Maria é mulher, fala de vida, de experiência, de sentimentos, de sexo, de lições e apreendizado, um universo identificado por qualquer mulher (e até mesmo homem). Ela sou eu, a outra, todas elas, qualquer mulher, uma mulher qualquer. É a mãe, a dona de casa, a profissional, a prostituta, a religiosa, a vencedora, a fracassada, a lutadora, a cansada, a jovem, a velha, a sábia, a louca. Não é Maria por acaso.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Paraíso niilista
![]() |
| Imagem: Found drowned, George Frederick Watts. 1867 |
Em minha alma, hoje,
o vazio e o nada se encontram.
Condição de vida
Momento que antecede a morte.
O vazio e o nada se encontram em mim.
Não existe relevância na situação.
O cansaço se estampa em meu rosto,
em minhas atitudes,
na impaciência de acompanhar a rotina
dos dias, dos trabalhos, das pessoas.
A que tipo de sinal o vazio me expõe?
Alerta para a compreensão,
sem distorção
da realidade.
Nesse caminho
muitas vezes me perdi de mim.
Vivi outras vidas,
dei vida ao que morria,
emprestei minha alma,
afaguei o ego
de príncipes
que viraram sapos,
impotentes, oportunistas, dissimulados
O casulo é meu abrigo.
Momento que antecede a morte.
O vazio e o nada se encontram em mim.
Não existe relevância na situação.
O cansaço se estampa em meu rosto,
em minhas atitudes,
na impaciência de acompanhar a rotina
dos dias, dos trabalhos, das pessoas.
A que tipo de sinal o vazio me expõe?
Alerta para a compreensão,
sem distorção
da realidade.
Nesse caminho
muitas vezes me perdi de mim.
Vivi outras vidas,
dei vida ao que morria,
emprestei minha alma,
afaguei o ego
de príncipes
que viraram sapos,
impotentes, oportunistas, dissimulados
O casulo é meu abrigo.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Melodia
![]() |
| Misti Pavlov |
Nas labaredas do corpo
No ritmo descompassado
No peito rasgado
Coração sangra
Misérias do cotidiano
Desejo de vida
Sem medo de morte
De tempestade
De calmaria
Vazia de amores
Plena de sonho
De fantasia
Perdida no espaço
De nevoeiro mágico
A vida retorna
Sentidos se aguçam.
Visão do futuro
Pele arrepiada
Cheiro de folha amassada
Sabor de fruta fresca
Sons indefinidos
Palavra, apenas palavra
Solidão tecida
Intimidade
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Intervalo silencioso
![]() |
| Imagem: Venus at Her Mirror, de Diego Velazquez |
Amanheço vazia de mim,
sem vontade de levantar,
sinto frio.
Nem certezas, nem dúvidas,
apenas o vazio.
Parece ser o fim.
Desânimo que pede aconchego,
chocolate quente.
Alma que pede alimento.
Perdida de mim,
tateio o escuro,
o obscuro,
escuto o silêncio,
penso no tempo
Sobrevivi.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Isso é só uma reprise
Relendo coisas escritas encontrei este texto. Acho que vale a republicação... afinal, nada mudou.
Sexta-feira, Agosto 26, 2005
Quero voltar a vestir meu casaco marrom
Desde que o Brasil mergulhou nesse mar de lama, CPIs, denúncias,
mentiras e desmentidos, assistir o noticiário passou a ser um exercício
para os nervos. De um lado, fala-se em milhões para campanha política,
mensalões, esquemas de corrupção, fraudes em licitações, bacanais na
corte. Do outro, famílias carentes veem seus barracos incendiarem por
causa dos "gatos", policiais (muitos tão carentes quanto as famílias que
despejam) com escudos e bombas de gás cumprindo ordens ou extravasando
seus instintos, crianças maltrapilhas e carentes, filas infindáveis nos
postos de saúdes, aposentado morrendo na porta de pronto socorro sem ser
atendido, enfim, extremos tão gritantes que confirmam nossa posição no
mundo como um país subdesenvolvido.
Não é só o Brasil; o mundo inteiro sofre nas mãos dos governantes, seres que se julgam superiores aos simples mortais, aos cidadãos comuns, mas que não passam de porcos, ladrões, mentirosos, assassinos. Parece ser esta a história da humanidade. Desde que o mundo é mundo e o ser humano dotado de consciência e inteligência existe essa guerra do mais forte dominando o mais fraco. A evolução significa apenas que o homem se tornou mais perigoso e equipado de tecnologia. Mata e rouba com sofisticação. Basta inverter a situação, um trabalhador passar à condição de autoridade que seu pensamento muda, ele, não apenas, passa a pensar como autoridade, mas dá vazão a anos de opressão. Ele, que foi pisoteado, entende que é necessário pisotear. Ele, que foi roubado em sua força de trabalho, passa a ter certeza que é necessário roubar a força de trabalho. Afinal, o povo precisa de alguém que o comande, e para comandar é preciso não se envolver com emoções e sentimentos. Certamente estou pensando assim, porque não sou diferente de todos os seres humanos. Defendo o lado que estou, embora acredite piamente que todo ser humano tem um momento em sua vida que faz as escolhas. Não ser bandida foi uma escolha feita ainda na minha adolescência - o que não me protege de erros e decepções -, mas, internamente, me faz ter convicções firmes.
Não sei quando voltarei a ter inspirações para escrever sobre meu tema preferido: o amor, a linguagem universal. A dor que sinto ao ver o meu país parado com os escândalos, de alguma forma, é um reflexo do amor que sinto por ele. Há um misto ainda de compreensão e covardia em meus pensamentos. Prevalece a vontade de fugir, pintar um quadro, modelar uma escultura com o barro, mas em tudo transpareceria minha apatia, minha desesperança e essa vontade de chorar que não passa nunca.
Sexta-feira, Agosto 26, 2005
Quero voltar a vestir meu casaco marrom
Desde que o Brasil mergulhou nesse mar de lama, CPIs, denúncias,
mentiras e desmentidos, assistir o noticiário passou a ser um exercício
para os nervos. De um lado, fala-se em milhões para campanha política,
mensalões, esquemas de corrupção, fraudes em licitações, bacanais na
corte. Do outro, famílias carentes veem seus barracos incendiarem por
causa dos "gatos", policiais (muitos tão carentes quanto as famílias que
despejam) com escudos e bombas de gás cumprindo ordens ou extravasando
seus instintos, crianças maltrapilhas e carentes, filas infindáveis nos
postos de saúdes, aposentado morrendo na porta de pronto socorro sem ser
atendido, enfim, extremos tão gritantes que confirmam nossa posição no
mundo como um país subdesenvolvido.
Não é só o Brasil; o mundo inteiro sofre nas mãos dos governantes, seres que se julgam superiores aos simples mortais, aos cidadãos comuns, mas que não passam de porcos, ladrões, mentirosos, assassinos. Parece ser esta a história da humanidade. Desde que o mundo é mundo e o ser humano dotado de consciência e inteligência existe essa guerra do mais forte dominando o mais fraco. A evolução significa apenas que o homem se tornou mais perigoso e equipado de tecnologia. Mata e rouba com sofisticação. Basta inverter a situação, um trabalhador passar à condição de autoridade que seu pensamento muda, ele, não apenas, passa a pensar como autoridade, mas dá vazão a anos de opressão. Ele, que foi pisoteado, entende que é necessário pisotear. Ele, que foi roubado em sua força de trabalho, passa a ter certeza que é necessário roubar a força de trabalho. Afinal, o povo precisa de alguém que o comande, e para comandar é preciso não se envolver com emoções e sentimentos. Certamente estou pensando assim, porque não sou diferente de todos os seres humanos. Defendo o lado que estou, embora acredite piamente que todo ser humano tem um momento em sua vida que faz as escolhas. Não ser bandida foi uma escolha feita ainda na minha adolescência - o que não me protege de erros e decepções -, mas, internamente, me faz ter convicções firmes.
Não sei quando voltarei a ter inspirações para escrever sobre meu tema preferido: o amor, a linguagem universal. A dor que sinto ao ver o meu país parado com os escândalos, de alguma forma, é um reflexo do amor que sinto por ele. Há um misto ainda de compreensão e covardia em meus pensamentos. Prevalece a vontade de fugir, pintar um quadro, modelar uma escultura com o barro, mas em tudo transpareceria minha apatia, minha desesperança e essa vontade de chorar que não passa nunca.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
MENSAGEM PÓSTUMA AO PROFESSOR BENEDITO FIGUEIREDO
Querido
Professor Benedito:
Quando nesta manhã, ainda escura, o telefone tocou, anunciando que você
se despediu de todos nós, pude, um pouco mais tarde, comprová-lo com meus próprios
olhos – ainda pude ver o brilho de sua fisionomia, dizendo-nos adeus.
Meus ouvidos também puderam confirmar sua despedida. Já não mais ouviam
as palavras paternas, tantas e tantas vezes proferidas nesses quarenta e três
anos de convivência.
Ainda que meus olhos e meus ouvidos sejam disso testemunha, a alma
profunda, não. Também não é testemunha o sentimento de filho que carrego no
peito. Minha alma e meu sentimento teimam em não aceitar sua partida.
De forma egoísta, pensando somente na alegria que sua presença para nós
significava, pedimos muito a Deus que o conservasse em nosso meio. E Ele nos
atendeu. Hoje, no entanto, quis chamá-lo para mais perto.
O tempo, que tudo destrói, poupou-lhe o bom humor, conservou-lhe o gênio
bom, não lhe desfigurou a lucidez de suas palavras, concedendo-lhe até mesmo um
centenário, e mais três anos de lambujem, de xepa, como nos dizia sempre. Sou
disto prova: deu-lhe um centenário, sem lhe dar a velhice.
Por ocasião de sua festa de 100 anos, tive a oportunidade de dizer-lhe,
tomado de afeição, que não foi à toa que lhe deram este nome: BENEDITO.
Significa bendito, portanto privilegiado, querido por todos. Em suma, um
abençoado, alguém protegido pelos deuses. BENEDITO.
Sempre soube de seu carinho por Dom Aquino. Afinal, vocês foram vizinhos,
e, na casa de seus pais, quis o futuro arcebispo de Cuiabá despedir-se do mundo
para abraçar a vida religiosa. Mais tarde, transformou-se Dom Aquino no grande
nome deste Estado. Ninguém, comparado a ele, cantou de forma tão brilhante as
belezas e as grandezas de sua terra, pintando-a com matizes singularmente
exuberantes.
Pois bem, Dom Aquino, entre as inúmeras poesias com que nos brinda em
vida, fez uma toda especial, pensando em seu encontro amoroso com Deus.
Curioso: confere a ela, como título, o mesmo que Olavo Bilac dera a uma de suas
poesias: In extremis. Este o significado: nos extremos, no último
momento. Dizia-me o querido professor Benedito: in extremis é o mesmo que in
articulo mortis, isto é, em artigo de
morte, na hora da morte, na hora extrema.
Havia, no entanto, diferença gritante entre a poesia de Olavo Bilac e a
de Dom Aquino. Bilac recorre a ela para se lastimar da vida, arrependido das
coisas que deixou de realizar. Dom Aquino, ao invés disso, louva o Criador,
bendizendo os encantos a ele proporcionados. Enquanto um chora o tempo perdido,
o outro agradece a Deus a beleza e a maravilha da vida.
Fiquemos com apenas duas estrofes da poesia de Dom Aquino:
Quero morrer,
meus Deus, / Quando Tu bem quiseres.
Esplenda a
primavera / Em flores, malmequeres,
Ninhos cantando
no ar, / Aos perfumes do vento,
E “asas tontas de
luz, /Cortando o firmamento”.
Espero que Maria,
/ A mãe que Tu me deste,
Imagem virginal /
Da bondade celeste,
Seja comigo, / E
junto ao leito da agonia,
Mãe de
misericórdia: / Ore, ajude e sorria.
Professor Benedito, pude, às centenas, ouvir de sua boca quanto era
agradecido pelas coisas maravilhosas com que Deus, vida fora, o presenteou.
Deus já o acolheu, estreitando-o nos braços, estamos certos disso, acompanhado
que foi pela Virgem Auxiliadora, de quem era particular devoto.
Repitamos juntos:
Espero que Maria,
/ A mãe que Tu me deste,
Imagem virginal /
Da bondade celeste,
Seja comigo Mãe
de misericórdia: / Ore, ajude e sorria.
Bem isso: que ela ore, isto é, interceda por sua entrada na casa do Pai.
Que o ajude. Afinal, entrar no céu amparado pela mãe de Deus é passaporte
garantido. Ninguém – quem ousará? – haverá de barrá-la. Por fim, que ela
sorria, fazendo-o com o sorriso que lhe é tão peculiar, em sintonia com as
mães. Quantas vezes em vida, da mesma forma como os rios procuram
necessariamente o mar, também você, quando as dificuldades se lhe apresentaram,
também você caminhou ao encontro do carinho e da proteção de Nossa Senhora.
Professor, saudades imorredouras.
Viver no coração dos que amamos de
verdade é não morrer, jamais. Querido pai, querido amigo, querido mestre. Continuará
vivo, sempre, na mente e na alma dos que tiveram a felicidade de conviver com você.
Obrigado por tudo.
Nós o amamos! O professor Bendito – digo-o assim mesmo, de propósito –, o
professor Benedito não jaz: ele existe
em nós.
Germano Aleixo Filho, professor da UFMT.
Tributo ao inestimável professor Benedito,
pela extrema gentileza com que me distinguiu.
Cuiabá, 6 de maio de 2013.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Pois é... pra quê?
![]() |
| Mulher no espelho - Picasso |
Liguei hoje para Maria. Ela anda
sumida e muita gente tem me pedido para fazer essa ponte. Gostam de suas
histórias. Encontro-a desanimada, mas cheia de atividades. Reserva um tempinho
para mim e conversamos longamente. Os últimos tempos foram difíceis para ela,
exigindo um esforço muito grande para se reestruturar, em todos os sentidos. As
coisas que lhe aconteceram, as perdas que sofreu, atingiram-lhe como uma bomba
que explode depois que a guerra termina. Foi necessário muita disciplina para
não tropeçar e desistir da luta. Bastava um único pensamento negativo para
abrir a porta secreta em seu interior e ela perceber, com clareza nunca
imaginada, a batalha milenar entre o bem e o mal. Ela precisava de tempo para
aprimorar o espírito.
Não era a primeira vez que
tínhamos uma conversa dessa natureza, mas senti que navegava em águas muito
profundas e que não conseguiria traduzir em palavras suas vivências, que deixavam
transparecer a sensação de união com o Infinito. Parecia fugir para um oásis
tranquilo de inatividade, que lhe permitia caminhar em si mesma com conforto e
simplicidade. Maria me parecia esquisita, estranha, mas paradoxalmente feliz em
seu projeto interior criativo, o que tornava nossa conversa uma atitude
prática, renovada e aconchegante. Em suas reflexões, além de conhecer a si
mesma, ela queria entender um pouco da natureza humana, o porquê dos instintos
liberados sem censura que servem para destruir e magoar.
Ao desligar o telefone, refleti
sobre tudo que conversamos e acho que também eu percebo de forma mais clara
minha imperfeição e a importância de reservar um tempo para perscrutar a alma
com determinação e disciplina mental.
Coloco uma música suave, fecho os olhos e começo acompanhando o ritmo de
minha respiração. Aos poucos vou me sentindo mais leve. Tenho a sensação de
andar por alamedas de flores balsâmicas, cujo aroma regenera minhas feridas. O
som que ouço não é mais o da música, mas uma melodia desconhecida que parece me
carregar por uma espiral à infinitude do espaço. Experimento então a sensação
de liberdade, de solidão cósmica, de paz eterna. Compreensão que precisa ser
colocada em prática. Liberdade que pode significar o resgate de pessoas e
condições vividas que, acima de tudo, precisam ser compreendidas e respeitadas. Além de meu mundinho existem outras pessoas
no universo, com sentimentos tão contraditórios, e, assim como eu, travam lutas
diárias para conseguir percorrer os próprios labirintos. Há que ter ternura no
olhar e doçura nas palavras.
Podemos imaginar um tempo sem
acontecimento, mas não um acontecimento sem tempo. E esse é o tempo de me
entender com a existência. Sinto que, também eu, vivo um período de transição,
de nova compreensão e preparação para outra fase. O tempo ensina que é possível
viver mil vidas em apenas uma existência. A cada recolhimento, a quietude
interior me proporciona reflexões, acolhimento e intimidade que torna a solidão
amiga. Um silêncio necessário para colocar em ordem sentimentos desencontrados,
perceber a inutilidade da vaidade, da pressa, da ganância, da paixão
desenfreada. Choro as dores das perdas, a mágoa, o desengano, mas aprendo a
contar os dias com o coração mais sábio. Encerro então com o que, um dia,
Joseph Kern escreveu para mim: “Palavras nos faltam quando mais acreditamos que
elas poderiam fazer alguma diferença. Elas podem tentar quebrar o isolamento e
ecoar no silêncio, no vazio, em algum ponto do caminho. Um silêncio de atitudes
que poderia ser preenchido com palavras fecha-se entre o silêncio e a solidão”.
Resserenada, compreendo então o
que é vivenciar um momento assim. Não há o que temer, não há medo, não há
morte, não há luta, não há dor, não há tristeza.
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