quinta-feira, 18 de junho de 2015

A música e eu em Paris



The passion of music, de Andrew Atroshenko



Enfim chegamos a Paris, embora ainda tivéssemos mais dois dias de viagem, para Lourdes e Nevers.  Conheço primeiro as entranhas parisienses, seu subterrâneo, pois os dois primeiros dias ficamos como marmotas, só andando de metrô. Mas nos metrôs pude conhecer uma Paris que não está nos filmes, nos relatos românticos, na imagem sonhadora e romântica que se tem de Paris. Nas veias da cidade circula a vida real. Os metrôs tem vida de gente que trabalha, que dorme enquanto não chega à sua estação, que ostenta fisionomias cansadas e olheiras, que os cabelos não seguem os ditames da última moda, e nem os sapatos, nem os casacos.  Isso é o geral. Algumas linhas são mais chiques, outras mais pobres. Depende do lugar para onde se vai. Acho que só não pegamos mesmo duas linhas de metrô e como ficamos 15 dias lá e essa opinião não mudou, tenho-a como verdade.

                               Autor desconhecido
Nos bastidores de Paris também se vive emoções e, nesse sentido, a vida de músico bate forte em mim. Fico desolada vendo músicos tão bons (nem todos) tendo como palco apenas os corredores das estações de metrô. É de cortar o coração, por um lado, mas por outro, é muito bom ver como são respeitados pelos passantes. Não são pedintes. São artistas que não tem onde mostrar sua arte, ou que estão divulgando seus CDs – já que hoje é relativamente fácil fazer uma produção independente. Enfim, ao descer dos trens e ser invadida por música ajuda a manter o equilíbrio emocional, tira a gente da dureza da vida, dos pensamentos pessimistas. Para silenciar vozes externas preciso sempre de boa música. Claro está para mim que a música tem o poder de mexer com nosso ser interior, criar imagens e evocar lembranças. 


Saíamos cedo e encontrávamos uns músicos nas linhas que estávamos usando. Quando voltávamos já no fim da tarde eles ainda estavam lá, tocando sem parar. E nem todos tinham o mesmo comportamento em relação à platéia. Em Viena, por exemplo, teve um violinista que executava com muita sensibilidade Adágio, de Albinoni, e  quando fomos filmar, ele parou de tocar. Só falava o alemão, mas pela gesticulação e o pouco inglês pudemos entender que ele se desculpava, que dizia não tocar bem e que não estar vestido de forma adequada. Deixamos, claro, de filmar e ele voltou a tocar. Em Munique também, um grupo que tocava à noite, próximo à Marienplatz, também fez um sinal para que não filmasse. Não sei dizer quantas vezes não consegui segurar as lágrimas. Num desses dias fui tomada por Vivaldi, La Stravaganza, uma música bem alegre, e senti meu coração pular. Tive o impulso de parar, eu andava a frente dos meninos, mas me contive. Exultei quando eles pararam para ouvir. Era um grupo grande e me tocou profundamente. Tocou tanto, a ponto de me fazer comprar um CD por 20 euros. Vimos o grupo outras vezes, e eu conversei depois com um dos integrantes que oferecia o CD. Fiquei sabendo que eram todos profissionais, pertenciam a uma associação chamada Madrigal de Paris. 
Leonid Afremov

Durante toda a viagem, por todos os países que passamos, os músicos de rua chamavam minha atenção, fosse por sua postura, pela qualidade do som, pela peculiaridade de seus instrumentos, ou mesmo pelo olhar do musicista. Música foi capítulo à parte.  Reproduzo aqui o pensamento de meu irmão em relação principalmente à Praga. Há sete anos, quando ele esteve lá pela primeira vez, os músicos na Ponte Carlos IV tocavam músicas tchecas, desta vez, ouvimos o de sempre: jazz, possivelmente para ser familiar aos turistas. Em Budapeste tem grupos regionais e apresentações de danças folclóricas em algumas praças, mas não tivemos a sorte de encontrar nenhum dando essa colher de chá.  Mas há casos que dependendo da música, não importa onde ela toca. Foi assim com “As Time Goes By”, tocada por um senhor bem idoso em saxofone.  Viajei na imaginação. Um país que teve suas portas fechadas para o mundo por tanto tempo, como será que ele guardou a lembrança dessa música? É uma música da década de 30, época em que Praga é cedida  à Alemanha Nazista até o final da Segunda Guerra, quando passa para o domínio da União Soviética. Só em 92 com a dissolução dos laços tchecos e eslovacos, ela passa a ser a capital da República Tcheca. Fico então pensando, quando foi que ele aprendeu essa música. Que informações recebia nessa época de fechamento. Enfim, a imaginação é nossa verdadeira liberdade, pois nos permite completar todo vazio que temos seja de informação ou de estado emocional.


            Classical music, Kristc Snezana

Quando fechamos os olhos, tapamos os ouvidos, buscamos a solidão, percebemos que nem sempre conseguimos calar as vozes e os pensamentos fogem, mas às vezes conseguimos agarrar um deles e trazemos para o mundo concreto, tentando compreender seu significado e desvendar um pouco mais do que tem escondido Isso dá conteúdo para a formação do pensamento,  mas a inspiração surge do nada.  Escrever é assim.  Decifrar pensamentos e observações e colocá-los em frases construídas, com um conhecimento básico da língua. Para expressar o que sentimos, nem sempre precisamos ser grandes gramáticos, se assim fosse, os melhores escritores seriam aqueles que cursaram Letras. Acho que o mesmo acontece com a música. Alguns compositores são especiais. Parecem compor com o objetivo de levar as pessoas ao clímax. Assim, a música que tanto mexe  conosco, cumpre sua função de nos tirar do cotidiano e nos transportar para aventuras desconhecidas e, ao mesmo tempo familiar, de descobrimento e encantamento.  Gosto de escrever ouvindo música. É estranho, porque na família, sou a única que não tenho habilidade musical.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Luxemburgo com gosto de despedida!

Luxemburg night, bu Leonid Afremov 
De Munique a Luxemburgo a viagem começa a ter gosto de despedida. Chegamos então ao paraíso fiscal, um minúsculo país incrustado no meio da Europa. Acho que foi uma das gares mais bonitas por onde passamos e a noite ficava toda dourada com a iluminação. Em compensação o hotel deixou a desejar. Durante a nossa viagem ficamos, na maioria, em hotéis Mercure e Ibis (verde e azul), mas em Luxemburgo ficamos em um Ibis vermelho. Localizado próximo à gare, embora as acomodações fossem boas e dentro do hotel o ambiente bem familiar, o lado de fora nos pareceu estranho, mas nada que pudesse representar problema. Deu para encarar.


Em Luxemburgo comecei a me sentir mais em casa, depois de bom tempo ouvindo línguas estranhíssimas como o tcheco, o húngaro e o alemão, na cidade se falava o francês, ouvia-se muito português (cerca de 16% da população é portuguesa) e eu podia ler as placas de informação e cardápios. A passagem por Luxemburgo seria rápida e não perdemos tempo. Deixamos as malas no hotel e saímos para passear. O tempo era pouco então tivemos que selecionar o que queríamos ver. Passeamos pela cidade, fomos ao parque, ao Palácio Grão Ducal, Catedral, e paramos para almoçar na Place D’Armes. A praça é cercada de cafés e restaurantes, todos com os chamados terraços (mesinhas nas calçadas e opções de serviço dentro e fora do estabelecimento já em pleno funcionamento nesse terço inicial da primavera). E como em toda cidade europeia, muitas floreiras, muita variedade de tulipa. Um lugar muito agradável. No coreto central acontecem as atividades culturais, com concertos durante todas as noites de verão.   Não era bem horário de almoço, estava mais pra happy hour, ainda assim comemos muito bem e fizemos o retorno para o hotel sob as luzes noturnas da cidade, mas pudemos apreciar ainda alguns monumentos e a ponte sentindo o friozinho gostoso. Luxemburgo é bonita e tem algumas características que a tornam diferente. Em meio às construções centenárias é sempre possível encontrar uma com arquitetura moderna, abusando de vidros, formas arredondadas e muita iluminação. Luxemburgo é muito muito. 

Era nosso último dia do grupo dos cinco. E eu fui invadida por grande tristeza. Durante esses primeiros quinze dias aprendi a conhecer melhor meus companheiros de viagem, não meu irmão e cunhada, esses já convivo com eles há muito tempo, mas, em especial, Adélia e Marcelo. Durante esses dias ganhei mais dois irmãos no sentido exato da palavra, que também me chamavam de Maninha, se preocupavam comigo em detalhes que só mesmo eu percebia a importância. É claro, são amigos do Dedé, o carinho a mim dispensado de certa forma era reflexo daquela amizade, mas nem por isso menos importante. O carinho não está incluído no quesito educação, certo? Isso é um extra a que dou grande valor.  Não saí para essa viagem em meus melhores dias. Meu coração ainda chorava a dor da perda do papai. Ficava ansiosa para ter notícias de minha mãe que, sem dúvida, enfrentava no momento, além da perda, a minha ausência.

Minha tristeza se dissipava perto da Adélia.  À exceção do domingo em Dachau, ela estava sempre alegre, cheia de entusiasmo, com olhar vivo e curioso sobre tudo. Não foi à toa que a elegi “miss simpatia” da viagem. Foi também minha modelo preferida. Bastava chamar e ela já virava sorridente, pronta para a foto. Marcelo com sua aparência de monge indiano transmite sempre serenidade e junto com seu estilo está um olhar observador. Sempre ponderado com as palavras. Muitas são as “acontecências” durante as viagens, mas destaco uma aqui, para ilustrar essa imagem que descrevi do Marcelo: no metrô em Viena entrou um menino de mais ou menos 6/7 anos com o pai e ao ver o Marcelo juntou as mãozinhas e lhe fez reverência. Brincadeira ou não é essa imagem que ele passa. Aproveito este post para agradecer aos meus novos irmãos Marcelo e Adélia pela companhia extraordinária.

Contei no post de Berlim como fiquei constrangida com a abordagem do segurança do supermercado, mas como venho dizendo ao longo desses posts-relatórios de viagem, há sempre tanta informação para ser processada que muita coisa não dá para ser escrita. Mas volto ao episódio de Berlim para agradecer também à minha cunhada Cleuza. Depois que o segurança olhou o que eu tinha nas sacolas – ela que tirou uma a uma as peças – com muita educação ele nos pediu desculpas, tentou explicar que poderia ser alguma etiqueta das novas roupas que não tinha sido desmagnetizada. Aí, com ligeiro tremor nos lábios e com a dureza que lhe é peculiar, ela disse em quatro idiomas – cada palavra em um – “tudo bem, nós é que perdoamos você”. Dá para imaginar essas palavras ditas em inglês, francês, português e espanhol? Então vejamos: Ok, nous perdoamos usted.  Agora a gente ri e nem sei como pude prestar atenção nisso. Obrigada Cleuza, é nessa hora que a gente tem a certeza de que somos família e que esses 40 anos de convivência serviram para estreitar esses laços.

Em relação ao meu irmão não sei por onde começar. Sempre foi meu ídolo, aquela coisa de irmã mais nova mesmo. A vida coloca cada um em seu caminho, mas no caso, ele foi dotado de um espelho retrovisor e assim, nunca me perdeu de vista. Sua companhia é sempre muito agradável. Extremamente sensato, observador, estudioso, atento e cuidadoso, representou para o grupo todo o ponto de apoio, a segurança que a gente busca quando está em um país estranho.  Um guia turístico perfeito. Pesquisou antes, visitou pelo google heart todos os lugares que fomos e parecia conhecer tudo como a palma de sua mão. Às vezes que não acertava é porque perdia o norte, então ganhou uma bússola do Marcelo. Essa viagem para mim foi presente dele. Não gastei um tostão com passagem, hotel, alimentação, transporte.  O dinheiro que gastei foi para comprar bugigangas – que ele ajudou a carregar – com a mesma complacência que se tem com crianças. Obrigada Dedé! Nossa viagem não termina aqui. Agora vamos para Paris realizar meu sonho adolescente.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Domingo silencioso em Dachau

Monumento do escultor Glid Nando, que foi prisioneiro em um campo de concentração durante a guerra

Foi um dia muito estranho. Parecia que ninguém tinha amanhecido bem: ou era um mal-estar físico ou era um mal-estar emocional. Ninguém estava, desde o café da manhã, se comportando da mesma maneira. No ar havia um clima de azedume. As informações que eu recebia não eram verbais e, ao investigar o mundo não-verbal a gente abandona os mecanismos complexos da comunicação para entrar em um reino de cadeias primitivas, tão antigas quanto nossa existência sobre a terra. No mínimo pode parecer estranha esta afirmação em tempo de tecnologia avançada.  Cair no campo da interpretação pode parecer tão complexo e desconexo que as análises podem ser suspeitas.  No dia a dia, aprendi a apurar o senso de observação para as reações e expressões faciais, contar com minha intuição e buscar a sustentação naquilo que já conheço. Então vou ser logo categórica:  Dachau já pesava em nossas mentes antes mesmo de termos saído do hotel.






A viagem foi confusa, acabamos integrando uma turma com um guia inglês e lá no campo de concentração nossa turma (de cinco pessoas) se dividiu em três. Nem é preciso dizer que foi um dia triste, silencioso, em que mergulhamos na parte mais triste e sombria da história da Alemanha. Antes da viagem havia me envolvido numa discussão sobre o holocausto e enfrentei neonazistas que negavam o triste episódio. Então eu pensava em fotografar muito para poder mostrar na volta. Realmente fotografei vários documentos, mas passei o tempo todo com um nó na garganta, com o corpo arrepiado e a cabeça latejando, que as fotos não tiveram sequer o cuidado de seguir a ordem dos acontecimentos. Fotos, reproduções, anotações manuscritas, documentos, objetos, enfim, tudo para tornar possível conhecer os horrores que ali foram praticados. E não foram crueldades cometidas só contra os judeus. Os próprios alemães sofreram com tudo. As câmaras de gás, inclusive, foram tentativas de despersonalizar a morte. Não teria alguém para puxar o gatilho e ver cair pessoas inocentes. Muitos soldados alemães se suicidaram após serem obrigados a cometer atrocidades.



A Marcha dos Prisioneiros, escultura em bronze de Hubertus von Pilgrim, 1991
Chorei várias vezes e, ao tentar reproduzir tudo que senti, choro de novo. Não há lado a tomar. Há, isto sim, uma mancha negra na história da humanidade. Há, isto sim, a certeza de que qualquer um de nós, nas mesmas condições poderíamos agir da mesma maneira: tornando-nos carrascos, ou não suportando ser torturador e cometer suicídio. Há, isto sim, seres humanos dos dois lados e gente, como hoje, capaz de conviver em paz com a barbárie. Seres humanos não têm comportamento igual sob circunstâncias similares. Crianças diante de situações ameaçadoras podem chorar, rir, fugir, ficarem geladas, revidar, ou mesmo se submeter passivamente. Ainda assim, pesquisas mostram que há uma tendência a reações semelhantes em muitos seres humanos, então Dachau não deixa de ser um espelho. A luta pela vida se torna então em constantes batalhas travadas para vencer a si mesmo. Uma guerra que parece não ter fim, um quebra-cabeça sem solução, como se diz na música do grupo Fruto Sagrado. Neste ponto, acredito, há identificação da guerra com a Senda Cósmica, quando o guerreiro não age mais como pessoa, mas como uma grande força, como flecha disposta a atingir o alvo. Vencer pode então significar saber escolher entre os diferentes aspectos da experiência humana reflexos da Ordem Superior.

Termino então este post com o poema de Sylvain Gutmacker (1922-1948), um jovem judeu, estudante de farmácia na Bélgica, enviado para o campo de concentração em 1942. Sobreviveu às torturas no campo de concentração, mas não conseguiu sobreviver às lembranças do horror da guerra e suicidou-se em 1948.




Tristesse
Laufen (undated), by Josef Nassy (1904-1976)

Le vide de mon coeur
Ma brûlante douleur
Engourdissement mon âme
Pas de soeur, pas d’amie
Ô douceur infinie
Pour bencer mes sanglots

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Munique: no clima da Baviera



The Marienplatz in Munich, 1853, oil on canvas by Anton Doll, 1826-1887, German landscape artist and representative of the Munich School.


A viagem de Graz para Munique foi linda e cheia de imprevistos. Seguíamos de trem pelos Alpes e em determinado momento, um impedimento que não ficamos sabendo exatamente o que era, mas que impossibilitava a passagem do trem, nos fez voltar para pegar um ônibus e terminar a viagem, até à estação onde trocaríamos de trem. Isso fez com que passássemos ainda mais perto das montanhas e pudéssemos encher os olhos com a paisagem de neve
. É um espetáculo lindo! Chego em Munique sem qualquer expectativa a não ser a ida para Dachau. Com o bombardeio de informações que nos chegam, precisamos cada vez mais, apurar o nosso discernimento e o holocausto estava em meus projetos de conhecimento da verdade. Havia informações duais na internet. Mas Dachau é rapidamente esquecida para curtir e saborear a primavera alemã, naquela parte que um dia foi da Bavária. A cidade repetia o que tinha visto em Graz. Parecia que todo mundo estava na rua. Antes de chegar à Marienplatz, uma pracinha de pedras reunia jovens tomando sol e ouvindo música. Aliás, música ali também estava em toda parte. A alegria estava estampada nos rostos de cada transeunte e de forma contagiante. A primeira coisa que observei é que tinha gente do mundo inteiro. Um laboratório de raças. Foi o lugar que mais vi mulheres de burca e homens com aquele paninho na cabeça.  Loiros, brancos, morenos, negros, altos, baixos, negros altos e loiros baixos, e muita gente com o uniforme do Bayern. Era sábado... o time devia estar jogando.  Enfim, gente de todo tipo. E à primeira vista, gente feliz!

Fomos almoçar em um horário estranho, mas a comida era farta e gostosa. Acabamos adotando esse restaurante para as refeições dos dias seguintes. Só não deu para engolir mesmo o que eles chamavam de “bolette de pomme de terre” no cardápio em francês e “gnhoc di patata” no cardápio em italiano. Parecia uma bola de grude e nem passava perto daquilo que conhecemos como nhoc. Mas a carne e a salada estavam excelentes e o repolho roxo tinha um tempero especial, muito gostoso mesmo. Nesse primeiro dia apenas passeamos pela Marienplatz e fomos até à Prefeitura.  Tivemos que dar uma corridinha no hotel para agasalharmos melhor, pois à medida que escurecia, também esfriava. Com isso, ficamos até à noite andando por ali. 
Munique, Karl Walther  (1905)


Eu estava muito encantada com o impacto que a primavera tem nessa parte do mundo. As vitrines eram espetaculares, decoradas como fazemos no natal, sempre com o tema primaveril, com flores, borboletas e muitas luzes. Munique foi a cidade do consumo!  Com tanta informação chegando por todo lado, com tanta coisa diferente para ver, para pensar, a gente fica meio entorpecida. Imaginava que em viagem eu ficaria mais detalhista, mais atenta, mais esclarecida. Ledo engano. Era muita informação para processar imediatamente. Com certeza, este texto está saindo bem diferente do que teria escrito no mesmo dia. O mundo não é igual para todo mundo, mesmo que todos tivessem as mesmas oportunidades, simplesmente porque o nosso crivo pessoal passa pelas nossas experiências e não pela nossa educação formal. Infelizmente não existe uma técnica com garantia científica, mas certamente podemos contar com nosso olhar sem preconceito e as nossas experiências individuais para nos orientar em relação à mensagem que recebemos.

O domingo passamos em Dachau -  conto a experiência em outro post –  e à noite jantamos em um restaurante diferente e comemos o que seria nossa “jantinha de rua”: arroz, salada, batata frita e espetinho. Demorou para ser servido, mas valeu a pena. O arroz fica bem diferente do nosso, rs! E na segunda-feira fomos desbravar Munique, estava chegando o final de nosso estirão. De Munique iríamos para Luxemburgo e separaríamos o grupo. Marcelo e Adélia iriam para Holanda e nós para a França.  Caminhamos bastante nesse dia, fomos a lugares belíssimos e vimos muita coisa bonita. Paramos um tempo em um parque para ficar apenas olhando a movimentação das pessoas.  Bem pertinho um casal de brasileiros com duas crianças, visivelmente moradores da cidade. Esses eu não perturbei. Toda vez que me encontrava com brasileiros fazendo turismo eu perguntava se no Estado deles não tinha crise. Eu me divertia com isso, principalmente com as respostas e justificativas.

Em Munique eu aprendi uma outra linguagem: a da mímica, além de que foi lá que consegui a façanha de me tornar consumista. Ali sim, vi coisas baratas e me deu vontade de comprar, acabei me esbaldando em uma perfumaria, sem falar uma só palavra em alemão e as vendedoras sem falar nenhuma palavra em português, francês, italiano ou inglês. Estávamos a Adélia, Cleuza e eu, os meninos tinham ficado o hotel, e cada uma de nós se virava em uma língua, mas não em alemão. Ainda assim compramos, fizemos o tax free, saímos com todos os documentos em ordem e ainda ganhamos brindes. Bendita compra! Em Paris os preços estavam bem mais altos. Antes de viajar a Elisa havia feito uma tomada de preço em real dos perfumes que queria e no aeroporto em São Paulo, no Dutty Free, eu peguei os preços em dólar, então ficou fácil fazer uma comparação com o euro e ver que ali o preço era vantajoso. E muito vantajoso.


Enfim Munique quebrava de forma definitiva tudo o que eu pensava a respeito dos alemães.  Nada em Munique lembrava as fotos que tinha visto da segunda guerra e que transformara a cidade em escritório político de Hittler. A cidade reconstruída esbanjava beleza e alegria.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cor, música e alegria na primavera em Graz


Desconheço a autoria, certamente, pelos detalhes  que se vê em volta da tela, algum artista de rua em Graz



A viagem para Graz foi marcada de novidades. Já não era o campo apenas que me embevecia de beleza, mas a mudança da paisagem ainda com neve, mas mostrando um pouco do brilho da primavera. Nesse dia, em especial, não amanheci me sentindo bem. Nada que não tivesse sentido antes, mas era a primeira vez desde que começamos a viagem. É sempre aquela sensação que a gente não sabe explicar: não sei se é o pulmão que pressiona o peito, ou se os ossos que se retraem e apertam o coração. A dor na cabeça chamou o silêncio para me fazer companhia, e acabamos nos separando na parada em Hegyeshalom.  A dor na cabeça passou, mas o coração estava ainda muito descompassado e quando chegamos a Meidling para fazer a troca de trem em apenas quatro minutos eu destampei a chorar. Não sabia explicar se era por causa do mal-estar ou se pela vitória de ter conseguido sem atrapalhar meus companheiros de viagem. Chegamos a Graz. Achei que nesse dia eu ficaria no hotel, mas a cidade transpirava alegria. O frio cedia espaço para a primavera entrar e, sentindo-me melhor, aprontei e fomos conhecer a cidade.

A arquitetura em Graz segue o mesmo estilo de tudo que vimos na Europa, mas menos cinzenta. Os prédios vão do branco, passando pelo bege, amarelo e até o alaranjado, azul, verde, tons avermelhados e ocres,  o que dá à cidade um tom mais quente, colorido.  Não tem tantas coisas para ver, não é uma cidade turística, e nós fomos parar lá por outros motivos. A colina com o relógio, a ilha artificial, o museu, a universidade, o castelo, algumas igrejas, tudo muito bonito, mas algumas coisas nem nos mobilizou à caminhada. Passeamos na Hauptplatz e nas imediações dela. E não nos arrependemos. Acredito que por causa da primavera, o povo estava muito alegre. Havia música em cada esquina, até um piano fora transportado para a praça. Idosos, adultos, jovens, crianças e cachorros, todos estavam na rua. Muita bicicleta. Bonde elétrico. Cafés, choperias, tudo muito acolhedor. 

Em Graz passa um rio sobre leito de pedras e faz  barulho de cachoeira,  que evocou lembranças de minha infância e adolescência. A não ser que eu vá em Pirenópolis, esse  som raramente ouço. E lá também tem ponte dos cadeados. Aliás, essa tradição de cadeados também vimos em Budapeste. A árvore do amor está cercada por uma grade e é nessa grade que os apaixonados prendem seus cadeados. Não sei onde jogam as chaves, mas em Graz e Paris, as chaves são jogadas no rio.  Eu moraria tranquilamente em Graz. Um lugar tranquilo, assim como foi tranquilo nosso passeio. Sentamo-nos em alguns lugares e apreciamos a dinâmica da cidade. Parávamos para ouvir os artistas de rua. Acho que todo mundo que tocava um instrumento estava na rua aquele dia, se não tocando, carregando seu instrumento. Talvez até procurando uma esquina que não estivesse ocupada. No final da tarde, à medida que escurecia, o vento e o frio se intensificavam e a cidade começava a se esvaziar. Tomamos um chocolate quente antes de voltar para o hotel. Nesse dia jantei uma salada com camarão e pene deliciosa, cujo sabor ainda está guardado na memória – que pretendo fazer em casa qualquer hora -  e no dia seguinte seguiríamos para Munique. Eu teria perdido um passeio adorável se tivesse cedido à pressão de me sentir doente. 

Bem, eu disse que Graz não é cidade turística. Como saber disso sem ter uma informação confiável? Cheguei à essa conclusão pelo número de câmeras fotográficas e celulares fotografando. Não eram tantos como nos outros lugares que já havíamos visitado, mas ainda assim eram muitos. Quem disse que por ali não teria brasileiros? De cara me chamou a atenção o cartaz de show do brasileiro Luiz Antônio, desconhecido por aqui, mas, certamente, um artista se virando em terras estrangeiras. E logo nos encontramos com uma amazonense que nos informou que em Graz tem considerável comunidade brasileira, com muitos artistas e que era possível, inclusive, dançar forró por lá nos fins de semana.

Gosto de ilustrar meus posts com  obra de arte e só opto por fotos quando realmente não encontro  tela que represente, de alguma forma, o conteúdo do que escrevo. Meu irmão diz que leva mais tempo para escolher a música que para editar o filme. Assim sou eu: levo mais tempo para escolher a imagem, que para escrever o texto. Selecionei alguns pintores austríacos para ver se encontrava alguma coisa de Graz e que fosse lá do passado, do século XVII, mas não encontrei. Passando por muitas coisas encontrei no blog http://michelleswafflings.blogspot.com.br/2012/04/april-2012-photo-day-challenge.html  a imagem que ilustra este texto. Infelizmente não tem o nome do autor, mas é a cara do post!