quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Grande Caudal

Nayade, de Fantin-Latour
O corpo desidratado pedia água e Maria, mesmo sem consciência, sentia que mergulhava fundo. Os sons iam ficando para trás, apenas a sensação de liberdade que substituía o mal -estar anterior. A água lhe abraçava. As vezes sentia frio, outras ela lhe era morna, lhe acolhia. Era como se lhe pedisse para ficar. E Maria queria ficar. É como se mundos se mesclassem em unidade e as coisas do corpo e da alma ficassem mais claras, sem mistérios. É engraçado que naquelas águas acolhedoras, calmas, também se podia perceber a existência de correntezas. Não são correntezas fortes, mas são atraentes, têm luminosidades diferentes, como se a gente pudesse escolher ou simplesmente se deixar levar. Maria se entrega por alguns instantes e é como se abrissem portas internas e ela fosse envolvida por massagens e bálsamos que curavam suas feridas. Imagens e sons que prefere guardar em sua memória para não entregar às contradições humanas. É um estado de alma tão simples, que custa a acreditar que sempre esteve à sua disposição. Emergir é encontrar novos olhares.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Encontro Secreto

Welcome footsteps, de Sir Lawrence Alma Tadema
Maria acorda muito cedo. Gestos lentos traduzem sua imensa falta de vontade para levantar. Encaminha-se para o banheiro. Antes coloca um CD com a 5ª Sinfonia de Beethoven. Espera que aquelas notas barulhentas e vibrantes consigam produzir-lhe uma reação interna, ainda que seja de irritação. O que ela não quer mais é continuar naquela apatia. A água fria do chuveiro faz com que a sua pele se retraia e Maria aproveita a sensação para se tocar inteira, despertar cada célula adormecida, reavivar cada sentido. Ela não quer esquecer que tem corpo, que tem sexo, que ainda é capaz de vibrar. Maria toma seu banho sem reprimir sentimentos ou pensamentos, mas sente-se confusa. Só então percebe que é sexta-feira e tem um encontro marcado.
Apronta-se com leveza, cabelos molhados, roupa indiana, larga, dessas que não marcam as formas, sem maquiagem, sandalinha rasteira de couro cru, relembrando o visual hippie que durante anos fez parte de sua vida. João é como ela gosta. Másculo, mas com suavidade no olhar, nas palavras, no jeito de tratá-la, nos sentimentos. É firme e terno.  Sem olhar para trás, Maria se lança ao novo dia, a se preparar internamente para esse encontro.
“E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis”.

(Drummond)

Travessia II

The lady of shalott, de J. W.  Waterhouse
Muitas vezes a convivência com Maria é insuportável, mas se atentar para o senso de justiça e perceber que ela não atropela princípios como se fosse algo natural, a viagem fica mais animada. É possível olhar a vida por ângulos virtuosos e até encontrar humildade necessária para aprender com os outros. Maria é solitária, mas aprendeu a focar nos talentos das pessoas e por isso não consegue mais ter o radicalismo daqueles que são, acima de tudo, individualistas. Pode até parecer paradoxal uma pessoa ser tão só e ter um pensamento coletivo. É a vida que providencia suas experiências.

No encontro com a dor, ela percebe que sua riqueza está na boa dose de bom humor. Encara as dificuldades com a certeza de que tudo passa. Não é apenas a força que impulsiona suas atitudes, mas é também a preparação que se impõe para o passo seguinte: entender a mudança. Nada permanece o mesmo depois que compreende que é a travessia que lhe traz felicidade, não o destino. Assim, todas as decepções, dúvidas, desânimo fazem parte da história que escreve.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

No fundo do poço

Solidão, de Mitra Shadfar
Desde a visita à Isabel, Maria se sente incomodada, triste, preocupada. Até então tudo parecia claro, resolvido, até que ela se vê no fundo do poço. Está completamente só. Sem família, sem amigos, apenas os contatos holísticos e distantes. Não sabe dizer quando sua convicção virara paranoia. Havia se transformado em uma visionária das trevas. Na mesa de sacrifício era apenas uma criança de dois anos que se entregava a seu carrasco.
Fico pensando na hipocrisia que envolve alguns líderes, religioso ou político, incompatíveis na maneira de discursar e agir. Incoerência que faz levantar bandeira ambientalista, mas comer carne; ser militante sindical e manter a doméstica sem carteira assinada; pregar o Evangelho e discriminar o homossexual; defender a igualdade e tratar as pessoas de modo vertical – sentindo-se superior.  Valores que também traduzem preconceito.
Neste momento, ao avaliar os sentimentos de Maria, tudo que não quero é ser preconceituosa. O ser humano é naturalmente egoísta. Encontra argumento e justifica todas suas atitudes, desde que consiga se beneficiar de alguma forma. Entretanto, isso não quer dizer que ele não possa ser melhor.  Paz, liberdade, plenitude, felicidade, amor, são princípios considerados universais e fazem parte da vida do homem –  como cidadão, pessoa e profissional – que luta para mantê-los inabalados, mas a virtude é um atributo da alma. E quem não cultiva a virtude, termina escravizado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A travessia

Soledad, de Ricardo Fernandez Ortega
Desde que resolvera atravessar o grande rio, Maria experimenta estranhas sensações. Às vezes sente medo, mas não de chegar à outra margem e, sim,  da travessia. Outras vezes, enche-se de coragem por perceber que melhor que a chegada é o caminho que terá que percorrer.  Deixa-se, então, navegar nas águas profundas com a certeza que, mesmo à deriva por um tempo, chegará ao seu destino. Seria tão simples se tivesse uma bússola, mas ela tem apenas a si própria para se guiar,  e sua bússola é somente a percepção que tem de si mesma. Por isso se perde algumas vezes, mas sempre reencontra sua rota.

Na noite escura da alma a possibilidade de ser intensa e generosa se amplia, porque é do escuro que se visualiza a luz.  Ela gosta da luz, da claridade que permite ver a beleza e harmonia que existe no mundo, independente de guerras, tragédias, crises políticas, sociais ou econômicas. Ela não é omissa, mas precisa de momentos para ser apenas uma vivente enamorada das belezas cósmicas. Ela vai sim atravessar o grande rio, mas antes Maria se permite sentir-se plena, feliz, em paz profunda!

Conflito II


Anthony Van Dick
O conflito de João não se prendia apenas às questões do espírito, ele também lutava com suas convicções. O desejo de liberdade era incoerente com seus preconceitos. Sua alegria não era compatível com seu sofrimento interno. Sua autoestima era minada pelo seu sentimento de menos valia. Seu sucesso profissional se revestia de arrogância e vaidade. Mas João era um bom homem, apenas estava perdido em valores errados. Precisava ser sacudido. E quando há uma motivação interior a vida se encarrega de proporcionar as experiências para ajustar pensamento e comportamento, desejo e realidade. João não seria exceção. Apanhou, sofreu, mas aprendeu. Hoje ele rebola e é muito amado.

Conflito I

Conflito


Jeremy Lipking (1975)
Era uma vez um homem que assistia a luta entre Deus e o Demônio, como se fosse um diálogo entre o passado e o futuro. Ao confrontar seu imaginário, trazia à tona o sonho, a esperança, as expectativas, os projetos construídos em conjunto. Também trazia à tona o real: a traição, as mentiras, as mesquinharias, a dor da descoberta, a difamação. Ele não vai permitir que fantasmas voltem para o assombrar. Silêncio sepulcral.

Por enquanto!


São apenas palavras
Que me chegam aos olhos
Não conheço seu rosto
Não ouvi o som de sua voz
Nem senti seu cheiro
Não há nenhum critério
Apenas a vida por ela mesma
E a imaginação livre
Para sonhar, criar e viajar
No tempo e no espaço
Conhecer seu mistério
Nesse silêncio surdo
Não há palavras que quero ouvir
Sem armadura e sem escudo
Não há paradoxo de lutas
Só ternura e meiguice
Só aqui e agora
Um toque diferente
Que, enfim, o revele
Alguém que é
Sem nunca ter sido

Carta de amor

Carta de amor

The Letter, de Albert Lynch (1851-1912)

Ela já perdeu a conta de quantas cartas de amor escreveu. Assim como perdeu o número de vezes que se apaixonou. Paixão é assim mesmo. Uma labareda momentânea que queima, arde, dói, faz chorar, mas sara ao virar a esquina.


Meu querido diário!


Arrested Motion, de Matthew Grabelsky


Hoje tive vontade de escrever de mim para mim. De buscar no próprio âmago explicações para esta existência. Queria analisar crescimento, jeito de escrever, amadurecimento de ideias. Não sei se a vida é um circo de horrores, mas os ciclos são visíveis. Dias marcados por altos e baixos, dias de entusiasmo e euforia, dias de amargura e depressão, dias de trabalho intenso e de preguiça. Sobrevivo. A despeito de estar melhor comigo, estar entusiasmada com os novos desafios que enfrento a cada dia, o lado fantasioso entra em colapso absoluto. Tenho tido pouca vontade de escrever. Muitas vezes chego a redigir mentalmente um conto inteiro, mas ao sentar-me diante do computador é como se passasse uma borracha em meu cérebro. Sinto-me vazia. Feliz e vazia.
Os grandes romances, os melhores poemas parecem mesmo se nutrir da tragédia, dos desencontros, da infelicidade. E quando consigo vencer essa barreira, acredito estar apta a escrever, surpreendo-me completamente muda. É a felicidade (ou seria a ausência de infelicidade?) que me bloqueia? Ou seria a sensação de me sentir espectadora da vida, quando nada mais é novidade? Quando o ser humano perdeu, para mim, o gosto da descoberta? Pior que a ilusão que nutre minha pobre literatura, é a apatia. É me ver frente a frente com a repetição dos ciclos. É não ter criatividade suficiente para me superar a cada vez que no jogo da vida dá a lógica.