vis, nos canteiros floridos que ficam entre as avenidas nervosas, minimizando o ronco dos carros, a buzina dos atrasados. Essa predisposição para ser feliz é interna.

Tristeza que dói

"Maria Madalena" – de Bartolomé Esteban Murillo

Há muito tempo não me sinto como estou hoje, tanto física, como mentalmente. Os últimos dias não foram risonhos. Não existem palavras que consolem a dor da perda, a tristeza dolorida, a saudade sem endereço, o medo que não sei de quê. O medo, por si só, já é sofrimento. Natural, portanto, essa angústia generalizada e sem motivo aparente, mas que assusta. Angústia que desequilibra a dinâmica psicológica, provoca transtornos mentais e dá sensação de aperto no coração. Estou convicta que essas sensações fundamentam a condição humana diante da liberdade absoluta, da vida ou da morte, o que, por sua vez, não me dá (nem a ninguém) autoridade para qualquer julgamento. Nem todo o conhecimento do mundo seria capaz ou suficiente para me representar diante do abismo da identificação. Nem mensagem de autoajuda. Passear na minha alma nestes momentos é um risco. Sinto cansaço profundo.



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Liberdade, liberdade

(Imagem: I wanna be adored, de Stephen Early)



Desde que aceitei o desafio de derrubar o mundo, que construí baseado nas pessoas que amo, 
coloquei em xeque meus alicerces. 
Sinto que é possível, sem alterar o visível, desnudar-me do aparato lógico, encontrar novas possibilidades 
e experimentar a sensação de liberdade. 
Uma liberdade que, segundo Sartre, “não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo, mas o 
radical da mais íntima estrutura da existência, separado de todos os outros”.
Não sei como se faz isso na prática...
 


Paraíso niilista


Imagem: Found drowned, George Frederick Watts. 1867



Em minha alma, hoje, 
o vazio e o nada se encontram. 
Condição de vida
Momento que antecede a morte.
O vazio e o nada se encontram em mim.
Não existe relevância na situação.
O cansaço se estampa em meu rosto,
em minhas atitudes,
na impaciência de acompanhar a rotina
dos dias, dos trabalhos, das pessoas.
A que tipo de sinal o vazio me expõe?
Alerta para a compreensão,
sem distorção
da realidade.
Nesse caminho
muitas vezes me perdi de mim.
Vivi outras vidas,
dei vida ao que morria,
emprestei minha alma,
afaguei o ego
de príncipes
que viraram sapos,
impotentes, oportunistas, dissimulados
O casulo é meu abrigo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Melodia

Misti Pavlov
Na sensação de frio
Nas labaredas do corpo
No ritmo descompassado
No peito rasgado
Coração sangra
Misérias do cotidiano
Desejo de vida
Sem medo de morte
De tempestade
De calmaria
Vazia de amores
Plena de sonho
De fantasia
Perdida no espaço
De nevoeiro mágico
A vida retorna
Sentidos se aguçam.
Visão do futuro
Pele arrepiada
Cheiro de folha amassada
Sabor de fruta fresca
Sons indefinidos
Palavra, apenas palavra
Solidão tecida
Intimidade

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Intervalo silencioso

  Imagem: Venus at Her Mirror, de Diego Velazquez



Amanheço vazia de mim,
sem vontade de levantar,
sinto frio.
Nem certezas, nem dúvidas,
apenas o vazio.
Parece ser o fim.
Desânimo que pede aconchego,
chocolate quente.
Alma que pede alimento.
Perdida de mim,
tateio o escuro,
o obscuro,
escuto o silêncio,
penso no tempo
                                      Sobrevivi.                                         

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Isso é só uma reprise

Relendo coisas escritas encontrei este texto. Acho que vale a republicação... afinal, nada mudou.

Sexta-feira, Agosto 26, 2005

Quero voltar a vestir meu casaco marrom


Desde que o Brasil mergulhou nesse mar de lama, CPIs, denúncias, mentiras e desmentidos, assistir o noticiário passou a ser um exercício para os nervos. De um lado, fala-se em milhões para campanha política, mensalões, esquemas de corrupção, fraudes em licitações, bacanais na corte. Do outro, famílias carentes veem seus barracos incendiarem por causa dos "gatos", policiais (muitos tão carentes quanto as famílias que despejam) com escudos e bombas de gás cumprindo ordens ou extravasando seus instintos, crianças maltrapilhas e carentes, filas infindáveis nos postos de saúdes, aposentado morrendo na porta de pronto socorro sem ser atendido, enfim, extremos tão gritantes que confirmam nossa posição no mundo como um país subdesenvolvido.
Não é só o Brasil; o mundo inteiro sofre nas mãos dos governantes,  seres que se julgam superiores aos simples mortais, aos cidadãos comuns, mas que não passam de porcos, ladrões, mentirosos, assassinos. Parece ser esta a história da humanidade. Desde que o mundo é mundo e o ser humano dotado de consciência e inteligência existe essa guerra do mais forte dominando o mais fraco. A evolução significa apenas que o homem se tornou mais perigoso e equipado de tecnologia. Mata e rouba com sofisticação. Basta inverter a situação, um trabalhador passar à condição de autoridade que seu pensamento muda, ele, não apenas, passa a pensar como autoridade, mas dá vazão a anos de opressão. Ele, que foi pisoteado, entende que é necessário pisotear. Ele, que foi roubado em sua força de trabalho, passa a ter certeza que é necessário roubar a força de trabalho. Afinal, o povo precisa de alguém que o comande, e para comandar é preciso não se envolver com emoções e sentimentos. Certamente estou pensando assim, porque não sou diferente de todos os seres humanos. Defendo o lado que estou, embora acredite piamente que todo ser humano tem um momento em sua vida que faz as escolhas. Não ser bandida foi uma escolha feita ainda na minha adolescência - o que não me protege de erros e decepções -, mas,  internamente,  me faz ter convicções firmes.
Não sei quando voltarei a ter inspirações para escrever sobre meu tema preferido: o amor, a linguagem universal. A dor que sinto ao ver o meu país parado com os escândalos, de alguma forma, é um reflexo do amor que sinto por ele. Há um misto ainda de compreensão e covardia em meus pensamentos. Prevalece a vontade de fugir, pintar um quadro, modelar uma escultura com o barro, mas em tudo transpareceria minha apatia, minha desesperança e essa vontade de chorar que não passa nunca.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MENSAGEM PÓSTUMA AO PROFESSOR BENEDITO FIGUEIREDO





Querido Professor Benedito:


Quando nesta manhã, ainda escura, o telefone tocou, anunciando que você se despediu de todos nós, pude, um pouco mais tarde, comprová-lo com meus próprios olhos – ainda pude ver o brilho de sua fisionomia, dizendo-nos adeus.
Meus ouvidos também puderam confirmar sua despedida. Já não mais ouviam as palavras paternas, tantas e tantas vezes proferidas nesses quarenta e três anos de convivência.
Ainda que meus olhos e meus ouvidos sejam disso testemunha, a alma profunda, não. Também não é testemunha o sentimento de filho que carrego no peito. Minha alma e meu sentimento teimam em não aceitar sua partida.
De forma egoísta, pensando somente na alegria que sua presença para nós significava, pedimos muito a Deus que o conservasse em nosso meio. E Ele nos atendeu. Hoje, no entanto, quis chamá-lo para mais perto.
O tempo, que tudo destrói, poupou-lhe o bom humor, conservou-lhe o gênio bom, não lhe desfigurou a lucidez de suas palavras, concedendo-lhe até mesmo um centenário, e mais três anos de lambujem, de xepa, como nos dizia sempre. Sou disto prova: deu-lhe um centenário, sem lhe dar a velhice.
Por ocasião de sua festa de 100 anos, tive a oportunidade de dizer-lhe, tomado de afeição, que não foi à toa que lhe deram este nome: BENEDITO. Significa bendito, portanto privilegiado, querido por todos. Em suma, um abençoado, alguém protegido pelos deuses. BENEDITO.
Sempre soube de seu carinho por Dom Aquino. Afinal, vocês foram vizinhos, e, na casa de seus pais, quis o futuro arcebispo de Cuiabá despedir-se do mundo para abraçar a vida religiosa. Mais tarde, transformou-se Dom Aquino no grande nome deste Estado. Ninguém, comparado a ele, cantou de forma tão brilhante as belezas e as grandezas de sua terra, pintando-a com matizes singularmente exuberantes.
Pois bem, Dom Aquino, entre as inúmeras poesias com que nos brinda em vida, fez uma toda especial, pensando em seu encontro amoroso com Deus. Curioso: confere a ela, como título, o mesmo que Olavo Bilac dera a uma de suas poesias: In extremis. Este o significado: nos extremos, no último momento. Dizia-me o querido professor Benedito: in extremis é o mesmo que in articulo mortis, isto é, em artigo de morte, na hora da morte, na hora extrema.
Havia, no entanto, diferença gritante entre a poesia de Olavo Bilac e a de Dom Aquino. Bilac recorre a ela para se lastimar da vida, arrependido das coisas que deixou de realizar. Dom Aquino, ao invés disso, louva o Criador, bendizendo os encantos a ele proporcionados. Enquanto um chora o tempo perdido, o outro agradece a Deus a beleza e a maravilha da vida.
Fiquemos com apenas duas estrofes da poesia de Dom Aquino:

Quero morrer, meus Deus, / Quando Tu bem quiseres.
Esplenda a primavera / Em flores, malmequeres,
Ninhos cantando no ar, / Aos perfumes do vento,
E “asas tontas de luz, /Cortando o firmamento”.

Espero que Maria, / A mãe que Tu me deste,
Imagem virginal / Da bondade celeste,
Seja comigo, / E junto ao leito da agonia,
Mãe de misericórdia: / Ore, ajude e sorria.

Professor Benedito, pude, às centenas, ouvir de sua boca quanto era agradecido pelas coisas maravilhosas com que Deus, vida fora, o presenteou. Deus já o acolheu, estreitando-o nos braços, estamos certos disso, acompanhado que foi pela Virgem Auxiliadora, de quem era particular devoto.
Repitamos juntos:
Espero que Maria, / A mãe que Tu me deste,
Imagem virginal / Da bondade celeste,
Seja comigo Mãe de misericórdia: / Ore, ajude e sorria.

Bem isso: que ela ore, isto é, interceda por sua entrada na casa do Pai. Que o ajude. Afinal, entrar no céu amparado pela mãe de Deus é passaporte garantido. Ninguém – quem ousará? – haverá de barrá-la. Por fim, que ela sorria, fazendo-o com o sorriso que lhe é tão peculiar, em sintonia com as mães. Quantas vezes em vida, da mesma forma como os rios procuram necessariamente o mar, também você, quando as dificuldades se lhe apresentaram, também você caminhou ao encontro do carinho e da proteção de Nossa Senhora.
Professor, saudades imorredouras.
Viver no coração dos que amamos de verdade é não morrer, jamais. Querido pai, querido amigo, querido mestre. Continuará vivo, sempre, na mente e na alma dos que tiveram a felicidade de conviver com você. Obrigado por tudo.
Nós o amamos! O professor Bendito – digo-o assim mesmo, de propósito –, o professor Benedito não jaz: ele existe em nós.


Germano Aleixo Filho, professor da UFMT.
Tributo ao inestimável professor Benedito,
pela extrema gentileza com que me distinguiu.
Cuiabá, 6 de maio de 2013.